Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências
Aspectos culturais e sociais do trabalho infantil doméstico
animais, que podem ser realizadas para o próprio núcleo familiar ou
para terceiros, sendo que, neste último caso, a remuneração pode
ser feita em espécie ou em gêneros”. (ALBERTO et al, 2009, p. 61) É essa definição mais abrangente que utilizaremos como ponto de
partida deste livro. Consideramos, portanto, que é possível que
crianças e adolescentes executem trabalho doméstico no próprio
núcleo familiar e que esse tipo de atividade envolve relações de
poder, assim como quando o TID ocorre em casa de terceiros.
Aspectos culturais e sociais do
trabalho infantil doméstico
– Quando vestia uma roupa melhor era quando a patroa não queria mais ou
a filha da patroa não queria mais ‘manda cortar este vestido para Fulano’.
Chegava época festiva época de Natal, não é? ‘Manda cortar este vestido,
não quero mais este vestido, manda cortar para Fulano, afirmou Acácia.
– É, era resto, concluiu Lulu.
– Era assim, concordou Acácia.
Grupo focal “Cidade de Emaús”.
A “invisibilidade” atribuída ao TID estaria relacionada
principalmente a fatores históricos e culturais, tais como: a
escravidão e o costume de trazer meninas de áreas rurais para
estudar na capital e morar em casas de família; a concepção de que
meninas devem assumir as tarefas domésticas como naturais da condição feminina e, portanto, como não trabalho e por ocorrer nas
casas de família, distante, assim, dos olhares públicos. (ALBERTO
et al., 2009; BLAGBROUGH, 2008; CAL, 2007; HOYOS, 2000;
INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION, 2004; LAMARÃO,
2008; LAMARÃO; MENEZES; FERREIRA, 2000; VIVARTA, 2003)
Na história do nosso país, é frequente a referência ao fato de
meninas, filhas de escravos, serem levadas para as casas dos
senhores para lhes servir de domésticas. (LAMARÃO, 2008; SILVA, 2009) Naquela época, “trabalhar era sinônimo de aprender a ser escravo”, de aprender a obedecer e a servir ao senhor. (ALBERTO
et al., 2009, p. 59)
No Pará, desde o período colonial, mulheres e meninas escravas
já trabalhavam dentro das casas dos senhores cuidando dos filhos deles, realizando todo tipo de serviço doméstico e, não raro,
sofrendo abusos sexuais por parte dos patrões. (LAMARÃO, 2008)
Veríssimo (1970), ao contar parte da história da Amazônia, relata a
escravização de filhas de índios para esse tipo de atividade. Essa
situação reforçou o ciclo de pobreza e falta de qualificação, já que,
após a escravidão, essas mulheres passaram a criadas ou
domésticas e trocavam sua força de trabalho por comida ou baixas
remunerações. (ALBERTO et al., 2009)
A esse respeito, Motta-Maués (2008) esclarece que, após a
abolição da escravidão, as autoridades formaram em Belém um
“corpo de trabalhadores”, constituído, principalmente, por
adolescentes e jovens trazidos de cidades do interior do Pará para
realizar serviços públicos na capital. “E que, num desvio de
finalidade, eram encaminhados às casas de autoridades do Estado
para emprego nos serviços domésticos”. (MOTTA-MAUÉS, 2008, p.
