Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências
Projeções de futuro e responsabilidades
Contudo, essa perspectiva não é majoritária entre as meninas e mulheres ouvidas.
Elas também ressaltaram, principalmente as adolescentes, as jovens adultas e as sindicalizadas, os prejuízos que o TID pode provocar à educação formal e apontam o estudo como uma promessa que não é concretizada quando as meninas começam realmente a trabalhar em casa de família. As mulheres do Sindicato reafirmaram a possibilidade de romper com o círculo de pobreza estimulado pelo TID por meio da educação e do reforço à capacidade das trabalhadoras domésticas conseguirem esse objetivo.
Projeções de futuro e responsabilidades
Nesta última grande seção de análise, lançamos luz a respeito das relações de
poder e a tematização das perspectivas de futuro de meninas e mulheres afetadas pelo trabalho infantil nos media e nos grupos focais. Consideramos essa temática pertinente para nosso problema de pesquisa porque possibilita apreendermos o que está em jogo quando se projeta um futuro para elas e a partir delas. De modo correlato, discutir como são atribuídas responsabilidades pelo TID nos permitirá completar o quadro analítico por meio do qual examinaremos como relações de poder participam da configuração política desse tipo de trabalho infantil.
Perspectivas de futuro
A temática “perspectivas de futuro” foi abordada em apenas 14 matérias nos media
estudados. Trata-se, portanto, de um assunto pouco tratado na cena pública. Ainda assim, houve dois modos principais pelos quais o futuro foi relacionado ao TID: a) TID como prática que traz prejuízos ao futuro de crianças e adolescentes e b) o Petid proporcionando um futuro a meninas que não o teriam antes dele. O primeiro foi apresentado, sobretudo, a partir da fala de especialistas e atores sociais, representantes do Cedeca-Emaús, do Unicef e da OIT. O segundo decorreu da forma como os media analisados se apropriaram de relatos de meninas ex-trabalhadoras domésticas utilizadas como personagens e os enquadraram na tessitura narrativa dos jornais.
Por meio da tematização do TID como uma violação de direitos da criança, o futuro,
apresentado como um desses direitos, também poderia ser prejudicado. Frente a discursos compartilhados socialmente de que poderia ser uma saída para crianças pobres – o qual ganhou contornos específicos, quando discutidos nos grupos focais –, especialistas e representantes de organizações sociais, quando ouvidos, enfatizaram a impossibilidade de que a criança ou adolescente tivesse um futuro profissional promissor a partir da entrada no TID.
‘A única oportunidade de futuro que essas meninas que trabalham como domésticas têm, se não
tiverem educação e profissionalização, é continuar trabalhando como domésticas’, diz Jaques
Schwarzstein, coordenador do Unicef para a Amazônia. (O LIBERAL, 16/10/2003)
Assim, a prática do TID é considerada opressiva porque constrange as alternativas
de futuro e restringe as conquistas possíveis das crianças e adolescentes que o exercem. Essa perspectiva estava em perfeita consonância com o material da primeira campanha de publicidade elaborado pelo Petid (ver capítulo dois), que trazia como principal referência a ideia de que o futuro se constrói em casa, mas com carinho e proteção dos pais, e não com trabalho infantil. Nesse sentido, as falas de atores sociais e especialistas reforçaram no âmbito dos media a incompatibilidade entre a construção de um futuro digno para meninos e meninas e a inserção no TID.
Portanto, combater o TID significava permitir a perseguição de um futuro distinto, em
que sonhos pudessem ser realizados. Na retranca “Meninas recuperam direito de sonhar”, da mesma matéria citada anteriormente, são contadas as histórias de duas personagens que foram trabalhadoras infantis domésticas e estavam sendo atendidas pelo Petid.
