Magníficos Estranhos
Segunda Parte
Dez
ALISTAIR CALLOWAY
OUTONO DE 1996
Todos os anos, em novembro, entre o Halloween e o Dia de Ação de
Graças, a minha família organizava um baile de beneficência no Carlyle
Hotel. Todas as receitas obtidas eram entregues à causa obscura e ridícula
em que a minha irmã Olivia estivesse envolvida. Houve um ano em que
angariámos fundos para o Comité de Ética para a Flora dos Estados Unidos,
que lutava por uma proposta de lei para as plantas. Olivia acreditava que os
brócolos deviam ter direitos, como as pessoas. A comida naquele ano foi
atroz: sete pratos de legumes e vegetais silvestres, galinha criada ao ar livre
e vinho de uvas fermentadas com humanidade. Num outro ano, reunimos
dinheiro para próteses destinadas a cães só com três pernas. A cause du
jour, no entanto, era apenas uma fachada, pois só existia uma causa na qual
os grandiosos Calloways acreditavam e em prol da qual se esforçavam no
sentido de sensibilizar os demais: nós mesmos.
Como sempre, cheguei pontualmente às oito da noite, barbeado e elegante
num fato à medida, com a minha noiva, Margot Whittaker, pelo braço.
Olhei em redor, à procura do meu irmão mais novo, Teddy, que não se
encontrava ali. Como sempre, Teddy não iria ser pontual e o mais certo era
que chegasse depois de o prato principal já ter sido servido, com uma barba
de dois dias e exibindo uma indumentária propositadamente imprópria,
como uma camisa estampada havaiana e chinelos de dedo. A missão de
Teddy na vida era forçar os limites da paciência do meu pai e da adoração
cega da minha mãe. O meu pai era um homem de muito pouca paciência e
já teria deserdado Teddy há muitos anos se não fosse pela minha mãe, cuja
reserva de amor por ele era aparentemente inesgotável.
Como habitualmente, Eugenia não se poupara a gastos (Eugenia era a
minha mãe e eu sempre a tratara pelo primeiro nome, mesmo em criança,
porque ela achava que o termo «mãe» a envelhecia prematuramente). As
orquídeas cor de violeta que se destacavam nos centros de mesa tinham
chegado de Bogotá, de avião; os vinhos eram de uma adega na Toscana; os
bifes que seriam servidos como prato principal haviam sido maturados na
cave do melhor talho da cidade durante as últimas três semanas. E nenhum
pormenor fora descurado. As toalhas de mesa tinham sido engomadas e
passadas a ferro, os copos da água colocados exatamente a dois centímetros
das pontas das facas; Eugenia dera-se ao trabalho de verificar ela mesma a
medida, munida de uma régua.
– Alistair, estás tão elegante – disse Eugenia, cumprimentando-me com
um beijo em cada face.
Eugenia sempre se mostrara indiferente comigo. Julgo que encarava como
entediante o facto de eu estar sempre onde devia estar, a fazer o que era
suposto fazer. Não tinha de admoestar-me, de se preocupar comigo ou de
amimar-me, como fazia com Olivia e Teddy. Além disso, eu era o preferido
do meu pai, que achava Olivia frívola e pateta, e Teddy rebelde e
desobediente. Eu estava sempre disponível, era inteligente e gostava de
provar o meu valor, por isso, o meu pai pusera-me à prova repetidamente,
fazendo de mim um homem que ele considerava merecedor de receber, um
dia, o legado dos Calloways.
– Margot, querida – cumprimentou Eugenia –, como está?