158) De modo complementar, ao escrever sobre a memória da infância na Amazônia, Figueiredo (2007) destaca que, no início do
século XX, “crias” ou irmãs “adotivas” serviam como acompanhantes
de meninas da elite local, “revelando um costume muito arraigado
não só na Amazônia como em outras partes do Brasil, por meio de
uma eficiente ‘circulação de menores’ oriundos de famílias mais
pobres”. (FIGUEIREDO, 2007, p. 340)
Segundo Lamarão (2008, p. 65), as feições atuais do TID ainda
guardam resquícios daquele período histórico, sobretudo no que se refere ao recrutamento das meninas por um intermediário, ou ainda
quando meninas eram entregues diretamente pelas próprias famílias
a novos “protetores”. Também são resquícios daquela época o
afastamento da convivência familiar e comunitária e os impactos
que a mudança para a cidade gera na vida das crianças e
adolescentes. Sobre a sociedade amazônica do início do século XX,
Lamarão (2008) afirma que a socialização das meninas seguia
padrões legitimados pela Igreja e pelo Estado, segundo os quais as ricas “eram disciplinadas para a maternidade e o cuidado do lar enquanto que as meninas pobres eram enviadas para o trabalho
doméstico”, (LAMARÃO, 2008, p. 32) seja na condição de cria, seja
na de agregadas das famílias.
Há uma distinção sutil entre adoção e criação, nesse caso.4
(FONSECA, 1995; MOTTA-MAUÉS, 2008) Quando se referem às
crias, os responsáveis não utilizam os termos “filho/filha”, mas
sempre deixam claro que se trata de “menina que estou criando”, “pessoa que peguei para criar”. Diante desse contexto, o conceito
de “circulação de crianças” desenvolvido pela antropologia se
mostra pertinente para analisarmos o TID. Ele consiste na
“transferência temporária da responsabilidade sobre a criança de
um adulto para o outro, com fins de seu cuidado e socialização”.
(MOTTA-MAUÉS, 2012, p. 03) Por meio dessa noção, estudam-se
os caminhos pelos quais crianças circulam entre diferentes lares,
distintas famílias e as repercussões dessa movimentação para a vida de meninos e meninas e para os ambientes em que vivem.
(FONSECA, 1995; MOTTA-MAUÉS, 2008, 2012)
Segundo Fonseca (1995), os caminhos que as crianças
percorrem – ou são levadas a percorrer – têm relação com a
concepção de infância espraiada pelo contexto social em que os
pais estão inseridos. Nesse sentido, a classe média, em geral, parte
da ideia de que a criança é um “adulto em formação” e que,
portanto, merece atenção para o desenvolvimento emocional e intelectual. A criança, assim, “é inserida em uma estratégia familiar
de ascensão socioeconômica a longo termo”. (FONSECA, 1995, p.
30)5 Nas classes baixas, o entendimento prioritário é o da criança “como adulto incompetente”. O trabalho dos pais ou responsáveis,
desse modo, é “assegurar que certas necessidades ‘objetivas’
sejam atendidas”. (FONSECA, 1995, p. 31)
O TID se apresentaria, então, como uma possibilidade concreta
de frequentar uma família com melhores condições
socioeconômicas – ainda que, por vezes, apenas ligeiramente
melhores do que suas famílias de origem – e de suprir
“necessidades” imediatas relacionadas à sobrevivência, mas também à aquisição de bens de consumo. Na nova família, a
posição subalterna da menina criada ou agregada em relação aos
patrões e às outras crianças da casa é evidente e, geralmente, não questionada. (CARNEIRO; ROCHA, 2009; FONSECA, 1995;
LAMARÃO, 2008)
Para Fonseca (1995), embora essa menina, não raras vezes,
receba o tratamento de “filha de criação”, não haveria ambiguidade na relação familiar porque os patrões quase nunca são chamados
de pais e sim de “senhor fulano de tal” ou “Seu/Dona”. Entretanto,
outros autores (CAL, 2007; LAMARÃO; MENEZES; FERREIRA,
2000; MOTTA-MAUÉS, 2012) afirmam que a ambiguidade dessa
relação consiste em ora fazer parte da família – sobretudo, como
uma relação entre madrinha/afilhada – e ora ser a empregada da
casa ou a babá. A condição se torna clara em situações típicas,
como quando, por exemplo, “ser da família” justifica o não pagamento de salário ou o pagamento de uma quantia mínima,
enquanto que o “não ser da família” fica evidente nos momentos de
lazer nos quais, normalmente, a menina doméstica fica responsável
pela arrumação/organização dos itens do passeio, ou por cuidar das
crianças ou ainda por carregar as bagagens, enquanto os demais
membros da família têm como única função aproveitar a
programação.
