Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências
Apresentação
Este livro condensa os resultados de minha pesquisa de
doutorado, intitulada “Configuração Política e Relações de Poder no Trabalho Infantil Doméstico: tensões entre os discursos dos media e
de trabalhadoras”, defendida, sob orientação da Profª Drª Rousiley
Maia, em 2014, pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação
Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Em 2015,
a tese recebeu o Prêmio Eduardo Peñuela da Associação de
Programas de Pós-Graduação em Comunicação Social (Compós), o
que permitiu que ela pudesse ser adaptada e publicada em livro.
Sou extremamente grata à Compós pelo reconhecimento e pela oportunidade de cumprir uma promessa que havia feito às
trabalhadoras infantis domésticas que entrevistei: ressoar os
discursos delas e estimular a reflexão sobre eles.
O Trabalho Infantil Doméstico (TID) é umas das formas de
trabalho infantil mais difíceis de serem enfrentadas. É de complicada
fiscalização, porque ocorre nos lares de famílias, e dificilmente é
considerado uma atividade laboral, por estar sustentado por fatores
históricos, culturais e sociais ligados a questões de gênero e raça, por exemplo.
As mobilizações pelo enfrentamento desse tipo de trabalho infantil
no Brasil se iniciaram na década de 2000, estimuladas,
principalmente, pela ação de organismos internacionais, tais como o
Unicef e a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Em
parceria com organizações sociais nacionais e locais – sobretudo
em Belém (PA), Recife (PE), Salvador (BA) e Belo Horizonte (MG) –,
essas mobilizações construíram um contexto de questionamento à
prática do TID e de intervenção junto a meninas 1 trabalhadoras
domésticas. Por meio de ações de sensibilização e de advocacy,
conseguiram conquistas, como a inclusão dos serviços domésticos na lista das piores formas de trabalho infantil (2008), e ainda
chamaram atenção social para essa temática por meio de
campanhas de publicidade e da atuação junto aos media. Estava
delineado, portanto, um contexto público de questionamento ao TID, sustentado por organizações sociais e internacionais que atuaram
como “representantes autoautorizados” (URBINATI; WARREN,
2008) de crianças e adolescentes envolvidos com esse tipo de
trabalho.
E os sujeitos diretamente afetados nesse processo? Inquietava-
nos essa questão.
Durante nossa pesquisa de mestrado (CAL, 2007), realizada entre
2005 e 2007, o objetivo era o de analisar de que forma havia sido
construído o discurso público do TID como problema social no Pará,
um dos estados que contou com projeto-piloto de enfrentamento
dessa prática por meio do Programa de Enfrentamento ao Trabalho
Infantil Doméstico (Petid), executado pelo Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca-Emaús) e parceiros
governamentais e não governamentais. Investigava-se, em especial,
como foi organizado o processo de debate público sobre o referido
assunto e o modo a partir do qual mulheres patroas de meninas
trabalhadoras domésticas interagiam com esse processo
deliberativo.
De forma mais específica, nosso interesse de pesquisa naquele
momento foi analisar a tensão entre a abertura ou não para o embate discursivo em casos que dizem respeito a práticas sociais e
culturais arraigadas, como o TID. Se, como afirmam alguns críticos
da deliberação, o debate pode não levar a uma mudança de
preferências e objetivos dos indivíduos, já que eles estariam
preocupados apenas com seus próprios interesses, por outro lado,
autores deliberacionistas apontam que o processo deliberativo pode
propiciar a revisão do que é tido por certo e a construção de novos
sentidos, novas interpretações para o problema em tela. Com a finalidade de analisar essa questão, recorremos à distinção
delineada por Warren (2006) entre a deliberação diplomática e o
agonismo deliberativo. Segundo esse autor, a primeira busca criar
um terreno de entendimento mínimo, que não exacerba as
discordâncias e faz com que se mantenha aberta a possibilidade de
diálogo, enquanto que a segunda pressupõe o acirramento dos
desacordos e a expressão sincera dos pontos de vista como único
modo de desestabilizar “falsos consensos” e de haver uma discussão de fato. Com essa distinção analítica de pano de fundo, realizamos aquela investigação a partir de três eixos: a) construção
do discurso contrário ao TID pelo próprio Petid em documentos e
campanhas de publicidade; b) debate público a respeito do TID nos
media (2000-2004) e c) interação entre mulheres patroas e esse discurso contrário ao TID, expresso em campanhas de publicidade
em no debate midiático.
