Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências
Que poder?
trabalhadoras domésticas. De outra forma, “[…] corremos o risco de,
a partir de generalização, jogar por terra toda uma prática política
destas mulheres em condição de subalternidade e, no seu lugar, colocarmos nossa perspectiva sobre o que seja poder, democracia e
participação”. (BRITES, 2003, p. 78)
É na interseção entre as perspectivas de Souza e a de Brites que
buscamos desenvolver nossa investigação. Estamos interessadas
em apreender como certo jogo entre relações de poder em torno do
TID atua na configuração desse tema como questão política, tanto a
partir do ponto de vista das próprias envolvidas, no caso meninas e
mulheres ex-trabalhadoras infantis domésticas, quanto no âmbito de visibilidade ampliada dos media. Dessa forma, é necessário tanto
reconhecer a existência e atuação dessas relações de poder como
mecanismos de dominação e reprodução de condições de
subalternidade, quanto perceber as possibilidades de agência e de
questionamento do contexto que também compõem a teia de
relações na qual se inscrevem esses sujeitos.
Como ponto de partida, consideramos fundamental recorrer a
algumas das principais noções de poder, pensando, principalmente, nas implicações entre dominação, resistência e solidariedade. Em
seguida, em outro passo da investigação (detalhado nos capítulos
quatroe cinco), analisaremos como os media trataram dessa
temática nas matérias sobre o TID. Nosso objetivo é o de explorar
determinadas configurações discursivas dessas relações de poder
na arena pública e, também, examinar como meninas e mulheres
ex-trabalhadoras infantis domésticas articulam e constroem sentido
sobre (e a partir das) relações de poder em torno do TID.
Que poder?
Quase todos os textos que tratam sobre o conceito de poder
começam pela constatação da dificuldade de defini-lo, ou mesmo de
encontrar uma essência, um núcleo central que oriente as diferentes
visadas sobre o conceito. Não há como fugir dessa ressalva. Trata-se de um dos conceitos mais controversos e difíceis de
operacionalizar. (PERISSINOTTO, 2008; NOBRE et al., 2008)
Diversos autores construíram tentativas de sistematização e
organização das diferentes visões teóricas a respeito desse tema. (NOBRE et al., 2008; PERISSINOTO, 2008; LUKES, 1980, 2005;
HAUGAARD, 2012; ALLEN, 2000, 1998, 2013) Uma referência
central nesse campo é Steven Lukes, que defende a ideia de que
“poder” seria um conceito essencialmente contestado (essentially
contested concept). Isso significa, por um lado, que há uma
diversidade de concepções de poder e que existe uma grande
dificuldade de estabelecer o que seria o cerne do conceito. (LUKES,
1980, 2005) Por outro, pode indicar exatamente a riqueza do conceito, ao dar ensejo a abordagens variadas de múltiplos
fenômenos, apesar de implicar grandes desafios para
operacionalização. (HAUGAARD, 2010)
De acordo com Ricardo Silva (2011), a expressão essentially
contested concept refere-se a “conceitos arredios a definições
unívocas” (SILVA. R, 2011, p. 03), o que significa dizer que há uma
disputa entre correntes teóricas a respeito dos critérios para
utilização desses conceitos. Dentre essas perspectivas contrastantes, as mais frequentes na literatura sobre o tema em tela
é a tensão entre o poder como dominação (power over) e o poder
como empoderamento (power to). (HAUGAARD, 2012; ALLEN,
1998)
Lukes apresenta uma explicação mais radical a respeito do poder
como conceito essencialmente contestado, de tal forma que nossas
próprias concepções de poder seriam moldadas por relações de
poder. (ALLEN, 2013) De acordo com o autor:
[…] como pensamos em poder pode servir para reproduzir ou reforçar
relações e estruturas de poder ou, alternativamente, pode desafiá-las ou
subvertê-las […] Na medida em que isto é assim, questões conceituais e
metodológicas são inescapavelmente políticas e, assim, o que significa
‘poder’ é ‘essencialmente contestado’. (LUKES, 2005 apud ALLEN, 2013, p.
4, tradução nossa).
Ou seja, o modo como se pensa sobre poder também é
atravessado por relações de poder, e diz do consentimento a elas ou do questionamento a elas infligido. Para Allen, esse tipo de