Motta-Maués (2008), por sua vez, aponta um traço de gênero que marca uma diferença forte entre crias meninas e meninos. Segundo
a autora, quando se tratam de meninas, estas são criadas com a
obrigação “quase natural” de executar serviços domésticos nos lares
em que vivem e ainda continuam servindo a mesma família por
várias gerações. Aos meninos, todavia, é reservado outro tipo de
postura e comportamento. Eles são criados para buscar a vida fora
de casa e como agregados temporários daquela família. A principal
ocorrência é de meninas na situação de “cria” ou de “filha de criação”. (MOTTA-MAUÉS, 2008) Segundo a autora, “é justamente
seu estatuto localizado, esdruxulamente, entre essas duas
categorias [‘cria’ e ‘filha de criação’], que dá à ‘cria’ um perfil e uma
posição particulares na já longa história de sua presença nos lares
da Amazônia”. (MOTTA-MAUÉS, 2008, p. 168)
Nem todas as trabalhadoras infantis domésticas são “crias” no
sentido desenvolvido por Motta-Maués (2008, 2012), no entanto,
essa é uma das faces mais antigas a respeito da complexa relação entre famílias empregadoras e meninas domésticas. De acordo com Marcílio (2006), que desenvolveu uma extensa pesquisa histórica
sobre crianças abandonadas no Brasil (1726-1950), “a prática de
criar filhos alheios sempre, e em todos os tempos, foi amplamente
difundida e aceita no Brasil. São inclusive raras as famílias brasileiras que, mesmo antes de existir o estatuto da adoção, não
possuíam um filho de criação em seu seio”. (MARCÍLIO, 2006, p.
70) Ser “filha de criação” implica um dever moral perante àquela
família, cuja generosidade de “pegar para criar” filhos dos outros é
sempre ressaltada. Além disso, qualquer comportamento da “cria”
considerado inadequado por parte dessa família é enquadrado
como uma forma de ingratidão. (FONSECA, 1995; LAMARÃO,
2008; MOTTA-MAUÉS, 2008)
Em relação às meninas, há a expectativa por parte dos
empregadores de que a condição de servidão se perpetue.
(MOTTA-MAUÉS, 2008) Encontramos esse tipo de manifestação em
nossa pesquisa de mestrado, quando entrevistamos patroas a
respeito do TID. (CAL, 2007) Empregadoras de classes média e alta
relataram que, por vezes, desejam que essas meninas não
obtenham sucesso na vida para não modificarem sua condição na
casa da patroa. A seguir, reproduzimos um trecho do grupo focal realizado na casa de uma das entrevistas no bairro Umarizal, de
Belém, em 7 de agosto de 2006:
Virgínia: Eu posso falar uma coisa que eu acho que passa com a gente,
quando você pega uma boa menina […] você torce pra que ela não entre
numa universidade, às vezes, hoje em dia.
Eva: Por quê?
Virgínia: Porque a maioria, você vai perder isso.
Eva: Ah, sim, mas aí tá errado, né.
Dina: Claro que tá errado, você tem que ajudar ela a crescer na vida.
Virgínia: Tá errado, mas como há exceções, quando você quer…
Eva: Aproveitar porque ela é uma boa empregada…
[…[
Virgínia: Aí quando vai chega na faculdade […] a gente é boazinha trata
como pessoa da família, mas a gente inconscientemente com medo de
perder… […] a gente tolhe às vezes um passo maior daquela pessoa de ser mais alguma coisa.
Dina: Por egoísmo nosso.
(As outras participantes concordam).
Eva: Até inconscientemente.
Dina: Mas a gente começa a travar.
