Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências
Desigualdades e relações de poder
espaços tidos como privados, a tematização de violências e
desrespeitos e uma noção de política fincada no cotidiano; o que
inclui, sem dúvida, uma discussão profunda sobre quem são esses sujeitos, os papéis que desempenham em nossa sociedade e por
que não é desencadeada uma luta política em termos
habermasianos, ou seja, um processo de debate público e de ação
social em torno desse assunto, a partir dos próprios envolvidos. Ou,
de modo correlato, as distintas perspectivas apresentadas,
principalmente por Mansbridge e Honneth, permitem-nos visualizar
outras modalidades de ação política, desenvolvidas por esses
sujeitos. Nesse sentido, é possível pensar em momentos do processo discursivo de politização que passariam pela aceitação,
pela resistência e subversão, pela demonstração da injustiça e pela
construção de luta política a partir dos próprios sujeitos envolvidos,
ainda que imersos em desigualdades sociais e em relações de
poder que, em geral, limitam suas condições de manifestação.
Desigualdades e relações de poder
Desigualdades não são falhas ocasionais da vida em comunidade a serem tratadas pontualmente. Elas tampouco devem ser camufladas em nome de uma igualdade política formalmente assegurada. Desigualdades precisam ser colocadas no cerne da teoria democrática, na medida em que cerceiam a possibilidade de autogoverno e o florescimento das capacidades humanas. (MENDONÇA, 2012, p. 133)
Ao analisar a relação entre teoria do reconhecimento e
democracia, Mendonça (2012) afirma que é necessário chamar
atenção para as desigualdades que permeiam o cotidiano dos
sujeitos e dificultam as possibilidades de autorrealização. De acordo
com a teoria do reconhecimento desenvolvida por Honneth,
desigualdades são consideradas desrespeitos de diferentes
naturezas:
(1) desrespeito em relação à integridade corporal, como maus-tratos e violação, o que gera perda de autoconfiança; (2)
desrespeito como privação de direitos e exclusão, o que afeta o autorrespeito; (3) desrespeito como degradação e ofensa, ou seja,
referência negativa ao valor de indivíduos (e grupos), o que resulta
na perda de autoestima. (HONNETH, 2003; MENDONÇA, 2012)
Dessa forma, “o desrespeito é opressivo porque cria hierarquias depreciativas. Ele situa os sujeitos diferentemente na vida social,
concedendo oportunidades a uns e negando-as a outros”.
(MENDONÇA, 2012, p. 134) Assim, o autor, baseando-se na teoria
de Honneth (2003), conclui que é preciso enfrentar as
desigualdades que subtraem dos sujeitos o direito de serem
estimados, ao mesmo tempo em que o foco do reconhecimento nas
interações sociais, na intersubjetividade, portanto, dá a ver um
caminho para a superação dessas desigualdades, já que “se as assimetrias e estruturas sociais são reproduzidas nas interações
humanas, elas também podem ser contestadas ao longo de tais
interações”. (MENDONÇA, 2012, p. 142)
Sobre essa questão, Biroli (2013), ao analisar a relação entre
ressignificação da experiência a partir da tensão entre autonomia e
opressão em relação às mulheres, afirma que desigualdades,
especialmente as resultantes de padrões de opressão, limitam a
autonomia dos sujeitos, porém não os definem. Desse modo,
[…] defini-los como resultantes dela [opressão] significaria perder de vista,
analítica e politicamente, não apenas questões relativas à subjetividade ou à
vivência individual das estruturas sociais, mas fissuras e ruídos na dinâmica
de reprodução da opressão e das desigualdades. (BIROLI, 2013, p. 12)
A posição de Biroli, que considera implicações estruturais, mas
mantém em aberto possibilidades de brechas e “fissuras” na
reprodução das desigualdades, é um contraponto em relação à perspectiva de Souza (2009). Acerca da realidade brasileira, Souza
(2009) defende que haveria “consensos inarticulados” que atuariam
na reprodução das diferenças sociais e funcionariam como ligações
invisíveis que orientam nosso comportamento e que dizem dos
papéis e das possibilidades de cada indivíduo. A partir dessa ideia,
Souza (2009) argumenta que as causas da desigualdade social no
Brasil, normalmente questionadas apenas pelo viés econômico, são
difíceis de serem observadas a “olho nu”. Uma das razões apontadas pelo autor é que a noção de justiça social estaria vinculada à meritocracia, o que nos faria considerar privilégios como
sendo justos e legítimos.