Concluímos que o Petid havia construído, de modo diplomático, o
discurso do TID como um problema social, evitando, assim, um
confronto mais agonístico com discursos e sujeitos que defendiam
essa prática. Observamos ainda que os jornais, de forma geral,
compartilharam a postura deliberativa diplomática do Petid ao
procurarem estabelecer um diálogo indireto com os discursos legitimadores do TID, sendo que esses últimos não tiveram espaço
no noticiário. Assim, a abordagem dos jornais buscou não acirrar os
desacordos e estabelecer certa pressão social sobre os que
incentivam o TID. Após a realização dos grupos focais com patroas
de diferentes classes sociais, concluímos que a postura diplomática
do Petid e a repercussão midiática das ações de enfrentamento não
contribuíram efetivamente para estimular uma reflexão crítica das
patroas sobre aquele tipo de trabalho infantil. Apesar de toda a tematização pública estimulada pelo Programa e pelos textos da
mídia sobre o TID como um problema, isso não implicou mudança
de posicionamento por parte dessas mulheres a respeito do TID. A
resposta que elas deram a essa questão foi a diferenciação entre o
trabalho doméstico “normal” de meninos e meninas, que ocorria em
suas casas, e a exploração desse trabalho, que era noticiada pela
imprensa e combatida pelo Petid.
Nossa pesquisa de doutorado, por sua vez, investigou a questão dos concernidos pelo TID de modo distinto. Buscamos aprofundar a
compreensão sobre os processos e relações que sustentam esse
tipo de trabalho infantil e fazem com que ele seja de complexa
problematização e de difícil resolução. Supomos que as maneiras
pelas quais trabalhadoras infantis domésticas são posicionadas
nessa teia discursiva e o modo como elas próprias interpretam o TID
e atribuem lugares a si influenciam significativamente esse cenário
mais amplo. Assim, por ter sido iniciado o processo de combate ao TID, sobretudo por ações de advocacy e, portanto, de modo externo às trabalhadoras infantis domésticas, pareceu-nos essencial
questionar: qual o lugar atribuído a esses sujeitos diretamente
afetados pelo TID nessa discussão? Quais os sentidos que elas
constroem acerca do TID? E quais as reverberações disso para a configuração política do TID?
Ao estudarmos a literatura sobre esse tipo de trabalho infantil,
identificamos que ele é abordado, principalmente, como uma forma
de dominação, porque sujeita crianças e adolescentes ao poder dos
patrões e os expõe a privações e violências. (ALBERTO et al., 2009;
BLAGBROUGH, 2008; LAMARÃO, 2008) Assim, a posição atribuída
aos indivíduos que o exercem é marcada pela subordinação e
subalternidade. Autores como Carneiro e Rocha (2009) e Souza (2009) argumentam que haveria “consensos inarticulados” que
atuariam na reprodução silenciosa de toda uma classe de
despossuídos a qual ele chama de “ralé”, de tal modo que as
próprias vítimas não pudessem perceber com clareza a própria
condição. Sobre proposições dessa natureza, consideramos mais
nuançada a perspectiva de Honneth (2007, 2012a) a respeito do
reconhecimento ideológico, que permite entendermos os
posicionamentos e os argumentos que subjazem à concordância dos sujeitos a lógicas e práticas que podem ser opressivas. Essa
forma de reconhecimento baseia-se em um sistema de crenças em
que as promessas pareçam críveis, possam atribuir algum valor
positivo aos sujeitos e proporcionem a conquista de um novo valor.
(MAIA; CAL, 2014) Entretanto, há uma grande distância entre o
reconhecimento ideológico, que justificaria o assentimento a
padrões de dominação, e o polo oposto, que seria a luta política
empreendida pelos próprios afetados. Entre um e outro, acreditamos que pode haver um espaço social marcado por resistências,
subversões, demonstrações de injustiça e construção de
solidariedade. Nossa pesquisa se preocupa com a discussão desse
lugar e das relações de poder que o constroem.
A partir desse contexto, nosso problema de pesquisa consiste em
analisar como as relações de poder atuam na configuração política
do TID, tanto a partir do ponto de vista das próprias envolvidas
quanto no âmbito de visibilidade ampliada dos media, num contexto social em que grupos de advocacy constroem uma luta pública
contra esse tipo de trabalho infantil e contam com apoio dos media.
Para tanto, fez-se necessário ir além da ideia de poder como
dominação. Recorremos, então, à sistematização da teórica feminista Amy Allen sobre as perspectivas acerca do poder, de
modo que fosse possível o entendimento do processo pelo qual
mulheres podem ser consideradas tanto vítimas quanto resistentes
ou sujeitos políticos no contexto de uma mesma prática ou norma.
(ALLEN, 2000) A autora distingue três faces analíticas do poder:
power over, power to 2 e power with . No centro dessas definições
estão, respectivamente, a dominação, a resistência/empoderamento
e a solidariedade. A nosso ver, cada uma delas traz diferentes
repercussões para a configuração política do TID. Com objetivo de
ampliar a compreensão sobre a politização do TID, realizamos ainda
uma discussão sobre o conceito de “político”, a partir, principalmente, das perspectivas de Habermas (2003), Mansbridge
(1999, 2009) e Honneth (2003).
