Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências
Power with
camponeses frente aos senhores aos quais eram subordinados:
sabotagem, relutância, pequenos furtos, dissimulação, difamação,
simulação de ignorância, entre outras. De acordo com esse autor, “a resistência cotidiana é informal, muitas vezes dissimulada, e em
grande medida preocupada com ganhos de facto imediatos”.
(SCOTT, 2011, p. 223, grifo do autor)
Considerar, portanto, poder como power to contribuirá para
analisarmos essas outras práticas políticas de meninas e mulheres
envolvidas com o TID tanto relacionadas à resistência a situações
opressivas no TID, a exemplo de quando a menina doméstica
enfrenta a imposição do pai, mas se recusa a voltar para a casa de família em que vinha sendo assediada pelo patrão, ou ainda
resistências frente ao TID quando há a tentativa de superação
daquele modo de vida em busca de outro considerado mais digno
por elas.
Power with
A terceira distinção analítica que faremos em relação ao conceito
de poder é power with, inspirada na perspectiva de Hannah Arendt,
segundo a qual o poder se refereà construção de uma vontade
comum. (ARENDT, 1994; HABERMAS, 1993) De acordo com
autora, “poder corresponde à habilidade humana não apenas para
agir, mas para agir em concerto”. (ARENDT, 1994, p. 36) Essa
instância do poder, portanto, contribui para pensarmos na construção de laços e identificações que estão na base de
processos de ação coletiva. Como afirma Perissionoto (2004) sobre
o pensamento de Arendt, o poder emerge quando um grupo é
formado e some quando ele é desfeito. Desse modo, power with
pode ser definido como uma “habilidade coletiva de agir em conjunto
para atingir um objetivo ou uma série de objetivos comuns ou
partilhados”. (ALLEN, 1998, p. 35)
Pensar relações de poder como power with diz respeito, então, à construção de solidariedade e de coalisão entre sujeitos. Como
explicam Guinier e Torres, “Este poder é gerador, envolve compartilhar algo ou se tornar algo, não apenas dar, demandar ou
consumir. Ele se expande no seu exercício. Ele encontra uma
maneira de chamar as pessoas a se conectar com algo maior do
que elas mesmas”. (GUINIER; TORRES, 2002 apud HENDRIKS, 2009, p. 178, tradução nossa) Um processo pelo qual essa conexão
pode ocorrer é por meio das trocas argumentativas, quando
posicionamentos e pretensões de validade são testados
(HABERMAS, 1984), e também quando problemas que atingem
determinados sujeitos podem ser coletivizados a ponto de
promoverem o engajamento em torno das melhores formas
possíveis de resolvê-los.
Desse modo, a solidariedade se torna, assim, uma maneira central de aplicação desse tipo de poder, ainda que não exclusiva,
assim como são a dominação e a resistência para as outras
modalidades de poder, respectivamente, power over e power to.
(ALLEN, 1998, 2000) Entendemos solidariedade relacionada ao
power with como “habilidade de uma coletividade para agir em
conjunto por uma finalidade comum ou compartilhada de enfrentar
um sistema de dominação”. (ALLEN, 1998, p. 36)
De acordo com Melucci (2001), solidariedade se refere à capacidade dos atores de se reconhecerem e serem reconhecidos
como parte da mesma comunidade ou grupo. Nesse sentido, a ação
coletiva não seria resultante de forças naturais, mas sim de um
processo de identificação, de construção de uma identidade
coletiva. Essa identidade, segundo Melucci, “tem
predominantemente o caráter de um processo que deve ser
continuamente ativado para tornar possível a ação”. (MELUCCI,
2001, p. 69) Por meio desse “nós”, é possível articular interesses e mobilização e dar consistência às ações coletivas. (MELUCCI,
2001) Entendemos que a formação de solidariedade é um dos
passos básicos para a construção de ações coletivas, a partir dos
próprios sujeitos afetados pelo TID porque permite a identificação de
injustiças comuns e a construção de um terreno compartilhado de
ação.
A solidariedade e a construção de uma identidade coletiva
também são bases para os movimentos de luta por reconhecimento. Para que isso ocorra, segundo Honneth (2003), é necessário que a experiência de desrespeito e o sentimento de injustiça sejam
considerados como algo que afeta não apenas um indivíduo, mas
um grupo inteiro. Assim:
Sentimentos de lesão dessa espécie só podem tornar-se a base motivacional
de resistência coletiva quando o sujeito é capaz de articulá-los num quadro
de interpretação intersubjetiva que os comprova como típicos de um grupo
inteiro; nesse sentido, o surgimento de movimentos sociais depende da
existência de urna semântica coletiva que permite interpretar as experiências
de desapontamento pessoal como algo que afeta não só o eu individual mas
também um círculo de muitos outros sujeitos. (HONNETH, 2003, p. 258)
É fundamental, então, que exista uma “ponte semântica” que ligue
a experiência individual de desrespeito às finalidades impessoais de
um movimento social. (HONNETH, 2003) Segundo esse autor, o
próprio engajamento em atuações políticas estimula que os sujeitos
saiam da situação “paralisante do rebaixamento passivamente
torelado”, o que contribui para que se sintam valorizados por
estarem lutando contra aquilo que provoca sofrimento, o que
estimula uma autorrelação positiva. (HONNETH, 2003)
Além disso, para Honneth (2012b), sentir-se parte de um grupo
social faz com que sujeitos a quem é negado reconhecimento
possam ter acesso a um tipo compensatório de respeito,que não é
equivalente a ser reconhecido como um sujeito de direitos e
membro de determinada sociedade, mas é o que se goza a partir do
reconhecimento dentro do grupo específico do qual se participa. De
modo complementar, Honneth (2003) acrescenta que a
solidariedade dentro de um grupo político estimula a experiência de reconhecimento e propicia a conquista um tipo de estima mútua.
Em relação ao TID, a percepção e a consideração das injustiças
que essa prática provoca poderia estimular a construção de
solidariedade e o entendimento de que se trata de um problema
coletivo, e não individual. Nesse sentido, o próprio engajamento
nesse processo poderia trazer ganhos para as meninas e mulheres
afetadas, por estimular o autorrespeito e a estima social. Esse
processo seria beneficiado ainda pelo contexto social já existente de luta empreendida por organizações de advocacy contra o TID, o que
foi detalhado no capítulo dois. Portanto, o entendimento do poder como power with e as perspectivas de Melucci e Honneth acerca da
construção de um “nós” político estimulado por relações de
solidariedade a partir das quais se sedimenta um terreno
compartilhado de ação permitem que compreendamos como as experiências individuais de desrespeito podem se conectar com
motivações mais amplas para a luta a partir das próprias meninas e
mulheres afetadas pelo TID.
§
Neste capítulo, discutimos o que torna um assunto uma questão
política com objetivo de conceituar o que estamos tratando por
“político” e apresentar alguns pontos de distinção entre as definições
apresentadas. Como estamos preocupados em investigar o jogo
entre distintas relações de poder que atuam na configuração do TID,
realizamos, ainda, uma incursão em teorias sobre poder para
destacar três nuances que nos parecem caras a este trabalho:
power over; power to e power with. No centro dessas definições, estão, respectivamente, dominação, resistência e empoderamento e
solidariedade, que possuem, a nosso ver, diferentes repercussões
para a configuração política do TID.