Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências
Apêndice B - roteiro semiestruturado para grupo focal
Apêndice B
Roteiro semiestruturado para grupo
focal
Roteiro Semiestruturado para Grupo Focal
Passo a passo
1- Recepção: lanche para acolher as participantes;
2- Dinâmica do crachá: cada participante, em uma folha A5,
deverá escrever a forma como gosta de ser chamada e fazer um
desenho de que goste, que tenha algum significado para ela;
3- Apresentação pesquisadoras: com as participantes sentadas
em círculo, moderadora e assistente se apresentam e explicam: (1)
em linhas gerais, a proposta de pesquisa e do grupo focal; (2)
detalhes sobre o funcionamento do grupo, com destaque para a
preservação da identidade das participantes; (3) necessidade de
gravação em fita K7 ou gravador digital. Em seguida, as
participantes preenchem individualmente uma ficha com questões
gerais sobre idade, ocupação, condições de moradia, renda familiar, hábito de consumo de informações, informações escolares (nome
da escola, série) e de trabalho. As fichas são entregues às
pesquisadoras e guardadas;
4- Apresentação participantes: cada menina é incentivada a
dizer o nome pelo qual gosta de ser chamada e a explicar o
desenho que fez (inclusive a moderadora e a assistente). Depois de
cada uma se apresentar, a mediadora deve iniciar o primeiro
momento de discussão do grupo;
5- 1º Momento de Discussão – Perguntas gerais sobre lugares
de origem, relações familiares e de trabalho e trabalho infantil
doméstico
a) De onde vocês são? Como é o lugar/bairro onde vocês moram?
b) Já se mudaram?
c) Com quem vivem? Quem mora na mesma casa que elas?
(dependendo das respostas, questionar se elas acham isso
bom ou ruim);
d) Como é a relação com as outras pessoas da casa?
e) Há uma divisão de tarefas (lavar, passar, cozinhar, cuidar das
crianças, limpar a casa)?
f) O que é o trabalho doméstico de meninas?
g) Vocês já tiveram essa experiência?
h) Por que ele acontece?
i) Quem são os responsáveis?
6- 2º Momento – Trechos matérias jornais
Moderadora deve explicar: “Algumas matérias dos jornais falaram sobre esse assunto e eu gostaria que vocês dissessem um pouco
sobre o que vocês pensam a respeito do que está sendo mostrado
nessas notícias e reportagens”.
Trechos que serão apresentados em cartazes A3 e também
impressos em A4 para serem entregues às participantes.
Trecho 1
“Desde que era criança sempre trabalhei. Primeiro eu ajudava
minha mãe cozinhando e cuidando dos meus irmãos. Depois fui
trabalhar de babá, doméstica em casas de família, é muito
cansativo, mas acho que já acostumei”, disse a garota (W.F., 15
anos, trabalhadora doméstica) – O Liberal, 2/7/2009.
a) Há diferença entre o trabalho em casa e o trabalho na casa da
patroa?
b) A menina do jornal diz que já está acostumada. O que isso quer
dizer?
c) O que vocês acham disso, de menina trabalhar de doméstica?
É algo normal? É algo esperado?
Trecho 2
A. F, 17 anos. “Ela começou a trabalhar aos 14. Já passou por, no
mínimo, três casas de família. (…) Para A. F. falar sobre sua vida
não é fácil. Ela argumenta que tem medo que a patroa descubra e
que venha a perder o emprego. Sem jeito e com um nervosismo aparente, ela começa a contar que o trabalho infantil doméstico é a
única forma que encontrou para ajudar a mãe, abandonada pela
marido com seis filhos”) – O Liberal, 8/9/2002.
a) Com qual idade vocês acham que a pessoa deveria começar a
trabalhar?
b) Na opinião de vocês, por que meninas começam a trabalhar em
casas de família?
