Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências
Realização de pesquisa exploratória
consideramos, tal como Klocker (2012), que não há uma única
“verdade” a ser descoberta nas falas desses sujeitos. Não se trata
de ouvir as falas dos entrevistados para descobrir a sua confiabilidade ou precisão, “o que é, então, de interesse não é se
uma história é verdadeira, mas porque alguém opta por contá-la de
modo particular”. (BARBOUR, 2009, p. 59)
Acerca desse assunto, consideramos, ainda, a posição de Portelli
sobre a “verdade” das fontes de pesquisas em História Oral.
Segundo ele, “o realmente importante não é ser a memória apenas
um depositário passivo de fatos, mas também um processo ativo de
criação de significações”. (PORTELLI, 1997, p. 33) Assim, a “utilidade” dessas fontes não está no fato de poderem relatar
eventos e fatos passados, mas em como buscam atribuir sentido ao
modo como a memória acomodou aquelas lembranças. (PORTELLI,
1997) Portanto, não é apenas a veracidade dos relatos que nos
interessam, e sim o modo pelo qual eles dizem acerca das relações
de poder em torno do TID.
Nas próximas seções, detalharemos como os grupos focais foram
organizados, registrados, e as características das pessoas entrevistadas em cada um.
Realização da pesquisa exploratória
A partir dessas considerações acerca dos grupos focais,
construímos as estratégias para coleta das falas de atuais e de ex-
trabalhadoras infantis domésticas. Em princípio, tínhamos em mente
entrevistar adolescentes que foram atendidas pelo Petid e
adolescentes que não eram ligadas a projetos de enfrentamento
dessa prática. Para avaliar as vantagens analíticas dessa diferenciação, e também a estrutura e o roteiro que havíamos
elaborado, realizamos uma pesquisa de campo preliminar com a
realização de dois grupos focais.
Com a finalidade de entrevistar adolescentes trabalhadoras
domésticas desvinculadas de ações de enfrentamento a esse tipo
de trabalho infantil, decidimos buscá-las no ambiente escolar, tal como havia sido feito no início do Petid por Lamarão, Menezes e
Ferreira (2000). Como uma das promessas do TID é o acesso à
educação, era plausível supor que encontraríamos meninas
trabalhadoras domésticas em escolas públicas localizadas em bairros de classe média. Escolhemos um bairro de situação
econômica mediana porque, em nossa pesquisa de mestrado (CAL,
2007), já havíamos identificado uma tendência atual de patroas de
classes mais abastadas não contratarem meninas para o serviço
doméstico em razão do trabalho que davam e dos problemas que
causavam por não serem mais adolescentes tão “moldáveis”, como
elas consideravam as meninas que antigamente vinham do interior
do Pará para trabalhar em casas de família.
O bairro escolhido foi o do Coqueiro, no município de Ananindeua,
pertencente à Região Metropolitana de Belém. A escola selecionada
possui cerca de 930 alunos, do 1º ao 9º ano.10 Inicialmente, fizemos contatos com a diretora da escola para explicar a pesquisa e
averiguar a possibilidade de realizar o grupo focal naquele
ambiente. Explicamos à diretora alguns fatores que têm sido
apontados por pesquisas (LAMARÃO; MACIEL, 2006) como
característicos de adolescentes que trabalham: defasagem idade-
série, rendimento insuficiente em razão do cansaço e das longas
jornadas de trabalho. A partir disso, a própria diretora indicou
adolescentes que poderiam estar na situação de TID.
Assim, o grupo focal foi realizado em 27 de abril de 2011 com
cinco adolescentes de 15 anos que cursavam a sexta série do
ensino fundamental. Todas eram naturais de municípios do interior
do Pará: Curralinho e Santa Cruz do Arari, do Arquipélago do
Marajó; Cametá, região do Baixo Tocantis e Bragança, localizado no
nordeste do estado. Elas haviam vindo para Belém morar com
outras famílias e estudar. Havia uma menina que veio morar com a
irmã e que, durante meio período, trabalhava como babá. Tratavam-se, portanto, de situações típicas de TID, conforme discutimos no
primeiro capítulo. Por meio desse grupo, foi possível constatar a
necessidade de adequação do roteiro, principalmente da dinâmica
inicial de aquecimento, que trazia dificuldade de entendimento às
participantes, e de mudança na escolha do público a ser
entrevistado na pesquisa. Durante esse grupo, pude identificar uma menina que vivia em condições precárias. Sob seus cuidados,
ficavam dois idosos e uma criança. A adolescente trabalhava sete
dias por semana, sem remuneração, não mantinha mais contato
com a família, desde que começou a circular por diferentes casas, servindo como criada, em congruência com as situações
apresentados por Motta-Maués (2008).
Percebemos a dureza e a dificuldade de não ter retaguarda nesta
pesquisa para lidar com casos que necessitam de intervenção. Para
Klocker (2012), trata-se de um conflito ético em que as pesquisas
cujos sujeitos são crianças ou adolescentes marginalizadas devem
visar, de algum modo, ao aprimoramento das condições de vida
desses meninos e meninas. No entanto, naquela situação, percebemos que, ao mesmo tempo em que discutir sobre o TID
poderia trazer ganhos em termos de crítica e reflexão, poderia
também significar o reforço de uma situação de grave injustiça. 11 Após esse grupo, decidimos realizar entrevistas com meninas que
estivessem amparadas por algum tipo de retaguarda, como, por
exemplo, instituições religiosas e organizações sociais.
Para realização do outro grupo focal dessa fase exploratória,
convocamos adolescentes que haviam sido atendidas pelo Petid.
Por meio de contatos telefônicos, decidimos o lugar mais apropriado
em termos de localização e agendamos o grupo para 30 de abril de
2011, numa sala de aula do Campus BR da Unama. Apesar de termos convocado seis adolescentes, apenas três efetivamente
compareceram. Delas, duas tinham 14 e uma, 15 anos. Quanto aos
anos de atendimento do Petid, uma passou mais de quatro anos
ligada ao Programa, e duas, menos de um ano. Esse grupo foi
essencial para chamar atenção para as tensões do TID na própria
casa onde as meninas vivem com suas famílias e o modo como isso
foi discutido pelo grupo. As adaptações que realizamos no roteiro
em relação à dinâmica de aquecimento, sobretudo, mostraram-se adequadas.
Esses momentos também foram fundamentais para nosso
aprimoramento na função de moderadora. Apesar de já termos
bastante experiência na condução de grupos focais com mulheres
adultas (CAL, 2007), trabalhar com adolescentes nos impunha
novos desafios em relação à linguagem e à postura no grupo.