Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências

“Gente é encomenda?” ou um preâmbulo que se faz necessário

“Gente é encomenda?” ou um

 

preâmbulo que se faz

 

necessário

 

Sala escura. Ao fundo, uma melodia suave. Três pesquisadoras

da Universidade Federal do Pará à frente de um auditório cheio, a contar um trecho de uma prosa “Belém do Pará”, escrita pelo

marajoara Dalcídio Jurandir (1960, p. 33-34):

 

– O nome da canoa é “Deus te guarde”, do Moju. Venho ver uma

encomenda. […]

O tripulante […], num átimo trouxe a encomenda da senhora: uma menina de

nove anos, amarela, descalça, a cabeça rapada, o dedo na boca, metida

num camisão de alfacinha. A senhora recuou um pouco o leque dos lábios,

examinando-a:

– Mas isto?

E olhava para a menina e para o canoeiro, o leque impaciente:

– Mas eu lhe disse que arranjasse uma maiorzinha pra serviços pesados.

Isto aí…

O canoeiro respondia baixo, se enchendo de respeitosas explicações,

fazendo valer a mercadoria. A menina, de vez em vez, fitava a senhora com

estupor e abandono. […]

– Bem. Vamos ver. O compadre me leva ela. Não posso levar comigo como

está. E como é o teu nome? O teu nome, sim. É muda? É surda-muda? Não

te batizaram? És pagoa? É parece malcriada, parece que precisa de uma

correção. Fala, tapuru, bicho do mato. Ai, esta consumição…

 

Aquele foi meu primeiro contato com o Trabalho Infantil Doméstico

(TID). Na época (2001), era estagiária de Comunicação no Fundo

das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e havia sido convidada

para participar do lançamento de uma pesquisa sobre trabalho

infantil em Belém. Representantes do Unicef e de outros organismos

internacionais, atores sociais e agentes públicos locais aguardavam pela apresentação dos resultados obtidos. O estudo, realizado por

uma psicóloga, uma socióloga e uma assistente social, não trazia

informações estatísticas. Ele mostrava e discutia desenhos feitos

por 16 adolescentes trabalhadoras domésticas. Nunca tinha visto o lançamento de uma pesquisa daquele jeito.

Em seguida à apresentação da prosa de Dalcídio Jurandir, as

autoras continuaram a encenação, mas, desta vez, lendo os

comentários das meninas entrevistadas, construídos a partir da

descrição dos desenhos. Emocionei-me ao ouvir aquelas histórias.

Meninas que estudavam à noite em escolas de bairros centrais de

Belém e que vieram de outros municípios do Pará ou do Maranhão

para morar e trabalhar nas casas de outras famílias. Não que eu não conhecesse aquela realidade, mas nunca a tinha visto daquele

jeito.

Desde pequena, acostumei-me a ver meninas morenas ou negras

de vestido e chinelo cuidando de outras crianças. No início da

adolescência, nas casas das minhas avós, acompanhei meninas

com 14 ou 15 anos que trabalhavam enquanto eu brincava, via

televisão ou curtia a família. Elas tinham seus próprios quartos,

sempre próximos à cozinha. Só hoje, ao escrever este texto, recordo-me desse fato. Elas dormiam ali mesmo, bem próximas à

cozinha. Ainda que tivessem quarto próprio, ele era ao lado do seu

local de maior trabalho, onde lavavam louça, limpavam e ajudavam

minhas avós a cozinhar. O restante dos quartos, os dos filhos, em

ambas as casas, ficam próximos à sala. Lembro que uma das

meninas corria para lavar a louça do almoço e seguir para a escola.

A outra, sei que estudava, mas não recordo se era à noite ou

durante o dia.

Até aquela apresentação, eu conhecia meninas que cuidavam da

casa, de crianças e que viviam com famílias que não eram suas. O

que eu ainda não tinha percebido é de onde elas tinham vindo, o

que esperavam da vida e o porquê de eu achar aquela situação algo

esperado para meninas pobres. Até então, não conhecia o

“Trabalho Infantil Doméstico” como conceito, construído por

organizações sociais que lutavam pelos direitos da infância. Posso

dizer que aquele momento me afetou como um acontecimento, que modificou o olhar que lancei sobre o passado e sobre minhas

perspectivas futuras.

