Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências
As configurações políticas do Trabalho Infantil Doméstico
As configurações políticas do
Trabalho Infantil Doméstico
Dividimos este capítulo em dois momentos: em primeiro lugar,
expomos nossas conclusões a respeito do problema de pesquisa sobre como o jogo entre relações de poder atua na configuração
política do TID; em segundo lugar, indicamos conclusões gerais
sobre o próprio processo de realização desta pesquisa, com objetivo
de apontar potencialidades, limitações e recomendações para
futuras investigações.
Antes, contudo, consideramos pertinente recuperar a trajetória
argumentativa do livro. O principal questionamento que norteou
nossa investigação foi como relações de poder (power over, power to e power with) atuam na configuração política do TID,tanto a partir
do ponto de vista das próprias envolvidas, no caso, meninas e
mulheres ex-trabalhadoras infantis domésticas, quanto no âmbito de
visibilidade ampliada dos meios de comunicação, num contexto
social em que grupos de advocacy constroem uma luta pública
contra esse tipo de trabalho infantil e contam com apoio dos media.
Ao investigarmos a literatura sobre TID, identificamos que o
esquema interpretativo preferencial para análise desse fenômeno baseava-se na ideia de que o TID era uma forma de dominação,
cuja base reside em aspectos históricos, sociais e culturais. A partir
dessa lógica, o olhar lançado por essas pesquisas a meninas e
mulheres que o exercem ou exerceram partiam do pressuposto da
dominação e da constituição do estigma e da subalternidade.
(ALBERTO et al., 2009; ARAGÃO-LAGERGREN, 2003;
BLAGBROUGH, 2008; CARNEIRO; ROCHA, 2009; HASAN;
SALEM, 2013; LAMARÃO, 2008)
Desenvolvemos, então, a discussão sobre TID como uma forma
de dominação no primeiro capítulo e detalhamos a compreensão
dos fatores sociais, culturais e históricos que incidem no TID, como:
a circulação de crianças na Amazônia e as tensões entre ser a
empregada e ser a “filha de criação”; os pressupostos morais que alimentam a relação de dependência e gratidão/ingratidão entre
meninas domésticas e famílias para quem trabalham; lógicas
opressivas de gênero que incutam à menina/mulher as obrigações
domésticas; aspectos históricos sobre servidão e trabalho das crianças que repercutem no modo com entendemos hoje meninos e
meninas trabalhadores; relação entre o pano de fundo das
desigualdades sociais e a dominação no TID. Sobre esse último
ponto, Carneiro e Rocha (2009) argumentam que haveria um
silenciamento social e acadêmico dos dramas que afligem as
trabalhadoras domésticas, o que repercutiria nas próprias
envolvidas que, segundo os autores, parecem não perceber com
clareza a condição em que vivem, pelo “simples fato de que essa condição encerra uma realidade intragável […]. Nenhum ser
humano suportaria viver da verdade de tamanho desvalor social
objetivo”. (CARNEIRO; ROCHA, 2009, p. 142)
Tensionamos esse posicionamento ao confrontá-lo com a
conceituação do reconhecimento ideológico proposta por Honneth
(2007, 2012a), segundo a qual sujeitos podem aderir a formas de
subordinação embasados em motivações racionais de que essa
adesão pode lhe conferir uma nova conquista ou um novo valor. São racionais porque se baseiam em um sistema de crenças que faz
com que as promessas do reconhecimento ideológico sejam
consideradas críveis e possíveis de serem alcançadas, o que
estimularia, por exemplo, o cumprimento de obrigações sem
resistência. (HONNETH, 2007, 2012a) Argumentamos que as
promessas relacionadas ao TID são críveis por essa prática figurar
como uma oportunidade concreta de “crescer na vida” para meninas
pobres, por meio da convivência com uma “boa” família, pelo acesso a bens materiais (celulares, roupas, computadores, ainda que de
segunda mão) e culturais (passeios, viagens), e pela crença de que
possibilita acesso a escolas melhores. (MAIA, R.; CAL, 2014)
Desse modo, a perspectiva de Honneth permite uma análise mais
nuançada sobre porque as pessoas aderem a lógicas e práticas que
podem colocá-las em uma situação de dominação. Contudo,
permanece o problema sobre a lacuna, sobre o espaço social e
simbólico que se situa entre o reconhecimento ideológico e a luta política propriamente, considerando que, no primeiro, relações de power over são justificadas e suavizadas por um sistema de
crenças, o que prejudica a tematização de injustiças e a
transformação dos desrespeitos em motivação para a luta. Apesar
do enfoque da literatura no TID como uma forma de dominação, acreditamos que complexificar os sentidos acerca do poder e de
como ele atua no caso em tela era fundamental, porque nos parecia
que, entre aqueles dois polos (reconhecimento ideológico, de um
lado, e luta política, de outro), existiria um terreno de disputas,
resistências e construção de solidariedade.
