Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências
Contextos comunicacionais e percursos metodológicos
Contextos comunicacionais e
percursos metodológicos
– No caso, assim, para reparar [criança] em casa, porque até o teu irmão é
desde pequeno mesmo. A vida inteira mesmo, desde cedo, porque a tua
mãe vai trabalhar e com quem teu irmão vai ficar?
Michelle, participante do Grupo focal “Projeto social”.
O objetivo do presente capítulo é apresentar a importância de
considerar, no propósito deste livro, as perspectivas dos media e
das afetadas. Num segundo momento, detalhamos as escolhas e o
percurso metodológico da pesquisa e tentamos lançar luz acerca
dos desafios que foram enfrentados.
Na construção da luta pública contra o TID, as organizações à
frente dessa iniciativa atribuíram papéis fundamentais aos media,
tais como: meios de expressão do discurso do trabalho infantil enquanto problema social; meios para sensibilização de possíveis
parceiros e de autoridades e agentes de transformação social.
(CENTRO DE DEFESA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE, 2002;
VIVARTA, 2003) Ainda que os esforços e estratégias de
comunicação do Petid não fossem centrados exclusivamente nos
media 1 , esses eram considerados atores essenciais no processo de
enfrentamento do TID pela possibilidade de promover o debate
acerca da temática e também de estimular o questionamento às
bases culturais que o alimentam. (CENTRO DE DEFESA DA
CRIANÇA E DO ADOLESCENTE, 2002; VIVARTA, 2003)
Essa relação com os media foi considerada exitosa por parte dos atores sociais do Petid, como é possível observar nos documentos
avaliativos do Programa. A publicação de matérias e entrevistas nos
media locais é apresentada como um dos principais resultados
alcançados pela iniciativa nos relatórios técnicos do Petid.
(CENTRO DE DEFESA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE,
2001a, 2001b, 2001c, 2002, 2004; CAVALCANTE, 2005) O relato
referente ao período de abril a setembro de 2003, por exemplo, afirma que “Todos os meios de comunicação estão atuando no
programa e convencidos de que o trabalho doméstico infantil é
prejudicial, o que tem levado a uma maior informação da sociedade
sobre o tema”. (CENTRO DE DEFESA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE, 2003, p. 10) Essa percepção dos próprios atores
do Programa corrobora empiricamente nossa afirmação,
apresentada no capítulo dois, de que os media locais atuaram como
agentes de advocacy em torno do TID e que contribuíram para esse
fato a articulação do Petid com um dos principais grupos de
Comunicação local e a realização de encontros e oficinas para
jornalistas acerca do tema.
Acerca desse assunto, o assessor de imprensa do Petid, de 2003
a 2005, afirmou em uma pesquisa de avaliação do Petid:2
[…] Eu acho que o Programa conseguiu colocar o assunto na pauta do dia, chamou as organizações, a imprensa, o poder público; chamou à responsabilidade todo mundo para discutir esse problema, problematizou isso, que é necessário dar soluções. (CAVALCANTE, 2005, p. 76)
A importância dos media na opinião dos agentes do Petid fica
evidente na medida em que àqueles é atribuída responsabilidade
pelo enfrentamento do problema. Partindo da premissa, então, de
que os media apoiaram a luta contra o TID, torna-se essencial
questionar: como esse assunto foi tematizado na cena pública?
Nossa investigação anterior (CAL, 2007) contribuiu para
ensaiarmos possíveis respostas. Percebemos, ao longo daquela
pesquisa, que as principais fontes consultadas eram ligadas ao
Petid e/ou a seus parceiros e que discursos legitimadores do TID
não tiveram espaço no noticiário. Embora os resultados encontrados
na análise apresentassem um achado positivo em relação ao modo
como os media deram acesso a fontes e enquadraram as
organizações sociais, concluímos que o tipo de abordagem não contribuiu para estimular um processo reflexivo entre patroas de
meninas trabalhadoras domésticas acerca da temática. Todas as
participantes de nossa pesquisa 3 tendiam a concordar com o que os jornais traziam (que os fatos apresentados eram uma violência, que
crianças e adolescentes deveriam ter seus direitos respeitados etc.), porém, fizeram uma diferença radical entre o TID apresentando
pelos media, considerado por elas como “exploração do trabalho”, e
a prática que ocorria nos seus lares, considerada “apenas” trabalho.