Era uma enorme desilusão para Eugenia que eu tivesse escolhido para
casar uma rapariga que não era bonita, frívola ou rica. Em poucas palavras,
que não tivesse escolhido alguém mais parecido com ela. E irritava-a que eu
tivesse dado a Margot o anel de família: um diamante amarelo de dezoito
quilates, impecável, cortado em forma de esmeralda, flanqueado por dois
diamantes cortados em meia-lua e incrustados numa aliança de platina. O
anel pertencera à minha avó. A minha mãe queria-o para Teddy, mas a
minha avó deixara-mo em testamento e eu oferecera-o a Margot. Desde esse
dia, a minha mãe tratava Margot como uma verdadeira cabra, na esperança
de correr com ela, e Margot reagia sempre com um sorriso, não batendo
nem um milímetro em retirada.
– Eugenia, que bom vê-la – respondeu Margot, sem qualquer vestígio de
sarcasmo. – Esse vestido é deslumbrante. Tem de dizer-me quem é o designer.
– Oh, e diria, querida – replicou Eugenia, e percebi nesse momento que a
resposta não seria amável, porque, no dicionário da minha mãe, «querida»
não era um termo afetuoso. Sempre que ouvia a minha mãe pronunciar
aquela palavra, escutava «escória» ou «lixo branco» no seu lugar, porque
era isso que ela queria dizer, só que não eram designações que pudesse usar
em sociedade. – Mas provavelmente não conheceria, uma vez que não é
muito culta no que a moda diz respeito. O seu vestido é tolerável. Foi o
Alistair quem o escolheu?
– Sim, foi um presente – disse Margot.
– É Versace – declarei. – Da coleção de outono. Achei que iria aprovar.
– Talvez em alguém com uma constituição diferente – argumentou
Eugenia, ao mesmo tempo que levava o copo de vinho aos lábios e fitava
Margot da cabeça aos pés. – Sim, uma constituição diferente valorizaria o
vestido.
Abri a boca para ripostar, mas Margot apertou-me o antebraço.
– Estou a morrer de sede! – exclamou Margot. – E se fôssemos buscar
qualquer coisa para beber? Foi um prazer conversar consigo, Eugenia. Mais
tarde, pomos a conversa em dia.
A minha mãe fez-nos um sorriso azedo e Margot conduziu-me à outra
extremidade do salão.
– Deixas que ela te irrite – sussurrou Margot reprovadoramente ao meu
ouvido.
– E como é que tu consegues que ela não te irrite? – segredei de volta.
Margot encolheu os ombros.
– Não ganho nada com isso. E acho divertido. Para mim, é assim uma
espécie de jogo. Quanto mais cabra ela for, mais amorosa eu serei. Hei de
vergá-la, mais cedo ou mais tarde. Um dia, ela irá deixar-me as ações que
detém no Calloway Group e nesse dia eu saberei que venci. Vou obrigar
aquela bruxa a amar-me.
– A Eugenia não ama ninguém… Exceto a si mesma e ao Teddy.
– Pois, mas como é que tu achas que o Teddy conseguiu essa proeza, ao
certo? – inquiriu Margot, tirando dois copos de vinho da bandeja que um
empregado transportava e oferecendo-me um.
– O Teddy é uma avezinha ferida, destroçada – expliquei, e aceitei o
copo. – Como tal, a Eugenia sente necessidade de consertá-lo.
– Interessante – comentou Margot, e consegui ver as rodas dentadas
dentro da sua cabeça a rodar ao mesmo tempo que ela formulava um
qualquer plano. – Nunca me ocorreu que a fraqueza pudesse ser entendida
como desejável. Posso usar isso.
Dei um gole no meu vinho e olhei de relance para a minha noiva. Margot
era um mosaico de traços fortes e distintivos, todos lutando uns com os
outros por predominância: uma testa alta, um queixo pronunciado, maçãs do
rosto altas. Se tivesse apenas um destes traços, talvez fosse deslumbrante,
mas todos juntos acabavam por se anular uns aos outros, tornando-a em
assaz comum, nem bonita, nem feia.
