Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências

As perspectivas das “afetadas”

 

No livro A Ralé Brasileira: quem é e como vive, Souza (2009)

indaga diversas vezes sobre o porquê de os indivíduos dessa classe

social não reagirem politicamente a formas de humilhação

cotidianas: “Por que a sua ‘resistência’ jamais atinge o estágio

político?”. (SOUZA, 2009, p. 410) Como possíveis respostas, Souza

(2009) enumera pelo menos três: (a) a autojustificação sobre as

condições em que vivem (o que dizem de si é sempre uma

justificação, algo para continuar vivendo); (b) a instrumentalização das relações familiares, ou seja, os membros são considerados na

medida em que servem à família; (c) o foco no tempo presente para

garantir necessidades imediatas, o que dificulta planejamentos a

médio e longo prazo. A tese do autor acerca da constituição social e

afetiva da ralé, como uma segunda natureza, um poder invisível,

esteia essas afirmações. De modo complementar, Souza (2009)

afirma que quando os sujeitos da ralé visualizam o futuro, é sempre

de modo idealizado como fruto de uma “solução mágica”, como ganhar na loteria:

 

Para os esmagados por uma ordem incompreensível cujo sofrimento não pode deixar de ser vivido não só como natural, mas acima de tudo como ‘merecido’, pelo efeito da ‘culpa individualizada’ da ideologia meritocrática percebida como verdade absoluta, resta o devaneio das ‘saídas mágicas’ ou o ressentimento individualizado contra ‘pessoas’. (SOUZA, 2009, p. 417)

 

Para esse autor, portanto, o conceito de poder refere-se

preponderantemente a processos de dominação, que obscurecem

relações de exploração, mesmo para os sujeitos danosamente

afetados. E na medida em que os pressupostos da dominação são

internalizados, “in-corporados” a esses sujeitos, perceber suas atitudes e questionamentos pelo viés da ação política se torna

impossível. A premissa do autor é que a “verdade” não é acessível a

esses sujeitos e nem no modo como se expressam. “Principalmente

o [discurso] dos humilhados e ofendidos, que, por razões óbvias,

não podem aceitar subjetivamente a percepção negativa, cheia de

suspeita […] e até abertamente hostil e humilhante que o mundo social faz deles”. (SOUZA, 2009, p. 438) Tanto que, para realização

da pesquisa, Souza e colaboradores realizaram entrevistas de modo

sistemático e frequente com os mesmos sujeitos durante dois anos.

Souza (2009) destaca que a informação do entrevistado é essencial, porém afirma que o pesquisador deve “reconstruir a verdade” das

informações obtidas para que situações e interesses “inconscientes”

e “pré-reflexivos” sejam apreendidos e contextualizados.

Os incômodos e as preocupações de Souza (2009) trazem

desafios ànossa pesquisa sobre como ouvir e considerar as falas de

meninas e mulheres diretamente envolvidas com o TID nas

condições de crias ou empregadas. Entretanto, conforme

explicamos no capítulo três, consideramos limitante a visada sobre a atuação política dos indivíduos da ralé. É como se não houvesse

saídas, brechas, subversões e rupturas nesse contexto

“naturalizado” de opressão, ou como se esses sujeitos fossem

completamente destituídos de autonomia e de capacidade

expressiva.

Um olhar distinto do de Souza (2009) é lançado por Brites (2003),

que, como apresentamos no capítulo três, defende a construção de

perspectivas analíticas propícias para observarmos os subalternos não como retrógrados ou alienados, mas sim entender suas práticas

políticas de modo contextualizado “para garantir um espaço a partir

do qual estes ‘outros’, não inteiramente cúmplices do ideário

moderno, possam participar da própria definição dos processos de

participação política”. (BRITES, 2003, p. 78) Importante reafirmar

que, tal como Brites, entendemos política de modo alargado, e não

apenas vinculado às instituições políticas formais.

Desse modo, considerar as perspectivas dos afetados, desvelando o modo como participam da própria definição de

processos políticos é crucial para entendermos, nesta pesquisa, os

sentidos atribuídos ao TID e como o jogo entre relações de poder

como dominação, resistência e solidariedade atua na configuração

política do TID a partir dos próprios envolvidos. Apesar dos desafios

éticos, metodológicos e analíticos que essa escolha implica, como

explicitaremos adiante, consideramos essencial examinar como

esses sujeitos, tão pouco consultados em pesquisas científicas acerca de trabalho infantil, tomam a palavra e se tornam seres de discurso. Klocker (2012) realizou uma ampla pesquisa bibliográfica,

que correspondeu ao exame de 1.225 artigos científicos

especificamente sobre trabalho infantil, e concluiu que raramente

crianças e adolescentes são ouvidos ou considerados: “Crianças e jovens continuam a ser drasticamente sub-representados nos

registros da literatura sobre sua vida de trabalho”. (KLOCKER, 2012,

p. 897, tradução nossa)

Outro argumento que sustenta nossa escolha é o fato de os

sujeitos em condições subalternas ou de vulnerabilidade serem

considerados majoritariamente como “seres de necessidades”, ao

invés de “seres de discurso”, capazes de tomar a palavra.

(RANCIÈRE, 2004; CAL, 2013; MARQUES, 2013) Assim, de modo contrário à visão desses sujeitos como meras vítimas, buscamos

considerar as possibilidades de que possam agir politicamente,

questionar e refletir sobre aspectos concernentes às suas vidas e a

de outros indivíduos e colocar em suspeição certa ordem

estabelecida que determinaria os lugares, os papéis de cada um.

Cabe aqui uma explicação sobre a quem nos referimos como

afetados. Rousiley Maia (2012) ressalva que a identificação pessoal

com uma determinada situação ou causa pode não ser suficiente para definir que sujeitos são afetados por ela. No entanto, seguindo

as proposições da autora, é bastante razoável afirmar que meninas

e mulheres ex-trabalhadoras infantis domésticas são afetadas por

esse tipo de trabalho infantil e concernidas por essa questão. Da

mesma forma, poderíamos argumentar que as patroas, as famílias

empregadoras, de modo geral, e os agentes de advocacy também o

são. No entanto, quando utilizamos o termo “afetada” nesta

pesquisa, estamos nos referindo aos sujeitos cuja relação com o TID é extremamente forte, ao ponto de marcar suas experiências e

histórias de vida. Estamos nos referindo a quem desempenhou tal

atividade por algum tempo durante a infância ou adolescência ou

que ainda a desempenha.

Importante ressaltar que nosso trabalho se beneficia de aportes

teóricos e metodológicos desenvolvidos por pesquisas acerca de

conversações políticas (ELIASOPH, 1998; GAMSON, 2011; MAIA,

R., 2012; MARQUES, 2007; WALSH, 2004) e, também, de como se processam trocas argumentativas em âmbitos informais de discussão e de suas relações com o sistema deliberativo mais