Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências
Configuração política e relações de poder
Configuração política e
relações de poder
– Então, o meu sonho é me formar em direito, mas na defesa do trabalhador doméstico. Hoje, eu tenho um filho de estupro, de patrão, não é? Meu filho mais velho e eu amo meu filho, meu filho não tem culpa do que aconteceu, até porque ele [o ex-patrão] pediu que eu abortasse a criança. E eu sempre tive uma consciência que na vida você tem que passar por muita coisa, entendeu? E, hoje, o meu filho é tudo que eu tenho, é uma coisa maravilhosa, ele trabalha com dedetização e tudo que ele faz é em prol da mãe dele.
Zezé, participante do Grupo focal “Sindicato I”.
Tomamos por hipótese a existência de um jogo complexo de
relações de poder em torno do TID, as quais não se configuram
apenas como dominação e reprodução de estigma e subalternidade
– tal como largamente abordado na literatura sobre o assunto. (BLAGBROUGH, 2008; LAMARÃO, 2008; LAMARÃO; MACIEL,
2006) A nosso ver, essa complexidade repercute na configuração do
TID como questão política, tanto no modo através do qual o assunto
é tematizado publicamente nos media, quanto na forma pela qual
meninas e mulheres constroem e articulam sentidos
discursivamente sobre ele.
Neste capítulo, abordaremos inicialmente o conceito de político
com o qual trabalhamos. O que significa dizer que um problema é uma questão política? Recorremos, nesse intento, a três autores
principais: Jürgen Habermas, Jane Mansbridge e Axel Honneth.
Embora tenham perspectivas relativamente distintas, as abordagens
desses autores contribuirão para lançarmos luz sobre elementos
importantes da politização do TID. Em seguida, discutiremos a
relação entre poder e desigualdade. Autores como Jessé de Souza
(2009) e Patrícia Mattos (2006) afirmam que a naturalização das
desigualdades no Brasil é fruto da atuação de consensos inarticulados que orientam tacitamente os lugares e os papéis de cada um e que colocam os sujeitos da classe a qual eles chamam