Moradoras do Benguí e colegas de escola, DBB, 15 anos, e LSS, 13, começaram a trabalhar
como babás para ajudar as mães, desempregadas e sem ajuda dos pais das meninas. Ambas
entraram no Aquarela dos Sonhos [Petid] em maio deste ano, quando uma assistente social
visitou a escola. Agora, recebem bolsa-escola, fazem cursos no Cedeca e estão descobrindo no
teatro uma forma de ampliar as relações com o outro e alimentar o sonho. DBB está na 7ª série e
quer ser modelo ou atriz. LSS está na 6ª série, adora geografia e estudos amazônicos, odeia
matemática e sonha tornar-se advogada: ‘A filha da patroa da minha mãe era advogada. Eu
achava ela muito bonita. Depois que comecei a fazer os cursos do Cedeca também fiquei
pensando em ser advogada para defender os direitos das crianças’. (O LIBERAL, 16/10/2003,
grifo nosso)
Carneiro e Rocha (2009) discutem a história de vida de Leninha, uma mulher que,
desde o início da adolescência, vivia como agregada na casa de uma família burguesa. Eles detalham o quanto que Leninha ressaltava o desejo de ser igual às filhas do casal, frequentar os mesmos lugares, namorar o mesmo tipo de rapaz, gozar do mesmo conforto e das mesmas expectativas acerca da vida. Contudo, os anos vão passando, e ela vai percebendo que a distância entre os possíveis para ela e os para as filhas do casal era intransponível. No caso da adolescente ouvida na matéria, a inserção no Petid contribuiu para que ela se sentisse empoderada e recuperasse a possibilidade de se imaginar como a filha da patroa. Enquanto convivia na casa da patroa da mãe, admirava a filha dela, que era advogada, mas havia um fosso muito grande entre as possibilidades concretas da menina e a profissional do direito. A atuação, então, do Cedeca-Emaús permitiu que a adolescente considerasse esse obstáculo passível de ser superado.
Assim, o lugar de fala da adolescente é de alguém que está construindo sonhos,
pensando em alternativas de futuro, as quais foram possíveis a partir da ajuda do Cedeca-Emaús. Encontramos vários os exemplos dessa natureza ao longo da cobertura, nos quais são apresentadas como personagens, meninas que saíram do trabalho doméstico por meio do Petid e construíram expectativas sobre mudança das condições de vida.
Soraia, de 17 anos, é uma delas. Na primeira parte da matéria, são relatadas
diversas humilhações que a adolescente sofreu desde que começou, aos 11 anos, a trabalhar em casas de família, até entrar para o Petid:
Hoje, consciente e inserida no programa de combate ao TID, Soraia critica as famílias que a
empregaram com promessas de ajuda não cumpridas, mais a exploração, mas não culpa a mãe
por tê-la entregue ao trabalho. Quer recuperar o tempo perdido e tornar-se [sic] assistente social,
profissão que ela já experimenta um pouco no trabalho de organizar outras meninas para discutir
os problemas e avançar nas soluções. Também participa de cursos de qualificação, enquanto faz
a 8ª série do ensino fundamental. (O LIBERAL, 12/02/2004)
Assim, o modo com a ações do Cedeca-Emaús são apresentadas, em comparação
à situação anterior de vida das meninas atendidas, posicionam a organização como incentivadora do empoderamento dessas adolescentes, sem capacidade e condições de procurá-lo por si mesmas. Por outro lado, Romano (2002, p. 14) ressalta, como vimos no terceiro capítulo, que o “empoderamento não é algo que pode ser feito a alguém por uma outra pessoa” e que as instituições podem criar um ambiente favorável, mas que esse processo pressupõe uma conquista particular. Assim, ser atendida pelo Petid alimenta a percepção sobre a possibilidade de mudar de vida.
A cobertura dos jornais sobre a temática do futuro posicionou as adolescentes
afetadas pelo TID como resistentes à condição de trabalhadora doméstica e, ainda, como sujeitos políticos que participam de ações em prol do enfrentamento dessa prática. As meninas ouvidas nessas condições eram atendidas pelo Cedeca-Emaús. No limite, podemos dizer que, na arena discursiva dos media, a existência de futuro para meninas envolvidas com o TID estava condicionada à participação no Petid. E que futuro seria esse? Quais as possibilidades concretas de transformação de vida dessas meninas, ainda que inseridas em projetos sociais? Segundo o discurso construído pelos jornais acerca do futuro dessas meninas, a entrada no Petid é a própria garantia de poder tê-lo. Todavia, a tematização desse assunto nos jornais não avança para além do Programa, ou mesmo para problematizar suas ações e a eficácia delas em tornar essa (nova) promessa concreta.
