Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências
Pesquisa de campo e realização dos grupos focais
Também observamos que o fato de a moderadora aparentar ser um
pouco mais velha que as entrevistadas não representou problemas
para a discussão nos grupos, nem houve distinções de cor da pele,
pois a aparência física da moderadora era é a do tipo médio das mulheres paraenses. Essas características referentes à idade, cor
da pele e pertencimento à comunidade do moderador em relação
aos entrevistados têm sido apontadas por diversos autores como
essenciais para a condução adequada desse tipo de pesquisa de
campo. (BARBOUR, 2009; KLOCKER, 2012)
Pesquisa de campo e realização dos
grupos focais
No período de 4 a 26 de junho de 2011, realizamos sete grupos
focais com intuito de coletar efetivamente material para análise. 12 A
partir das informações que havíamos obtido na pesquisa
exploratória e de sugestões recebidas durante discussões acerca da
tese no âmbito do Grupo EME/UFMG, diversificamos as características das meninas e mulheres entrevistadas para
composição dos grupos.
Dessa forma, organizamos os grupos em torno dos seguintes
perfis: meninas trabalhadoras domésticas não ligadas a programas
sociais de combate ao TID; meninas ex-trabalhadoras domésticas
ligadas ao projeto social do Cedeca-Emaús; senhoras ex-
trabalhadoras infantis domésticas atendidas por projeto social;
mulheres jovens ex-trabalhadoras infantis domésticas não ligadas a projetos sociais; mulheres ex-trabalhadoras infantis domésticas
empregadas em condomínio de classe média/alta e, por fim,
mulheres ex-trabalhadoras infantis domésticas sindicalizadas.13
Nossa preocupação, portanto, não era a representatividade
estatística da amostra, mas sim a busca por diversidade de
características e perfis dos sujeitos entrevistados que nos
possibilitasse realizar de modo mais abrangente a análise das
relações de poder e da configuração política do TID. Por esse
motivo, selecionamos tanto meninas e mulheres engajadas, ou pelo menos envolvidas, com projetos sociais quanto pessoas que não
participam de Programas ou movimentos sociais. Nesse sentido,
adotamos a perspectiva de Barbour (2009):
A questão aqui não é o número de tais indivíduos na população como um todo, mas sim os insights que podem ser obtidos por meio dessas exceções e o seu potencial para colocar sob um foco ampliado alguns dos pressupostos tidos como evidentes ou processos que de outra forma não são notados. (BARBOUR, 2009, p. 86)
Assim, a diversidade de perfis das meninas e mulheres
entrevistadas tende a nos proporcionar uma teia maior de discursos
e posicionamentos acerca do TID. Inclusive a distância temporal
entre quem era trabalhadora infantil doméstica e quem havia sido no
momento da pesquisa de campo deve ser considerada. Segundo
Klocker, o tempo não é um medium neutro nessas circunstâncias.
De acordo com o estudo desenvolvido por essa autora, os sujeitos
que não estavam trabalhando tinham maior probabilidade de questionar situações consideradas injustas. (KOCLER, 2012)
Para que as discussões em grupo pudessem ser produtivas,
limitamos o número de participantes por grupo em no máximo oito.
Apesar dos convites terem sido feitos para essa quantidade de
pessoas, já era esperado que algumas faltassem. A composição
final dos grupos variou entre três e sete participantes. Consideramos
essa quantidade adequada. Segundo Barbour (2009), “é
perfeitamente possível fazer um grupo com três ou quatro participantes” (BARBOUR, 2009, p. 89), principalmente no caso de
temas considerados sensíveis.
Com objetivo de convocar as participantes, optamos por
diferentes estratégias, porque o trabalho infantil investigado ocorre
no interior de lares de família, o que dificulta o contato com essas
pessoas. Em relação às mulheres adultas, era preciso identificar as
que haviam sido trabalhadoras na infância. Normalmente, contamos
com a ajuda de informantes e pessoas de referência que foram nossos contatos para escolha das participantes e organização dos
grupos. Os principais foram: funcionários e antigos funcionários do
Cedeca-Emaús, que nos ajudaram na realização de três grupos; a
presidente do Sindicato dos Trabalhadores Domésticos de Belém e Ananindeua; uma mulher trabalhadora doméstica que identificamos
durante nossa pesquisa de mestrado e que contribui para
organizarmos o grupo com jovens adultas não ligadas a movimentos
sociais e, por fim, porteiros de um condomínio de classes média e alta que nos ajudaram a identificar mulheres que haviam sido
trabalhadoras domésticas na infância e conseguiram os contatos
delas para que nós fizéssemos o convite.
