Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências

Tensões nas perspectivas dos media e das afetadas sobre projeções de futuro e responsabilidades

Tensões nas perspectivas dos media e das afetadas sobre

projeções de futuro e responsabilidades

 

Em síntese, os jornais trabalharam com dois discursos principais acerca do futuro

relacionado ao TID. O primeiro focava nos prejuízos que esse tipo de trabalho ocasionava a crianças e adolescentes, principalmente na área da educação e das possibilidades de formação profissional. O segundo referia-se ao Petid como aquele que afiançava um futuro para adolescentes envolvidas no TID. Assim, as personagens das matérias pareciam só ter futuro se estivessem sendo atendidas por programas e projetos sociais. Contudo, não há matérias com questionamentos sobre a eficácia do Petid em lhes garantir isso. Nesse sentido, o fato de os media analisados terem abordado o TID prioritariamente do ponto de vista de organizações e atores sociais, inclusive como parceiro formal, no caso de O Liberal, não estimulou uma postura crítica em relação ao modo como o Petid estava sendo desenvolvido e sobre o impacto concreto na vida das atendidas. De modo geral, algumas poucas meninas foram entrevistadas diversas vezes em diferentes momentos da cobertura, o que limita mais ainda a percepção sobre o futuro transformado da maioria das meninas atendidas.

Quando se falava de futuro para essas adolescentes, assim como nas falas das

mulheres dos grupos focais, o caminho era a educação. Entretanto, as poucas meninas beneficiadas pelo Petid noticiadas recebiam bolsa e participavam de momentos formativos (com foco em direitos, cultura, autoestima, para citar alguns) e, nesse sentido, teriam melhores condições de percorrê-lo do que as meninas e mulheres entrevistadas nos grupos. Ainda assim, quando se referiam ao futuro, a maioria das entrevistadas nos grupos focais mostrava-se crítica acerca das limitações do TID nesse aspecto e consciente que deveria buscar uma formação melhor (principalmente as adolescentes, as adultas jovens e as mulheres do Sindicato).

As mulheres do “condomínio” se mostraram parcialmente realizadas. Wanderléia,

por exemplo, disse que alcançou “um pouquinho” de seu sonho de ser enfermeira ao trabalhar cuidando de idosos, e as outras demonstraram acomodação com o emprego que têm porque se sentem respeitadas. Já as senhoras do grupo “cidade de Emaús” pensaram, sobretudo, no futuro que desejam para as netas, bem distante das casas de família e bem próximo delas.

A partir do que observamos em todos os sete grupos, os sentidos que atribuem a

“dar futuro” são baseados nas ideias de dignidade, legalidade e melhor remuneração pelo serviço que realizam, apresentando, de modo geral, assim como nos jornais, a incompatibilidade entre o serviço doméstico (considerado pouco digno) e o futuro que desejam, sendo que algumas reconheceram o TID como um “mal necessário” para chegar mais perto do que querem. A questão decisiva aqui é “como” elas pensam o futuro. Encontramos dois modos principais: como algo realizável, mas que está lá adiante; ou como algo que estamos sempre realizando. De um lado, o futuro é projetado, como porvir distante e aberto. De outro, há um futuro pragmático, desejado e perseguido no dia a dia. Isso, a nosso ver, compõe a dinâmica das relações de poder que ora cerceiam, ora abrem possíveis. A menina que insiste em estudar e a menina que não pensou nisso porque considera cedo demais lidam de modo muito diferente com a questão do futuro. Essas posturas geram implicações distintas para a configuração política do problema. Nesse sentido, agir no hoje vislumbrando mudanças futuras pode significar atuar para transformar práticas opressivas.

Sobre a repercussão da temática “responsabilidade” nos media, ganha destaque o

envolvimento de O Liberal no combate o TID. Por meio de matérias jornalísticas e editoriais, o jornal apontou como responsáveis pela ocorrência de TID: a sociedade e a cultura, em razão da “naturalização” dessa pratica; e a consciência do adulto que alimenta o TID ou ignora o problema e não age para que mudanças aconteçam. As meninas foram posicionadas como vítimas e, assim, caberia à sociedade se engajar para mudar essa realidade, criando condições para que elas pudessem realizar os próprios sonhos. O engajamento para combater o TID, portanto, não passaria pelas afetadas, que apenas seriam contempladas ao final de uma cadeia de ações de enfrentamento e mudança da realidade do TID.