Trecho 3
E a violação acontece principalmente pelo imaginário que existe
na sociedade: ‘Não, ela não está trabalhando, eu to ajudando, isso é
tão comum’. Aí a menina começa a chamar a patroa de tia, de madrinha, começa a haver aquela troca: ‘Tu me dá trabalho, eu te
dou roupa’. Nada mais é e chega a caracterizar o trabalho escravo
mesmo – Diário do Pará, 27/4/2008
a) O que vocês acham do serviço doméstico?
b) Vocês acham que é uma forma de ajudar uma pessoa
conhecida? Ou é um tipo de trabalho mesmo?
c) Você concordam com essa ideia de relacionar o serviço
doméstico de meninas ao trabalho escravo?
Trecho 4
“Uma vez, ela (a patroa) ameaçou me jogar embaixo de um carro
se eu não cuidasse direito do filho dela”, disse Marlene do Socorro
Teixeira da Silva, hoje com 18 anos. (Começou a trabalhar aos 14
anos, veio de Soure, na Ilha do Marajó) – O Liberal, 10/5/2007.
a) Normalmente, como é a relação com a patroa? E com as outras
pessoas da casa?
b) Vocês já passaram por uma situação parecida?
Trecho 5
Aos cinco anos veio para Belém morar com a madrinha. […]
Passou a infância carregando compras, lavando o chão, cozinhando
e passando roupas. “Eu embalei cada uma das crianças que
nasceram na família”, conta Cida. […] “Eu era tratada como pessoa
da família. O padrinho só comia bolo feito pela minha mão”, orgulha-
se […]
Explico para Aparecida o que é o trabalho infantil doméstico. Um longo silêncio se põe entre nós até que ela sorri e deixa escapar
uma mágoa que ocultou a vida inteira: “No meu tempo o governo
não ligava se tiravam a gente de casa para servir de criança-
escrava” – Diário do Pará, 30/3/2008.
a) Vocês acham que o governo tem alguma relação com o
trabalho infantil doméstico?
b) Vocês pensam em trabalhar como doméstica a vida inteira?
c) Como vocês imaginam o futuro de vocês? E o que estão
fazendo para alcançar o futuro?
d) Quem, na opinião de vocês, são os responsáveis por meninas
trabalharem desde cedo em casas de família?
e) E o estudo? Estão conseguindo estudar?
7- Encerramento: abertura para quem quiser falar mais algo
sobre o assunto em questão. Questionamento se há sugestões para
o caso de esse grupo ser realizado com outras pessoas. Despedida.
Notas
Apresentação
1. Como os trabalhadores infantis domésticos são
predominantemente meninas, ao longo do trabalho, usaremos
os termos referentes a esse público no feminino.
↩
2. A tradução literal seria “poder sobre”, “poder para” e “poder
com”. Discutiremos essas definições no terceiro capítulo.
↩
Trabalho Infantil Doméstico: trabalho
ou dever perante a família?
1. Referência à chamada “indústria da descida ou descimentos”,
um tipo de expedição ao interior da floresta para escravizar
indígenas. (LAMARÃO, 2008)
↩
2. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
(PNAD), referente a 2011 e divulgada pelo Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) em 2012, há no Brasil 257.691
crianças e adolescentes de 10 a 17 anos trabalhando como
domésticas. No entanto, acreditamos que esse número é subestimado tanto pela natureza do tipo de pesquisa realizado
(por amostragem) quanto pela dificuldade de caracterizar boa
parte do serviço doméstico realizado por meninos e, sobretudo,
meninas como “trabalho”. A respeito das críticas sobre os
dados oficiais a respeito do TID, ver também Jacquemin, 2006.
↩
3. Ao estudar o TID na cidade da Guatemala, Aragão-Lagergren
afirma que esse tipo de atividade é largamente aceito porque há
uma cultura da servidão que justifica relações de power over
dos grupos mais poderosos sobre os desprovidos de poder.