Apesar de toda a crítica que os media endereçam à prática do TID, não há nenhum
espaço, nos 10 anos de cobertura analisados, para a discussão sobre as ações do
Petid e sobre as consequências na vida de crianças e adolescentes atendidos.16 Permanece, assim, uma questão em aberto: mesmo partindo do pressuposto de que a atuação do Petid era a melhor possível para estimular a garantia dos direitos de meninos e meninas beneficiados, a promessa bastante crível de mudança nas condições de vida desses, alimentada pela inserção no Programa, não poderia dar margem para um novo reconhecimento igualmente ideológico? Qual a distância entre as promessas envoltas na condição de beneficiário do Programa e as suas efetivas realizações materiais?
Perspectivas de futuro a partir dos grupos focais
Investigar o que meninas e mulheres ex-trabalhadoras domésticas vislumbram como
futuro nos permite analisar como esses planos são construídos e como elas se posicionam nessa cena projetada. Além de falarem sobre sonhos e perspectivas individuais, a visão de futuro que as entrevistadas desenham inclui vontades relacionadas à prática do TID e das condições de meninas que o realizam. De modo geral, nos grupos com adolescentes e mulheres jovens, a principal expectativa de futuro é a entrada no ensino superior. Elas acreditam que se conseguirem cursar um curso universitário terão melhores oportunidades profissionais, o que lhes permitirá dar uma vida mais digna aos seus filhos e fazer com que não precisem passar pelo que viveram no TID.
No grupo “centro de formação”, uma das meninas afirmou conhecer uma
adolescente que havia sido trabalhadora infantil doméstica e que conseguiu fazer faculdade:
Moderadora: E vocês, me digam, assim, o que vocês querem pra vida de vocês?
Tatá: Ou quero ser veterinária ou cientista.
Nati: Eu quero ser ou quero fazer medicina ou psicologia.
Moderadora: E vocês?
Lorrane: Eu quero ser cantora. Eu também quero ser atriz.
Moderadora: E tu, o quê que tu queres ser?
Drika: Policial.
Moderadora: E tu, Diana, o quê que tu queres ser?
Ana: Não faço ideia.
Moderadora: Nunca pensaste nisso? Sério, tu nunca pensaste nisso? […] E vocês acham que o
trabalho infantil doméstico dá futuro?
Ana: Acho que não.
Moderadora: E vocês, o quê que vocês acham?
Nati: Pra mim, não dá futuro.
Lorrane: Assim, eu conheço uma colega minha que pra ela deu futuro ser trabalhadora
doméstica. Porque ela deu muita sorte de ter encontrado um patrão bom. Porque ela trabalha e aí
eles deixavam ela estudar, eles pagaram uma faculdade pra ela. Eu sei que ela tá se dando bem.
Parece até que ela já viajou para a Europa, parece. […]
Moderadora: Mas vocês acham que isso acontece muito?
Não.
Nati: É raro. (CENTRO DE FORMAÇÃO, grifo nosso)
Ao serem questionadas sobre o que queriam para a vida, a maioria das meninas
entrevistadas prontamente citou profissões aos quais gostariam de ter, porém uma das meninas afirmou que não sabia o que queria e, portanto, não tinha uma resposta. Nesse caso, percebemos na nossa própria fala como moderadora, um juízo de valor sobre o assunto, por mais que nos esforçássemos para não emiti-los durante os grupos, esse momento de interação não é controlável no todo. O fato de indagarmos “Sério, tu nunca pensaste nisso?” marca, de certo modo, nosso lugar de fala, de quem cresceu pensando que o futuro estava ligado à definição de carreiras universitárias, as quais, desde a escola perseguíamos, embora em vários momentos com dúvidas sobre quais seguir, porém sempre com opções.
Quando a adolescente afirmou nem sequer ter vislumbrado uma carreira, aquilo nos
provocou estranheza, pois o entendimento que temos de infância e de adolescência é que são sujeitos em formação e que participam da construção de planos em longo prazo. (FONSECA, 1995) Essa é a nossa perspectiva sobre o futuro. E a delas? Em certa medida, algumas delas compartilham desse imaginário quando apontam carreiras que gostariam de ter. Mesmo quando uma delas afirma que conhece uma menina que “teve futuro” a partir do TID, o que é ressaltado como indício disso é o fato de ela ter cursado o ensino superior. Portanto, ainda nessa perspectiva, o futuro que advém a partir também de acesso a recursos educacionais.