Nesse contexto, havia um fator a ser considerado: a luta política
pelo enfrentamento do TID foi motivada e impulsionada por
organizações de advocacy, o que traz questões importantes a respeito dos papéis dos sujeitos diretamente afetados pelo TID
nesse processo. Dedicamos o segundo capítulo a discutir a
organização das ações de enfrentamento ao TID por essas
organizações e apresentamos o contexto normativo internacional e
nacional sobre o tema. A partir de Miguel (2011), Earls (2011) e
James (2011), ponderamos que casos de advocacy em favor de
crianças e adolescentes trazem implicações específicas à
expressão desses sujeitos. Isso porque as falas de especialistas e atores sociais sobre os interesses e as perspectivas de meninos e
meninas tendem a ser mais consideradas do que do próprio grupo
em questão. Contudo, James (2011) critica essa postura, pois,
segundo ele, a cidadania de crianças e adolescentes se aperfeiçoa
na medida em que deixam de ser considerados incompetentes e
passam a ser vistos como sujeitos capazes. Assim, interessa-nos
indagar: como esses sujeitos são posicionados nessa construção
pública do TID como um problema, empreendida por grupos de advocacy?
Como ponto de partida em busca de resposta a essa questão,
apresentamos, ainda no segundo capítulo, o modo como Cedeca-
Emaús e parceiros organizaram o Petid e as estratégias de
construção do discurso do TID como um problema social. Merecem
destaque as ações de media advocacy que renderam boas
aproximações com os media locais e uma parceria firmada
institucionalmente com um dos dois maiores grupos de comunicação do Pará, as Organizações Rômulo Maiorana (jornal O Liberal). Além disso, o Petid também organizou campanhas
publicitárias com objetivo de sensibilizar a sociedade paraense pelo
combate ao TID. Ao avaliarmos as peças desenvolvidas, concluímos
que o discurso da “invisibilidade”, mobilizado pelo Petid em vários momentos, contribuiu para problematizar o TID como um assunto
público, porém reforçou a condição de subordinação e
subalternidade das meninas afetadas e as posicionou
preponderantemente como vítimas, e não sujeitos políticos.
No terceiro capítulo, desenvolvemos os principais referenciais
teóricos desta pesquisa acerca do “político” e do “poder”. Iniciamos
com a pergunta: o que faz com que um problema seja reconhecido
como questão política? Para subsidiar a resposta, recorremos essencialmente a três autores: Habermas, Mansbridge e Honneth.
