Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências
Tid como problema público político
própria casa, mostram-se resignadas ou envoltas na crença da
igualdade de oportunidades e na individualização da culpa.
O caráter político do TID como assunto sobre o qual duas ou mais pessoas deveriam discutir é evidenciado por meio das críticas feitas
pelas entrevistadas acerca do modo como ele se concretiza e dos
prejuízos que provoca na vida de meninas e mulheres. Assim,
considerando, tal como Mansbridge (1999, 2009), que política tem a
ver com a forma pela qual se constrói, por meio do discurso,
sentidos sobre uma situação comum, podemos afirmar que as
participantes dos grupos focais dotaram o TID de um conteúdo
político que trouxe implicações para a tomada de posição e para a decisão, ainda que ligadas a escolhas cotidianas. Segundo
Mansbridge (1999, 2009), pequenos atos podem ser gestos
políticos. Assim, essa conotação política pode ser percebida a partir
de atos aparentemente simples, como, por exemplo, dizer que não é
função da trabalhadora infantil doméstica deitar-se com patrão, ou
ainda, decidir não voltar para casa de um patrão explorador. Ao
longo dos relatos dessas situações, as entrevistadas apresentaram
argumentos e histórias para justificar porque o TID deve ser considerado um assunto que merece atenção coletiva.
Nesse sentido, evidenciamos a pertinência e a proficuidade de
considerar as possibilidades de agência dessas meninas e mulheres
sempre tensionadas com constrangimentos estruturais. Não se trata
de optar por um viés ou outro. Elas não são nem oprimidas por
completo, nem completamente resistentes. A riqueza está na tensão
entre um lugar e outro, entre gestos de identificação e de
desidentificação com os papéis e lugares que são atribuídos a elas e que, ao mesmo tempo, compõem seus modos de ver a própria
situação.
Tid como problema público político
No primeiro capítulo, argumentamos que pesquisadores e atores
sociais recorreram ao discurso da invisibilidade para denunciar o
TID como problema. Isso porque, em razão de fatores históricos e culturais, essa atividade não seria reconhecida como um trabalho de
fato, ou ainda por ocorrer nos lares de família, um ambiente
protegido dos olhares públicos. O Petid utilizou de modo amplo o
discurso do combate à invisibilidade dessa prática nas peças publicitárias que desenvolveu e reverberou essa ideia por meio do
acesso aos media estudados. Dessa forma, os esforços do Cedeca-
Emaús e de outras organizações que fizeram advocacy contra esse
tipo de trabalho infantil consistiam no questionamento público dessa
prática por meio da denúncia de sua invisibilidade, dos prejuízos aos
direitos da criança e do adolescente e também do estímulo ao
engajamento social para o seu enfrentamento. A ideia era estimular
um processo de debate público que desvelasse os problemas do TID e contribuísse com a transformação cultural, ao retirá-lo da
“invisibilidade”, do limbo das práticas não questionadas. (CENTRO
DE DEFESA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE, 2002)
No espaço de visibilidade dos media, como já apresentamos, as
vozes preponderantes eram de atores sociais do Cedeca-Emaús ou
parceiros. Quando adolescentes eram chamadas à cena, o eram,
sobretudo, como vítimas, como sujeitos que manifestavam o
sofrimento do TID. É razoável afirmar que, para que algo seja visto como um problema, é preciso haver vítimas que tornem concretos
os danos causados por ele. Assim, as trabalhadoras infantis
domésticas cumpriram majoritariamente esse papel no espaço de
visibilidade ampliada dos jornais acerca do TID, impulsionado pelas
organizações sociais. Por meio das análises de especialistas e
atores sociais, os dramas e vivências particulares reforçaram o
argumento de que essas questões tidas como pessoais são políticas
também.
Contudo, não houve um conflito explícito, nos media investigados,
entre partes antagônicas ou deliberantes acerca desse assunto. A
abordagem, em geral, foi de crítica ao TID, mas não estimulou um
debate sobre o assunto internamente aos jornais. Entendemos que
a expectativa de atores sociais e agentes da mídia era que esse
conflito se daria em outro âmbito, na interseção entre o
questionamento ao TID e os discursos legitimadores dessa prática
espraiados pela sociedade. Porém, considerando a capacidade dos media em pré-estruturar a esfera pública (MAIA, R., 2008b; MENDONÇA, 2006), o modo como o lugar de fala de meninas e
mulheres afetadas foi construído nesses espaços, a nosso ver,
reforçou a posição marcada por relações de power over na qual
esses sujeitos são enquadrados em nossa sociedade.
Nesse sentido, a luta discursiva desencadeada publicamente
contra o TID no contexto analisado não só deixou de ocorrer a partir
do ponto de vista das concernidas, como também as posicionou
principalmente apenas como vítimas e, portanto, sujeitos destituídos
de capacidade de fala e tomada de posição políticas. As exceções
nesse cenário corresponderam às adolescentes empoderadas a
partir da inserção em projetos sociais. É necessário reconhecer que
os media abordaram o assunto por conta do trabalho de advocacy desenvolvido por organizações sociais locais e internacionais. Elas,
portanto, tiveram um papel essencial na tematização do TID, porém
a forma como isso se concretizou deu a ver contradições entre a
inclusão de adolescentes com papéis ativos nessas iniciativas
(como preconizado nos guias e manuais dessas organizações) e o
uso ilustrativo de suas falas.
O movimento de advocacy foi importante para chamar atenção do
Estado contra esse tipo de trabalho infantil. Pelo que analisamos em relação às práticas políticas dessas meninas e mulheres, inferimos a
dificuldade de construção de ação coletiva a partir delas próprias em
relação ao TID, sobretudo porque, apesar de manifestarem
resistências ao TID e demonstrarem injustiças vivenciadas neles,
seus projetos não caminham para a construção de uma identidade
coletiva que as organize num movimento estruturado contra essa
prática2. Nesse sentido, as ações de grupos de advocacy podem ter
uma contribuição decisiva, porém na medida em que abram espaço
para que elas tomem a palavra, de modo que o que dizem não seja
apenas considerado resultado de operações de power over. Assim,
por meio das ações de organizações sociais, o tema entrou na pauta política institucional, mas não podemos falar ainda de um
amplo debate na sociedade acerca desse assunto, o que contribui
para a sua manutenção e para a busca por saídas e soluções
políticas que não passam, de modo amplo, pelas considerações
dessas mulheres. Essa percepção é compartilhada de certo modo
pelas meninas e mulheres afetadas que expressaram o desejo de que suas vozes e seus gestos de tomar a palavra fossem