Engajei-me no enfrentamento ao TID – a preferência institucional

era não usar o termo “luta” para não remeter à violência e ao combate agonístico dessa prática – e participei, como estagiária do

Unicef, da criação do Programa de Enfrentamento ao Trabalho

Infantil Doméstico no Pará, chamado de Petid. Quem o desenvolvia

era o Centro de Defesa da Criança e do Adolescente do Pará

(Cedeca-Emaús) em parceria com outras organizações

internacionais e locais. Lembro de ter acompanhado uma reunião

com a agência de publicidade que faria a primeira campanha contra

o TID. Discutíamos sobre os sentidos de dignidade e se deveríamos usar essa palavra nos produtos. Dentre tantas lembranças, hoje

percebo com mais clareza a importância de ter guardado, após tanto

tempo, algo daquela conversa.

Dois anos depois, quando chegou o momento de elaborar meu

trabalho de conclusão de curso de graduação, só pensei em abordar

o tema do trabalho infantil doméstico. Naquela época, buscava

perceber o sucesso do processo de mobilização social contra essa

prática. Estudei várias referências na área de Comunicação e Mobilização Social e escolhi como objeto o caso do enfrentamento

ao TID em Soure, na Ilha do Marajó, por dois motivos: primeiro,

porque me parecia uma ação bem sucedida e, segundo, porque, por

ser circunscrita a um município pequeno, parecia-me mais viável e

analisável.

Um dos examinadores da banca de defesa era um pesquisador

alemão radicado em Belém. A sua participação foi motivo da várias

noites de preocupação, afinal ele havia lido Habermas – autor que, na época, já era decisivo para meu trabalho – no original, e eu

estava apenas tateando a teoria da ação comunicativa com os

poucos livros dele disponíveis em Belém no início dos anos 2000.

As críticas pertinentes e generosas que ele fez ao trabalho me

fizeram refletir sobre minhas conclusões naquele momento. Uma

pergunta especificamente me interpela até hoje: “E os sujeitos?”,

indagou-me ele sobre como os próprios afetados construíam

sentidos acerca do TID. Passaram-se mais de dez anos e ainda persigo essa resposta.

Depois da graduação, o assunto do TID continuou a me instigar, e

elaborei meu projeto de mestrado em Comunicação, cujo objeto de

pesquisa era a experiência do Petid em Belém. Aprofundei minha

investigação na cobertura dos jornais impressos e nas campanhas construídas de enfrentamento a esse problema. Vivi, então, o dilema

de lançar um olhar crítico àquele processo ao qual havia

acompanhado e à ação de instituições nas quais tinha trabalhado e

sido parceira. Confesso que não foi uma passagem tranquila. Eis

que me dava conta de que o discurso do TID que construímos com

bastante prudência e cuidado, apesar de ganhar visibilidade e

espaço nos media, não repercutia no dia a dia das casas de família

onde meninas trabalhavam. Ao ouvir mulheres patroas, concluí que era a forma mesma do discurso que as fazia entender que aquilo do

qual o Petid ou os jornais falavam era a exploração do TID, e não o

tipo de atividade que ocorria nos lares das entrevistadas.

Depois da dissertação, já trabalhando como professora

universitária, tive oportunidade de ministrar cursos e seminários

sobre direitos da criança, trabalho infantil e comunicação. A vida

pessoal também seguia. Casei, tive um filho e, no momento de

voltar ao trabalho, achei que precisaria de uma babá. Recebi algumas ofertas de pessoas que diziam ter meninas de confiança

que poderiam me ajudar. Vi amigas recorrerem a adolescentes para

cuidarem de seus bebês. A cada visita ao pediatra ou ida ao

supermercado, lá estavam as meninas domésticas morenas ou

negras cuidando de crianças.

Mesmo tendo contratado, em diferentes momentos, mulheres

adultas para cuidarem do meu filho, o TID estava ali, nas histórias

que elas me diziam, na forma como percebiam ser o lugar delas na minha casa e na minha vida.

Fui tocada profundamente por aquelas vivências.

Um professor do doutorado me disse certa vez que ele se via

como um entreposto. Afirmou que sua pesquisa e seu olhar sobre a

pesquisa eram atravessados pelos filmes que viu, pelos livros que

leu, pelas interações com os amigos, que lhe sugeriram caminhos,

pelos professores, orientadores e alunos com os quais havia

convivido. Os resultados de seus estudos eram credores de todas essas experiências e pessoas, ao mesmo tempo em que eram transformados e configurados como um novo, sempre sujeito a

revisões e experiências. Esse é o espírito da pesquisa que

apresento. Trata-se de um conjunto de experiências e afetações que

vivi em relação ao TID, atravessado pelas teorias e metodologias, pelos professores, pelo processo de orientação e pelas meninas e

mulheres que entrevistei; transformado pelo meu olhar. Assim, o que

busco é lançar luz sobre o espaço simbólico que sustenta e que

pode também desafiar o TID. O produto disso, este livro, coloca-se

como entreposto e um espaço aberto a futuras pesquisas e

vivências.