Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências
Trabalho infantil doméstico como dominação?
Na próxima seção, abordaremos com maior aprofundamento uma
das relações de poder mais frequentemente atribuída ao TID: power
over, em cujo cerne está a dominação.
Trabalho infantil doméstico como
dominação?
– Desde a idade de dez, onze anos que eu trabalho em casa de família. Eu não recebia pagamento, o que eles me davam era sapatinho, roupa, o que eu precisasse eles me davam. E hoje em dia eu já luto com um bocado de dificuldade porque eu já estou com 51 anos e ninguém mais quer me dar trabalho. Eu estou trabalhando como diarista, mas não é uma assim uma coisa certa, não é? Porque, de uma hora para outra, eles podem me despedir e colocar outra pessoa, mais nova do que eu no caso.
Nete, participante do Grupo focal “Sindicato I”.
Os pesquisadores preocupados com o TID concordam que essa
atividade expõe crianças e adolescentes a situações de risco, a
humilhações e a maus-tratos, como resultados das condições físicas
e emocionais nas quais se desenvolve. (CARNEIRO; ROCHA, 2009;
LAMARÃO; MENEZES; FERREIRA, 2000) Para Lamarão (2008),
por exemplo, a dominação simbólica é uma das principais características do TID, o que faz com que ele seja travestido na
forma de um benefício mútuo para patroas e meninas empregadas,
quando, na verdade, trata-se de um poder latente, que pressupõe a
internalização dos valores dominantes pelo dominado. A autora
conclui que:
[…] essa dominação ultrapassa as fronteiras de uma relação econômica, que é potencializada e oculta ao mesmo tempo por ser mais que um trabalho, realizado em um contexto de dominação, de opressão, de mando, porque envolve um processo instituidor de condutas submissas e subalternas que se tornaram habitus e se expressaram como estigma. (LAMARÃO, 2008, p. 154)
A dominação ativa no TID, portanto, materializa-se no modo
mesmo pelo qual as meninas trabalhadoras se posicionam e se apresentam na realização das atividades domésticas e na relação
com a família empregadora. Como se elas carregassem “inscrito em
seu[s] corpo [s] o legado de classe”. (CARNEIRO; ROCHA, 2009, p.
140) “Classe” é entendida por esses autores tal como proposto por Souza (2009), e diz respeito, nesse caso, à reprodução e
assimilação afetiva de consensos não admitidos que naturalizam a
divisão da sociedade em gente e subgente, entre classes média e
alta e a ralé, como o autor se refere “provocativamente” a toda uma
classe de “despossuídos”, na qual ele enquadra a empregada
doméstica, o que discutiremos mais detalhadamente no terceiro
capítulo.
Segundo Blagbrough e Glynn (1999), o TID ocorre principalmente em sociedades nas quais é comum contratar empregados
domésticos de modo geral e onde é aceito que um grupo étnico – ou
classe, para usar os termos de Souza – sirva a outro. O Brasil é um
desses países em que a desigualdade social é tão profunda que
estimula uma percepção ampla de que uns sujeitos devem ser
servidos por outros, ideia que nos parece bastante viva,
principalmente no modo como os nortistas pensam e situam o lugar
social dos empregados domésticos. Na coletânea História das Crianças no Brasil (PRIORI, 2007), há relatos de diversos
pesquisadores sobre a servidão e o trabalho das crianças. Segundo
Priori, “A estratificação da sociedade, a velha divisão dos tempos da
escravidão entre os que possuem e os que nada têm, só fez agravar
a situação de nossos pequenos”. (PRIORI, 2007, p. 14)
Nesse sentido, as afirmações de Alberto e outros (2009) em
relação ao trabalho infantil corroboram ainda as considerações de
Souza sobre a manutenção e reprodução da desigualdade em nosso país. Para esses autores, há modos sutis de dominação,
como “a domesticação do corpo e da mente [de meninos e meninas]
para o trabalho, além da introjeção do trabalho como elemento
formador ou, ainda, como antídoto para a marginalidade”.
