Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências
Principais ações do petid e desafios enfrentados
Petid. Por vezes, a cada reunião do Petid, uma pessoa diferente
participava representando o mesmo órgão.11 Mesmo assim, a
participação, em geral, estava restrita a níveis mais operativos
(técnicos) e não a esferas decisórias dentro dessas instituições.
Havia, portanto, em relação ao TID, um pano de fundo normativo
que embasava o engajamento de organizações sociais e governamentais no enfrentamento desse problema. Todavia, um
grande desafio ao qual o Petid se deparou foi conseguir estimular
políticas públicas adequadas e suficientes para erradicação do TID.
Principais ações do petid e desafios
enfrentados
Como apresentamos anteriormente, o Petid foi lançado em 2000
com apoio do Unicef e da Save The Children. A primeira ação foi a
realização da já citada pesquisa “Trabalho Doméstico de Meninas
em Belém”. Os principais problemas apontados pelo estudo foram o alto índice de defasagem escolar, ou seja, as meninas envolvidas
com o TID não estavam cursando séries compatíveis com suas
idades; as jornadas de trabalho excessivas; as perdas de vínculos
familiares; o abuso sexual e a baixa autoestima das meninas que
eram chamadas pejorativamente de “caboquinhas”12 por terem
vindo de municípios do interior amazônico e por apresentarem
traços indígenas. (CENTRO DE DEFESA DA CRIANÇA E DO
ADOLESCENTE, 2002)
A partir desse retrato inicial, o Cedeca-Emaús e os parceiros
desenvolveram estratégias para estimular a autoestima das meninas
envolvidas no TID. O foco nesse primeiro momento foi a valorização da cultura e da identidade amazônicas. Foram realizadas oficinas
educativas com as adolescentes do projeto, além da capacitação de
professores e agentes sociais para utilizarem um kit pedagógico,
que abordava de modo lúdico e regionalizado o TID.
O Petid organizou também reuniões com diferentes públicos
(empresários, representantes da Igreja, associações comunitárias) para sensibilizar em torno da temática em questão e contribuir para
“desnaturalizar” esse tipo de trabalho infantil. (CENTRO DE
DEFESA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE, 2002) Também
foram realizadas oficinas de geração de renda para adolescentes e pais, além de cursos profissionalizantes. O Cedeca-Emaús e
parceiros também promoveram reuniões com grupos de pais. Esses
encontros tinham o objetivo de esclarecer sobre o trabalho TID e de
fortalecer a família como retaguarda para que crianças e
adolescentes fossem retirados da situação de trabalho infantil.
Algumas famílias também foram encaminhadas a programas
governamentais de assistência social e de geração de renda.
Com a finalidade de, mais diretamente, envolver crianças e adolescentes no projeto, foram criados grupos de meninos e
meninas que se reuniam periodicamente com técnicos do Petid para
participar de momentos de formação e contribuir com o
enfrentamento ao TID. Foram cinco grupos em Belém, que
envolviam de 15 até 50 crianças e adolescentes, e um grupo no
município de Soure, na Ilha do Marajó, no Pará, onde o Programa
iniciou uma ação piloto com o objetivo de desestimular a saída de
meninas para o serviço doméstico em Belém. (CENTRO DE DEFESA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE, 2004; CAL, 2013)
Entre os principais desafios do Petid destacados pelas
publicações do Cedeca-Emaús, estava a dificuldade de algumas
meninas e famílias em aceitar a intervenção. As que aceitavam
apresentaram dificuldades para acompanhar adequadamente os
cursos profissionalizantes, apesar de estarem em idade compatível
com essa formação. Outro problema que os parceiros do Petid
encontraram foi não conseguir garantir o atendimento adequado e suficiente a essas adolescentes e às famílias na rede de assistência
do município de Belém e do estado do Pará. (CENTRO DE DEFESA
DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE, 2002) Há, ainda, o relato da
dificuldade para convencer os próprios atores sociais envolvidos
nessas instituições de que o TID era um problema a ser enfrentado.
Identificaram-se, entre os parceiros, patrões e patroas de meninas
trabalhadoras domésticas.