Quanto às autoridades ouvidas pelos media, um governador e um vice, de gestões

distintas, pronunciaram-se uma única vez cada. E os contextos dessas falas eram, no primeiro caso, uma Caravana contra o Trabalho Infantil, financiada por organizações sociais e internacionais, e, no segundo, a assinatura de um termo de repactuação do PETI no Pará durante uma audiência pública na Assembleia Legislativa no Dia Mundial de Combate ao Trabalho Infantil. Percebe-se, assim, que essas autoridades de alto escalão somente apareceram nos media quando foram criados eventos construídos e chancelados por importantes organizações.

Durante o encontro da Caravana, o governador responsabilizou, em parte, o Estado

pelo TID, mas também destacou como maior vilã a dimensão “cultural” dessa atividade. Ao se responsabilizar a cultura por práticas como essa, provocase uma distância significativa entre as possibilidades de resolução do problema e aquilo que efetivamente pode ser feito, nesse caso, por instâncias governamentais. Nessa perspectiva, dizer que um problema é “cultural”, já traz em si uma justificativa pela dificuldade de sua solução e ameniza a responsabilidade do Estado na sua efetiva consecução. Nesse sentido, a crítica social pode ganhar contornos de um “gesto ritual” (SOUZA, 2009), mas que não se concretiza em políticas e ações.

Na cobertura desse mesmo evento, percebe-se o posicionamento como sujeito

político da adolescente, que não apenas leu uma carta sobre a situação do trabalho infantil ao governador, mas usou aquela oportunidade para tomar a palavra e pedir melhores condições para que crianças e adolescentes possam enfrentar a vida. Embora seja extremamente pontual na cobertura, esse gesto é relevante porque desloca a adolescente do encaixe no lugar de vítima do TID, como ocorreu de modo recorrente em outras temáticas analisadas, e provoca fissuras nesse quadro de inscrição dos sujeitos afetados na problemática do TID.

Nos grupos focais, as responsabilidades pelo trabalho infantil são abordadas

principalmente de um ponto de vista individual. Ainda que Souza (2009) defenda que a individualização da culpa seja reveladora de relações de dominação, o modo como as entrevistadas discutem esse assunto e atribuem lugar a si próprias reforça, em certa medida, sua capacidade de agência, especialmente a de tomar decisões que afetem significativamente as suas vidas. (ALLEN, 1998, 2000; BIROLI, 2012) Embora não considerem o TID o emprego ideal, elas enxergam nele a possibilidade de resistir a pais opressores – ou mesmo ao simples controle dos pais – ou ainda de adquirir alguma autonomia que lhes permita poder comprar o que desejam e buscar outras formas de vida.

As mulheres mais velhas, contudo, restringiram a responsabilidade pelo TID aos

pais, sem problematizar aspectos estruturais que alimentam essa prática. Já as entrevistadas do Sindicato colocaram essa situação de modo mais complexo ao explicar que faltava aos pais, conhecimento, e que isso seria resultado de conjunturas das quais eles não tinham controle.

O Estado também foi responsabilizado por parte das entrevistadas pela ocorrência

do TID. O único grupo em que essa discussão não apareceu foi justamente o das mulheres mais velhas. Para as adolescentes, tanto do “projeto social” quanto do “centro de formação”, entre as causas desse tipo de trabalho infantil está a ausência de projetos sociais e cursos profissionalizantes voltados para meninos e meninas. As jovens adultas do grupo “casa da patroa” destacaram a necessidade da criação de políticas de emprego e renda para as famílias. Já as empregadas do “condomínio” questionaram como o Estado determina a proibição do trabalho infantil sem oferecer retaguarda para tanto. Segundo elas, a partir desse contexto, o fato de não trabalhar e de não ter escola atrativa poderia encaminhar os adolescentes para a marginalidade. É pertinente observar que não se trata, simplesmente, do discurso segundo o qual o adolescente precisa trabalhar para não cair no mundo do crime. É mais do que isso, na medida em que, a partir de suas experiências concretas, elas verificam o paradoxo da ação do Estado entre a promulgação de leis de proteção e a falta de condições para que as crianças e adolescentes sejam, de fato, protegidos ou incentivados a construírem dignamente o caminho profissional.

§

No próximo capítulo, que é o de conclusão do livro, realizamos análises transversais

dessas temáticas com objetivo de apreender como o jogo entre relações de poder atua na configuração política do TID tanto na perspectiva dos media quanto das afetadas.