Magníficos Estranhos
Dezasseis GRACE FAIRCHILD
Dezasseis
GRACE FAIRCHILD
VÉSPERA DE NATAL DE 1996
Pela terceira noite consecutiva, não consegui dormir. A casa dos pais do
Teddy era, de longe, a maior casa onde jamais estivera, mas não era
acolhedora, não me senti em casa. Tinha tudo um ar intacto, imaculado.
Parecia um museu. De manhã, havia flores frescas na jarra do meu toucador
e à noite, quando voltava ao quarto, estava tudo arrumado: a roupa suja
lavada, dobrada e guardada na minha mala, o lavatório sem marcas de
dentífrico, a colcha perfeitamente dobrada e puxada para trás pela criada.
Todos os vestígios de mim apagados. Era tão diferente da casa onde
crescera, onde estávamos sempre a deixar a nossa marca: o sofá velho na
garagem que tresandava à erva do Lonnie; as dedadas na parede junto à
porta da frente, na qual nos equilibrávamos para descalçar as botas no
inverno; a mancha permanente no teto da cozinha, resultante da erupção
prematura do vulcão de Will; as covinhas no lambrim, por jogarmos à bola
dentro de casa contra as ordens da minha mãe.
E não era apenas a casa que parecia inóspita, mas também as pessoas.
Eugenia mostrara-se afável e fizera-me várias perguntas para me conhecer
melhor. Montava a cavalo? Não. Fazia esqui? Não. Qual era o meu local de
férias preferido? Nunca viajei muito. Na sua inexorável demanda por
encontrar uma base comum, uma base de entendimento, apenas deixara bem
claro que não tínhamos nenhuma. O pai de Teddy era um homem reservado;
Olivia e o seu amigo Porter demasiado egocêntricos para prestar atenção
aos demais. Margot nem se dera ao trabalho de decorar o meu nome
(chamara-me «Gaby» e depois «Gina») e Alistair mostrara-se distante.
Durante o jantar, ficámos sentados lado a lado e ele mal trocou duas palavras comigo, preferindo envolver-se numa conversa elaborada com
Porter acerca do existencialismo e da arte. Até mesmo Teddy me pareceu
diferente, de algum modo. Quando estávamos só os dois, era divertido e
descontraído, mas, junto da família, Teddy tornava-se numa caricatura de si
mesmo: indolente e frívolo, como se quisesse refutar quaisquer expectativas
que pudessem ter em relação a ele e, ao mesmo tempo, provar que se estava
pouco marimbando para o que eles pensavam.
Era um mundo estranho no qual tinha dificuldade em me orientar. Ao
jantar, foi servido foie gras em jus de pato. Não sabia o que aquilo era e tive
vergonha de perguntar, por isso, comi. Jamais provara uma coisa assim,
leve e amanteigada, que se derretia na boca; um pedaço do céu. Olivia
absteve-se do foie-gras e comeu uma salada. Quando lhe perguntei se era
vegetariana, respondeu que não achava a tortura de animais apetitosa, e
explicou, com pormenores horríveis, de que modo os patos eram
submetidos a gavagem. Duas vezes por dia, enfiavam-lhes tubos pelas
goelas abaixo e forçavam-nos a comer milho cozido em gordura até que os
seus fígados duplicassem de tamanho. Era isso que concedia ao fígado de
pato aquela textura e paladar deliciosos. Mal ela terminou, pousei os
talheres, horrorizada. Não consegui comer o queijo nem a sobremesa, um
decadente soufflé de chocolate.
E o dia de amanhã será o pior de todos. Depois do brunch, haverá troca de
presentes. Recrutei a ajuda de Teddy para escolher algumas coisas para a
família dele. Teddy levou-me ao Barneys, onde ele fizera as suas compras.