Apesar de indicar um caso bem sucedido de TID, elas apresentam-se cientes de que
trata de uma situação bastante incomum. Não percebemos, nesse grupo, nenhum vislumbre com a ideia de que o TID poderia ser o caminho de uma vida melhor, pelo contrário. Quando citado, como no caso da adolescente que estava buscando um trabalho, era para suprir uma necessidade imediata de ter seu próprio dinheiro, mas, ainda assim, não demonstraram se tratar de uma forma de crescer na vida.
Essa mesma percepção foi compartilhada entre as adolescentes do “projeto social”:
Moderadora: E quando a patroa é boa, vocês acham que o trabalho doméstico dá futuro?
Michelle: Mesmo assim, não dá futuro. Porque não é isso que a gente quer pra gente. Nós
queremos algo mais.
Moderadora: O quê?
Lecka: Queremos um trabalho que seja digno de nós mesmo. Não é isso que vai dar futuro […]
Erizinha: No caso, correr atrás de nossos sonhos. Que nem a mamãe diz: corre atrás dos teus
sonhos.
Michelle: Aí, no caso a pessoa quer ser doutor… Não pensa em ficar ali na cozinha lavando as
panelas dos outros. [risos]
Moderadora: E vocês querem ser o quê?
Erizinha: Quando eu crescer, eu quero ser pediatra.
Entrevistador: E vocês?
Michelle: Eu quero ser professora de matemática. [risos]
Entrevistador: E vocês?
Lecka: Ah! Eu queria ser uma promotora de justiça.
Alicinha: Eu quero ser juíza, ganha mais! [risos] Melhor do que ser professora… [risos]
Lecka: E tu, Cris?
Michelle: Eu quero ser Cientista.
Erizinha: Eu quero ser pediatra ou veterinária, cuidar de animais
[…]
Alicinha: E tu, Cris?
Moderadora: Ainda não pensaram sobre isso, não é Cris? Quando tu te vês daqui a dez anos…
tu te imaginas como?
Cris: Não tem que falar antes do tempo, se não pode acontecer errado. Falta muito tempo.
Michelle: Não! Nada a ver.
Erizinha: Pode ser por isso que a gente fala, a gente sonha em ser isso, um dia a gente pode
alcançar este sonho e ser isso que a gente quer. (PROJETO SOCIAL)
Para as adolescentes ouvidas, a construção de um futuro melhor se baseia na
inserção em um tipo de trabalho considerado mais digno do que o doméstico. Assim como as adolescentes do “centro de formação”, a maioria apontou profissões e carreiras que gostariam se seguir por afinidade ou pela remuneração que propiciam. Uma delas, porém, preferiu não falar sobre isso porque o futuro estava distante. O modo como as outras participantes se posicionaram sobre isso destacou a percepção de que o futuro está implicado no hoje. Portanto, construir sonhos e fazer planos já seriam uma forma de irem construindo esse futuro.
No “projeto social” também não houve nenhuma referência à ideia de que o TID seja
uma forma de alcançar esse futuro que elas buscam. Sobre esse assunto, Michelle foi taxativa: “Aí no caso a pessoa quer ser doutor… Não pensa em ficar ali na cozinha lavando as panelas dos outros”. Portanto, há uma dimensão crítica forte no grupo em relação às possibilidades propiciadas pelo TID. Para diminuir a distância entre seus sonhos e a situação na qual vivem hoje, as adolescentes acreditam na importância de estudar e se interessar pela escola para isso.
De acordo com os dois grupos de adolescentes, pensar no futuro significa afastar-se
do TID. A forma como elas discutem o futuro desvela resistência à condição de trabalhadora infantil doméstica porque elas analisam como falsas as promessas de melhorar de vida (embutidas no ideário do TID) e se referem a modos de superação desse lugar, que consideram pouco digno e sujeito a humilhações.
