Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências
Comunicação do Petid e Media Advocacy
evitar “misturar os nomes que nós inventamos com a realidade que
os outros vivenciam”. (FONSECA; CARDARELLO, 1999, p. 118)
Portanto, torna-se essencial, e esse é o interesse de nossa pesquisa, questionar: como meninas e mulheres diretamente
afetadas pelo TID se posicionam em relação a essa temática? Trata-
se meramente da reprodução de discursos opressores? E,
principalmente, como certo jogo entre diferentes relações de poder
atua na configuração política do TID a partir das próprias envolvidas
num contexto social em que há grupos de advocacy questionando
essa prática?
Como parte dessa conjuntura de enfrentamento ao TID, é preciso considerar as estratégias de Comunicação do Petid e o modo pelo
qual o assunto foi tratado publicamente por meio de campanhas de
publicidade e pelos media.
Comunicação do Petid e Media Advocacy
Em relação às ações mais amplas na área de Comunicação, o
Petid lançou, entre 2001 e 2007, três campanhas contra o TID14 e
procurou se aproximar dos media locais com a finalidade de garantir cobertura jornalística sobre o assunto. Consta em relatórios do Petid
a realização de oficinas com jornalistas sobre o tema e que o
combate ao TID “ganhou grande apoio dos meios de comunicação
locais”. (CENTRO DE DEFESA DA CRIANÇA E DO
ADOLESCENTE, 2002, p. 17) Além disso, as Organizações Rômulo
Maiorana (ORM), responsáveis pelo Grupo Liberal (TV, jornal
impresso e rádios, afiliada, no Pará, da Rede Globo), atuaram
convocando outros empresários a se unir pela temática por meio da Câmara Setorial de Responsabilidade Social, da Associação
Comercial do Pará 15.
Como discutimos em nossa dissertação de mestrado (CAL, 2007), entre os anos de 2000 a 2004, as estratégias do Petid para a
construção do discurso do TID como um problema foram bastante
cuidadosas para que não provocassem um confronto agressivo com
a cultura local. (CENTRO DE DEFESA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE, 2002) Nesse sentido, era fundamental “evitar o
tom agressivo na abordagem da campanha de sensibilização contra
o trabalho doméstico infantil e no contato com parceiros, instituições
e famílias, para evitar uma reação inversa que poderia promover um efeito contrário”. (CENTRO DE DEFESA DA CRIANÇA E DO
ADOLESCENTE, 2002, p. 15) Por efeito contrário, os agentes do
Petid previam a defesa desse tipo de prática e também dos patrões
pelas próprias meninas trabalhadoras domésticas, que
compartilhavam discursos legitimadores do trabalho infantil.
Procurava-se evitar também “uma superexposição das vítimas ou
mesmo o tratamento assistencialista-ingênuo dado às crianças e
adolescentes como se elas fossem ‘coitadinhas’, demandando a piedade e as atitudes paternalistas da sociedade”. (CENTRO DE
DEFESA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE, 2002, p. 40)
Em relação à cobertura jornalística local acerca do TID nos
primeiros anos do Petid, observamos, em outro momento (CAL,
2007; CAL; MAIA, R., 2012), que as principais fontes ouvidas
representavam o Cedeca-Emaús ou seus parceiros. Além disso, os
enquadramentos que predominaram nos jornais estudados entre
2000 e 2004 eram compatíveis com as perspectivas defendidas pelos agentes do Petid. Os dois principais se referiam: (1) à
invisibilidade do TID e (2) às injustiças relacionadas a essa prática.
O primeiro dizia respeito ao modo naturalizado pelo qual o trabalho
infantil era (é) considerado pela sociedade, aos desafios da
tematização pública por se realizar em ambiente íntimo dos lares e a
aspectos de gênero que fazem com que essa prática não seja
questionada. O segundo enquadramento diz respeito às injustiças
do TID e engloba discursos que consideram este tipo de trabalho uma forma de exploração de crianças e adolescentes, uma violação
de direitos e uma “falsa” caridade. De modo geral, os media
estudados ressaltaram os aspectos negativos relacionados ao TID,
do ponto de vista dos direitos da infância e da adolescência (CAL,
2007), e concederam espaços de fala para os agentes e parceiros
do Petid. No período investigado anteriormente, não tiveram
visibilidade, discursos legitimadores do TID. Portanto, não houve
controvérsia na tematização pública desse assunto. Por essas razões, e por constarem formalmente como parceiros do Programa, consideramos que os media atuaram também como agentes de
advocacy (MAIA, R.; CAL, 2012), ao promoverem o enfrentamento
ao TID por meio da cobertura jornalística e por recorrerem aos
discursos do Petid e de parceiros para se posicionar acerca do tema.