Mostrou-me os botões de punho de prata que comprara para o pai (metade
da renda de casa da minha mãe) e a mala de mão Hermès que escolhera para
a mãe (a renda de meio ano). Eu, obviamente, não me podia dar a esses
luxos, por isso, escolhi um livro de jardinagem para Eugenia e um kit de
barbear para o pai de Teddy. Receava o momento em que eles abrissem os
pequenos embrulhos: os «ohh» e «ahh» e os agradecimentos efusivos e
fingidos, sobretudo tendo em conta as prendas extravagantes que
provavelmente me tinham comprado.
Tendo decidido que não conseguia ficar ali deitada mais tempo, lancei as
cobertas para trás e levantei-me. Saquei os óculos e o fato de banho da
mala, vesti-o e agarrei numa toalha da casa de banho. Às escuras, avancei
pelo corredor cavernoso em direção à piscina interior que Teddy me
mostrara a seguir ao jantar.
Já tinha perdido a conta ao número de voltas que fizera quando percebi
que não estava sozinha. Vi Alistair Calloway sentado na extremidade oposta
da piscina, junto à espreguiçadeira onde eu pousara a toalha. Tinha as
pernas das calças enroladas e os pés mergulhados na água. Ergueu o copo
da cerveja, num brinde, ao ver que eu me apercebera da sua presença. Tirei
os óculos e nadei até ele.
– Não esperava ver-te aqui – comentou ele.
– Não conseguia dormir – expliquei, apertando o nariz para fazer sair a
água.
– O quarto não é do teu agrado?
– Não. Quero dizer, sim, é lindíssimo. É que… parece que estou a dormir
num museu – respondi.
– «Acolhedor» não é propriamente o estilo da Eugenia – concordou
Alistair, e deu um gole na sua cerveja.
Estávamos na parte mais funda da piscina, por isso, agarrei-me à borda
para me manter mais acima da tona da água. Instalou-se um daqueles
silêncios constrangedores e interroguei-me o que estaria ele ali a fazer; se
também não conseguia adormecer e se costumava nadar sozinho a altas
horas da noite, para descontrair. Só que Alistair nem sequer estava de
calções de banho, mas vestido dos pés à cabeça. Ter-me-ia seguido até ali?
Alistair era, de entre os membros da família de Teddy, o mais difícil de
decifrar. Mostrara-se encantador e simpático no baile de beneficência, um
conversador afável. Correspondera na perfeição ao retrato que Jake dele
pintara há vários anos, quando nos sentámos na nossa casa na árvore, na
beira do lago Langely, e ele abriu o seu anuário das pranchas de madeira e
me falou dos seus amigos, identificando-os com a ajuda das fotografias.
Recordava-me do retrato de Alistair, do seu cabelo louro-claro e olhos
azuis; ficava muito elegante e bem-parecido com o casaco do uniforme
escolar. Havia uma certa altivez na maneira como olhava para as pessoas,
na ligeira inclinação do seu queixo. Quase não acreditara quando Jake me
dissera que Alistair fora um dos primeiros amigos que fizera em
Knollwood, que o tomara sob a sua proteção na equipa de ténis. Na noite
anterior, contudo, Alistair mal tinha olhado para mim durante o jogo das
Duas Verdades e Uma Mentira e, naquela mesma noite, ao jantar, ignorara-
me por completo. Não compreendia o que podia ter feito ou dito para lhe
desagradar.
– Disseste que no liceu costumavas praticar natação – comentou Alistair.
Fiquei surpreendida que ele estivesse sequer a prestar atenção.
– Ganhei um campeonato estadual no estilo de bruços – emendei.
Alistair deu um assobio.
– Não imaginava que estava na presença de uma atleta de gabarito.
Mordi o lábio e empurrei um pouco de água na sua direção.
Ele riu-se e pôs-se de pé.
– Desafio-te para uma corrida até à outra ponta – disse ele.
Despiu a camisa por cima da cabeça, revelando uns abdominais muito
definidos. Desviei o olhar quando ele começou a despir as calças.
– E para tornarmos a coisa em mais interessante – acrescentou Alistair –,
apostamos qualquer coisa.