Entre as adultas jovens do grupo “casa da patroa”, houve manifestações de que
esse tipo de trabalho infantil poderia “dar futuro”, dependendo dos patrões e da adolescente. Essa posição é baseada, sobretudo, na história delas, que vieram da zona rural de municípios do interior com pouca infraestrutura educacional e poucas opções de emprego. Naquela condição, como já discutimos anteriormente, o TID se apresentava como uma alternativa viável para as adolescentes. Contudo, quando imaginam hoje um futuro, elas pensam em ter um curso superior, ter uma casa e uma família:
Moderadora: E para o futuro de vocês, o que vocês imaginam daqui uns cinco anos ou dez anos?
[Risos]
Maria: Eu imagino muita coisa.
Moderadora: Como é que vocês vão estar?
Nanã: Eu daqui uns cinco anos eu queria pelo menos ter voltado a estudar, ter uma casa que eu
não tenho, não é? E ter a minha família.
Maria: Daqui uns cinco anos eu penso e peço para Deus que me ajude eu estar terminando a
minha faculdade para eu ter um emprego melhor e ter a minha família e seguir a vida… [Risos]
Moderadora: E tu Carol?
Carol: Creio que daqui… Em nome de Jesus, não é? Que daqui uns cinco anos eu estarei com a
minha família, estarei em um bom emprego… Eu creio não é? Nós temos que profetizar sobre a
nossa vida tudo de bom, não é? E poder já voltar para lá ate com filhos, não é? Não sei, mas
assim eu quero poder dar tudo para o meu filho aquilo que eu não tive oportunidade
Maria: Nós temos que ter um emprego bom para poder dar…
Moderadora: E o que é um emprego bom?
Maria: Olha, emprego bom, assim sem ter que estar na casa de família e ganhar pelo menos
assim um salário a mais de quinhentos e pouco, mil e pouco para poder ter, para eu ajudar meu
filho, comprar aquela roupa que eu não tive…
Moderadora: Ah, entendi então, pode ser então trabalho na casa de família desde que seja um
salário maior.
Maria: É, mas assim mesmo daqui uns cinco anos, eu te garanto que se Deus quiser eu já estarei
em uma faculdade tentando arrumar um emprego melhor para mim. Moderadora: Que faculdade?
Maria: Eu pretendo fazer pedagogia.
Nanã: Ô meu Deus… [Risos]
Maria: Para ensinar crianças, eu me identifico muito com criança, eu já trabalhei muito de babá,
então… Porque assim eu vejo lá no meu lugar, pessoas assim que não estudaram e que tem essa
oportunidade de ensinar crianças… Vão ensinar o quê que se não sabem? [Risos]
Moderadora: E tu Carol, que profissão pretende ter?
Carol: Assim, em um escritório trabalhar com pessoas… eu gosto de pessoas, falar com público…
Moderadora: Mas quer fazer faculdade?
Carol: Pretendo, mas para isso eu preciso conseguir um emprego que eu possa ganhar mais de
um salário para poder pagar, não é? Porque com um salário não tem como eu pagar a faculdade
se eu conseguir um emprego melhor… (CASA DA PATROA)
Elas reconhecem a dificuldade de conseguirem conquistar os seus sonhos e fazem
votos de fé para que eles se concretizem. No entanto, não se trata apenas do que Souza chama de “saídas mágicas”, que se referem à crença em mudanças rápidas, “decretos que mudam o mundo com uma penada”. (SOUZA, 2009, p. 431) A nosso ver, as participantes dos grupos focais não se apresentam como sujeitos que estão à espera de saídas mágicas, simplesmente como “presentes caídos do céu”, apesar do forte componente religioso em suas falas. Isso porque sabem do caminho que precisam percorrer para buscar seus sonhos. Carol, por exemplo, afirma precisar de um salário maior para poder pagar a faculdade. Naquele momento da entrevista, ela era a única participante que, além de trabalhar como babá, fazia cursos profissionalizantes na área de informática, o que sinaliza que esse desejo de ter um emprego melhor estava sendo perseguido. O gesto de Carol demonstra o engajamento na consecução dos planos de futuro e desvela uma ação de resistência à condição de trabalhadora doméstica. Predomina, nesse caso, power to como habilidade para questionar e subverter lógicas opressivas. (ALLEN, 1998, 2000)
Entre as mulheres do Sindicato, a educação também é destacada como principal
perspectiva de futuro, sobretudo, quando, após os 50 anos, há poucas oportunidades de trabalho. Para as senhoras do grupo “cidade de Emaús”, o olhar que lançam acerca do futuro envolve principalmente os netos, a vontade de que tenham uma vida honesta, melhores condições de trabalho e que não passem as mesmas dificuldades que as avós na infância e na adolescência, vivendo em casas de família.