Segundo Habermas (2003), qualquer tema pode adquirir status de
político, desde tenha sido objeto de escrutínio público. Por meio
desse processo, os interesses ou demandas em questão podem
alcançar as instâncias políticas responsáveis e, talvez, serem
sintetizados em propostas e ações. (HABERMAS, 2003) Para
Mansbridge (1999), não haveria enfoques pré-políticos se o assunto
em questão é algo que mereça ser discutido por duas ou mais pessoas. Assim, atos de resistência e questionamento cotidianos
podem ser considerados políticos. Por isso, Mansbridge (1999,
2009) valoriza o lugar das conversações informais e dessas
disputas políticas fincadas no dia a dia. Honneth (2003), por sua
vez, ressalta que experiências de desrespeito podem se converter
em motivações para lutas políticas e incentivar a construção de
contexto comum de ação. Ele defende que a constituição de
identidades possui um caráter político e que a política também está vinculada ao cotidiano na medida as identidades são construídas de
modo intersubjetivo. (HONNETH, 2003; MENDONÇA, 2012) A
nosso ver, trata-se de abordagens complementares. A partir de
Habermas, podemos compreender o processo mais amplo de
atuação política de enfrentamento ao TID, que estimulou debates
públicos e tomadas de decisão institucionais por meio da ação dos
agentes de advocacy. Com Mansbridge e Honneth, podemos
compreender atos políticos que têm espaço no cotidiano e suas vinculações com essa visada mais pública do processo. Tomando como base esse horizonte teórico, consideramos que o processo de
politização do TID poderia passar por, pelo menos, quatro
momentos: aceitação, resistência, demonstração da injustiça e
construção de luta política a partir dos próprios envolvidos.
Consideramos que certo jogo entre relações de poder incide
nessas configurações políticas do TID e, para investigar essa
possibilidade, utilizamos como ponto de partida a sistematização
elaborada por Allen (1998, 2000). Como já discutido, essa autora
entende que relações de poder são fenômenos complexos que
exigem uma abordagem nuançada. Assim, ela propõe uma distinção
analítica entre power over, power to e power with, os quais entende
como faces de uma mesma moeda, mas que permitem a distinção analítica das situações investigadas. (ALLEN, 1998, 2000)
Relacionamos a proposta de Allen com outras conceituações sobre
poder com objetivo de organizar o debate teórico sobre o assunto e
possibilitar ainda um maior refinamento das análises.
Para discussão sobre power over, por exemplo, recorremos a
Lukes, que articulou essa faceta do poder a partir de três
dimensões. A primeira, unidirecional relacionada a conflito
observável entre partes com interesses antagônicos em que o ator mais poderoso constrange as escolhas possíveis do outro e o faz
tomar decisões que de outra forma não faria. (DAHL, 1957) A
segunda, bidimensional, diz respeito a conflitos não observáveis em
que há uma “mobilização de disposições” (BACHRACH; BARATZ,
1962), de modo a assegurar que apenas os temas considerados
seguros, por não ameaçarem os interesses das elites dominantes,
sejam colocados na agenda pública. A terceira, tridimensional,
considera processos latentes de dominação e entende poder como a capacidade de afetar o outro significativamente, ainda que de
modo subjacente e não explícito ao sujeito concernido. (LUKES,
1980, 2005) Como afirma Perissinoto, “trata-se de um poder que
não produz ameaças, mas sim o convencimento e a submissão
simbólica ao estado das coisas”. (PERISSINOTO, 2008, p. 15)
Outra faceta do poder com a qual trabalhamos é power to.
Segundo Allen (1998, 2000), é a capacidade de atingir um ou vários
objetivos e faz referência à construção e perseguição de projetos de vida. Empoderamento e resistência são formas específicas de power to. Por fim, a última distinção analítica de poder que
consideramos é power with, que diz respeito à construção de uma
vontade comum e à capacidade de “agir em concerto”. (ARENDT,
1994) A solidariedade é o modo principal de aplicação desse aspecto do poder e participa da constituição de ações coletivas. De
acordo com Honneth (2003), para formação de lutas políticas, é
preciso conectar experiências pessoais de desrespeito e injustiças a
algo que concerne a todo um grupo. Essas distinções entre power
over, power to e power with permitiram o exame das relações de
poder no TID por meio de outros vieses, e não apenas o da
dominação.
