Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências
Luta pública contra o TID: ações de advocacy e campanhas de sensibilização
Luta pública contra o TID:
ações de advocacy e
campanhas de sensibilização
– […] eu nessa época eu tinha medo, eu não falava, tanto que eu apanhava, me escondia, mas não falava nada, porque eu tinha medo de perder o emprego. Para onde é que eu ia se eu saísse dali? Eu não ia conseguir outro… Mas, hoje em dia, não. Se eu discutir com a minha patroa hoje, eu perco, amanhã eu me viro e arranjo outro. Mas na adolescência é diferente. Realmente, a adolescente tem medo, principalmente aquelas que são maltratadas em casa pelos pais. Eu vou sair daqui vou para onde?
Tamires, participante do Grupo focal “Condomínio”.
A discussão sobre o TID só entrou na agenda social no Brasil a
partir de 19991 e, principalmente, na primeira metade da década de
2000. O debate se beneficiou de uma já articulada rede de organizações internacionais e nacionais de combate ao trabalho
infantil. Nessa época, apesar de a necessidade e a importância da
erradicação do trabalho infantil já estarem, de modo geral,
tematizadas publicamente, não havia um debate nacional sobre as
atividades exercidas por crianças e adolescentes em casas de
família.
A própria construção da expressão “trabalho infantil doméstico”,
que começa a ganhar visibilidade nesse período, é resultado da politização do tema por meio da atuação de organizações sociais
pelo seu enfrentamento. (CAL, 2007; FUNDO DAS NAÇÕES
UNIDAS PARA A INFÂNCIA, 1999) Isso porque, como vimos
anteriormente, essa atividade não era reconhecida como “trabalho”,
dificuldade que permanece ainda hoje. E as formas de nomeá-la
variavam entre outras expressões, como “dar uma ajuda”, “reparar
menino”, entre outras. Além disso, as crianças e adolescentes que
exerciam essa função eram chamadas de “crias da casa”, “meninas da casa”, “afilhadas”, e não de trabalhadoras domésticas.
Desse modo, o enfrentamento ao TID no Brasil ocorreu
principalmente por meio de projetos e ações de advocacy,
desenvolvidos por atores locais e nacionais de forma conjunta com
organismos internacionais, entre os quais a OIT, o Unicef e a organização inglesa Save The Children. Políticas de advocacy são
estratégias comumente utilizadas por organizações sociais e
organismos internacionais como ações de defesa ou de promoção
de determinada causa ou demanda. (LIBARDONI, 2000) Assim, no
caso do TID, esse processo foi iniciado por entidades e grupos que
advogavam pelos direitos de crianças e adolescentes envolvidos no
TID num contexto social em que essa prática era largamente aceita.
(CENTRO DE DEFESA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE, 2002)
De acordo com Libardoni (2000, p. 208), advocacy diz respeito a:
[…] iniciativas de incidência ou pressão política, de promoção e defesa de
uma causa e/ou interesse, e de articulações mobilizadas por organizações
da sociedade civil com o objetivo de dar maior visibilidade a determinadas
temáticas ou questões no debate público e influenciar políticas visando à
transformação da sociedade.
Mafra (2014) constrói de modo detalhado a trajetória desse
conceito e ressalta que advocacy tanto “carrega uma possibilidade
de sentido voltada a designar ações de sujeitos que assumem uma
causa não ligada diretamente a suas próprias experiências do
vivido” (MAFRA, 2014, p. 198) quanto pode designar ações
empreendidas por sujeitos afetados pela causa advogada, mas que têm como intuito representar outros tantos que passaram pelas
mesmas situações ou vivenciam os mesmos tipos de problema. O
modo preponderante pelo qual o enfrentamento ao TID foi articulado
condiz com a primeira acepção do termo.
Apesar da contribuição dos grupos de advocacy para colocar em
discussão temas e políticas que objetivam garantir ou promover
direitos de determinados grupos que detém, por vezes, pouco poder
de influência, há uma tensão entre o que se diz em nome desses grupos e o que seriam seus interesses efetivos. Para Miguel (2011),
de modo subjacente aos modelos de advocacy, normalmente é
possível encontrar expressões de paternalismo e de autoritarismo.
Isso ocorre em grande medida porque as vozes e os discursos que ganham ressonância na esfera pública são de agentes de advocacy,
e não dos sujeitos realmente concernidos. Nesse sentido, de acordo
com Miguel (2011), é fundamental que esses grupos ou agentes de
advocacy se mantenham em diálogo com os sujeitos que desejam representar.
Segundo Miguel (2011, p. 54),
[…] os advocates promovem uma forma de substituição que faz com que a autoexpressão dos dominados deixe de aparecer como um problema a ser enfrentado. Afinal, seus direitos ou interesses já se fazem ouvir, defendidos por grupos e indivíduos melhor capacitados.
A nosso ver, esse dilema tende a repercutir na forma como a luta contra o TID é tornada pública pelas organizações sociais (nas
campanhas de publicidade) e pelos media. Tomamos como uma das
nossas hipóteses de trabalho que o espaço destinado à fala e ao
posicionamento de meninas e mulheres afetadas pelo TID nos
media destina-se, principalmente, à expressão do sofrimento e das
mazelas relacionadas ao trabalho infantil. Assim, as discussões
mais políticas, sobretudo acerca de direitos e interesses, seriam
atribuídas a especialistas e representantes de organizações sociais.