De acordo com esse autor, existe uma crença generalizada na
igualdade de oportunidades, de tal sorte que os bens ou a situação adquirida seriam resultados do mérito e do esforço de cada um. Por
consequência, o modo naturalizado pelo qual a desigualdade é
percebida no país acabaria por produzir, de um lado, sujeitos que
gozam de capitais econômicos e/ou culturais e, de outro, “indivíduos
sem nenhum valor”, abandonados social e politicamente, que
constituiriam a “ralé”. Nesse grupo, estariam incluídas as
trabalhadoras domésticas.
Souza (2009) defende a tese de que a constituição e a reprodução de uma classe social não dizem respeito apenas a
aspectos econômicos, mas também, sobretudo, a uma herança
afetiva familiar e a “valores imateriais” (aquilo que aprendemos no
dia a dia com pais e/ou responsáveis e também no cotidiano de
instituições como a escola). Argumenta, ainda, que há uma
dimensão afetiva na cultura de classe, e que o mérito
“supostamente individual” é fruto de pré-condições sociais. Assim, a
“ralé” seria uma classe de despossuídos que aprenderam tacitamente que seu lugar e suas possibilidades eram distintos de
sujeitos de outras classes. Existiria, então, um “consenso
inarticulado”, segundo o qual seria normal a divisão da sociedade
“em gente e subgente”:
Ele é obviamente um consenso ‘não admitido’, que nenhum brasileiro de classe média jamais confessaria partilhar, e é isso que permite sua eficácia como consenso real, que produz cotidianamente a vida social e política brasileira como ela é, sem que ninguém se sinta responsabilizado por isso. (SOUZA, 2009, p. 422)
Haveria, portanto, um processo de dominação social tornado
suavizado e considerado aceitável pelos próprios sujeitos em
situação de subordinação, o que levaria a uma ilusão de não subjugação, na medida em que as desigualdades seriam fruto do
sucesso ou fracasso de cada indivíduo. Desse modo, a dominação
cotidiana seria alimentada por meios simbólicos que atuariam na
legitimação das desigualdades sociais.
Uma das questões levantadas por Souza (2009) é: “por que as
pessoas da ralé não reagem politicamente à humilhação diária?”.
(SOUZA, 2009, p. 402) A resposta formulada pelo autor diz, no
limite, que as pessoas não reagem porque não se dão conta do caráter estrutural do processo de exploração ao qual estão sujeitas,
reagindo com pequenas subversões (como furtos, no caso das
trabalhadoras domésticas), mas não de forma organizada e com
efetividade política.
Para pensarmos o caso do TID, as análises do autor são
extremamente pertinentes no que se refere à reprodução afetiva das
desigualdades e à importância da dimensão simbólica em relações
marcadas pelo poder. No entanto, apesar de extremamente instigante, a tese de Souza não dá a devida atenção à capacidade
de agência e de percepção dos sujeitos sobre a própria condição.
Admitimos, acompanhando as proposições de Biroli (2012), que
há constrangimentos sistemáticos que repercutem de forma
desigual e diferenciada na forma como os sujeitos se posicionam no
mundo. É o que a autora chama de “agência diferenciadamente
imperfeita”. De acordo com Biroli:
Essa imperfeição é o modo mesmo de expressão da agência individual,
consideradas a socialização, o caráter social e intersubjetivo dos valores que
são mais caros aos indivíduos e as relações de poder que atravessam, ainda
que diversamente, os contextos e que as preferências individuais se definem
e a agência toma forma. (BIROLLI, 2012, p. 15)
Portanto, consideramos a agência imperfeita como expressão
regular, pois os sujeitos agem em meio a constrangimentos, porém
mantemos em aberto a possibilidade de agência e de
questionamento do contexto a partir do qual constroem seus
posicionamentos. (BIROLI, 2012)
Outro contraponto à perspectiva de Souza é oferecido pela
antropóloga Jurema Brites, cuja tese de doutorado consiste na
realização de uma etnografia com patroas e trabalhadoras domésticas adultas, em Vitória, no Espírito Santo. Segundo Brites
(2003), para nos aprofundarmos na relação entre patroas e
trabalhadoras, é preciso nos despir de visões teóricas dominantes,
como a crítica ao paternalismo e ao clientelismo, que ganham contornos e justificações diferentes ao ouvirmos as próprias