A primeira campanha de publicidade desenvolvida pelo Petid
ocorreu em duas fases: (1) a inicial foi realizada entre 2001 e 2002 e
teve como objetivo a apresentação do problema do TID. Com o
título “A construção do futuro começa em casa”, o cartaz da
campanha remete ao discurso de que “as crianças são o futuro”
(Figura 1) e, portanto, o cuidado com elas deve começar no espaço
doméstico. Construir um futuro melhor para crianças e adolescentes começaria, assim, pela garantia dos direitos deles em casa; (2) a
segunda, lançada em 2004, teve como título a frase “Com o trabalho
infantil doméstico, não dá pra ser criança”, para dizer que o este tipo
de trabalho exige responsabilidades que não são apropriadas ao
tempo da infância. Haveria, portanto, uma incompatibilidade entre
“trabalho” e “ser criança”. Naquele momento, a preocupação do
Petid era estimular as denúncias contra essa prática.
Figura 1 - Cartaz da primeira fase do Petid
Fonte: Petid.
O foco da primeira fase da campanha era estimular a percepção
social de que o trabalho doméstico violava os direitos de crianças e adolescentes e restringia as oportunidades de escolha profissional.
É nesse sentido que “A construção do futuro começa em casa”. No
folder dessa fase (Figuras 2 e 3), foram expressos desejos
profissionais de quatro adolescentes ouvidas na pesquisa “Trabalho
Doméstico de Meninas em Belém”, acompanhados de uma breve
contextualização sobre a situação de cada uma delas, como, por
exemplo: “‘Quero continuar os estudos e ser médica’, Sálvia.
Envolvida com o trabalho doméstico desde os 12 anos” e “‘Quero
ser advogada’. Ébano16. Seu padrasto bebia e ficava violento com
ela e sua mãe”’. O texto do folder desenvolve a ideia de que o TID
pode resultar em violência contra crianças e adolescentes envolvidos e que ele viola direitos básicos, como à convivência familiar e comunitária, ao aprendizado na escola e à escolha
profissional.
Figura 2 - Lado externo do folder geral
Fonte: Petid.
Figura 3 - Lado interno do folder geral
Fonte: Petid.
O TID, portanto, subtrai o período da infância e a condição de
realização de sonhos futuros, pois afasta as crianças e adolescentes
trabalhadoras de outro tipo de inserção no mercado de trabalho, em
condições consideradas mais vantajosas, como nas profissões de médica ou advogada. Em contraposição a argumentos legitimadores
do serviço doméstico realizado por crianças e adolescentes, como o
de que esse tipo de trabalho infantil seria uma oportunidade de ter
acesso à educação de qualidade, o discurso do Petid procurou apresentar aspectos negativos do TID, tais como os prejuízos
educacionais por conta de longas jornadas e do cansaço, a violência
sob a forma de humilhações e agressões e a perda do convívio
familiar e comunitário. Ainda assim, o texto do folder é bastante
cuidadoso para não afrontar a “cultura local” e solicita a pessoas
que criem meninos e meninas de outras famílias que os apresentem
ao juiz para regularização da guarda. Solicita ainda que eles sejam
tratados com dignidade, mas não afirma a proibição do TID. De modo complementar, o discurso do Petid buscou reforçar a imagem
positiva do trabalho doméstico realizado por maiores de idade:
“Trabalho doméstico é coisa de adulto. O lar é o lugar da
brincadeira, da aprendizagem e da proteção. E não do trabalho
infantil”.
Lançada em 2004, a segunda fase da campanha ocorre quando o
TID já havia sido tematizado publicamente, não apenas pelo Petid,
mas também na cobertura da imprensa. A ideia principal trabalhada nas peças publicitárias era a de que o trabalho doméstico é
incompatível com a infância, conforme podemos observar no cartaz
(Figura 4). Há um afastamento em relação às referências infantis da
primeira fase, como desenhos, cores alegres e fortes (as principais
cores utilizadas foram o amarelo, o laranja e o vermelho). Nessa
fase da campanha, a referência à invisibilidade do TID é destacada
por meio da foto que participa de todas as peças. No centro da
imagem, que é colorida, há uma menina em preto e branco recostada sobre a pia da cozinha, com um pano de prato sobre os
ombros e com uma expressão triste e distante, contrapondo-se à
felicidade dos filhos do casal que recebem carinho e atenção dos
pais. O principal objetivo é estimular uma reflexão crítica acerca dos
lugares e papéis que essas meninas ocupam nos lares e na
sociedade. Nesse estágio da campanha, o Petid incentivou
claramente denúncias de situações de TID.
Figura 4 - Cartaz da segunda fase do Petid
Fonte: Petid.
No folder em questão, a contraposição entre a imagem da menina
doméstica e das crianças da família empregadora fica ainda mais
destacada (Figuras 5 e 6). No texto, há informações sobre os
principais motivos para a ocorrência do TID. São citados a falta de
oportunidades de emprego e renda para as famílias em municípios
do interior; a falta de informação de muitas famílias de origem sobre
a real situação das filhas na capital e, por fim, a naturalidade com a
qual a sociedade aceita o TID. Os principais problemas levantados no primeiro momento da campanha são reforçados, como maus-
tratos, perda da infância e do direito ao bom aproveitamento dos
estudos. Nessa peça, há informações sobre como o Programa está
sendo desenvolvido e a indicação de que meninos e meninas têm
levado informações sobre direitos da criança a escolas de Belém, de
Soure e de Salvaterra. Por fim, há uma convocação para que os
cidadãos se envolvam no enfrentamento ao TID e denunciem quem
emprega crianças.
