Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências
Power to
meninas e mulheres.
Para entender melhor o fenômeno do poder no feminismo, Allen
(1998) propõe uma abordagem integrada que considere a dominação masculina, o empoderamento feminino e a construção
de solidariedade e coalisão entre as mulheres, o que não pode ser
entendido se poder for considerado apenas power over. A nosso
ver, relações de poder desse tipo estão ligadas ao processo de
aceitação e de individualização de um problema com potencial
político, como é o caso do TID.
Power to
Além de power over, outra instância do poder apontada por
alguns autores é power to. (ALLEN, 1998, 2013; CSASZAR, 2004;
HAUGAARD, 2010) Esse tipo de poder estaria ligado tanto à
capacidade de ação quanto a formas de empoderamento. Allen o
define como “a habilidade de um ator individual de atingir um objetivo ou uma série de objetivos”. (ALLEN, 1998, p. 34, tradução
nossa)
Assim, o poder, entendido de maneira ampla, teria uma dupla
capacidade, conforme apontado por Chazel (1995): tanto a de
realizar e manter quanto a de desfazer modos de dominação. Por
essa razão, há bastante crítica em relação à necessidade e aos
ganhos de se manter a distinção entre power over e power to. No
entanto, consideramos que estabelecer distinções é fundamental para permitir uma análise nuançada da complexidade das relações
de poder. Com essa finalidade, recuperamos elementos da definição
feminista de power to que são importantes para a discussão que
propomos neste trabalho. Na conceituação desenvolvida pelas
“teóricas do empoderamento”, power to faz referência à construção
e perseguição de projetos de vida, à valorização a formas de
transformação e de empoderar a si e aos outros. (ALLEN, 1998,
2013) Empoderamento e resistência são palavras-chave nesse contexto.
Por empoderamento entendemos o desenvolvimento da própria
capacidade de alcançar certos objetivos, apesar de situações de
subordinação, ou, pensando no caso feminista, apesar da
dominação masculina. (ALLEN, 1998, 2013) Na tentativa de explicar melhor o termo, recorremos de modo complementar à discussão
contemporânea a respeito do assunto, no que concerne ao
enfrentamento da pobreza. Nesse sentido, Romano (2002) ressalta
que o termo se refere a um processo de conquista particular:
O empoderamento não é algo que pode ser feito a alguém por uma outra pessoa. Os agentes de mudança externos podem ser necessários como catalisadores iniciais, mas o impulso do processo se explica pela extensão e a rapidez com que as pessoas e suas organizações se mudam a si mesmas. […] O que as políticas e as ações governamentais podem fazer é criar um ambiente favorável ou, opostamente, colocar barreiras ao processo de empoderamento. (ROMANO, 2002, p. 14)
A formulação de Romano (2002) sobre empoderamento, ao
mesmo tempo em que traz um desafio ànossa perspectiva, já que o
considera uma ação em que os sujeitos mudam a si mesmos, contribui para pensarmos num contexto em que o TID é questionado
de modo externo às afetadas por meio de organizações de
advocacy: como os sujeitos diretamente envolvidos no TID
constroem sentido acerca desse processo, e o que tais sentidos
podem revelar sobre relações de dominação e empoderamento que
atravessam e sustentam essas atividades?
A outra face do power to é a resistência. Como Foucault (1995)
afirma, onde há poder, há resistência. Segundo Allen (1998), essa é uma forma particular de aplicação do power to, em posição
semelhante à da dominação em relação ao power over. Resistência
seria, então, a capacidade de um sujeito alcançar um ou mais
objetivos com a finalidade de colocar em xeque situações de
dominação e/ou, poderíamos acrescentar ainda, escapar delas em
buscar de uma vida melhor. (ALLEN, 1998)
Olhar para a resistência significa reconhecer lutas que não se
travam na forma de uma confrontação coletiva. (SCOTT, 2011) Trata-se de considerar formas cotidianas de resistência, subversão
e enfretamento ao poder como dominação. As “armas”, nesse caso seriam, como aponta Scott (2011) ao se referir à luta dos