(ARAGÃO-LAGERGREN, 2003)
↩
4. Existem complexas relações entre a ideia de “adoção” e a de
“criação”, segundo autores como Cláudia Fonseca (1995, 2006,
2012) e Maria Angélica Motta-Maués (2008; 2012). Devido ao
escopo deste trabalho, restringir-nos-emos a apreender o que
dessa complexidade repercute no TID e nas relações de poder
que o sustentam. Assim, a concepção genérica apresentada
por Fonseca se mostra adequada. Segundo essa autora, a
adoção, tal como regulamentada nas leis brasileiras, significa
um procedimento legal que estabelece uma nova relação de paternidade/maternidade em que há o “apagamento” da família
de nascimento e o estabelecimento de uma igualdade formal
entre a criança adotada e os filhos biológicos de quem a adota.
Por outro lado, a “criação” refere-se a uma prática de circulação
informal de crianças e implica, por vezes, um dever moral da
criança em relação aqueles que a abrigaram, por exemplo,
cuidar deles na velhice. Argumentamos que essa última guarda
uma estreita relação com o TID. (FONSECA, 2006; 2012)
↩
5. Motta-Maués ressalta que a prática de circulação de crianças
não é específica das classes populares. Nas mais abastadas,
por exemplo, a circulação de crianças é frequente para a
realização de cursos (línguas, reforço escolar) e atividades
físicas, o que faz com que tenham uma “vida agendada”, além
da circulação entre casa da mãe, casa do pai, no caso de
famílias separadas. (MOTTA-MAUÉS, 2012)
↩
6. Referência que os autores fazem ao termo utilizado de modo
provocativo por Souza (2009) para chamar atenção para esse
grupo social.
↩
Luta pública contra o TID: ações de
advocacy e campanhas de
sensibilização
1. O relatório da OIT (2003) sobre boas práticas no enfrentamento
do trabalho infantil cita uma experiência pontual que ocorreu
entre 1993 e 1995 no município de Campos dos Goitacazes
(RJ) para o enfrentamento de 50 casos de TID, executada pelo
IPEC/OIT em parceria com o governo municipal, mas que não
gerou repercussão mais ampla.
↩
2. O Estatuto caracteriza como “aprendizagem” “a formação
técnico-profissional ministrada segundo as diretrizes e bases da legislação de educação em vigor”. (BRASIL, 1990) De acordo
com o artigo 63 do ECA, essa formação técnico-profissional
deve obedecer aos critérios de garantia de acesso e frequência
escolar ao ensino regular, atividade compatível com o
desenvolvimento do adolescente e horário especial para o
desenvolvimento das atividades. Ao adolescente aprendiz,
devem ser assegurados os direitos trabalhistas e
previdenciários. De acordo com o jurista Oris de Oliveira, não podemos considerar o TID como aprendizagem, isso porque é
preciso haver alternância entre ensino teórico em centro de
formação e prática, que deve ser monitorada. Segundo Oliveira,
“as normas brasileiras disciplinam a aprendizagem na empresa
e não se aplicam ao empregado doméstico”. (OLIVEIRA, 2002,
p. 12)
↩
3. O termo “infantil”, para a OIT e outras organizações
internacionais, refere-se a pessoas com até 18 anos incompletos.
↩
4. Um marco importante desse processo foi a chegada ao país do
Programa Internacional para Eliminação do Trabalho Infantil
(IPEC), implantado pela OIT, em 1992. Merecem destaque,
ainda, as pesquisas (1992 e 1993) realizadas pelo Sindicato de
Trabalhadores da Indústria de Calçados de Franca (SP) e da
Central Única dos Trabalhadores (CUT) sobre o emprego de
crianças e adolescentes na indústria calçadista.
↩
5. Informações coletadas no site da Fenapeti. (FENPETI, [2011])
↩
6. O PETI foi inspirado em uma iniciativa da OIT para o
enfrentamento do trabalho infantil em carvoarias e na colheita
de erva-mate, no Mato Grosso do Sul. (VIVARTA, 2003)
↩
7. O Petid tinha também o apoio, nos primeiros anos, do Unicef e
da Save The Children, além de organizações locais. Nos
últimos anos, a principal parceira internacional foi a Cordaid
(Holanda).