(ALBERTO et al, 2009, p. 60, grifo nosso) De acordo com Rizzini
(2007), as famílias dessas crianças e adolescentes entendem o
trabalho como um mecanismo disciplinador. Assim, “a ‘escola do
trabalho’ é percebida como a verdadeira ‘escola da vida’ – a criança é socializada desde cedo para ocupar o seu lugar em uma sociedade extremamente estratificada, onde lhe são reservadas as
funções mais subalternas”. (RIZZINI, 2007, p. 389)
O próprio contexto onde o TID se realiza, o lar, é marcado por
relações de poder, que estabelecem quem pode falar e ordenar e quem deve obedecer. Como ressalta Max Weber (1991b),
tipicamente, o espaço doméstico reproduz relações tradicionais de
domínio, a partir de uma fidelidade inculcada pela tradição e pelo
hábito. Na literatura feminista, o lar é um dos lugares onde as
mulheres – e, podemos acrescentar, as crianças – podem ser mais
assujeitadas e oprimidas. (OKIN, 2008) Em relação ao TID, a
dominação ocorre, sobretudo, entre mulheres: a que contrata ou
“cria” e a empregada ou “criada”. Apesar de os membros da família do sexo masculino terem a possibilidade de exercer poder sobre a
menina trabalhadora doméstica, quem é tradicionalmente colocada
como responsável por orientar, ensinar os modos de fazer o serviço
doméstico de preferência daquela família e a quem é cobrada a
fatura caso a menina não cumpra como deveria suas atividades é a
patroa.
Ao estudar as concepções de poder mobilizadas pelas teorias
feministas, Allen critica noções que consideram o exercício do poder pelas mulheres um uso benevolente, como se as mulheres fossem
sempre virtuosas ou como se fizessem exercício do poder apenas
de modo “maternal”: “Nós não somos incapazes ou relutantes em
usar nosso poder para ferir os outros simplesmente porque somos
mulheres; muitas mulheres têm acesso ao poder sobre outras
mulheres em virtude de sua raça, classe e/ou orientação sexual”.
(ALLEN, 1998, p. 31, tradução nossa) Como discutimos, o TID é
uma prática que pode favorecer esse tipo de relação. Ainda que seja vitimizada pelo marido e, por vezes, pelos filhos, a mulher dona da
casa exerce, em geral, poder sobre a menina doméstica e sobre
capacidade de decisão a respeito de escolhas da menina, como
tratamos anteriormente no caso das patroas que admitem não
querer o sucesso profissional em outras áreas das boas
empregadas.
Uma das faces mais claras dessa situação de dominação é
quando trabalhadoras infantis domésticas são humilhadas, maltratadas, castigadas e até abusadas sexualmente pelos patrões ou filhos deles. Ainda que as meninas relatem o abuso às patroas,
estas geralmente não acreditam ou então atribuem a culpa às
domésticas “que provocaram os desejos do patrão” por meio do uso
de roupas provocantes ou insinuações. (LAMARÃO; MENEZES; FERREIRA, 2000) Acerca desse assunto, em outro trabalho (MAIA;
CAL, 2012) relatamos o depoimento de uma ex-trabalhadora infantil
doméstica que, ao informar à patroa sobre a tentativa de abuso
sexual por parte do filho desta, a dona da casa reagiu, dizendo que
o menino era patrão dela e, portanto, tinha o direito de fazer o que
bem quisesse.
Essas vivências podem repercutir na imagem que as meninas têm
de si, como alertam Alberto e outros (2009, p. 59):
O trabalho infantil doméstico, em particular pela humilhação, pela baixa
autoestima e pela descaracterização como trabalhador, poderá promover o
embotamento afetivo. Da imagem de si emergirá ou não uma estima de si,
como o amor próprio, influenciada pela maneira de imaginar-se como será
visto pelos outros
Desse modo, o TID pode acarretar formas de desrespeito que
geram perda da autoconfiança, do autorrespeito e o reforço a
hierarquias sociais negativamente valorativas em relação aos
sujeitos que o exercem. Formas tornadas cotidianas de agressão e
rebaixamento moral por meio da demonstração recorrente do lugar
que cabe a essas meninas nas famílias em que vivem/trabalham ou
ainda na sociedade de modo geral – como, por exemplo, em relação ao tipo de roupa que a adolescente deve vestir para acompanhar a
criança de quem cuida ao shopping ou ao supermercado, ou ainda o
modo como deve, a adolescente trabalhadora, se comportar nessas
ocasiões – podem repercutir na maneira pela qual essas meninas se
consideram ou não dignas de respeito.
Nesse sentido, a distinção analítica que Honneth (2003) faz em
relação ao desrespeito, parece-nos pertinente para lançar luz acerca
do TID. Voltaremos a essa discussão no terceiro capítulo. Por ora, interessa-nos pontuar como essas categorias de desrespeito podem
contribuir para problematizamos o TID. Honneth (2003) aborda três
principais tipos de desrespeito: (a) Desrespeito como maustratos e violação; (b) desrespeito como privação de direitos; (c) desrespeito
como degradação e ofensa.