As raparigas comuns sempre me interessaram mais do que as raparigas
bonitas. As raparigas bonitas nunca têm de se esforçar por nada, mas as
comuns vêem-se obrigadas a dar o máximo de si mesmas. Têm de fazer as
pessoas reparar nelas, têm de cultivar o humor, a esperteza ou a audácia. As
bonitas limitam-se a sorrir para nós e são tão simpáticas e afáveis o tempo
todo que a vontade que dá é chamá-las à parte e contar-lhes uma verdade
cruel para lhes tirar aquele sorriso estúpido dos lábios, ou então são tão
antipáticas e difíceis de contentar que queremos sacudi-las um pouco e
recordar-lhes que se partem com a mesma facilidade que os restantes
mortais.
Margot era inteligente. Havia sido nesse aspeto que se esforçara. E não
apenas intelectualmente inteligente, embora o fosse – estava no primeiro
ano da faculdade de Medicina, na Universidade de Columbia –, mas
também sabida, esperta. Era uma mulher ambiciosa e astuciosa, e
manipuladora como poucas. Em abono da verdade, tinha noventa e nove por
cento de certeza que Margot era uma sociopata, ou, no mínimo, exibia
fortes tendências sociopatas. Era uma das coisas que mais me ligava a ela.
Afinal de contas, eu tinha sido educado por um sociopata (o meu pai) e por
uma narcisista (a minha mãe), logo, a maneira de ser de Margot era-me
familiar.
Possuir fortes tendências sociopatas era praticamente um pré-requisito
para se existir no meu mundo. As pessoas «normais» (também conhecidas
como maricas fracotes) costumavam alegar que ter consciência era o que
nos tornava humanos, mas, no meu entender, a consciência era uma vozinha
aguda e viperina que eu adorava silenciar. Não era regendo-me pela
consciência que iria gerir uma empresa imobiliária de sucesso que valia biliões de dólares, que tomaria decisões difíceis para cortar custos, que
despediria Monica, a mãe solteira com três filhos em casa, ou Jerry, o
sujeito cuja mulher tinha cancro em estágio três, quando isso era o melhor
para a empresa. Um sociopata era capaz de sorrir e de perguntar a Monica
pelos filhos na sala do café, de acenar compassivamente com a cabeça a
Jerry quando este quase perdesse a compostura ao contar que o médico
dissera que o último tratamento não fizera efeito, e depois dar meia volta e
dizer a Monica e a Jerry que fossem despejar os seus gabinetes e se
pusessem a milhas porque não andavam a cumprir os seus objetivos de
vendas e aquilo era uma empresa rentável e não a Santa Casa da
Misericórdia. Um sociopata não perdia o sono a pensar no modo como
Monica ia pagar as contas do dentista dos filhos naquele mês ou como é que
Jerry e a mulher se iriam safar sem seguro de saúde.
A verdade pura e dura era que a consciência só servia como atraso de
vida. As pessoas normais podiam dar-se ao luxo de ter sensibilidade e
vulnerabilidade e sentimentos e de viver as suas vidas bonitas, mas jamais
passariam disso mesmo: de normais, de medianas. E eu nunca quisera ser
mediano. Era um Calloway. Não nascera e fora criado para ser mediano.
Isso não me cativava minimamente. A mediania fora-me arrancada,
exterminada à pancada, e era melhor, mais forte, por isso.
Margot agarrou-me no braço. Olhava fixamente para a outra ponta do
salão, na direção da entrada.
– O grande pedaço de merda – comentou ela. – Que jogo te parece que ele
está a jogar agora?
Virei-me e segui o olhar dela. Para meu espanto, deparei com Teddy. Não
só chegara praticamente a horas, como exibia um fato, tinha o cabelo
cortado e bem penteado e, pelo braço, trazia uma rapariga de aspeto
respeitável: uma beldade morena com um vestido de cetim simples e um
decote em coração. Nada de mau gosto ou berrante. Nada que chamasse
demasiado a atenção. Tão diferente das flausinas louras de pernas altas e
descobertas e vestidos demasiado justos e decotados que Teddy
normalmente trazia a estas funções familiares.
