Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências
As perspectivas dos media
exemplo: como ouvir esses sujeitos de modo a não reforçar a
opressão? Como discernir o que é resultado de operações de poder
nas falas delas? Após a discussão sobre a importância de considerar, nesta pesquisa, tanto as perspectivas dos media quanto
das afetadas, detalharemos nosso posicionamento acerca dessas
implicações metodológicas.
As perspectivas dos media
Conforme vimos, os media tiveram um papel central na
tematização do TID como problema social, de acordo com os
agentes do Petid. Apesar de já termos lançado um olhar sistemático
para esses materiais nos primeiros cinco anos de ação do Programa (CAL, 2007), não estávamos preocupados naquele momento em
observar a constituição de lugares e posicionamentos para meninas
e mulheres que foram trabalhadoras domésticas na infância ou na
adolescência e o modo como isso diz das relações de poder que
atravessam e sustentam essa prática. Além disso, examinar por um
período mais longo os materiais dos media, desta vez 10 anos de
cobertura, permitir-nos-á analisar como relações de poder atuam na
construção de significações culturais em torno do TID e como esses discursos se convertem em práticas, sobretudo políticas, que
constituem nosso foco de investigação.
Como afirma Gamson (2011), os agentes midiáticos se encontram
engajados na produção e construção de discursos, constituindo
espaços onde se instauram complexas disputas simbólicas com as
quais sujeitos interpretantes interagem: “Esse sistema cultural
encontra indivíduos pensantes e a consciência política emerge do
entrecruzamento desses dois níveis”. (GAMSON, 2011, p. 12) Para esse autor, portanto, não se trata de pensar como os indivíduos
respondem aos estímulos midiáticos, mas sim como se processam
disputas simbólicas que surgem do entrecruzamento entre as
perspectivas dos media e as dos sujeitos.
De modo complementar, França (2006) argumenta que a
“publicização” de um texto se dá enredada num certo enquadramento que mobiliza os sujeitos. Esses, por sua vez,
“respondem neste enquadramento trazendo outras referências:
‘agenciados’, inseridos nos nós de uma rede, eles atualizam
naquela experiência, experiências anteriores”. (FRANÇA, 2006, p. 84) Portanto, o que se torna objeto de nossa análise não é
isoladamente a construção do TID nas matérias dos media, nem a
natureza social das trabalhadoras infantis domésticas, mas sim o
processo de interação comunicativa, “o cerne da relação, a força
que coloca os sujeitos ou interlocutores produzindo sentido, sendo
afetados pelo outro e pelo terceiro (o social, o polo da cultura),
afetando o outro e o terceiro”. (FRANÇA, 2006, p. 85) Desse
objetivo, decorre a importância de considerar as perspectivas dos media e dos sujeitos afetados sob o prisma da interação, como lugar
de forças, “como lugar, espaço ou forma que suscita a ação
(intervenção) e permite/acolhe a mudança”. (FRANÇA, 2006, p. 85)
Baseamo-nos também em Rousiley Maia (2008a), para quem os
materiais dos media
[…] são potencialmente transformadores das relações do cotidiano. Esses bens simbólicos, ao dramatizar conflitos vivenciados concretamente pelos indivíduos na sociedade ou trazer elementos de um mundo distante, ou um conjunto de questões e valores estendidos no tempo e no espaço, podem fornecer insumos para a politização das experiências pessoais. (MAIA, R., 2008a, p. 209)
Nessa perspectiva, a tematização midiática de injustiças pode
estimular o questionamento de práticas arraigadas, como o TID, e
propiciar que esse assunto seja considerado político, sobre o qual a
sociedade, de forma mais ampla, precisa discutir. Ao mesmo tempo,
sujeitos que vivem ou viveram a experiência do TID podem, em
interação com os textos dos media, ressignificá-las e construir novos sentidos acerca desse assunto.