Maus-tratos a trabalhadoras infantis domésticas são largamente
retratados na maior parte das pesquisas sobre o tema. (FLORES-OEBANDA, 2006; FUNDO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A
INFÂNCIA, 1999; INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION,
2004, 2013; LAMARÃO, 2008; LAMARÃO; MENEZES; FERREIRA,
2000) A humilhação é a sua forma mais habitual e decorre,
sobremaneira, do modo pelo qual a trabalhadora infantil é vista
naquela família, isto é, como alguém que deve obediência
inquestionável aos patrões, como quem merece constante correção
com a finalidade de se ajustar aos comportamentos que a família empregadora considera adequados para uma menina criada ou
trabalhadora doméstica. (MOTA-MAUÉS, 2008) Como afirmam
Hasan e Salleem, “trabalhadores infantis domésticos estão também
sobre o risco do abuso, da violência e da crueldade rotineira. Eles
também sofrem abuso pelas mãos dos filhos dos patrões e de seus
pais”. (HASAN; SALEEM, 2013, p. 43, tradução nossa) Embora
estes últimos autores tenham como foco a análise da situação do
TID na Ásia, essas reflexões coadunam-se às pesquisas realizadas no Brasil em relação aos maus-tratos relacionados à situação de
TID. (LAMARÃO, 2008)
Sob o ponto de vista dos direitos, estudiosos e organizações
sociais afirmam que o exercício do TID acaba por subtrair vários
direitos conquistados por crianças e adolescentes, principalmente
aqueles relacionados à educação e à aprendizagem, à convivência
com a família e a comunidade, à proteção contra maus-tratos, aos
abusos físicos e à violência sexual, entre outros. (FLORESOEBANDA, 2006; FUNDO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA
A INFÂNCIA, 1999; INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION,
2004) Segundo a OIT, os oito principais riscos ocasionados pelo TID
são: longas horas de trabalho, trabalho físico pesado, abuso físico
ou emocional, abuso sexual, precárias condições de vida, salários
baixos ou ausência de pagamento, falta de oportunidades
educativas e falta de oportunidades para o desenvolvimento
emocional e social. Isso porque “além do que a carga de trabalho, as exigências físicas e psíquicas fazem com que o TID exproprie as crianças e os adolescentes do tempo do ócio, próprio e necessário
ao brincar e ao desenvolvimento”. (ALBERTO et al., 2009, p. 60)
Acerca do direito à educação, Alberto e outros (2011) afirmam que
a defasagem escolar, ou seja, estar numa série atrasada em relação à idade, é recorrente entre as crianças e adolescentes trabalhadoras
domésticas, em razão das longas jornadas de trabalho e do pouco
tempo que elas dispõem para se dedicar aos estudos.
Relações de TID também podem resultar em degradação e
rebaixamento moral. Nas hierarquias de prestígio predominantes em
nossa sociedade, o trabalho doméstico ou reprodutivo – em
contraposição ao economicamente produtivo –, de modo geral, é
considerado uma atividade desvalorizada. (ALLEN, 1998; OKIN, 2008; YOUNG, 2007) De acordo com Souza (2009), essas
hierarquias são percebidas a partir da análise do modo como
sujeitos e grupos de certa sociedade se percebem e se julgam. Para
esse autor, elas são histórica e socialmente construídas e ajudam a
explicar o “DNA simbólico” de uma sociedade, segundo o qual
certas virtudes ou características são condenadas ou
estigmatizadas, enquanto outras são valorizadas.