– Qual será o objetivo dele ao chegar a horas com uma puritana
entediante a reboque? – inquiriu Margot, observando Teddy e o seu par
serem cumprimentados alegremente pela minha mãe.
Emborquei o resto do vinho que tinha no copo.
– Não faço ideia, mas tenciono descobrir – respondi, e entreguei o meu
copo vazio a Margot.
Encaminhei-me para a entrada.
O meu maior medo era de que Teddy um dia se fartasse de ser um rebelde
e tentasse provar o seu valor ao nosso pai. Que, de algum modo,
conseguisse vir a gerir o Calloway Group, embora tivesse sido eu quem, ao
longo de anos e anos, se tivesse esforçado e vertido suor e lágrimas para lá
chegar. Havia sido eu quem terminara o liceu, na Knollwood Augustus
Prep, com a melhor nota. Fora eu quem se licenciara summa cum laude na
Universidade de Columbia. Eu, uma vez mais, quem passara todos os
verões a estagiar no Calloway Group, dando o litro como um zé-ninguém na
sala da correspondência, porque o meu pai acreditava que se devia começar
do zero, de baixo para cima. Trabalhara sem descanso todos estes anos, ao
passo que Teddy vivera a boa vida e fizera o que bem lhe apetecera.
Conseguira ser expulso de três colégios internos. Os meus pais haviam tido
de «comprar» a sua entrada em Princeton, e, entretanto, ele passava mais
tempo lá a beber e a divertir-se com os amigos do que na sala de aulas. Para
ele, tudo não passava de uma anedota, e, por mim, tudo bem. Não queria
que ele se esforçasse, porque, se o fizesse, sendo o preferido da minha mãe,
teria uma vantagem enorme, e o meu pai iria obrigar-nos a lutar um contra o
outro, até que um de nós cedesse. Não tinha ilusões: o meu pai só me
beneficiava porque eu me esforçava mais.
Encontrei o meu irmão junto à mesa dos hors d’oeuvres a encher um
pequeno prato.
– Vai com calma – disse. – Eu sei que, habitualmente, quando chegas, já
só encontras a sobremesa, mas o jantar tem sete pratos, por isso, não é
preciso açambarcares.
– Vai à merda – ripostou Teddy.
– Quem é a moça? – indaguei.
Teddy espreitou por cima do ombro e enfiou um folhado de salmão na
boca.
– O nome dela é Grace – disse ele.
Olhei para ela, ainda junto à entrada, absorta à conversa com a minha
mãe. Grace. O nome condizia com ela. Era um nome afável e antiquado e
ela parecia uma beldade do velho mundo, reservada e modesta. Onde é que
o meu irmão fora arranjar uma pessoa assim?
– Não parece nada o teu tipo – fiz notar.
– O quê? Loura? De pernas altas? Fácil?
– Precisamente.
– Por isso mesmo – explicou Teddy, e comeu mais um folhado de salmão,
falando com a boca cheia. – Não seria tão gratificante se não representasse
um desafio.
– Não me digas que continuas a jogar aquele jogo palerma?
Estava irritado, mas também aliviado por saber que a presença de Teddy
ali, a sua pontualidade, o seu fato bem engomado, fazia parte de um jogo
ridículo que não tinha nada que ver comigo ou com o Calloway Group.
– Chama-se Jogo das Conquistas – elucidou-me Teddy –, e estou prestes a
conseguir quatro em linha.
– Não me digas? E em que categoria é que a Grace se insere?
– Nesta ronda, o objetivo era raparigas citadinas – disse Teddy. – Conheci
a Grace na biblioteca pública.
– E que raio estavas tu a fazer numa biblioteca?
– Perdi-me – respondeu Teddy.
– De cada vez que me convenço de que é impossível desceres mais baixo,
tu provas-me o contrário e atinges níveis inimagináveis.