↩
8. O Petid inicialmente foi apoiado pelo Unicef e pela Save The
Children.
↩
9. No final dos anos 1980 e início dos anos 2000, vários meninos
com idade entre 8 e 14 anos foram sequestrados e
emasculados no município de Altamira, sudeste do Pará. A
maioria foi assassinada. Segundo o Ministério Público, os
acusados eram envolvidos com uma seita religiosa que
alimentava esses rituais. Sete pessoas foram julgadas, a maioria foi condenada e uma absolvida.
↩
10. Outras instituições parceiras eram: Superintendência Regional
do Trabalho (antiga DRT), Ministério Público do Trabalho e
Procuradoria do Trabalho, Sindicato dos Trabalhadores
Domésticos, Arrumadores e Camareiros de Belém e
Ananindeua, Movimento República de Emaús, Universidade
Federal do Pará, Fundação Jorge Duprat e Figueiredo
(FUNDACENTRO), Fundação Papa João XXIII, Fundação da Criança e do Adolescente do Pará (Funcap, hoje chamada
Fasepa), UNICEF, Secretaria Executiva de Trabalho e
Promoção Social do Estado (hoje chamada Secretaria de
Estado de Assistência Social, Trabalho, Emprego e Renda -
Seaster).
↩
11. Informações obtidas por meio de entrevista concedida à
pesquisadora, em 25 de janeiro de 2007, pelo assessor de comunicação do Petid até 2005.
↩
12. O termo não está dicionarizado, mas é correntemente utilizado
no linguajar paraense. “Caboquinha do interior” é um modo, em
geral, pejorativo de se referir a meninas e mulheres,
principalmente, de origens ribeirinhas, ou seja, oriundas de
municípios banhados por rios e afluentes. Essa expressão quer
dizer que a pessoa não sabe se comportar em determinados
ambientes ou não sabe se vestir adequadamente. Em última instância, é uma depreciação do valor dessas mulheres,
sobretudo em contraposição aos modos de ser na cidade.
↩
13. A situação foi distinta em Soure, onde o grupo de adolescentes
protagonistas, sob orientação de educadores do Cedeca-
Emaús e apoio da prefeitura, desenvolveram atividades
protagônicas no município. No entanto, com mudanças na
administração da prefeitura, alteração de faixa etária dos
adolescentes envolvidos e reestruturações internas do Petid, esse grupo acabou se esvaziando. Importante ressaltar que se
tratavam, sobretudo, de adolescentes que poderiam vir a ser
trabalhadores infantis domésticos por viverem em contextos
que estimularam a saída de outros para o serviço doméstico na
capital. (CAL, 2013)
↩
14. Nacionalmente, de modo paralelo, organizações como OIT,
Unicef, Fundação Abrinq, Ministério Público do Trabalho e Andi
criaram campanhas publicitárias com objetivo de chamar atenção social para o TID. A Andi foi a principal articuladora
nacional entre fontes relacionadas ao trabalho doméstico infantil
e os media, com a divulgação de materiais específicos para
subsidiar o trabalho jornalístico, pesquisas e encontros de
capacitação sobre o tema. Além disso, regionalmente, os
projetos de combate ao TID criaram suas próprias campanhas e
ações de comunicação, como foi o caso do Petid, de Belém.
↩
15. Essa parceria está evidente no convite impresso feito para
convocar empresários para um café da manhã sobre o TID; também consta de modo bastante claro nos relatórios do
Programa e em matérias jornalísticas publicadas em O Liberal.
↩
16. Para que as adolescentes não fossem identificadas, foram
usados nomes de flores como pseudônimos.