Rousiley Maia (2012) afirma, ainda, que os media são
responsáveis por boa parte das informações e dos discursos que
alimentam contextos comunicativos. Segundo a autora, as
audiências refletem acerca dos materiais dos media e os utilizam
em processos de discussão. (MAIA, R., 2012) “Os media criam
novas oportunidades, novas opções e novas arenas para que os sujeitos produzam sentido de si mesmos, da relação com os outros,
o que frequentemente se entrelaça com as instituições e os padrões
culturais arraigados”. (MAIA, R., 2008b, p. 209, grifo do autor).
Nesse sentido, não se trata apenas de tematizar o TID no espaço de visibilidade dos media, como os agentes do Petid o fazem ao
considerarem a publicação de matérias por si um resultado
importante, mas de entender o modo como essa tematização
midiática reverbera em processos de interlocução, ressignificação e
politização.
Entretanto, há perspectivas pessimistas em relação ao potencial
político e social dos media. Por exemplo, as primeiras formulações
de Habermas em relação aos grandes meios de comunicação, organizadas no seu repercutido livro Mudança Estrutural da Esfera
Pública (1962), apontavam para um declínio da esfera pública.
Bastante influenciado pela concepção adorniana de “indústria
cultural”, o autor conclui que teria ocorrido uma perda da autonomia
e da capacidade crítica do público, o que teria levado ao declínio da
vida pública na sociedade de massas (MAIA, R., 2008b, 2012;
HABERMAS, 2003; GOMES, 2008). Segundo Rousiley Maia (2012):
Com o desenvolvimento da indústria cultural, a mídia eletrônica e impressa,
organizadas como corporações, começam a responder à lógica do capital e
do mercado. Voltando-se para o entretenimento, os meios de comunicação
constroem uma linguagem desprovida de seu aspecto crítico, a qual começa
a permear as relações sociais e dominar a linguagem cotidiana. Neste
cenário, a imprensa comercial – esse é o argumento – já não tem a intenção
de proporcionar oportunidades para os cidadãos participarem no debate
público. (MAIA, R., 2012, p. 60-61, tradução nossa)
Já em Direito e Democracia (2003), o autor apresenta aspectos
positivos dos media que incidem na esfera pública, como, por
exemplo, a generalização dos debates, ao envolver sujeitos
dispersos espacialmente. Habermas (2003), então, considera os media uma tipologia de esfera pública, “a esfera pública abstrata”,
acompanhada por outros dois tipos: a esfera pública episódica e a
de presença organizada.
Habermas esclarece que estabeleceu essa diferenciação a partir
da densidade da comunicação, do alcance e da complexidade organizacional dessas esferas parciais. (HABERMAS, 2003) Nesse
sentido, a esfera episódica diz respeito a interações simples,
relacionadas à vida cotidiana, as quais escapam ao controle de
governos e instituições. As trocas argumentativas, nessa instância, são efêmeras e com alcance limitado. (MAIA, R., 2012) Habermas
(2003) cita como exemplos as discussões que ocorrem em bares,
cafés, encontros nas ruas. A esfera pública de presença organizada
é exemplificada por encontros de pais, reuniões de partidos,
conferências, assembleias e fóruns de organizações da sociedade
civil. Segundo Rousiley Maia (2012), nesse ambiente comunicativo,
as trocas argumentativas ocorrem de modo mais estruturado, a
partir de uma pauta e de regras e procedimentos para debate. Por fim, o terceiro tipo de esfera pública apresentado por Habermas é a
abstrata, produzida pelos media, que envolvem “leitores, ouvintes e
espectadores singulares e espalhados globalmente” (HABERMAS,
2003, p.107) e são responsáveis pelo principal âmbito de visibilidade
na contemporaneidade. Por utilizarem uma linguagem comum,
acessível, de modo geral, aos cidadãos de diferentes locais,
distintas condições educacionais e sociais, os media podem
contribuir para a generalização de debates na esfera pública.