Teddy deu-me uma palmada nas costas e sorriu.
– Bem, estamos sempre a tentar superar-nos a nós mesmos, não é? Os
Calloways são assim mesmo. Anda daí, eu apresento-ta. Ela está
convencida de que sou um verdadeiro «coração de ouro», já estás a ver.
Amo a minha família, somos todos muito chegados, blá-blá-blá. Podes
desempenhar o papel de irmão mais velho e protetor e ajudar-me a vender
esta imagem.
– Já estou cansado só de te ouvir – reclamei.
Tendo-me inteirado do objetivo do meu irmão, a conversa dele entediava-
me. Não tinha qualquer interesse em entrar nos seus joguinhos ridículos.
– E se ganhares alguma coisa com isso? – propôs Teddy.
– Que tinhas em mente, ao certo?
Teddy franziu o sobrolho como se estivesse a pensar.
– No próximo verão, quando o pai me pedir para estagiar lá no escritório,
eu dou-lhe uma nega. Há um amigo meu que tem um barco ancorado ao
largo do Uruguai. Serão, pelo menos, dois meses longe de tudo e de todos.
– Deixa-me ver se entendi bem, Teddy. O favor que tu achas que me fazes é recusar um emprego de merda a uma secretária para passares o
verão de papo para o ar num iate?
– Ou então – disse Teddy –, posso chamar o pai à parte agora mesmo e ter
uma conversa sincera com ele. Digo-lhe… Sei lá… Que ultimamente tenho
pensado a sério na vida e que estou muito arrependido da maneira como
sempre me comportei. Que vou começar a levar os estudos a sério e que
gostaria muito de começar a aprender como funciona o negócio.
A maior parte do tempo, Teddy parecia ser um completo idiota, mas
depois havia momentos como este em que eu percebia que tudo não passava
de uma fachada e que, por baixo de toda aquela estupidez e preguiça
fingidas, ele era realmente um de nós: esperto, perspicaz e implacável. Era
um Calloway dos quatro costados.
– Pronto – cedi. – Apresenta-me lá a rapariga.
Teddy colocou o braço por cima dos meus ombros e conduziu-me até
Grace e Eugenia.
– Grace – disse Teddy –, quero apresentar-te o Alistair, o meu irmão.
Estudou na Universidade da Columbia e trabalha no Calloway Group com o
nosso pai.
Grace olhou para mim. Fiquei com a sensação de já a conhecer, mas não
me ocorria de onde pudesse ser. Os seus olhos eram cinzentos, com
remoinhos de um amarelo pálido. De onde estivera, na companhia de
Margot, não tinha conseguido perceber de que cor eram. De perto, contudo,
achei-os deslumbrantes.
– Muito prazer – afirmou Grace. – O Teddy não se cansa de falar de si.
Demorei um momento a dar-me conta de que ela me estendera a mão.
– Ah, sim – respondi, e apertei-lhe a mão, tão diferente das mãos grossas
e carnudas que estava habituado a apertar o dia inteiro no escritório. Na
minha palma, a mão dela era pequena e quente e frágil, quebradiça.
– Alistair, apresento-te Grace Fairchild – continuou Teddy. – A Grace é
pintora.
– Não profissionalmente, atenção – realçou ela. – Nunca vendi nenhum
dos meus quadros.
– Muitos artistas conceituados não foram valorizados no início –
comentou Teddy. – Van Gogh, por exemplo, só vendeu dois quadros ao
longo da vida, e agora a sua obra vale milhões. É extraordinário o tempo que as pessoas demoram a reconhecer o valor de uma coisa que está mesmo
à frente dos seus olhos.
Fez deslizar o braço em redor da cintura de Grace. Perturbou-me
testemunhar a facilidade com que ele lhe tocava, como se ela já lhe
pertencesse.
– Pois, mas há muitas coisas que o Teddy acha extraordinárias – referi. –
Um fato. Uma barba bem-feita. Ser pontual. Em abono da verdade, suponho
que todos nós achámos isso extraordinário.