Casos de advocacy acerca da infância e da adolescência trazem
desafios particulares à “autoexpressão dos dominados”.
Especialistas e advocates geralmente são considerados atores mais
apropriados e com mais possibilidade de repercussão para falar em
nome de crianças e adolescentes do que eles próprios. (MIGUEL,
2011; EARLS, 2011) Como afirma Earls (2011), a cidadania de
crianças e adolescentes é garantida pelo fato de nascerem em um
estado, em um país. No entanto, somente são considerados cidadãos de fato, com direito à voz, quando adquirem o direito de
votar, de modo que as decisões sobre o bem-estar de meninos e
meninas são sempre atribuídas a figuras de autoridade, capazes de
definir os seus “melhores interesses”.
Earls (2011), contudo, questiona posicionamentos dessa natureza
e defende que a maturidade política tem relação com a capacidade
de agir em conjunto em prol do bem comum. Para ele, “mesmo se
às crianças for negado acesso aos processos eleitorais, elas têm opiniões, preferências e capacidades para deliberação e ação social”. (EARLS, 2011, p. 11, tradução nossa) James (2011)
corrobora essa perspectiva acrescentando que a cidadania de
crianças e adolescentes é aperfeiçoada na medida em que eles
deixam de ser considerados incompetentes ou irresponsáveis e passam a ser vistos como sujeitos capazes e com
responsabilidades.
Apesar do enfrentamento do TID ter sido iniciado por meio de
ações de advocacy de organizações internacionais, consta na maior
parte dos guias e manuais que norteavam essas ações a
necessidade de criar espaços de investigação sobre as condições
de vida de meninos e, sobretudo, de meninas trabalhadoras
domésticas. Além disso, era clara a indicação para que esse tipo de processo envolvesse o protagonismo de adolescentes. Outra
recomendação era para que os programas de enfrentamento ao TID
fossem liderados por organizações locais e nacionais, de
preferência em parceria com grupos de mulheres, organizações não
governamentais e entidades ligadas à defesa dos direitos humanos.
(BLACK, 2002) Com isso, esperava-se que a iniciativa se
beneficiasse de redes já organizadas nos países e envolvidas com a
garantia dos direitos de mulheres e crianças, pois o TID tensiona, como dissemos anteriormente, aspectos fundamentais de gênero.
Nesse contexto, com objetivo de instrumentalizar programas de
atuação e pesquisas em diferentes partes do mundo acerca dessa
temática, a Anistia Internacional, em parceria com a OIT, publicou
em 1997 o guia Child Domestic Workers: A handbook for research
and action. O documento traz os resultados de um evento prévio,
realizado em 1996, que reuniu representantes de nove países
(sobretudo da África, Ásia e América Central) e das organizações internacionais acima citadas para pensar estratégias de
investigação e de ação em relação ao TID. Além disso, o handbook
objetivava dar insumos concretos (“Como começar?” e “Como
encontrar o que precisamos saber?” são alguns dos temas
desenvolvidos) para que a situação de trabalhadoras infantis
domésticas fosse investigada em diferentes países. Essa publicação
é representativa das ações internacionais nesse período, que
tiveram como principal meta identificar os modos como o TID era praticado em diferentes países e qual era a situação das crianças e
adolescentes envolvidas.
No Brasil, o assunto entrou em pauta a partir de seminários
internacionais e nacionais realizados por organizações sociais e também, depois da produção de pesquisas sobre o TID (aspectos
legais, sociais e culturais, estatísticas etc.) de abrangência nacional
e local, financiadas principalmente por esses organismos
internacionais e realizadas por pesquisadores brasileiros. Como
mencionamos anteriormente, esse foi um importante aspecto da
advocacia internacional contra o TID: envolver atores locais nas
pesquisas e nas ações de enfrentamento. Outras diretrizes, como
construir discursos de enfrentamento com base em contextos locais, estão bem claras nos documentos internacionais:
O trabalho infantil doméstico é uma questão que toca na vida das pessoas privadas e familiares, realidades econômicas locais, costumes e valores socioculturais. Para assinalar os danos que pode fazer às crianças, requer segurar um espelho voltado à sociedade e solicitar às pessoas que inspecionem suas atitudes para muitas coisas, incluindo a hierarquia social e infância. A advocacia é mais eficaz quando os atores locais têm o papel principal. Os papéis principais de campanhas de advocacia devem ser o de quebrar a invisibilidade atitudinal dessa prática e reduzir os casos de abuso e exploração. (FUNDO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A INFÂNCIA, 1999, p. 11, tradução nossa)
Em geral, as ações desses organismos internacionais se
basearam na realização e promoção de campanhas com objetivo de estimular mudanças culturais e de atitudes em relação ao TID; na
realização de programas e projetos de intervenção para retirada de
meninas desse tipo de atividade e para prevenir a inserção de
crianças e adolescentes no TID; em incentivos e orientações para
elaboração de políticas específicas de enfrentamento; na geração
de informações e dados estatísticos sobre essa modalidade de
trabalho infantil para subsidiar intervenções e disseminar
conhecimentos sobre as consequências do TID e também no fortalecimento das organizações locais e nacionais envolvidas no
enfrentamento dessa problemática como modo de garantir
retaguarda institucional para as demandas relacionadas à erradicação do TID. (INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION,