Magníficos Estranhos
Prólogo
O meu pai construiu a casa no lago Langely para a minha mãe, na pequena
cidade onde ela cresceu. Ficava a mais de uma centena de quilómetros dos
arranha-céus envidraçados que ele erigiu na cidade e a um mundo de
distância do apelido Calloway e do dinheiro e da penthouse no Upper East
Side.
A casa do lago não se assemelhava a nenhuma das que havia na pequena
cidade, com os seus revestimentos exteriores de vinil cinzento e alpendres
para guardar os carros. Não, a casa no lago Langely não era sequer uma
casa. Era uma fortaleza com três pisos, de pedra, com uma cerca larga e
sebes impenetráveis a toda a volta.
Quando era miúda, passávamos os verões nessa fortaleza. Recordo-me de
festas de pijama numa tenda montada no relvado das traseiras e de tardes
passadas a apanhar sol na jangada, a pouca distância da praia. Recordo-me
de copos altos de limonada a transpirar no pátio e dos vestidos de algodão
que a minha mãe usava, e dos seus chapéus de aba larga.
Em tempos, cheguei a pensar que o meu pai construíra aquela casa para
manter fora os restantes, mas depois o tio Hank encontrou as fotografias.
Estavam numa caixa de sapatos, escondida sob uma tábua solta do soalho,
no quarto dos meus pais. Tinham sido tiradas naquele verão de 2007,
algumas semanas antes do desaparecimento da minha mãe. Vi as fotografias
e percebi que estivera errada em relação a tudo.
É que o meu pai não havia construído a casa no lago Langely para manter
fora os demais. Construíra-a para nos manter dentro do seu perímetro.