Teddy fulminou-me com o olhar.
Ah, merda. O irmão mais velho e protetor. Já me tinha esquecido.
– Dançamos? – convidei Grace.
Grace pareceu ter sido apanhada desprevenida, mas recompôs-se num
ápice.
– Sim – respondeu. – Claro.
Afastou-se de Teddy e deu-me novamente a mão. O meu estômago
contraiu-se.
Conduzi-a à pista de dança, passando por vários outros casais, de modo
que já não conseguíssemos ver Teddy ou a minha mãe.
Grace inclinou a cabeça na direção do meu ouvido e murmurou:
– Bem, vou revelar-lhe um segredo, porque, de qualquer maneira, não
tardaria a descobrir… Mas é que, na verdade, eu não sei dançar.
Sorri e aproximei os lábios da orelha dela.
– O seu segredo fica em boas mãos comigo. Não se preocupe, apoie-se
em mim e eu conduzo-a. Ninguém vai perceber.
Coloquei então uma das mãos ao fundo das costas dela e segurei-lhe a
palma na outra mão. Puxei-a para mim e começámos a dançar.
– Não é assim tão mau – disse Grace, ao fim de um momento. – Obrigada
por me ajudar a fazer boa figura.
– Ora essa, não é nada difícil – respondi.
As faces de Grace ruborizaram-se e ela riu-se para tentar disfarçar que
ficara embaraçada. Reparei no pendente do fio que trazia ao pescoço – um
caranguejo – e interroguei-me se tinha sido Teddy quem lho oferecera.
– O Teddy contou-me que se conheceram na biblioteca – comentei. – Que
azar o seu, deparar com o meu irmão por lá… Logo ele, que nem costuma
frequentar bibliotecas.
Grace riu-se.
– Trabalho na biblioteca em part-time, por isso, passo lá bastante tempo.
A pintura é mais um passatempo do que qualquer outra coisa. Faço-o
apenas porque é uma paixão. Não conto que venha um dia a ser o meu
ganha-pão.
– Então, se não pretende enveredar pela pintura, que se vê a fazer? –
perguntei.
– Para lhe dizer a verdade, continuo a tentar decidir o que quero ser
quando for crescida – disse Grace. – E o Alistair? Sempre soube que queria
seguir as pegadas do seu pai e tomar conta do negócio de família?
– Sempre soube que o faria – respondi, e encolhi os ombros.
– Não é a mesma coisa – realçou Grace.
Olhou para mim, um olhar profundo, e havia qualquer coisa
(perturbadora? Reconfortante?) no seu olhar. Olhou para mim como se já
me conhecesse. Inclusivamente as partes que não tencionara mostrar-lhe, as
partes que nunca mostrava a ninguém.
– É exatamente como ele o descreveu – afirmou Grace.
– O Teddy? – indaguei.
– Não. Jake Griffin – respondeu Grace.
Aquele nome teve um efeito surpreendente em mim; foi como um choque
elétrico. Estaquei. Era um nome que não ouvia há muitos anos.
– Peço desculpa – disse Grace. – Se calhar, devia ter ficado calada. Ainda
pensei em não dizer nada, mas pareceu-me estranho não o mencionar.
Dei-me conta de que estava imóvel e comecei a dançar de novo,
constrangidamente, com Grace nos meus braços.
– Como é que conheceu Jake? – quis saber.
– Namorávamos quando aquilo aconteceu – revelou Grace. – Antes disso,
crescemos juntos.
– Ah, é essa Grace! – exclamei. Fez-se luz, então. Percebi por que razão
ficara com a sensação de conhecê-la. Nunca a conhecera pessoalmente, mas
já a tinha visto.
– Ele falava de mim? – inquiriu Grace.
Fiz que sim com a cabeça.
– Tinha uma fotografia sua no dormitório, em cima da secretária.
