Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências
Características dos grupos focais
fontes.
Uma informação coletada diferenciada em relação a esses outros
estudos é sobre o costume de ler jornais. Apesar de não pretendermos estabelecer nenhuma causalidade direta entre o
consumo de informação midiática e a forma pela qual as matérias
foram interpretadas, pareceu-nos relevante consultar as
entrevistadas sobre a frequência com a qual liam jornais e quais
jornais costumavam ler. Das 27 entrevistadas, 18 disseram consumir
informações dos media, sendo que a maioria (55,6%) o faz todos os
dias, sobretudo nas casas dos patrões. A preferência por jornal está
dividida: das 25 indicações de periódicos feitas por elas, 44% foram do Diário do Pará e 40% de O Liberal. O Amazônia Jornal, que é
uma versão popular do grupo O Liberal, recebeu 16% das
indicações.
Características dos grupos focais
Optamos por nomear os grupos focais preferencialmente de
acordo com os lugares onde foram realizados:
1. Grupo do Centro de Formação - contou com a participação de
cinco adolescentes de 14 e 15 anos e foi conduzido num de
Centro de Formação, vinculado à Igreja Católica, no bairro da
Terra Firme, em Belém, no dia 4de junho de 2011, um sábado
pela manhã, quando o grupo de jovens da Igreja normalmente
se encontra. Apesar de terem relação com as atividades de formação religiosa, consideramos que eram adolescentes não
vinculadas a projetos sociais de enfrentamento ao trabalho
infantil;
2. Grupo do Projeto Social - foi composto por cinco adolescentes
de 12 a 16 anos que participavam de um projeto social do
Cedeca-Emaús, cuja finalidade era prestar atendimento a
meninas vítimas de violência, principalmente sexual. Elas
passavam por oficinas e momentos de formação e se reuniam constantemente com a educadora que as acompanhava.
Organizamos o grupo focal numa quarta-feira, quando esses
encontros normalmente ocorriam, dia 8 de junho de 2011.
Consideramos as participantes sujeitos envolvidos com projetos
sociais de enfrentamento ao TID por ser essa uma temática prioritária para o Cedeca-Emaús;
3. Grupo do Sindicato I - participaram seis mulheres entre 42 e 57
anos, sendo quatro sindicalizadas há um ano, uma, há seis
anos e outra, há 13 anos. O grupo ocorreu no dia 10 de junho
de 2011, na sala da sede do Sindicato dos Trabalhadores
Domésticos, Arrumadores e Camareiros (Sintdac) dos
municípios de Belém e Ananindeua, localizado no bairro
Comércio, em Belém;
4. Grupo do Sindicato II - participaram cinco mulheres entre 42 e
57 anos, sendo quatro sindicalizadas há um ano e uma, há seis
anos. Como essas mulheres ligadas ao Sindicato moravam em
Ananindeua, elas preferiram que o grupo fosse realizado em
lugar mais próximo de suas residências, assim, o local
escolhido, pela disponibilidade e pela localidade, foi o Campus
BR da Unama. O grupo foi realizado em 16 de junho de 2011;
5. Grupo Condomínio - foi composto por cinco mulheres que
tinham entre 34 e 51 anos e trabalhavam formalmente como
empregadas domésticas em um condomínio de classe
média/alta em Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém.
O grupo foi realizado em 15 de junho de 2011 numa área
comum do condomínio, após o horário de trabalho das
participantes. A maior dificuldade que enfrentamos foi conciliar
os diversos horários de saída das mulheres entrevistadas, o
que só foi possível porque algumas conseguiram negociar a saída mais cedo com os patrões;
6. Grupo Cidade de Emaús - envolveu cinco mulheres de 51 a 57
anos. Todas oriundas de municípios do interior do Pará, mas
que já residiam em Belém há bastante tempo. Foi o grupo com
menor grau de escolaridade: apenas uma havia concluído o
ensino fundamental. As outras não chegaram a completá-lo. O
grupo foi realizado em 17 de junho de 2011, na Cidade de
Emaús, sede da Organização Não Governamental (ONG) Movimento República de Emaús, organização ao qual o Cedeca
é vinculado. Elas relataram participar de atividades recreativas
e educativas desenvolvidas nesse espaço há pelo menos três
anos e, portanto, aquele ambiente lhes era bastante familiar;
7. Grupo Casa da Patroa - contou com a participação de três
jovens adultas, de 26, 27 e 28 anos. Duas trabalhavam como
domésticas desde os 13 anos de idade e uma desde os oito. O
grupo ocorreu em 26 de junho de 2011 na casa da atual patroa
de uma delas, localizada no bairro Castanheira, em Belém.
Como a pesquisa abordava principalmente as relações de
trabalho durante a infância e adolescência, não tivemos
problema para obter o consentimento da patroa para realização
desse grupo focal. As outras duas entrevistadas estavam acostumadas a frequentar essa casa porque visitavam a colega
no local de trabalho, tanto que já eram conhecidas pela família
empregadora.
§
Neste capítulo, apresentamos a importância de considerarmos
tanto as perspectivas dos media quanto as das afetadas para entendimento sobre como o jogo entre relações de poder atua na
configuração política do trabalho infantil. Esclarecemos ainda,
nossas escolhas metodológicas e apresentamos os materiais que
compõem nosso corpus. No próximo capítulo, discutiremos as
categorias analíticas que construímos para apreciação dos textos
dos media e das falas de meninas e mulheres envolvidas com o TID
e iniciaremos a análise propriamente.