↩
Configuração política e relações de
poder
1. Relevante destacar que tanto na primeira edição de Poder: uma
visão radical quanto na segunda, Lukes busca convencer ao
leitor de modos pelos quais seria possível responder a essa questão a partir de um balanço entre o que seriam os reais de
interesses de pessoas ou grupos e o que é resultado de
relações latentes de poder. Como observa Perissinoto, “a
abordagem de Lukes só nos permite analisar relações de poder
que já se desintegraram em função do advento de crises ou
oportunidades de mobilidade social. As relações presentes são,
para essa perspectiva, uma incógnita”. (PERISSINOTO, 2008,
p. 44)
↩
2. “Uma ação sobre a ação, sobre ações eventuais, ou atuais,
futuras ou presentes”. (FOUCAULT, 1995, p. 244)
↩
3. Foucault não construiu uma teoria sobre poder, ao invés disso,
analisa, a partir do estudo de diferentes empirias, relações de
poder. Por essa razão, o próprio autor prefere utilizar o termo
“analítica” a “teoria”. A discussão sobre poder em Foucault
encontra-se espraiada por toda sua vasta obra. Ao longo do
tempo, houve mudanças na forma como o autor conceituou
poder. (MAIA, A. 1995), (LUKES, 2005) Neste trabalho,
utilizamos como referência o texto mais recente e mais
organizado a respeito desse assunto. (MAIA, A., 1995) Trata-se de “O sujeito e o Poder”, publicado em inglês em 1982 e, em
português, em 1995.
↩
4. Ideia rotulada por Parsons a partir da teoria dos jogos, de
acordo com a qual “o poder era assim definido nos termos de
objetivos mutuamente excludentes, de modo que uma parte
seria detentora de poder na medida em que realizaria seus
próprios desejos à custa daqueles que constituíam a outra
parte. […] no mesmo grau que uma parte vence, a outra necessariamente perde”. (GIDDENS, 1998, p. 242)
↩
Contextos comunicacionais e
percursos metodológicos
1. Outras estratégias previam comunicação dirigida a públicos
específicos como empresários, lideranças religiosas e
comunitárias, gestores municipais, parceiros das redes de
atendimento municipal e estadual à criança e ao adolescente.
(CENTRO DE DEFESA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE,
2002)
↩
2. Trata-se do estudo Acompanhamento e Avaliação Parcial do
Programa de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil
Doméstico no Pará: lições aprendidas, desenvolvido, em 2004,
pela pesquisadora da Universidade Federal do Pará (UPFA),
Lília Cavalcante, por meio de consultoria ao Cedeca-Emaús.
↩
3. Para a pesquisa de mestrado, foram realizados cinco grupos
focais com patroas de meninas trabalhadoras domésticas de
distintas classes sociais.
↩
4. Somos credores, sobretudo, do aprendizado que obtivemos ao
acompanhar as pesquisas desenvolvidas por Marques (2007),
Mendonça (2009), Miola (2012) e Maia (2012). Da pesquisa da
Profª Ângela Marques, participamos inclusive de um dos grupos de discussão mediados pela ela, realizado na comunidade do
Alto Vera Cruz, em Belo Horizonte. Esse aprendizado lançou
bases fundamentais que nos permitiram organizar os grupos
focais de nossa dissertação de mestrado e na tese de
doutorado.
↩
5. Ambos os jornais possuem uma abrangência regional, embora
tenham distribuição nacional. O Liberal é mais antigo. Remonta
o ano de 1940, porém está sob o comando da família Maiorana, que o administra hoje, desde 1966. Passou por um grande
processo de modernização e havia se tornado liderança
absoluta no jornalismo diário paraense, razão pela qual exercia
forte influencia sobre a sociedade e as elites estaduais.
(VELOSO, 2008) O jornal compõe, junto com emissoras de
rádio, emissora de TV (filiada à Rede Globo), um jornal popular,
um portal de notícias na Internet e empresa de TV a Cabo, as
Organizações Rômulo Maiorana. O Diário do Pará foi criado em 1982 pela família do ex-governador do Pará e atual senador
Jader Barbalho, do Partido do Movimento Democrático
Brasileiro (PMDB). Faz parte também de um conglomerado
midiático que reúne portal de notícias na Internet, emissoras de
rádio e uma de TV (filiada à Rede Bandeirantes). Nos anos
2000, o Diário do Pará conseguiu alcançar a liderança de O
Liberal, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Opinião
Pública e Estatística (IBOPE) (VELOSO, 2008). O cenário atual é de uma forte disputa empresarial e jornalística entre os dois
veículos.
