Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências

Perfis das participantes dos grupos focais

Durante os grupos focais, procurávamos não tecer juízos de valor

e não apresentar nossas opiniões acerca dos assuntos tratados.

Apenas fazíamos indagações e orientávamos a discussão. Em

alguns momentos, relatamos casos pessoais, como dilemas do início do casamento sobre a divisão das tarefas domésticas e

algumas outras situações que estimularam a interação e a

identificação entre moderadora e entrevistadas. Poucas vezes, ao

final dos grupos, foi preciso retomar alguns pontos e inclusive fazer

esclarecimentos, principalmente sobre a legislação. Como afirmam

Kitzinger e Barbour (2001), após o encerramento do grupo focal, é

um dever ético do pesquisador corrigir informações imprecisas ou

equivocadas que tenham surgido durante a discussão.

 

Perfis das participantes dos grupos

 

focais

 

No total, entrevistamos 27 meninas e mulheres cujas idades

variaram de 12 a 68 anos, sendo que a maioria (48,1%) estava

acima dos 40. O percentual restante era composto por adolescentes

de 12 a 16 anos (37%) e mulheres entre 20 e 39 anos (14,8%).

Quanto à localidade de origem, portanto, antes da inserção no

serviço doméstico, 48,1% delas vieram do interior do Pará, o que

corrobora os estudos apresentados no primeiro capítulo sobre a vinda de meninas de outros municípios para exercerem trabalho

doméstico na capital, 44,4% eram de Belém e 7,4% vieram de

municípios do Maranhão.

Em relação às funções exercidas quando começaram a trabalhar,

40,7% das entrevistadas afirmou que desenvolvia funções

domésticas em geral, 33,3% eram babás e 14,8% disseram não

trabalhar fora, “só em casa”.16 Esse dado é relevante para

entendermos o quanto os serviços realizados dentro de casa por

meninas não são vistos como um trabalho, ainda que demandem

longas jornadas e que essas meninas sejam as únicas responsáveis

por cuidar da casa e cozinhar para a família.

Merece destaque ainda, o fato de que a grande maioria das

entrevistadas começou a trabalhar entre os 4 e os 13 anos de idade

(66,7%)17 e que não recebiam remuneração pelas atividades

exercidas (70,4%). Das que recebiam pagamento, apenas duas

afirmaram receber um salário mínimo. As outras relataram receber

entre cerca de R$ 30 e R$ 200 reais por mês. As que não recebiam

dinheiro informaram que ganhavam roupas, calçados, alimentação e, algumas, material escolar.

Quanto ao grau de escolaridade, 33,3% estavam cursando o

ensino fundamental na época da entrevista e outros 29,6% disseram

ter parado de estudar antes de completar o ensino fundamental.

Três mulheres (11,1%) responderam que tinham concluído esse

nível de ensino, duas (7,4%) que não haviam terminado o ensino

médio, quatro (14,8%) declararam tê-lo finalizado e uma (3,7%)

ainda o estava cursando.

Questionamos ainda as participantes acerca da ocupação que

exerciam na época da realização dos grupos. Continuavam

trabalhando com serviços domésticos, 48,1% delas; porém, 18,5%

dessas, encontravam-se desempregadas. O principal motivo

apontado por elas próprias era o fato de terem mais de 40 anos, o

que dificultava a contratação para esse tipo de serviço. Declaram-se

estudantes, 18,5%, donas de casa, 11,1%, estudantes que

trabalham, 11,1% (sendo duas em serviços domésticos e uma em vendas), entregadora de pastel, consultora de venda e autônoma

tiveram a mesma ocorrência: cada um 3,7%.

Sobre as condições de moradia e renda, a média de pessoas

moradoras nas casas das entrevistadas era de cinco, e o máximo

chegou a 11 indivíduos vivendo sob o mesmo teto. Chama atenção

o fato de que, apesar de uma composição familiar grande, a

tendência é que poucos membros recebam salário, de tal forma que

maior parte das entrevistadas (74%) declarou ter renda familiar de até dois salários mínimos.

De modo geral, os perfis das participantes dos grupos focais que

realizamos coadunam as informações obtidas por pesquisas

anteriores (INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION, 2013;

LAMARÃO, 2008; LAMARÃO, MENEZES, FERREIRA, 2000;

LAMARÃO, 2008), o que, a nosso ver, reforça certa representatividade “típica”, ainda que não estatística, das nossas