Não é nosso objetivo desenvolver com mais detalhes o conceito
de esfera pública e as perspectivas de seus críticos, porém
consideramos necessário esclarecer em linhas gerais o conceito,
que contribui para pensarmos no papel dos media em processos de
inovação social e cultural. Desse modo, entendemos esfera pública
como ambiente comunicativo que emerge a partir da discussão de
temas específicos em diferentes arenas. (HABERMAS, 2003) De
acordo com Habermas, a esfera pública pode ser considerada uma caixa de ressonância enraizada na sociedade e, por isso, permeável
e sensível aos problemas e demandas que advêm do mundo da
vida. Assim, a esfera pública é constituída através da linguagem e
da relação intersubjetiva por meio do discurso que, em termos
habermasianos, refere-se ao processo argumentativo a partir do
qual reivindicações de validade podem ser testadas. (HABERMAS,
1984, v.1; CAL, 2007) Segundo Habermas (2003), “a esfera pública
constitui principalmente uma estrutura comunicacional do agir orientado pelo entendimento, a qual tem a ver com o espaço social gerado no agir comunicativo”. (HABERMAS, 2003, p. 92) Portanto, a
esfera pública não pode ser confundida com instituições ou
organizações. (HABERMAS, 2003)
Nesse sentido, a tipologia dos media como esfera pública abstrata pode gerar o entendimento equivocado de que os media seriam “a”
esfera pública. Por essa razão, autores como Gomes (1999) e
Rousiley Maia (2008b) argumentam que os media teriam a
capacidade de pré-estruturar a esfera pública, ao dar visibilidade
para as diversas razões envolvidas em uma mesma discussão.
Dessa forma, “Quando ideias novas e relevantes são produzidas na
periferia da esfera pública, elas precisam de alguma forma de atingir
o ambiente dos media para se tornarem disponíveis ao público em larga escala”. (MAIA, R., 2012, p. 72, tradução nossa)
Em relação ao TID, especificamente, a penetração social dos
media e a esfera de visibilidade gerada por eles têm potencial não
somente para alcançar as casas de família (locus desse tipo de
atividade), como também para amplificar a definição do TID como
um problema público. Isso porque a esfera de visibilidade midiática
“fornece um vasto e profícuo campo para explorar os conflitos e as
tensões existentes entre os indivíduos e grupos, […] para redefinir as fronteiras entre o público e o privado, para proteger ou desafiar
culturas e práticas, identidades e valores”. (MAIA, R., 2008b, p. 118)
Se, por um lado, não podemos ignorar as possibilidades dos
media em contribuírem com a vida cívica e os valores democráticos,
por outro, não podemos, também, superestimá-las. É preciso
reconhecer que os media apresentam complexas relações com o
sistema político, o mercado e a sociedade (HABERMAS, 2009;
MAIA, R., 2012) e que, portanto, não são meros veículos: “Os media não são ‘canais’ ou ‘provedores neutros’ de informação, mas
instituições híbridas, ao mesmo tempo políticas, econômicas e
cultural-profissionais, que estabelecem relações tensas,
conflituosas, com outros atores sociais”. (MAIA, R., 2008b, p. 95)
Ainda assim, é essencial reconhecer que a contribuição política
dos media não deve ser deduzida do fato de serem empresas
ligadas a elites e grupos poderosos. Os media possuem códigos
próprios e rotinas profissionais que não são subjugados ou controlados completamente pelos imperativos do poder ou do
dinheiro:
[…] a crescente complexidade da mídia e o aumento do capital acarretam uma centralização dos meios de comunicação. Na mesma proporção, os meios de comunicação ficam expostos a uma crescente pressão seletiva, tanto do lado da oferta, quanto da procura. Esses processos de seleção tornam-se fonte de uma nova espécie de poder, ou poder da mídia, o qual não é controlado suficientemente pelos critérios profissionais. (HABERMAS, 2003, p. 109-110)
Todavia, essa pressão seletiva do ponto de vista empresarial, por exemplo, não impede que os media atuem como agentes políticos
ou produzam insumos para a discussão política, já que são também
plurais, variados e habitados por outros atores sociais. Há, ainda,
pressões advindas da própria sociedade acerca da qualidade e do
papel social dos media que influenciam nas produções midiáticas.