(CAL, 2007)
As patroas ouvidas nos grupos focais se referiam às situações
apresentadas nos jornais com indignação, mas não se sentiam
interpeladas porque os pontos de vista que compartilhavam – como
o de que há uma distinção entre exploração do trabalho infantil e o
TID – não foram considerados na produção jornalística. Era como se
o discurso dos media dissesse respeito apenas aos patrões que
“exploram” meninas trabalhadoras domésticas, e não àquelas
mulheres comuns que empregam meninas para o serviço doméstico, o que trazia consequências importantes do ponto de
vista da mobilização social e do estímulo à reflexão crítica acerca do
TID porque, se o objetivo era desestimular a contratação de
adolescentes para o serviço doméstico, o modo como o discurso
público do trabalho infantil como um problema vinha sendo
construído até então acabava por reforçar a ideia de que o
“problema” estava no fato de alguns patrões explorarem as crianças
e não no TID em si.
Daquele estudo, emergiram novos questionamentos focados,
sobretudo, nos sujeitos diretamente envolvidos, ou seja, nas
trabalhadoras infantis domésticas, as quais tentamos considerar
neste livro no sentido de analisar como certo “jogo” entre distintas
relações de poder repercute na configuração política do TID e se
revela a partir do modo como elas mesmas tecem sentidos sobre
essa atividade.
Conforme sugere Allen (2000), o caminho metodológico para pesquisas sobre poder precisa passar pela observação do modo
pelo qual dinâmicas de poder participam da constituição de (1)
lugares e posicionamentos para os sujeitos, (2) significados
culturais, (3) práticas sociais, (4) instituições e (5) estruturas.
(ALLEN, 2000) Tomaremos como foco investigativo as três primeiras
macrocategorias, já que estamos interessadas em compreender
como a articulação entre distintas facetas do poder (power over,
powerto e powerwith) traz consequências para configuração política do TID, dos pontos de vista simbólico/discursivo, e a partir dos
sentidos mobilizados pelos próprios sujeitos envolvidos.
Como já indicado, escolhemos examinar dois “contextos
comunicativos” distintos para responder ao nosso problema de pesquisa: (1) a repercussão do TID nos principais media impressos
locais; (2) os discursos de trabalhadoras e ex-trabalhadoras infantis
domésticas, apreendidos por meio de grupos focais.
Os media foram selecionados por constituírem a esfera central de
visibilidade sobre o TID e também terem atuado como agentes de
advocacy. (MAIA; CAL, 2014) Ainda que, à primeira vista, esse fato
se apresente como positivo, é necessário observá-lo mais
detidamente e indagar como meninas trabalhadoras domésticas foram posicionadas nessa teia discursiva e como as relações de
poder em torno do TID são reveladas na análise da cena midiática.
Responder a essas questões traz elementos para examinarmos a
construção do TID como um problema político. Porém, os resultados
de uma análise do posicionamento dos sujeitos na teia discursiva e
da tematização midiática do TID não seriam suficientes para dar
respostas satisfatórias ao nosso problema de pesquisa. Seria
necessário ainda saber como as pessoas diretamente afetadas pelo TID atribuem sentido a essa prática e como o jogo entre relações de
poder, como a dominação, a resistência e a solidariedade, atua na
configuração política do TID a partir dos próprios sujeitos
concernidos. Há diferenças entre o tratamento dado pelos media ao
tema e o modo como esses sujeitos leem as próprias vivências, tal
como detectamos com as patroas (CAL, 2007)? O TID como
problema político se configura do mesmo modo nessa teia
discursiva midiática e nos relatos dessas mulheres? O que isso pode revelar, por um lado, sobre a atuação dos media na
configuração do TID como questão política e, por outro, sobre a
percepção e o entendimento dessas mulheres acerca da questão?
E, principalmente, quais desenhos das relações de poder que
intervém no TID podem ser percebidos a partir da análise da
cobertura midiática sobre esse tema?
Como técnica de coleta de dados, optamos por entrevistas em
grupos focais com meninas e mulheres que são ou foram trabalhadoras domésticas na infância ou na adolescência. Essa escolha implica sérios desafios éticos e metodológicos, por