As entrevistadas que trabalham em condomínio se disseram satisfeitas com a
condição atual. Afirmaram que se sentem respeitadas nos seus empregos porque recebem todos os direitos trabalhistas e outros benefícios ainda não regulamentados com o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Trabalham oito horas por dia e
ganham hora-extra se precisarem gastar mais tempo no serviço:17
Moderadora: E vocês tinham vontade de ter outras profissões quando vocês eram adolescentes?
Tamires: Quando eu era, eu tinha muita vontade de ser uma professora, eu tenho maior vontade
de ser professora, mas… [risos].
Wanderléa: Na minha infância eu brincava muito de… O tempinho que eu tinha, a gente
brincava… Minha mãe fazia aquelas bonecas de milho, de pau, do que fosse. O pouquinho que a
gente brincava eu só gostava de ser médica [risos]. Eu só gostava de ser medica. Tanto que, uma
vez, na minha adolescência, essa minha irmã que mora no Rio, eu cavei um buraco no quintal,
enterrei ela, deixei passar uns minutinhos e depois descavei para salvar ela, aí eu salvei ela
[risos]. Eu me lembro disso até hoje, olha?
Tamires: [risos] Meu Deus que loucura!
Wanderléa: Eu me lembro disso até hoje, olha? Eu cavei um buraco fundo, acho que um buraco
assim quase dá uns cinco palmos por aí assim, aonde coubesse ela toda, que fosse cobrir ela
toda de areia. Aí coloquei um negócio quase igual esse assim no rosto dela para não cair terra e
tacando terra em cima. Aí depois fiquei uns minutinhos. Não era hora. Acho que foi questão de
uns três minutos. Aí depois cavei, cavei e salvei ela [risos]. Aí minha mãe foi chegando, aí eu
peguei uma surra, não é? [risos]. Peguei uma surra que eu me lembro ate hoje.
[…] Moderadora: Irmão mais novo sofre, não é?
Wanderléa: E ela era caçula. Até hoje ela se lembra, coitada.
Moderadora: E tu Karla? Tu tinhas vontade de ter outra profissão?
Karla: Eu tinha vontade de ser professora, porque eu achava muito bonito naquela época.
Professor era muito respeitado na época que agente era pequeno, eu achava uma profissão
bonita. Hoje em dia não é mais como era antes, os professores eram praticamente o segundo pais
da gente na escola, agora hoje em dia os professores vivem, coitados, vivem ameaçados pelos
próprios alunos. […]
Wanderléa: Pois é. Quer dizer que do meu sonho eu realizei só um pouquinho, aplicar injeção,
cuidar de idosos, fazer curativo, fazer isso, fazer aquilo, tirar uma pressão, um pouquinho
Tamires: Mas agora tu não pega o idoso, tu não corta ele [risos].
Wanderléa: Eu não realizei o sonho completo, mas deu para o gasto. (CONDOMÍNIO, grifo nosso)
Apesar de relatarem sonhos de infância, como o de ser professora ou enfermeira,
por exemplo, consideram que eles foram parcialmente contemplados, como no caso de Wanderléia, ou deixados de lado, como Karla, que pensava em ser professora, mas não gostaria mais de sê-lo por diagnosticar que esses profissionais não são respeitados pelos alunos. Tamires, contudo, refere-se à vontade de ser professora no tempo verbal presente, porém o uso da expressão adversativa “mas” implica uma contrariedade. Em outro momento do grupo focal, ela informou que “não tinha mais paciência de estudar” (p. 260 deste livro), ou seja, não está mais disposta a correr atrás daquele sonho.