(PORTO, 2012)
Mendonça (2006) e Rousiley Maia (2008b, 2012) argumentam
que os media devem ser pensados de modo ambivalente, já que podem tanto favorecer a democracia quanto prejudicá-la. Sobre
esse ponto, Mendonça ressalta: “Ainda que, por meio dele [sistema
midiático], cristalizem-se significados e instituições, ele também
possibilita a contestação desses e a criação de outras ordens
possíveis”. (MENDONÇA, 2006, p. 18) Por essa razão, esses
autores trabalham com uma abordagem dos media a partir da ideia
de sistema. (WAISBORD, 2010; HABERMAS, 2009; MAIA, R., 2006,
2008b, 2012) Segundo Maia (2012), os media podem ser entendidos como um subsistema social que engloba um conjunto de
instituições e de especialistas, que possui regras e modos
operatórios próprios e que goza de relativa autonomia em relação a
outros sistemas sociais, como o econômico e o político. Diz-se de
uma relativa autonomia porque há constrangimentos sociais,
técnicos, econômicos e profissionais aos quais os media estão
sujeitos. (MARQUES, 2008; MAIA, R., 2011; 2012) Segundo
Rousiley Maia (2012), as ações dos media noticiosos (que envolvem decisões acerca de temáticas, enquadramentos e destaques na
cobertura) “devem ser consideradas como o resultado da interação dos fatos, a internalização de determinados pressupostos
normativos, restrições práticas, e práticas institucionalizadas”.
(MAIA, R., 2012, p. 85, tradução nossa)
Rousiley Maia (2012) ressalva que a ideia de sistema deve ser pensada como uma diretriz que dá margem ao entendimento da
complexidade dos media e propõe a compreensão dos media não
como “meios”, mas como “ambientes” nos quais se processam
disputas simbólicas. (MAIA, R., 2012; GOMES, W., 2004) De acordo
com Rousiley Maia (2006), as formas pelas quais os media operam
não permitem uma definição essencializada como “boa” ou “ruim”:
Para desenvolver um entendimento qualificado dos fenômenos
comunicativos - e não simples apologia ou mera condenação - é preciso
examinar o cruzamento de influências diversas dentro dos processos sociais
e políticos. É preciso estar atento para a complexidade desses terrenos, que
são multifacetados e devem ser investigados em detalhes, com lupas e
tabelas. (MAIA, R., 2006, p. 35)
No caso do TID, os media locais participaram como parceiros do
Petid no enfrentamento a essa prática, de tal modo que, em outro
momento, concluímos que os media atuaram como agentes de
advocacy. (CAL; MAIA, R., 2012; MAIA R.,; CAL, 2012, 2014) Ainda
assim, acreditamos que é preciso ter em consideração a complexidade do terreno midiático e lançar um olhar mais atento ao
modo pelo qual os media, ainda que reforçassem os
enquadramentos propostos pelas organizações sociais acerca do
TID, atuaram na construção de sentidos e discursos sobre os
lugares atribuídos a meninas trabalhadoras domésticas e a
repercussão disso na politização desse assunto.
É possível afirmar que o Petid e seus parceiros realizaram o que
Waisbord (2009) chama de “jornalismo de defesa civil” (ou civic advocacy journalism), ao procurar influenciar o noticiário em prol da
cobertura do TID. As organizações da sociedade civil, dependendo
do tipo de trabalho que desenvolvem, podem ser ouvidas e
consideradas pelos media,ainda que não detenham o poder político
do Estado ou o poder econômico das grandes empresas. Segundo
Waisbord (2010), os media não são apêndices de governos nem do
mercado, “em vez disso, os meios de comunicação devem ser entendidos como arenas nas quais interesses concorrentes
procuram obter acesso e influência”. (WAISBORD, 2010, p. 136,
tradução nossa) Desse modo, o “jornalismo de defesa social”
contribui para trazer à cena midiática assuntos e vozes da sociedade civil. As premissas para realização desse tipo de ação
são baseadas na ideia de que os media possuem um papel
fundamental para realização de transformações sociais e políticas e
na construção de problemas públicos. (WAISBORD, 2009) Do modo
contrário, “a invisibilidade e deturpação na mídia podem minar os
esforços gerais para promover conscientização e políticas públicas”.
