Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências
Configuração política do tid a partir das afetadas
embora pareçam fazer sentido no sistema de crenças nos quais
estão inseridas, como a de que o TID é um caminho para ter acesso
à educação, por exemplo.
Em suma, a luta que se desencadeou publicamente contra o TID
foi empreendida por organizações sociais com apoio dos media e
objetivava chamar atenção da sociedade e do Estado para esse
problema. Os sujeitos diretamente afetados foram posicionados
majoritariamente como vítimas cujos relatos poderiam contribuir
para sensibilizar os cidadãos acerca dessa questão. Nesse sentido,
considerando o potencial dos media para generalização de
processos de debate público e de pré-estruturação da esfera pública, a discussão ampliada sobre o TID como um problema
público acabou por marginalizar a capacidade de atuação política
das próprias afetadas na definição de quais posturas e políticas
deveriam ser adotadas em relação ao TID. E essa situação foi
influenciada pela percepção de que elas estavam sujeitas a um
processo de dominação que não as permitia ter clareza sobre o que
estava acontecendo no TID. Essa dimensão crítica coube aos
especialistas e atores sociais.
Configuração política do tid a partir
das afetadas
A partir dos grupos focais, a configuração política do trabalho
infantil adquiriu contornos ambíguos e problemáticos. Dependendo
da temática em discussão e das características dos próprios grupos,
eram evidenciados diferentes arranjos entre as relações de poder
investigadas (power over, power to e power with), o que, a nosso
ver, repercutiu em entendimentos distintos acerca das práticas
políticas das meninas e mulheres afetadas pelo TID.
Nas discussões sobre as “definições do TID”, as entrevistadas
defenderam posturas críticas sobre algumas das promessas
relacionadas ao TID. Por meio das interações nos grupos focais, as
participantes desvelaram relações de power over latentes que atuam na manutenção do TID. Um exemplo disso é o
questionamento que permeou os grupos sobre se a menina
doméstica era ou não membro da família para a qual trabalhava. Em
geral, elas esforçaram-se para apresentar argumentos e indícios que justificassem o porquê dessa promessa não ser concretizada.
Assim, segundo elas, ser bem tratada e comer “da mesma comida”
que a família empregadora não é suficiente para caracterizar aquele
suposto vínculo. As entrevistadas apresentaram elementos
significativos para balizar essa diferença: quem é da família passa a
ceia de Natal junto na sala; quem é da família recebe carinho dos
outros membros; quem é da família estuda no mesmo tipo de escola
que os filhos dos patrões. O discurso que apresenta a doméstica como parte da família foi colocado pelas entrevistadas como uma
forma da patroa dizer, “de casa para fora”, que trata bem a
empregada e não como algo que se realiza no cotidiano daquelas
famílias. Portanto, elas não endossaram um dos pressupostos da
dominação no TID que seria o de que as empregadas compartilham
do discurso de que fazem parte da família.
De modo semelhante, as entrevistadas também se mostram
atentas à dimensão laboral dessa atividade e buscaram afastar o TID de definições segundo as quais se trataria apenas de uma
ajuda, e não de um trabalho. Segundo as participantes, sempre é
trabalho, ainda que não haja como retribuição o pagamento de um
salário. As adolescentes do Centro de Formação afirmaram que o
trabalho como babá é o que dá melhores condições para que a
adolescente seja estimada pela família empregadora: na medida em
que as crianças criam vínculos e ficam dependentes da babá, a
família também ficaria, o que poderia trazer mais segurança no emprego para a adolescente.
Sobre a comparação entre o TID e relações de trabalho escravo,
as meninas e mulheres apresentaram uma postura crítica sobre o
que aproxima o TID daquelas. Apesar de algumas divergências
acerca de quais características do TID eram ou não escravizantes,
elas se posicionaram reflexivamente sobre a ideia de que as
atividades que a menina faz ou faria na casa de família seriam
poucas e leves, questionando assim outra promessa ligada ao TID, que contribuiria para a suavização da dominação.
De modo amplo, partindo da tentativa de articulação entre as
visadas sobre poder e práticas políticas, consideramos que, nessa
primeira temática, o jogo entre relações de poder no TID revelou
gestos de resistência que questionavam aspectos de power over, mas, de modo pontual e, de certa forma, individualizado, com
objetivo de melhorar as condições nas quais ele é realizado.
Encontramos essa mesma configuração política na temática
“projeção de futuro e responsabilidade”. Em relação às perspectivas
de futuro, a maioria das participantes dos grupos focais criticou a
possibilidade de conseguir um bom futuro por meio do TID e
vislumbrou, ainda que em planos, alternativas para sair da condição
de trabalhadoras domésticas. Sobre as responsabilidades pelo TID, elas, em geral, se autorresponsabilizaram pela entrada nesse
trabalho, porque seria um modo de conquista relativa de autonomia
e de fazer frente à dominação patriarcal. De maneira complementar,
elas também atribuem responsabilidade aos governos pelas causas
do TID e também pela ausência de políticas, como cursos
profissionalizantes e bolsas para jovens. As entrevistadas do grupo
“condomínio” apontaram incongruências na postura do Estado, que
proíbe o trabalho infantil, mas não oferece condições para que crianças e adolescentes estudem com qualidade e se desenvolvam.