– Porque é que tudo na tua família tem de ser uma competição? –
perguntei, meio a brincar.
– Porque é mais divertido se corrermos o risco de perder qualquer coisa –
explicou ele.
– Pronto, está bem – cedi. Ocorreu-me uma ideia. – Se eu ganhar, trocas
comigo um dos presentes que tens para a tua mãe, um dos bons. E tu dás-lhe
o livro de jardinagem que eu comprei para lhe oferecer.
– Um livro de jardinagem? – troçou Alistair. – Tu não brincas em serviço!
Deslizou para dentro de água, de boxers.
– Combinado – disse ele. Expirou, adaptando-se ao frio da água. – Se eu
ganhar, beijo-te.
Não percebi pelo tom dele se estava a brincar, se era suposto rir-me.
– Beijas-me? – repeti, e fiquei à espera do remate da piada.
– Sim – afirmou ele.
– Porquê? – indaguei.
– Porque quero.
– Não devias querer. – Foi a única coisa que me ocorreu dizer.
– E tu não devias fazer apostas que não tencionas ganhar – argumentou
Alistair. – Ou não achas que és capaz de me vencer?
Ele tinha aquela expressão altiva no rosto, a mesma que vira no anuário.
Semicerrei os olhos.
– Nesse caso, quando eu contar até três – disse, e pus os óculos. – Um,
dois, três.
Impulsionei-me com toda a força para longe da parede. Estava um pouco cansada de todas as voltas que tinha feito, mas tinha a vantagem de estar
quente, ao passo que Alistair nem aquecimento fizera. Nadei o mais
depressa que pude, com braçadas fortes e determinadas. Pela visão
periférica, vi que Alistair me acompanhava, avançando ao mesmo ritmo. As
minhas braçadas eram mais rápidas, mas ele era mais alto do que eu. Ele
dava uma braçada por cada duas das minhas. No último momento, esticou-
se e tocou na parede meio segundo antes de mim.
Pus-me de pé. Estávamos então na parte mais baixa da piscina. Ao meu
lado, Alistair parecia tão ofegante quanto eu. Presunçoso, mas ofegante.
– És mais rápida do que pensava – admitiu ele.
– Não o suficiente, pelo visto – referi.
Depois de termos ambos recuperado o fôlego, Alistair avançou para mim
ao longo da parede, até ficarmos quase colados um ao outro. Olhou para
mim. Tinha olhos azuis, como o irmão, mas havia uma pequena diferença
neles, eram mais sombrios, mais frios. Ao passo que os olhos de Teddy se
assemelhavam a um céu estival límpido e cintilante, os olhos de Alistair
eram como o mar Ártico. Inclinou-se para mim e, no último instante,
desviei a cara. Senti a barba do seu queixo quando os lábios dele roçaram a
minha face.
Fulminava-me com o olhar quando afastou a cara.
– Aquilo não foi um beijo – reclamou Alistair.
Encolhi os ombros.
– Não definiste que tipo de beijo seria – aleguei. – A culpa não é minha.
Nadei na direção oposta, dessa vez a um ritmo mais lento. Uns segundos
mais tarde, ouvi o movimento da água atrás de mim e percebi que Alistair
me seguia.
A meio da piscina, ele esticou o braço e agarrou-me no tornozelo. Puxou-
me com força contra ele, contra o seu peito musculado. Senti o seu cheiro:
um vestígio de especiarias e qualquer coisa exótica e doce, como flores de
tuberosa. Olhou-me nos olhos e percebi que me ia beijar antes de o ter feito.
Roçou-me os lábios ao de leve, entrelaçou os dedos da mão no meu cabelo e
puxou-me mais ainda para si. Abriu-me os lábios com a língua e beijou-me
com força. Fiquei sem fôlego, com o coração a martelar-me no peito, com o
vértice das coxas a doer.
Quando terminou, olhou para mim, com a testa encostada à minha.
– Isto, sim – murmurou, contra os meus lábios –, foi um beijo.