Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências
Prefácio
Relações de poder, bem como lembram pensadores
extraordinários como Hannah Arendt e David Held, permeiam nossa vida privada e pública. Essas relações se fazem presentes em todos
os ambientes e lugares, em todas as práticas e em todos os tempos.
O poder está no centro de inúmeros estudos sobre instituições,
grupos sociais, padrões culturais e gramáticas morais. Não por
acaso, as relações de poder chamam particular atenção de
pesquisadores e de empreendedores morais que buscam
transformar a realidade social. Diante do extenso volume de
pesquisas sobre o poder, o leitor de Comunicação e Trabalho Infantil Doméstico certamente se surpreenderá com o conjunto de
novidades presente neste livro.
Primeiro, diferentemente de centenas de estudos que tratam da
face mais evidente de poder – isto é, de poder como relações de
dominação –, Danila Cal recorre à uma literatura que permite
analisar o poder também como resistência e/ou empoderamento e,
ainda, como solidariedade. A autora trava um rico diálogo com
filósofos e teóricos políticos para deslindar este conceito tão cheio de nuances em diversas tradições do pensamento político. De tal
sorte, Comunicação e Trabalho Infantil Doméstico oferece ao leitor
uma renovada perspectiva para que examine diversas questões
quando pensamos e falamos sobre poder.
A segunda novidade desta obra está na maestria com que Danila
Cal aplica a chave de leitura dada por Amy Allen – a partir dos
conceitos de “poder sobre”, “poder para” e “poder com” (power over,
power to e power with) – para fazer-nos entender a trajetória de crianças e adolescentes trabalhadoras domésticas, tanto na esfera
íntima quanto na esfera do trabalho e das interações sociais.
Frequentemente, os estudos empíricos sobre poder focalizam
apenas um agente, um grupo de pessoas ou uma instituição. O
estudo de Danila Cal examina, de modo sistemático, dois eixos: a) a
conversação pública sobre o trabalho infantil doméstico presente
nos media e b) as discussões e os depoimentos expressos por trabalhadoras e ex-trabalhadoras adolescentes em grupos focais.
Enquanto a investigação de matérias jornalísticas permite-nos
captar o ponto de vista de políticos, administradores, juristas,
empregadores e ativistas chamados por jornalistas para comentar e interpretar normas e fatos relacionados ao trabalho infantil
doméstico, a análise das falas das próprias trabalhadoras faz-nos
ver as suas estórias pessoais, com diferentes combinações de
danos, exploração, desrespeito, frustações, anseios e conquistas.
Tem-se, em uma dimensão, um rico conjunto de discursos públicos
vocalizados por diferentes atores nos media, e, em outra dimensão,
o modo de pensar e falar das pessoas afetadas. Danila trilha, assim,
um frutífero terreno de análise, que evita o maniqueísmo do “polo do bem” e o “polo do mal” e escapa das sínteses mais fáceis de
entender as trabalhadoras apenas como vítimas da dominação.
Novamente, a depender dos lugares e das configurações políticas,
essas trabalhadoras são vistas também como pessoas resistentes e
como sujeitos políticos, dotados de agência, com poder de
transformar e criar.
O livro Comunicação e Trabalho Infantil Doméstico traz uma
terceira novidade: a sensibilidade da escrita que combina o rigor científico com o prazer da prosa literária. Danila consegue
desvendar importantes conceitos no cipoal de diversas tradições do
pensamento político e tecê-los com modelos interpretativos e
explicativos correntes no campo das Ciências Sociais e da
Comunicação para investigar o trabalho infantil doméstico. Esta
tarefa não se consegue com magia. É preciso, ao invés disso,
desenvolver um conhecimento bem informado, austero e modesto.
Embora o tema do livro seja complexo, a escrita de Danila não é dotada de hermetismos e complicações. Ao contrário, o esforço
generoso é o de trazer ao leitor, ilustrações e exemplos práticos
despretensiosos, para tornar as reflexões acessíveis aos leitores
não especializados.
A autora, neste sentido, demonstra duas qualidades acentuadas:
por um lado, Danila busca traçar distinções claras e bem
fundamentadas, sem perder de vista o mundo empírico. Por outro,
preocupa-se com o detalhe, sem abrir mão da validade mais ampla das teorias. Comunicação e Trabalho Infantil Doméstico e as reflexões sobre poder, política e resistências, decorrem dessas
tensões. Ao longo desse livro, resultado de sua tese de
doutoramento no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), premiada pela Associação Nacional de Programas de Pós-Graduação em
Comunicação (Compós) como a melhor tese de 2015, Danila revela
suas motivações pessoais e políticas e também a moralidade das
Ciências Sociais e Aplicadas que se preocupam com a crítica e as
práticas sociais.
Por fim, gostaria de dizer da satisfação que senti quando Danila
Cal convidou-me para escrever a apresentação deste relevante
livro. Como orientadora de sua pesquisa de tese, estou convicta da disposição de Danila para desenvolver trabalhos acadêmicos
qualificados e bem informados, com uma mente aguçada para a
complexidade do mundo empírico. Desde que tive contato com
Danila, como orientadora também de sua dissertação de mestrado
na UFMG, pude perceber que as experiências pessoais da autora
no terreno da prática convertem-se em pensamento original e em
alerta para a validade do conhecimento em termos sociais. Por
todas essas razões, entendo que Comunicação e Trabalho Infantil Doméstico produzirá um impacto duradouro em seus leitores.
Rousiley C. M. Maia, UFMG
Belo Horizonte, 28 de março de 2016.