Ainda no terceiro capítulo, discutimos as tensões entre poder e desigualdades. Se o contexto social é marcado por profundas
desigualdades e assimetrias de poder, qual o espaço para a agência
autônoma dos sujeitos oprimidos? Souza (2009) defende que
haveria “consensos inarticulados” que atuariam na manutenção das
desigualdades sociais e que não permitiriam a reação dos sujeitos
em vulnerabilidade (da “ralé”) porque fazem com que o caráter
estrutural da dominação não seja percebido. Para esse autor, existe
uma espécie de segunda natureza que orienta nossas ações e posicionamentos no mundo. Ele defende ainda que existem
condições imateriais que atuam na formação de classes sociais, e
que essa reprodução afetiva tácita faz com que alguns indivíduos
nasçam destinados ao sucesso (classe média) enquanto outros
destinados ao fracasso (ralé). De acordo com Souza, “não existe
futuro para quem é escravo de suas necessidades e inclinações
naturais imediatas”. (SOUZA, 2009, p. 415)
Como contraponto à posição de Souza (2009), consideramos as perspectivas de Biroli (2012, 2013) e Brites (2000, 2003). A primeira
autora defende a ideia de que não podemos definir os
posicionamentos de mulheres simplesmente como resultantes de
processos de opressão porque isso seria deixar de lado questões
relativas às experiências subjetivas e às possibilidades de brechas
no sistema de reprodução das desigualdades. (BIROLI, 2013) Ela
defende ainda a ideia de uma “agência imperfeita” como expressão
regular da agência individual das mulheres, porque considera o contexto social e os constrangimentos que atuam sobre esse gesto, mas mantém em aberto a possibilidade de crítica e questionamento.
(BIROLI, 2012) A segunda autora, Brites (2003), alerta que devemos
nos distanciar de visões teóricas dominantes para podermos
enxergar as particularidades das práticas políticas de trabalhadoras domésticas.
No quarto capítulo, apresentamos as razões pelas quais
decidimos analisar a configuração política do TID tanto a partir das
perspectivas dos media quanto das afetadas e indicamos o percurso
metodológico que percorremos nesta pesquisa. Os media foram
escolhidos por constituírem a esfera central de visibilidade acerca
do assunto – na qual discursos em torno do TID foram mobilizados,
atualizados e construídos – e também por exercerem um papel, reconhecido pelo Petid, como agentes de advocacy,pelo
enfrentamento desse tipo de prática. Embora esse fato seja positivo,
era fundamental lançar um olhar mais sistemático para avaliar a
cobertura sobre o assunto em tela e as suas reverberações para a
configuração política do TID. De modo semelhante, precisávamos
considerar também as perspectivas das afetadas para compreender
como constroem sentidos a respeito do TID sobre e (a partir de)
relações de poder. Ao mesmo tempo, os grupos focais constituíram-se como oportunidade para que aquelas meninas e mulheres
tomassem a palavra, refletissem sobre aspectos concernentes às
suas vidas e a de outros.
Sobre os dois contextos, lançamos algumas questões: há
diferenças entre o tratamento dado pelos media ao tema e o modo
como esses sujeitos leem as próprias vivências? O TID, como
problema político, configura-se do mesmo modo nessa teia
discursiva midiática e nos relatos das meninas e mulheres afetadas? O que isso pode revelar, por um lado, sobre a atuação dos media na
configuração do TID como questão política e, por outro, sobre a
percepção e o entendimento dessas meninas e mulheres acerca da
questão? Como corpus empírico, selecionamos 136 matérias
jornalísticas sobre TID publicadas de 2000 a 2009 nos dois
principais jornais locais do Pará. Além disso, realizamos sete grupos
focais como seis perfis distintos: meninas trabalhadoras domésticas
não ligadas a programas sociais de combate ao TID; meninas ex-trabalhadoras domésticas ligadas ao projeto social do Cedeca-Emaús; senhoras ex-trabalhadoras infantis domésticas atendidas