↩
6. Necessário ressaltar que a falta de financiamento externo ao
Petid foi determinante para que não houvesse continuidade.
Durante a pesquisa de campo, quando conversamos com
dirigentes e técnicos do Petid, eles atribuíram a falta de apoio
financeiro à imagem positiva que o governo Lula passava da
realidade brasileira, o que teria resultado, segundo eles, na
saída de investimentos estrangeiros em projetos sociais no país
e sua migração para países consideramos mais pobres e necessitados. Situação que merece ser mais bem investigada,
mas que não é objeto de preocupação desta pesquisa.
↩
7. Para essas buscas contamos com apoio e recursos do Grupo
EME (UFMG), coordenado pela Prof. Rousiley Maia, a quem
somos muito gratos.
↩
8. Lamarão (2008) realizou uma pesquisa sobre estigma e
subalternidade no trabalho infantil a partir de entrevistas
individuais com oito senhoras que haviam sido trabalhadoras domésticas na infância.
↩
9. A pesquisa de Klocker (2012) foi realizada a partir de
entrevistas individuais com adolescentes que estavam
trabalhando em casas de família e adolescentes que já tinham
sido trabalhadoras domésticas na Tanzânia. A questão principal
perseguida pela autora eram as implicações metodológicas da
comparação entre as perspectivas de atuais e antigas
adolescentes trabalhadoras domésticas. A conclusão da autora é que ambas as perspectivas, quando combinadas, enriquecem
e complexificam o entendimento acerca do trabalho infantil.
(KLOCKER, 2012)
↩
10. Os dados referem-se ao total de matrículas em 2011, obtido por
meio de Censo Escolar, sistematizados pelo Portal Qedu
(www.qedu.org.br), voltado para a qualidade da educação no
país.
↩
11. Como encaminhamento imediato e com o consentimento da
adolescente, decidimos conversar com a diretora da escola
acerca do problema para que houvesse um entendimento mais
amplo da situação da menina, de tal forma que os professores
não a vissem como alguém que não queria estudar, e sim
procurassem saídas para que ela tivesse oportunidade de
aprender nas aulas. Também encaminhamos o caso ao Centro
de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) do
município e nos colocamos à disposição da escola para pensar ações e palestras acerca do trabalho infantil.
↩
12. Cada grupo durou cerca de duas horas, e as participantes
receberam, a título de ajuda para deslocamento, a importância
de R$ 10,00 (dez reais).
↩
13. Além da nossa pesquisa de campo, realizamos, ainda, mais
três grupos focais, cujo foco principal era coletar material para a
pesquisa “Reconhecimento, Deliberação e os media: entre a
experiência e os discursos de justificação”, do Grupo de EME/UFMG. Assim, o grupo das empregadas domésticas
ligadas ao sindicato foi entrevistado em dois momentos. Como
no primeiro o tempo para discussão foi reduzido em função de
uma necessidade de uso do local pelo Sindicato, optamos por
considerar os resultados de ambos os grupos na análise desta
tese, os quais serão indicados por “Sindicato I” e “Sindicato II”.
Importante ressaltar que seis participantes estiveram no
primeiro encontro e, dessas, apenas uma faltou ao segundo. Cada participante só foi considerada uma única vez na
construção dos perfis das meninas e mulheres entrevistadas.
↩
14. Temos uma dívida especial com o Grupo EME, especialmente
com a Profa. Rousiley Maia e a bolsista Thaiane Rezende, que
cuidaram para que o EME adquirisse um gravador digital
semiprofissional, o que foi decisivo para o registro e transcrição
dos grupos. Embora potente, o gravador é pequeno, possui
cerca de 20 cm, o que contribuiu para não causar constrangimentos nos grupos.