Recordava-me nitidamente daquela fotografia, embora se tivessem
passado quase seis anos. Grace estava sentada nos degraus de um alpendre,
vestindo um par de calções de ganga desfiados e ténis. Era verão e Grace tinha um gelado meio comido numa das mãos; o resto estava lambuzado no
nariz e queixo, e ela, inclinada para a frente, ria-se à gargalhada. Lembrava-
me de ter pegado na moldura certa vez e de me ter interrogado sobre o que a
fizera rir-se daquela maneira.
– A Grace tinha um gelado de cone na mão, mas havia mais gelado na sua
cara do que no cone – descrevi.
– E não é assim que deve ser? – indagou ela.
Queria questioná-la acerca da fotografia, de quem a tirara e de que se ria
ela na altura, mas quando levantei os olhos, vi Teddy atrás dela.
– Posso interromper? – perguntou ele.
Grace olhou para mim com aqueles olhos grandes e inocentes.
– Sim – respondeu Grace. – Com certeza.
Apercebi-me de que não afastara o braço da sua lombar, nem lhe largara a
mão, embora tivéssemos parado de dançar. Relutantemente, larguei-a.
Dirigi-me a um dos vários empregados que deambulavam por entre os
convidados com uma bandeja carregada de copos de vinho e tirei um,
virando as costas à pista de dança; não queria vê-los juntos.
Margot foi ter comigo.
– Então, algum motivo de preocupação? – inquiriu Margot.
– O quê?
– O Teddy e a Virgem Maria que está com ele – elucidou ela.
– Ah. Não. É só mais um dos seus joguinhos.
– Típico – comentou Margot.
– Tão estranho… – comentei.
– O quê?
– A rapariga… Grace. Era namorada do Jake Griffin.
Olhei de relance para Margot. Queria avaliar a sua reação.
– Quem? – perguntou ela, franzindo o sobrolho. Não se recordava
minimamente.
Era estranho que um nome que me assombrara ao longo dos últimos seis
anos não tivesse qualquer efeito em Margot. Havia alturas em que
estávamos deitados ao lado um do outro, às escuras, e sentia vontade de
dizer aquele nome. Queria saber se ela pensava também no sucedido. Se a
perturbava como me perturbava a mim. Se não estava sozinho.
Julgava saber o que Margot diria se lhe falasse das alturas em que não era
capaz de abafar aquela vozinha guinchante na minha cabeça; naquele momento, constatando a reação indiferente que ela tivera ao nome de Jake,
percebi que estava certo.
Permitiste que isso te afetasse novamente, diria ela, reprovadoramente.
Como é que consegues que isso não te afete a ti?, perguntaria eu. Porque
ela sabia. Estivera lá naquela noite. Como podes não sentir, ao menos, uma
réstia de culpa?
Porque não ganho nada com isso, alegaria ela.
E tinha razão.
Era uma fraqueza minha sentir culpa ou remorso. Era uma fraqueza
minha pensar sequer no que acontecera.
– Jake Griffin, de Knollwood Prep – expliquei, por fim, e encolhi os
ombros para fingir indiferença. – O rapaz que se suicidou.
– Ah, o Jake – disse Margot, então. – O mundo é uma aldeia, está visto.
– Pois – respondi, porque era verdade.
Virei-me e olhei para a pista de dança. Vi-os no ali: Teddy com Grace nos
braços.
Na maior parte do tempo, o mundo parecia-me grande, ilimitado, cheio de
possibilidades. O mundo inteiro estava à nossa disposição, à espera de ser
conquistado, e Margot e eu estávamos preparados para tomá-lo. Não havia
nada a temer. Nada nos impedia de fazê-lo. Nada poderia tocar-nos; não o
permitiríamos.
Naquela noite, porém, pela primeira vez em muito tempo, o mundo
pareceu-me pequeno, e eu senti-me igualmente pequeno dentro dele.