De acordo com o relatório do Cedeca-Emaús,
Inclusive entre os parceiros que defendem a perspectiva de direitos da infância e da adolescência, se encontram pessoas que empregam meninas e defendem o trabalho infantil doméstico como estratégia de proteção às meninas para que não vivam em uma situação de maior miséria com suas famílias. (CENTRO DE DEFESA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE, 2002, p. 41)
Assim, a naturalização desse tipo de atividade e a falta de reconhecimento como um trabalho se apresentavam, ainda, como
desafios a serem considerados na construção do posicionamento
interno e público do Petid. Antes de iniciar uma abordagem pública
acerca da temática, o Cedeca-Emaús estimulou, por meio de
encontros e reuniões, a sensibilização dos parceiros acerca do TID.
Outra dificuldade enfrentada pelo Petid foi conseguir garantir o
engajamento dos próprios adolescentes na luta contra o TID. Por
meio do acompanhamento que realizamos do Petid, desde 2000 até 2009, observamos que o Programa enfrentou dificuldades
metodológicas e sociais para colocar em prática essa proposta. Tais
dificuldades estavam relacionadas à construção de metodologias e
técnicas adequadas para garantir essa participação e estimular
espaços concretos para que eles fossem considerados
protagonistas do processo por atores e instituições membros do
Conselho Gestor, mais resistentes a reconhecer a atuação política
de crianças e adolescentes.13 Um grupo pequeno de adolescentes
atuou como bolsistas do Cedeca e como estagiários do Petid e teve
maior participação nas ações e atividades realizadas.
Como temos discutido neste capítulo, o enfrentamento ao TID no Pará começou por meio da ação de grupos (internacionais e locais)
de advocacy em torno dos direitos da criança e do adolescente.
Segundo Rousiley Maia, (2012), processos de discussão social
ampliada acerca de injustiças que afetam determinados grupos não
precisam ser iniciados necessariamente pelos próprios afetados,
pois eles podem não estar em condições de exercer esse papel, já
que podem se encontrar em situação de exploração e sujeitos a
outras vulnerabilidades. “Neste caso, os críticos sociais, defensores de certas causas, empreendedores morais, ou membros de
movimentos sociais que têm afinidade ou se identificam com a
situação vivida por tais sujeitos podem iniciar o processo de deliberação e de autorreflexão”. (MAIA, R., 2012, p. 41-42, tradução
nossa) Para a autora, os agentes de advocacy criam e propiciam
recursos e oportunidades para a tematização pública do problema
em tela. Nesse sentido, “eles podem ser bem sucedidos em sustentar o debate na esfera pública, incluindo o ambiente dos
media” (MAIA, R., 2012, p. 42, tradução nossa, grifo nosso), o que
pode contribuir para o questionamento de práticas arraigadas
socialmente, como o TID. Entretanto, permanece a tensão acerca
da “autoexpressão dos dominados” (MIGUEL, 2011) em processos
políticos de representação mais ampla de meninos e meninas na
qual figuras de autoridade e especialistas tendem a definir o que
seria melhor para elas. (MIGUEL, 2011; EARLS, 2011) Assim, argumentamos que, no contexto de ações de advocacy
empreendidas por organizações sociais contra o TID, é necessário
investigar o que os sujeitos afetados têm a dizer acerca do assunto.
Fonseca e Cardarello (1999) analisam como a noção de direitos
humanos é traduzida na prática a partir de campanhas de
reivindicação de direitos empreendidas por ativistas e organizações
em nome de sujeitos subalternizados. A questão levantada pelas
autoras é pertinente para a discussão que empreendemos neste artigo sobre os limites do advocacy: “que vantagens tiram esses
grupos ‘subalternos’ dessas embalagens mediáticas?”. (FONSECA;
CARDARELLO, 1999, p. 85) Elas ressaltam que, apesar das
campanhas dos ativistas serem fundamentais para inserir temas
sociais na agenda política, essas “frentes discursivas” podem
acabar reificando o grupo que deseja defender, pois “correm o risco
de montar programas que não apenas deixam de alcançar os seus
objetivos, mas, pior que isto, produzem novas formas de exclusão”. (FONSECA; CARDARELLO, 1999, p. 85) É verdade que grupos
subalternos, sobretudo os pouco organizados politicamente, como
os das trabalhadoras infantis domésticas, possuem possibilidades
escassas de participação efetiva nas discussões públicas que lhes
dizem respeito. Nesse sentido, as ações de advocacy contribuem
para manifestar publicamente injustiças vividas por esses sujeitos.
Entretanto, o que Fonseca e Cardarello (1999) alertam é que a
defesa abstrata de certos direitos, principalmente a partir de uma perspectiva externa aos concernidos, pode obscurecer práticas e percepções desses sujeitos. Ou, nas palavras das autoras, deve-se