Organizamos nossa pesquisa em dois eixos específicos: a)
tematização pública do TID no espaço de visibilidade dos media, por
considerá-lo um ambiente externo aos sujeitos, mas com
possibilidade de expressão deles, e também por ser um espaço
privilegiado para observar a construção e mobilização de
significados partilhados a respeito do TID; b) discursos de trabalhadoras e ex-trabalhadoras infantis domésticas a respeito
dessa prática, apreendidos por meio de grupos focais. No total,
foram investigadas 136 matérias jornalísticas publicadas nos
principais jornais locais (O Liberal e Diário do Pará), entre 2000 e
2009, e realizados sete grupos focais com meninas e mulheres
diretamente afetadas pelo TID de distintos perfis: desde
adolescentes não ligadas a projetos sociais a ex-trabalhadoras
infantis domésticas hoje adultas e sindicalizadas. Dessa forma, não se trata de uma pesquisa de recepção, mas que investiga como
discursos construídos e em circulação nesses dois âmbitos
comunicacionais se processam de modo a reverberar na politização
do TID.
Como referencial metodológico mais amplo, partimos da sugestão
feita por Allen (2000) e examinamos o modo pelo qual as relações de poder participam da constituição de a) lugares e posicionamentos
para os sujeitos, b) significados culturais e c) práticas sociais. Por
meio de um processo sistemático e reflexivo de tensionamento entre
o material empírico e as concepções teóricas sobre poder, construímos quadros próprios a partir dos quais poderíamos
identificar marcas textuais dessas relações de poder nos textos dos
media e nas interações nos grupos focais. Durante esse processo,
também evidenciamos algumas temáticas preponderantes tanto na
cobertura jornalística quanto na fala das entrevistas e organizamos
a discussão e apresentação dos resultados a partir de três grandes
temas: definições acerca do TID; vivências no TID e projeções de
futuro e responsabilidades.
Sobre o processo de pesquisa, um dos pontos que mais nos
preocupou foi como ouvir meninas e mulheres envolvidas com o
trabalho infantil doméstico de modo a não reforçar a opressão e, ao
mesmo tempo, fazendo com que elas se sentissem confortáveis
para manifestar suas opiniões e posicionamentos. Fizemos um
longo investimento metodológico nessa área e avaliamos que o
modo mais apropriado para ouvir essas meninas e mulheres era por
meio de grupos focais, por permitirem o diálogo e a interação não apenas com o pesquisador, mas também com as outras
entrevistadas (BARBOUR, 2009; MARQUES, 2007; MORGAN,
1997), que, nesse caso, haviam passado pela mesma situação de
trabalho infantil. Por meio dessa dinâmica interativa, acreditávamos
que relações de poder poderiam ser desveladas, reforçadas e
mesmo questionadas.
Outra questão também nos inquietou: depois de ouvi-las, como
analisar essas falas e como apresentá-las no livro de modo a não restringi-las a um lugar de objeto? Spivak (2010) chama atenção
para o papel dos intelectuais que desejam falar em nome do outro e,
ao fazerem, acabam por relegar esse outro à condição de
subalternidade, ao reforçar estruturas opressivas que o, de fato,
silencia. Há, assim, “o perigo de se construir o outro e o subalterno
apenas como objetos de conhecimento por parte de intelectuais que
almejam meramente falar pelo outro”. (ALMEIDA, 2010, p. 13) Para
lidar com esse problema, seria necessário construir espaços de interlocução a partir dos quais o subalterno possa falar e, principalmente, ser ouvido. Sobre esse assunto, Alcoff (1991) afirma
que “devemos nos esforçar para criar, sempre que possível as
condições para o diálogo e a prática de falar comem vez de falar
pelos outros”. (ALCOFF, 1991, p. 23, tradução nossa, grifos nossos) Nesse esforço de “falar com” meninas e mulheres afetadas pelo
TID, cotejamos suas falas e posicionamentos ao longo do livro,
procurando atribuir-lhes o papel ativo que tiveram na construção
deste trabalho.
§
Gostaria de registrar os seguintes agradecimentos: à Profª
Rousiley Maia, pela amizade, interlocução e aprendizado ao longo
de mais de 10 anos; às professoras Flávia Biroli, Ângela Marques,
Kelly Prudêncio e Simone Rocha pelas contribuições que fizeram à
tese e à minha trajetória acadêmica; ao Prof. Paulo Nunes,
pesquisador e artista das Letras na Amazônia, que, de modo muito
generoso, presenteou-me com o posfácio deste livro; aos amigos da Universidade da Amazônia (Unama), da Universidade Federal do
Pará (UFPA) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG);
aos queridos integrantes do Grupo de Pesquisa em Comunicação,
Política e Subalternidade (ComSub/Unama), em especial a Vallena
Correia pela leitura atenta; aos profissionais da Edufba pelo cuidado
na produção deste livro; ao Centro de Defesa da Criança e do
Adolescente (Cedeca-Emaús) pela parceria; e à Revista Brasileira
de Ciência Política (RBCP) por ter publicado o artigo “Luta pública contra o trabalho infantil doméstico: implicações democráticas das
ações de advocacy” (v. 2/2015), que apresenta resultados parciais
da pesquisa que originou este livro.