Os locais de realização dos grupos foram diversificados, mas a
principal condição para escolha era a proximidade com o local de
moradia ou trabalho das participantes, e ainda a familiaridade delas
com o lugar. Assim, foram utilizados desde espaços em centros de
formação religiosos até a casa de uma das patroas. De acordo com Barbour (2009), “a localização exerce certa influência na discussão,
e é importante considerar as conotações que uma localização em
particular possa ter aos participantes”. (BARBOUR, 2009, p. 75-76)
Sobre esse assunto, merece destaque o grupo realizado na casa da
patroa. A primeira ideia era de que ele fosse conduzido no pátio da
casa, uma continuação da sala. O local estava reservado para isso,
e a patroa tinha se ausentado. Contudo, percebemos que as
entrevistadas estavam desconfortáveis. Questionamos, então, onde elas gostariam de ser entrevistadas, e uma delas não titubeou:
“vamos para cozinha!”. As outras, prontamente, concordaram e, a
partir daí, as interações e discussões no grupo ocorreram
normalmente.
O fato de termos utilizado diferentes ambientes para a realização
dos grupos focais não nos parece um fator complicador. Ao
contrário, como afirma Barbour (2009), ter consciência das
conotações associadas a espaços distintos “pode significar uma contribuição significativa para análise”. (BARBOUR, 2009, p. 76)
A respeito do registro desses grupos, optamos pela gravação do
áudio 14 e pelo registro de observações acerca do andamento dos grupos e do contexto em que foram realizados. Apesar de alguns
autores afirmarem que inserir um mecanismo de gravação modifica
o processo interativo (ELIASOPH, 1998; WALSH, 2004), avaliamos
que era o modo mais seguro para registrar esses momentos e
solicitamos a concordância verbalizada das entrevistadas logo no
início das seções.
De modo complementar, os grupos, em geral, foram
acompanhados por uma observadora que registrava as sequências
das falas para termos como material auxiliar no momento de
identificação das entrevistadas nas transcrições.15 Pedíamos, ainda,
que cada entrevistada preenchesse uma ficha de identificação, onde
solicitávamos informações sobre naturalidade, estado civil,
escolaridade, família, consumo de media, experiência de trabalho, renda familiar e participação em grupos ou projetos sociais.
Os grupos focais foram realizados a partir de um roteiro
semiestruturado (Apêndice B) que consistia em quatro momentos
principais: (a) apresentação e dinâmica de aquecimento, a partir da
construção de um crachá; (b) discussão sobre lugares de origem,
relações familiares e divisão das tarefas da casa, que era, aos
poucos, afunilada para a temática do TID; (c) apresentação de
trechos de matérias dos media e discussão; (d) informações finais e avaliação do encontro.
Oferecemos às participantes um lanche antes do início dos
grupos focais, como demonstração de cordialidade e de estimulo à
aproximação entre elas e a moderadora. Em seguida, explicávamos
em linhas gerais a proposta da pesquisa e da realização daquele
encontro, apresentávamos algumas informações sobre o
funcionamento do grupo, como, por exemplo, que as identidades
delas seriam preservadas e cada uma escolheu um apelido pelo qual gostaria de ser chamada nesta pesquisa. Introduzíamos o
porquê da necessidade de gravar aquela conversa e solicitávamos
concordância verbalizada das entrevistadas.
Para apresentação às participantes, selecionamos cinco trechos
de matérias jornalísticas publicadas em O Liberal e Diário do Pará
no período investigado. O critério principal de escolha foi que
representassem significativamente o modo pelo qual meninas e
mulheres ex-trabalhadoras domésticas eram mostradas pelos jornais. Os trechos, então, eram reproduzidos em cartazes A3, para
fácil visualização, e também eram entregues por escrito às
participantes. Realizávamos a leitura do texto em voz alta e,
normalmente, líamos duas vezes antes de começar a discussão de
cada um.