Por outro lado, Carneiro e Rocha (2009) lembram que outro modo de ver essa situação seria considerar que há modos particulares e
autênticos das pessoas da “ralé” 6 viverem suas vidas que não seja
situando-as na escala mais baixa dessa hierarquia valorativa. Porém, os autores afirmam que se trata de uma forma enganosa de
enxergar a realidade, especialmente no caso das trabalhadoras
domésticas. Ao analisar a história de uma doméstica chamada
Leninha, eles reconhecem a conquista de alguns avanços do ponto
de vista dos direitos, entretanto, afirmam que há um silenciamento
acadêmico e social em relação aos dramas e aflições aos quais
essas mulheres são submetidas. Segundo Carneiro e Rocha (2009),
esse silêncio repercute até mesmo entre as próprias envolvidas, que parecem “não articular com clareza e consequência a sua própria
condição, pelo simples fato de que essa condição encerra uma
realidade intragável […]. Nenhum ser humano suportaria viver da
verdade de tamanho desvalor social objetivo”. (CARNEIRO;
ROCHA, 2009, p. 142)
No entanto, há outras possibilidades de resposta em relação a
essa falta de clareza a respeito da própria situação por parte das
trabalhadoras domésticas (principalmente, as infantis, nosso tema
de estudo). Pode haver argumentos e formas de reconhecimento social que alicerçam condições de vida consideradas subalternas,
como em relação ao TID (MAIA; CAL, 2014), ainda que eles
contribuam para a construção de uma imagem de si em
conformidade com a ordem dominante. (HONNETH, 2007) Para
Honneth, trata-se do “reconhecimento ideológico”, baseado num
sistema de crenças que permite aos sujeitos envolvidos mobilizarem
razões para justificar escolhas e posicionamentos ainda que essas
decisões corroborem com a sustentação de mecanismos ideológicos. Dessa forma, o reconhecimento ideológico “garantiria a
disposição motivacional para cumprir determinadas tarefas e
deveres sem resistência”. (HONNETH, 2007, p. 336, tradução
nossa) O reconhecimento, moralmente justificado, seria o
contraponto quando as promessas são, de fato, cumpridas e abrem
caminho para a autorrealização dos sujeitos.
O sistema de crenças que propicia a existência do
reconhecimento ideológico possui três características específicas, conforme apontado por Rousiley Maia e Cal (2012, p. 4):
O sistema de crenças em questão deve: i) conceder uma expressão positiva ao valor das pessoas ou aos membros de um grupo, para que eles possam estabelecer uma auto-relação positiva; ii) ser ‘crível’ aos olhos daqueles a quem é endereçado, de modo a ser percebido como algo que realisticamente reforça os próprios sentimentos de autovalor e não restringe a própria autonomia; iii) proporcionar expressão a alguma nova conquista ou a um novo valor, de modo que os sujeitos se sintam mais propensos à ganharem distinção, em comparação com o passado ou com situações anteriores.
Podemos relacionar cada uma dessas características ao TID.
(MAIA, R.; CAL, 2012) Para várias meninas e mulheres envolvidas com essa prática, a inserção no TID se apresenta como uma
oportunidade de morar com uma boa família, passear em lugares
que normalmente não frequentam, viajar e estudar em escolas
consideradas melhores (CAL, 2007; LAMARÃO; MENEZES;
FERREIRA, 2000), além de ter acesso a bens de consumo que alimentam certo “status”, como roupas e celulares, ainda que de
segunda ou terceira mão. Essas “promessas” acerca do trabalho
infantil doméstico são críveis, não somente porque há casos –
poucos, é verdade – de meninas que conseguiram seguir nos estudos ou ter um bom casamento por meio do trabalho em casas
de família, mas, principalmente, por parecer como a oportunidade
concreta para muitas meninas de “obter sucesso na vida”. O
exercício do TID pode estimular ainda a expressão de uma nova
conquista materializada por meio de referências aos aprendizados
sociais propiciados pelo contato com uma família de uma classe
distinta da menina trabalhadora. (CARNEIRO; ROCHA, 2009; MAIA;
CAL, 2014) Entretanto, as promessas que engendram o TID normalmente não são cumpridas e geram desrespeitos relacionados
aos maus-tratos, propiciam a violação de direitos, a degradação e o
estigma social.
A perspectiva de Honneth (2007) contribui para tornar mais
complexa a resposta à pergunta sobre o porquê de sujeitos
permanecerem ligados a uma relação de subordinação, recorrendo
à ideia do reconhecimento ideológico e das bases racionais que o
sustentam. No caso do TID, a perspectiva do reconhecimento ideológico possibilita o entendimento sobre as razões e os
argumentos que meninas e mulheres diretamente envolvidas com
essa prática mobilizam no sentido de justificarem esse tipo de
atividade. (MAIA; CAL, 2014) Entretanto, entre o reconhecimento
ideológico – a partir do qual relações de poder são suavizadas por
meio de sistema de crenças que as justificam, o que prejudica a
conversão do sofrimento ou do desrespeito em luta – e a luta
política propriamente dita, parece-nos haver um espaço de resistência, de subversão e de construção de solidariedade que
merece ser investigado. É nesse contexto que nossa pesquisa se
insere.
Como recurso necessário para explicação do fenômeno
investigado e como pano de fundo fundamental deste livro,
abordaremos no próximo capítulo o contexto da luta contra esse tipo
de trabalho infantil, empreendida por organizações sociais e grupos
de advocacy.