Virgínia: Não é nem prejudicar você pára, estanca, você… […]
(CAL, 2007, p. 129-130, grifo nosso)
As patroas admitem que impedir o crescimento profissional da
menina não é correto, no entanto, reconhecem que não desejam
que “boas empregadas” gozem de realizações pessoal e profissional
porque têm medo de perder a criada, o que justificaria restringir as
possibilidades “daquela pessoa de ser mais alguma coisa”.
Nesse mesmo grupo focal, a participante Eva relatou ainda que a
mãe tinha o costume de batizar meninas do interior para que
pudesse trazê-las para criar na capital. Trazidas ainda crianças, as
meninas iam se acostumando àquela família, eram “colocadas do
jeito da gente”, nas palavras da entrevistada, e iam passando de
geração em geração até que não pudessem mais servi-los ou que
morressem. Situação semelhante é discutida por Motta-Maués
(2008) quando relata o modo contrariado pelo qual uma família “empregadora” recebeu a notícia da vontade de casamento da
“cria”, já aos 50 anos de idade, depois de cuidar de duas gerações
de crianças da família empregadora.
Nas situações apresentadas (em relação à faculdade e ao
casamento), é como se buscar caminhos próprios fosse uma afronta
à generosidade das famílias que as criaram e em relação às quais
estas sempre se encontram como devedoras. Desse modo, “pegar
uma criança para criar” implica não apenas a responsabilidade com ela, mas essencialmente a responsabilidade da “cria” para com a
família que a recebeu. Várias “filhas de criação” permanecem a vida
inteira em torno das famílias que as criaram num “como se” quase
permanente. “Como se” fossem parte da família, “como se”
pudessem tirar férias, “como se” pudessem namorar os mesmos
tipos de garotos que as filhas da patroa, “como se” tivessem as mesmas condições de vida e consumo que as famílias às quais
servem.
Nesse sentido, a condição de agregada, ainda que livre em
contraposição àquela do escravo, é sustentada em uma enorme dependência da menina em relação aos patrões, “uma vez que tudo
que deseja e passa a desejar não pertence a si, mas sim a essa
família, que, como constante ameaça, pode lhe dar e tirar de acordo
com as circunstâncias”. (CARNEIRO; ROCHA, 2009, p. 134-135)
Entrelaçada a esses fatores históricos e culturais, está, ainda, a
falta de percepção do trabalho doméstico como um trabalho de fato.
Sendo uma atividade executada preponderantemente por meninas,
estaria ligada a certa obrigação feminina de cuidar dos afazeres da casa. Essa percepção é compartilhada, por vezes, pelas próprias
adolescentes trabalhadoras que se consideram “desocupadas”.
(HOYOS, 2000) A inserção no trabalho doméstico ocorre, então,
como se fosse imposição de gênero e um tipo de serviço mais
próximo da realidade das meninas envolvidas. (LAMARÃO;
MENEZES; FERREIRA, 2000) Outro modo pelo qual o TID não é
visto como trabalho se baseia na sua realização como forma de
aprendizagem das tarefas de reprodução e também como uma contribuição à rotina da casa, ainda que exija esforço e tenha uma
jornada longa. (ALBERTO et al., 2009, p. 59)
Após a discussão desses diversos fatores que sustentariam a
“invisibilidade” atribuída ao TID, percebemos com mais dúvidas essa
perspectiva. Não somente porque o TID não está restrito às casas,
já que as extrapola e aparece em praças públicas, nos
supermercados ou em consultório de pediatras, com meninas
domésticas acompanhando patroas e crianças, mas, principalmente, por supor que os fatores que denominamos como de “invisibilidade”
do TID são, na verdade, produto e consequência de relações de
poder que os alimentam e são alimentadas por eles. Ao mesmo
tempo em que é sustentada por relações de poder – principalmente
de dominação –, a referência à ideia de “invisibilidade” do TID apela
para a dificuldade de tematização pública dessa prática como um
problema político, na medida em que questiona a aceitação social
do TID e convoca os cidadãos a o “enxergarem” como algo sobre o que a sociedade deve discutir.