Figura 5 - Parte externa ao folder da segunda fase
Fonte: Petid.
Figura 6 - Parte interna ao folder da segunda fase
Fonte: Petid.
Nessas duas fases da campanha de publicidade, o discurso do
Petid se baseou no enfrentamento ao TID a partir de uma
perspectiva de direitos, de tal modo que esse tipo de prática fosse enquadrado como uma injustiça. Isso porque, às meninas
trabalhadoras domésticas, são negados direitos básicos, como o de
conviver com a família e com amigos, o de ter sucesso na escola e o de poder escolher uma carreira profissional. As peças
apresentadas até então reforçam o cuidado do Petid em não realizar
um confronto agressivo com os discursos que alimentam o TID. Ao
invés de apresentar os empregadores de crianças e adolescentes como “exploradores”, o Petid procurou ressaltar (a) os problemas
relacionados ao TID (falta de tempo para brincar e estudar,
agressões físicas e verbais, perda da convivência familiar e
comunitária) e (b) a responsabilidade de toda a sociedade pela
garantia dos direitos de meninos e meninas.
Em 2007, o Petid lançou uma nova campanha que questionava de
modo mais agressivo a “invisibilidade” do TID. O slogan era “Não
ver o problema é fazer parte dele”. No cartaz (Figura 7), figura a imagem de uma menina negra no centro e, ao redor, fotografias de
pessoas com diferentes características físicas e estilos de se vestir
tapando os olhos. A peça chama à responsabilidade de modo
distinto daquele que vinha sendo feito até então. Se, num primeiro
momento, o discurso do Petid era o de que cabia à sociedade em
geral respeitar os direitos de meninos e meninas, a partir de 2007, a
sociedade passou a ser considerada culpada pelo problema, na
medida em que o aceitava ou fingia não vê-lo.
Figura 7 - Cartaz da campanha do Petid de 2007
Fonte: Petid.
O texto do folder (Figura 8) é ainda mais enfático. Há respostas diretas e duras a vários discursos que legitimam o TID, como, por
exemplo, de que é uma forma de ajudar crianças pobres. Sobre o
que é TID, o texto do folder afirma que se trata de uma das
principais formas de exploração da criança e do adolescente. “O
Trabalho Infantil Doméstico é cruel porque, mesmo quando
estudam, as meninas têm baixo rendimento escolar, e a maioria
para de estudar”. (PROGRAMA DE ENFRENTAMENTO DO
TRABALHO INFANTIL DOMÉSTICO, 2007, 1 folder) Embora o prejuízo relacionado à educação tenha sido trabalhado nos dois
outros momentos da campanha publicitária do Petid, é a primeira
vez que está relacionado à crueldade.
Figura 8 - Parte interna do folder da campanha 2007
Fonte: Petid.
Em relação aos empregadores, a forma de se dirigir a esse
público é bem distinta da utilizada nas peças de 2001 e 2004:
Em geral, quem emprega uma criança ou adolescente para serviços domésticos não enxerga essa menina como um ser humano que merece todos os direitos, por isso acha que ela tem que se contentar com qualquer coisa ganha, seja uma roupa gasta, um caderno usado ou algum dinheiro no final do mês. (PROGRAMA DE ENFRENTAMENTO DO TRABALHO INFANTIL DOMÉSTICO, 2007, 1 folder)
Percebe-se que o Petid mudou, então, de estratégia e abandonou
a postura diplomática dos seus primeiros materiais de publicidade
(CAL, 2007) ao, inclusive, culpar diretamente os empregadores pelo
TID:
Se você emprega uma criança ou adolescente, desista dessa prática. Entregue a criança ou o adolescente de volta aos pais ou responsáveis imediatamente e contrate um adulto para fazer seus serviços domésticos,
pagando salários justos e de acordo com as leis trabalhistas brasileiras.
(PROGRAMA DE ENFRENTAMENTO DO TRABALHO INFANTIL
DOMÉSTICO, 2007, 1 folder)
O modo de orientar quem possui a guarda não regularizada de
meninos e meninas e os coloca para realizar trabalho doméstico
também ficou direto e enfático no sentido de dizer o que está certo
ou errado, de acordo com o posicionamento defendido pelo Petid. O
trecho reforça, ainda, o posicionamento da criança e do adolescente como vítima que está sujeita à sorte imposta pela família
empregadora.
De modo geral, a partir das campanhas e do relacionamento com
os meios de comunicação, os agentes do Petid procuraram dar
visibilidade ao TID como uma questão coletiva. Consideramos que o
discurso da “invisibilidade”, tão trabalhado pelo Programa, contribuiu
para lançar luz sobre o TID como um problema que merece
preocupação coletiva, mas, parece-nos, atribuiu aos sujeitos envolvidos uma condição de subordinação e subalternidade, que os
colocou na posição de vítimas, e não de sujeitos políticos.
A partir desse contexto, interessa-nos os conceitos de “político” e
de “relações de poder”, com os quais dialogaremos na análise, o
que faremos no capítulo seguinte.