(WAISBORD, 2009, p. 9, tradução nossa)
Portanto, analisar as perspectivas dos media é parte essencial de pesquisas que envolvam ações e programas sociais que busquem
transformações sociais ou políticas. Conforme vimos, há uma
aceitação social e cultural dessa prática que é realizada, sobretudo,
nos ambientes íntimos e privados de lares de família. Assim, os
media são importantes, em princípio, nessa configuração política do
trabalho infantil, tanto por constituírem o principal palco de
visibilidade na contemporaneidade, quanto pelas visadas que
lançam acerca das temáticas sociais. Como afirma Gomes, os media constituem-se em um “sistema expressivo formado pelo
conjunto da emissão dos meios de comunicação que constitui a
esfera de visibilidade pública, tornando disponível ao público, ou ao
sistema dos seus apreciadores, uma espécie de quadro do mundo”.
(GOMES, W., 2008, p. 143)
Wilson Gomes (2008) caracteriza a cena pública como um
ambiente em que convivem conteúdos de distintos valores
cognitivos:
A esfera de visibilidade pública é como um mar de sargaços, com fragmentos de discursos de todos os tamanhos, às vezes com peças inteiras, que não compõem nenhum quadro ordenado, mas que o acaso fez conviver e, eventualmente, atritar aos caprichos das correntes marinhas. (GOMES, W., 2008, p. 145)
Ao fazer uso da metáfora do “mar de sargaços”, o autor defende a
ideia de uma cena pública composta por diferentes discursos que
podem se relacionar de acordo com a articulação proposta por atores sociais e políticos ou por agentes da mídia. De modo
complementar, Rousiley Maia (2008a) argumenta que “a visibilidade
midiática contribui para o estabelecimento de um novo quadro
dinâmico de interpretações”. (MAIA, R., 2008a, p. 189) É esse material que fomenta boa parte da discussão sobre questões
políticas na esfera pública. Os media correspondem ao principal
palco dessa esfera de visibilidade, além disso, permitem a
passagem da estrutura espacial das interações simples para a
generalização da esfera pública. (HABERMAS, 2003)
Os fragmentos de discursos, as notícias, podem ser
caracterizados, de acordo com Gomes (2008), como fundo e tema.
Por “fundo”, entende-se um conjunto disponível de materiais informativos que “passem ‘sob os olhos’ do receptor ou destinatário
e que perduram por algum tempo na memória sem maiores
consequências”. (GOMES, W., 2008, p. 143) Compõem, portanto,
um repertório potencial, mas ainda não articulado de tematizações
públicas. Desse modo, o “tema” se caracteriza como um conjunto de
fragmentos ou materiais expressivos que foram colocados em
pauta. Segundo Gomes (2008), eles são ativos intelectualmente e
“municiam os discursos e as interações mais argumentativas e organizam a agenda social”. (GOMES, W., 2008, p. 143) Diante do
exposto, tematizar um assunto significa trazê-lo à pauta.
Importante ressaltar que organizar é distinto de determinar, o que
não significa uma equação exata em relação aos modos como os
sujeitos se apropriam dos discursos dos media. Para Gamson, “as
pessoas leem as mensagens da mídia de forma complicada
complexa e às vezes imprevisível, e se servem intensamente de
outros recursos para produzir sentido acerca do universo da política”. (GAMSON, 2011, p. 27, grifo nosso)
Wilson Gomes (2008) e Rousiley Maia (2008b, 2012) concordam
que os cidadãos utilizam seus próprios repertórios de experiência
para interagir e interpretar os produtos midiáticos. “O sistema
expressivo que constitui a cena pública é sempre um sistema
interpretado, isto é, estruturado, organizado, agenciado pelos seus
interpretes”. (GOMES, W., 2008, p. 146) Rousiley Maia (2008b)
afirma também que “os membros do público incorporam os sentidos derivados dos produtos da mídia em seus estoques de conhecimento comum”. (MAIA, R., 2008b, p. 99) E é esse repertório
que eles irão utilizar nas interações simples, nas conversações
ordinárias, inclusive sobre questões políticas:
[…] a interpretação do produto midiático dá-se sempre a partir de um conhecimento interpretativo anterior, à luz do qual o receptor estabelece o que é relevante, inscreve elementos assim processados nas rotinas práticas da vida cotidiana e utiliza tal material simbólico de maneiras diversas dentro de comunidades particulares e/ou contextos culturais e políticos específicos. (MAIA, R., 2008a, p. 173-174)
Além dos recursos midiáticos, os sujeitos também fazem uso de
experiências vividas e da sabedoria popular para construir sentidos
acerca de questões políticas. Gamson (2011) realizou uma ampla
pesquisa com objetivo de entender como cidadãos comuns, sobretudo, trabalhadores, produzem sentido acerca de assuntos
políticos e como os discursos dos media participam dessa
construção. O autor e sua equipe analisaram as conversações em
grupos de trabalhadores a respeito de quatro temáticas: problemas
enfrentados pelas indústrias americanas; ações afirmativas; energia
nuclear e conflito árabe-israelense. A conclusão preliminar – o autor
ressalta que a investigação lança mais questionamentos do que
fornece respostas – é a de que os sujeitos utilizam, de modo complexo e variado, de acordo com a temática, os discursos dos
media, a sabedoria popular e o conhecimento experiencial e que os
enquadramentos construídos acerca desses assuntos podem ou
não conduzir à ação política.
Mesmo em assuntos mais próximos ao cotidiano dos
trabalhadores, como o referente aos problemas atravessados pela
indústria americana – que geram demissões, fechamento de usinas
etc. –, Gamson (2011) afirma que permanece um hiato entre os discursos da mídia e o que as pessoas apresentam como
conhecimento advindo da experiência. “Esse hiato pode ser
preenchido, mas poucos grupos possuem os recursos para
preenchê-los sozinhos e com sucesso, e isso não tem grande
probabilidade de acontecer de maneira espontânea”. (Gamson,
2011, p. 229)
Nossa pesquisa se aproxima dessa investigação empreendida por
Gamson na medida em que busca analisar como sujeitos fazem
sentido acerca de uma questão tematizada nos media de modo
consequente para uma atuação política, assim como ocorre em outras investigações que vêm sendo desenvolvidas no âmbito do
Grupo de Pesquisa em Mídia e Esfera Pública da Universidade
Federal de Minas Gerais (EME/UFMG) (ver especialmente
MARQUES, 2007; CAL, 2007; MAIA, R., 2012). No entanto, nossa
pesquisa possui contornos e questionamentos distintos, pelo menos
por quatro motivos: (a) os sujeitos considerados são aqueles
efetivamente afetados pela temática em tela, e não trabalhadores
em geral; (b) nosso foco é no modo como relações de poder atuam na configuração política do TID; (c) o fato de haver um Programa
que reúne organizações sociais que empreenderam ações de
advocacy contra essa prática parece-nos ser um elemento com
potencial para diminuir esse hiato entre os discursos dos media e os
sentidos sobre a vida cotidiana; (d) a atuação dos media de modo
favorável aos enquadramentos do Petid e seus parceiros nos
permite investigar as repercussões disso entre os próprios sujeitos
afetados.
Ao final do livro em que relata o processo dessa pesquisa,
Gamson (2011) dá conselhos a ativistas de movimentos sociais e
sugere algumas estratégias. Uma das apresentadas pelo autor para
envolver os sujeitos em determinadas causas é promover uma
articulação emocional por meio de testemunhos e situações que
possam retratar experiências de injustiça. “O discurso público facilita
o conhecimento por meio da experiência vicária quando personaliza
amplas injustiças utilizando casos exemplares para dar forma a elas”. (GAMSON, 2011, p. 230) No entanto, desconfiamos que,
quando pensamos em relações de poder e nos lugares atribuídos a
determinados sujeitos, essas situações por vezes testemunhadas e
tornadas amplamente visíveis pelos media atuam num sentido
inverso à mobilização e atuação política dos envolvidos porque os
posicionam em condições de dominação, de vitimização e de
subalternidade. Por esse motivo, o exame dessa possibilidade e dos
questionamentos levantados neste livro precisa considerar necessariamente as perspectivas dos afetados.