↩
15. Contamos com duas então acadêmicas da Unama nessa
função: Camila Aquino (três) e Carolina Solyno (um). Num dos
grupos, contamos, ainda, com o apoio de Larissa, bolsista do
Cedeca-Emáus. Em dois, não foi possível contar com
assistentes.
↩
16. Os outros 11,1% correspondem a três entrevistadas: uma que
disse ser entregadora de pastel, outra doméstica e babá e a terceira afirmou que vendia DVDs nos semáforos.
↩
17. De 4 a 9 anos: 33,3%; de 10 a 13 anos, 33,3%; entre 14 e 15
anos, 7,4%; 16 anos, 3,7% e não informaram, 22%.
↩
Relações de poder e Trabalho Infantil
Doméstico nas perspectivas dos
media e das trabalhadoras
1. Faremos referência a esse terceiro tipo como “sujeitos
políticos”. Não queremos diminuir, com isso, o papel político de
“vítimas” e “resistentes”, mas apenas ressaltar, nessa última
categoria, a possibilidade de atuação voltada para a construção de solidariedade e power with entre trabalhadoras infantis
domésticas.
↩
2. Em 3,4% não foi possível identificar.
↩
3. Os 16,7% restantes referem-se a: empregadores (2,7%);
representantes de associações empresariais (1,5%); jornalistas
(1,5%); cidadãos comuns (3,8%); representantes do judiciário
(1,1%) e outros (6,1%).
↩
4. Das matérias investigadas, 84 (66,7%) abordaram
principalmente uma única temática relacionada ao TID, 29
(23%) abordaram duas temáticas e 13 (10,3%) mais de três.
Em 10 matérias não foi possível identificar essas temáticas.
↩
5. A categoria “não se aplica” refere-se a matérias que tinham o
trabalho infantil como tema principal, porém informavam sobre o
lançamento de radionovelas acerca do assunto, ou ainda, sobre
a assinatura de termos de parceria entre o empresariado local e o Petid.
↩
6. O salário mínimo nessa época era de R$ 200,00.
↩
7. A adolescente Thayslane, da matéria anterior, por exemplo, era
uma das meninas atendidas pelo Petid.
↩
8. Avaliamos que a fala da ministra, ressaltando os prejuízos do
trabalho infantil para sua trajetória de vida, cria, de certo modo,
um paradoxo não discutido na reportagem em relação ao fato
de que, a despeito do TID, Benedita havia se tornado ministra da República.
↩
9. Os autores argumentam que a representação autoautorizada
tem crescido muito nos últimos anos. Trata-se de um fenômeno
multifacetado em que o objeto/sujeito representado pode variar
entre temas (direitos humanos, educação, meio-ambiente),
grupos (como mulheres, crianças, marginalizados etc.) ou
mesmos discursos, ao defender determinadas posições ou
argumentos. Portanto, esse tipo de representação implica desafios em relação aos modos de autorização e aos processos
de accountability que deveriam sustentá-lo. (URBINATI, 2008)
↩
10. Durante nossa pesquisa de campo, ainda não havia sido
aprovada a PEC 66/2012, conhecida como a PEC das
Domésticas. Ainda assim, e vamos argumentar melhor isso nas
conclusões deste livro, apesar dos avanços em termos de
busca por igualdade entre os trabalhadores domésticos e os
demais, permanecem lacunas significativas. Além disso, entre a aprovação da PEC e a regulamentação da maior parte dos
direitos que ela dispõe há um longo caminho. Outro maior ainda
será necessário para fazer com a mudança na legislação se
converta em transformações efetivas na vida das trabalhadoras
domésticas.
↩
11. Brites explica, referenciada em Marcel Mauss, em que consiste
o círculo de dádiva-dom: “Este princípio denuncia o desequilíbrio entre a abundância de uns a e pobreza de outros.