Por outro lado, nos temas “educação e trabalho infantil na própria
casa”, a articulação entre as relações de poder desveladas nas
discussões dos grupos revelou como postura prevalente a
aceitação, que atua na geração de conformismo e resignação. A
forma pela qual meninas e mulheres discutiram sobre as questões
relativas à educação corroborou em vários aspectos as proposições
de Souza (2009) sobre a naturalização das desigualdades sociais por meio da crença na meritocracia e na igualdade de
oportunidades, o que pode ser percebido na individualização da
culpa pelo fracasso escolar, que algumas das entrevistadas se
impuseram, ou ainda na manifestação do desejo de voltar a estudar
apenas para adquirir o direito de pagar meia-passagem no
transporte público.
Nesse contexto, possibilidades de resistência aparecem como
lampejos ou tentativas conformadas às imposições dos patrões, como no caso de Carol, que precisou repetir o ano porque a empregadora exigiu que ela estudasse à noite, quando havia
apenas turmas de supletivo. Como contraponto dentro dessa
temática, no grupo “sindicato”, a participante Zezé fez um apelo
coletivizante acerca da capacidade das empregadas domésticas mudarem a própria vida, desde que queiram e lutem. Apesar disso,
o modo como ela individualiza esse aspecto, como se bastasse a
adolescente lutar para que ela conseguisse superar o TID, pode
reenquadrar a situação na lógica defendida por Souza (2009), que
faz com que as desigualdades sejam consideradas justas porque
resultantes do esforço individual e do desempenho de cada um,
num quadro de igualdade de oportunidades. Contudo, não podemos
desvalorizar a aposta na capacidade de agência desses sujeitos, quando afirmam que “podem” lutar e melhorar as suas condições de
vida.
Quanto ao trabalho na própria família, esse foi um assunto em
que encontramos o maior nível de aceitação. Apesar de algumas
meninas e mulheres problematizarem aspectos relacionados a esse
tipo de trabalho, como, por exemplo, a exigência que só as filhas
cuidem das tarefas da casa, algumas delas demonstram
compartilhar dessa mesma lógica opressiva de gênero, segundo a qual as atividades domésticas são essencialmente femininas. Entre
as meninas do Centro de Formação, essa situação não é sequer
considerada trabalho, e sim uma obrigação das filhas perante os
pais, especialmente a mãe.
As discussões a partir da temática “violência” trouxeram um
contorno distinto à configuração política do TID. O que as meninas
e, principalmente, as mulheres apresentaram eram formas bastante
graves de desrespeito, marcadas pela tentativa de dominação não apenas do trabalho do outro, mas do corpo, o que provoca “um grau
de humilhação que interfere destrutivamente na autorrelação prática
de um ser humano, com mais profundidade do que outras formas de
desrespeito”. (HONNETH, 2003, p. 215) A desconsideração das
queixas das adolescentes por parte dos patrões, as tentativas de
abuso e os estupros fizeram parte dos relatos discutidos pelas
participantes. Embora vítimas de violências graves, algumas das
entrevistadas demonstraram modos de resistência e buscaram evidenciar as injustiças vividas no trabalho infantil, não apenas do ponto de vista individual, mas também do coletivo, como injustiças
vivenciadas por um grupo. Nesse caso, o sofrimento e a vexação
atuaram como impulsos para que elas tematizassem injustiças e
mostrassem alguma disposição para ação, com vistas à transformação daquela realidade, como afirmou Zezé (p. 244): “Mas
é por isso que nós devemos lutar, para que as outras trabalhadoras,
as outras pessoas que vem aí pela frente, vejam o trabalho e que
este trabalho pode ser mudado”.
Esse olhar nuançado nos permite melhor compreender os
posicionamentos políticos dessas meninas e mulheres, pois não os
considera apenas como resultantes de processos de dominação
(ALLEN, 1998, 2000), ou ainda de consensos inarticulados “in-corporados” que determinariam, “desde o berço” as possibilidades
de cada sujeito. (SOUZA, 2009) Evidenciou-se, por exemplo, que o
poder como power over atuava tanto em direção a uma
conformação às lógicas existentes (como no caso do trabalho para a
própria família), na individualização da culpa e das possibilidades de
“vencer por meio” do TID determinadas pelo esforço pessoal, em
formas de humilhação e ameaça, quanto poderia suscitar
resistências e motivação para ação (como no caso da violência). Ao mesmo tempo, o power to motivou questionamentos críticos sobre
as falsas promessas relacionadas ao TID e a construção de
estratégias para que os patrões se tornassem dependentes das
empregadas, ou ainda, formas de resistência marcadas de certo
modo inócuas pela fragilidade, como dormir vestindo várias
camadas de roupa para evitar o contato com o patrão. Nesse
sentido, as referências teórico-metodológicas de Allen (2000)
contribuíram para matizar os modos intrincados pelos quais as relações de poder envolvidas no TID são articuladas na construção
de sentidos sobre a configuração política dessa prática a partir das
próprias afetadas.
Nossos achados confirmam que esse processo não consiste em
uma lógica organizada e sistemática, mas sim é permeado por
ambivalências e ambiguidades, com avanços e retrocessos em
relação à politização do trabalho infantil como um tema que
concerne a uma coletividade. Se, quando tematizam violência, as entrevistadas preocuparam-se em demonstrar as injustiças que o TID provoca, quando se referiram à educação ou ao trabalho na