Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências

Posfácio

Posfácio: “Criança e trabalho

 

infantil: essa Vitória-Régia”

 

Na porta do mundo

tem uma roseira

que flora e chora

não tem ventania

que apague a candeia

do sentimento

no pé do vento

tem uma cantiga

que quando sopra

roda a menina

derrama a alegria

realça o dia

toda criança que nasce

parece a primeira estrela

amor promessa

brilhando no céu do tempo.

 

Luli e Lucina, estas mulheres que têm a poesia entranhada na

epiderme, dão, na letra da canção acima, o tom de minha comoção,

a alegria ao ler Danila Cal e este Comunicação e Trabalho Infantil

Doméstico: política, poder, resistências. Sim, “toda criança que

nasce/parece a primeira estrela/amor promessa/brilhando no céu do

tempo”. Assim, no meu modo de ler, eu que venho da literatura, se

difunde a poesia-denúncia, página a página, nos ditos desta

pesquisa séria, densa, dolorosa, mas essencial para o Brasil contemporâneo. Essencial porque ela parece reiterar, feito o coro da

tragédia, a fala crucial grafada por Sófocles, no Édipo Rei: “decifra-

me ou te devoro!”.

Danila Cal, em que pese sua pouca idade cronológica, demonstra

sua sensibilidade e prospecção de pesquisadora social,

comunicóloga, enfim, jornalista envolvida com as questões sociais

que nos são caras. Afinal, discutir a relação infância e trabalho, em regimes sociais e econômicos que apontam, na Amazônia, o limiar

da semiescravidão, auxilia decisivamente a desnudar uma

sociedade hipócrita como a brasileira, o que demostra que este

modelo de civilização cristã tropical está falida e não se sustenta para além da débil caridade e da desfaçatez. Eis uma das funções

da pesquisa acadêmica, que Danila Cal, professora e pesquisadora

da UNAMA, levou às últimas consequências quando fez aflorar

nossas mazelas sociopolíticas através do confronto entre os media

sociais e o discurso das próprias trabalhadoras domésticas aqui

escutadas com respeito e sabedoria. Danila, é preciso que se diga,

encontrou na professora doutora Rousiley Maia, EME/UFMG a

interlocutora ideal para dar forma a sua árdua missão. Afinal, sem competência, naturalmente associada à cumplicidade, não se faz

pesquisa e muito menos se constrói uma tese de doutoramento,

tese que constitui a argamassa deste livro que agora chega aos

leitores do Brasil pela editora da Universidade Federal da Bahia

(UFBA).

O livro tese escrito por Danila, de algum modo prosseguimento da

pesquisa iniciada no seu mestrado, traz uma “teia discursiva de

relações de poder”; poder como dominação e como empoderamento junto às meninas domésticas do Pará. Poder que oprime, humilha e

maltrata. Este livro, então, ao expor as contradições da sociedade

brasileira (na qual a paraense é uma mostra gritante), descontrói

algumas falácias, dentre elas, a de que a Amazônia é um “vazio de

ideias”, um “descampado intelectual”. A autora, pesquisadora

meticulosa, está aí pra desconstruir tantos quantos a quiserem ler e

constatar o que digo. Danila articula, como uma “maestra”, teóricos

como Bourdieu, Habermas, Mansbridge, Honneth, Biroli, Lukes, Motta-Maués, entre outros. Mas chama atenção, a discussão das

instâncias de poder na concepção de Allen: o power over, power to

e power with. Articulada, eficiente argumentadora, a autora nos

persuade e faz, de algum modo, sentirmos vergonha de pactuar,

direta ou indiretamente, dos jogos hipócritas de opressão que

lembra nosso DNA social de senhores que usam a chibata e, o que

é pior, escondem as mãos sujas de sangue; refiro-me, é claro, às

classes médias abastadas, que guardam muito de escravista e opressora. Por isto, embora não seja um cientista social, digo que, de certo modo, este Comunicação e Trabalho Infantil Doméstico:

política, poder, resistências promove, num outro viés, uma

provocativa releitura de Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre.

Sim, amigo leitor, as reações contrárias das classes médias e altas brasileiras às leis de proteção social que se estenderam

recentemente aos empregados domésticos demonstram que “há

algo de podre no reino da Dinamarca”. A pesquisa de Danila Cal

ajuda-nos a perceber como são frágeis os fios que amarram as

máscaras com as quais se escondem a nossa classe média.

O que me agrada sobremaneira neste trabalho é o estilo de

Danila, que lança mão, na abertura ou no decorrer de alguns

capítulos, da literatura como ilustração dos fatos sociais, com o intuito de humanizar suas denúncias. Assim, vemos desfilar aqui,

literatos fundamentais para a construção de nosso ethos amazônico,

como Dalcídio Jurandir, João de Jesus Paes Loureiro, Maria Lúcia

Medeiros; eles que escrevem com tal maestria, que nos encantam

com suas metáforas cortantes e redimensionadoras da realidade

circundante. Eis um dos grandes trunfos deste livro: a realidade

tensiona, e a literatura, através do poético, distende e emociona o

leitor, provocando-lhe uma sensação de gozo, no sentido barthiano que a palavra contém. E isto não se dá de modo desconexo e

arbitrário.

Tudo está intrincado. Cada fio se une a outro fio, formando

filamentos, entrecruzamentos e canais por onde escoam as

verdades duras do cotidiano das meninas domésticas, que ocupam

um entrelugar nas nossas famílias, singularidades em nossas vidas

e nos nossos afetos, mas que, de algum modo, acabamos por

desconhecer. Por isto, confeccionado do modo como foi, do lugar acadêmico-social de que foi, com o refinamento teórico e poético

com que foi, arrisco-me a dizer que este estudo de Danila Cal se

assemelha a uma Vitória-Régia. Aparentemente frágil – como a vida

das meninas domésticas que inspiraram este estudo –, aquela

planta amazônica, quanto mais dela nos aproximamos, mais

demonstra o quão forte é: capaz de, em espécimes mais viçosos,

sustentar uma criança em sua circunferência e ainda ostentar uma

bela flor cintilante, que nos cativa o olhar. Filamentos e caneletas de sustentação vegetal, no entanto, precisam de lucidez para que não sejam extintas, como tantas outras espécies botânicas já o foram,

devido à prepotência e à ganância humanas.

Assim as crianças trabalhadoras envolvidas nesta cruzada da

sociedade brasileira em constante mutação: beleza e fragilidade que devem ser cuidadas. Talvez seja interessante reiterar, como faz o

grupo “Palavra Cantada”: “Criança não trabalha, criança dá trabalho

[…]”, ou ainda, retomando o mote do inicio deste texto: “[…] Toda

criança que nasce/parece a primeira estrela/amor

promessa/brilhando no céu do tempo”. Este livro de Danila Cal não

nos deixará esquecer (espero sinceramente que não) que criança é

poesia em movimento; seu lugar é no coração de uma sociedade

que precisa olhar pra si e orgulhar-se de relações sociais mais justas solidárias e equilibradas. Respeito e amor: eis palavras que

nosso dicionário socioeconômico precisa ressignificar, e são esses

sentimentos nobres que tecem o texto de Danila, linha a linha.

 

Paulo Nunes, Unama

Belém do Pará, 12 de janeiro de 2016.