‘A esmola é fruto de uma noção moral da dádiva da fortuna, por
um lado, e de uma noção de sacrifício, por outro […] a Nêmisis
vinga os pobres e os deuses do excesso de felicidade de certos
homens, que devem desfazer-se dela’ (Mauss 1974: 66)”.
(BRITES, 2003, p. 76)
↩
12. Como respeitamos esse acerto inicial, não indagamos se a
violência sexual havia sido cometida no contexto do TID ou em outro. Apenas ouvimos o que elas estavam comentando sobre
esse assunto, sem instigar para saber se já tinham passado por
isso e em quais circunstâncias.
↩
13. Nesse ano, o valor do salário mínimo era de R$380,00.
↩
14. Naquele ano, o salário mínimo era de R$ 465,00.
↩
15. Essa mesma lógica perversa estimula discursos como o de que
não se deveria confiar na qualidade profissional das médicas
cubanas por terem “cara de empregada doméstica”. O contexto desse discurso é a chegada de médicos cubanos no Brasil por
meio do Programa Mais Médicos, do Governo Federal. Entre
discussões acirradas acerca da capacidade técnica deles em
atender bem os brasileiros, uma jornalista publicou em uma
rede social online o seguinte comentário: “Me perdoem se for
preconceito, mas essas médicas cubanas tem uma Cara de
empregada doméstica. Será que São médicas Mesmo? Afe que
terrível. Médico, geralmente, tem postura, tem cara de médico, se impõe a partir da aparência… Coitada da nossa população.
Será que eles entendem de dengue? Febre amarela? Deus
proteja O nosso povo!” (Comentário em perfil do facebook,
postado em 27/08/2013 e bastante repercutido nas redes
sociais online e nos media).
↩
16. Durante todo o período investigado, apenas quatro ex-
beneficiadas pelo Petid foram entrevistadas pelos jornais. Ainda assim, foram meninas que atuaram diretamente como bolsistas
do Cedeca e, portanto, tiveram atenção privilegiada. Não há
informações na cobertura jornalística sobre a transformação na
vida de outras crianças e adolescentes que haviam sido
atendidos pelo Programa.
↩
17. Como já havíamos informado, na época das entrevistas a PEC
66/2012, conhecida como PEC das Domésticas, ainda não
havia sido aprovada.
↩
18. Essa parceria foi ressaltada como um bom exemplo de
engajamento da mídia no enfrentamento ao TID na pesquisa
“Crianças Invisíveis: o enfoque da imprensa sobre trabalho
infantil doméstico e outras formas de exploração”, realizada
pela Andi (VIVARTA, 2003, p. 123): “Um dos bons exemplos de
enfrentamento do setor privado em relação ao problema vem
justamente de uma organização de comunicação, a Rômulo
Maiorana, que compreende os jornais O Liberal e Amazônia Jornal, a Rádio Liberal e a TV Liberal, afiliada da Rede Globo
no Pará”.
↩
19. Um vice-governador também foi chamado a se pronunciar
sobre o TID em uma matéria de O Liberal, publicada em
13/06/2007, sobre a situação do trabalho infantil no estado. Ele
foi ouvido durante uma audiência pública, convocada pela
Assembleia Legislativa, para a repactuação do PETI no Estado,
realizada no Dia Mundial de Combate ao Trabalho Infantil (12/06).
↩
As configurações políticas do
Trabalho Infantil Doméstico
1. Importante relembrar que foram feitos dois grupos com esse
mesmo perfil. Para mais esclarecimentos, consultar nota de
rodapé nº 13, do capítulo quatro.
↩
2. Apesar de existirem entidades associativas de trabalhadores
domésticos, como sindicatos e federações, a atuação deles não
ganhou preponderância na cena pública. Nesse sentido, o
papel desses grupos e associações no enfrentamento do TID e
na garantia dos direitos de trabalhadores domésticos é um tema que merece novas investigações.
↩
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Danila Gentil Rodriguez Cal
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