Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 22 de 44

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Magníficos Estranhos

Vinte e um CHARLIE CALLOWAY

Vinte e um

 

 

CHARLIE CALLOWAY

 

2017

 

Esperei que a Sra. Stanfeld fizesse a sua ronda noturna para confirmar que

toda a gente já estava nos respetivos quartos, e, sem perder tempo, tirei uma

mochila do roupeiro e fiz a mala: uma muda de roupa, o portátil e o

conteúdo da caixa que o tio Teddy me enviara.

– Importavas-te de ser sincera comigo? – pediu Drew, observando-me

desde a sua cama. – Diz-me o que se passa.

– Não sei o que se passa – respondi, ocupada a tentar que a frasqueira

coubesse na mochila. – Mas planeio descobrir, isso é certo.

– Okay – cedeu Drew. – Estás a deixar-me preocupada. Podes dizer-me

ao menos onde é que vais?

– Vou a Hillsborough – revelei. – Mas não podes dizer a ninguém, nem

sequer ao Leo. Preciso que me encubras, caso amanhã não chegue antes do

recolher obrigatório. Pode ser?

– Combinado – disse Drew.

Saí pela janela e depois Drew lançou-me a mochila.

– Promete que vais ter cuidado – sussurrou Drew.

– Vou tentar – sussurrei de volta.

Meti-me no carro e cheguei a casa dos meus avós às duas da manhã. A

carrinha do meu tio Hank encontrava-se na entrada para a garagem e a casa

estava às escuras. Não queria acordá-los, por isso reclinei o banco e fechei

os olhos. Não esperava conseguir dormir, mas fui despertada por uma

pancada no vidro.

– Charlotte?

Sentei-me e esfreguei os olhos. Gemi quando tentei rodar o pescoço.

Estava hirto por ter dormido no carro.

A minha avó abriu a porta do carro.

– Charlotte? – tornou ela. –Que estás a fazer aqui fora, querida?

– Olá, avó – cumprimentei. Pestanejei e perguntei que horas eram.

Ela estava de roupão e chinelos e tinha o jornal matutino na mão.

Devia ter um ar realmente atarantado, já que a minha avó não me

pressionou mais acerca do motivo por que me encontrara ali. Em vez disso,

sugeriu:

– Vem para dentro. Eu faço-te qualquer coisa para comeres.

Segui-a e sentei-me à mesa da cozinha. Senti o cheiro a café acabado de

fazer e olhei em redor. A minha avó untava uma frigideira e punha-a ao

lume.

– Panquecas e ovos parece-te bem, querida?

– Sim – respondi.

– Aqui tens – disse ela, depois de me servir uma caneca de café e de a

pousar à minha frente.

Ocupou-se a bater os ovos e a preparar a massa das panquecas, mas não

parou de me deitar olhares preocupados. Beberiquei o café ao mesmo tempo

que tentava pôr as ideias em ordem.

Jake. Jake Griffin. Jake Griffin e a minha mãe. Fora isso que me levara

ali. Que tinha acontecido a Jake? Como é que ele morrera? E qual era a

relação entre Jake e a minha mãe e o meu pai? Porque tinha de haver

qualquer coisa que os unisse. Tinha as peças do quebra-cabeças e só me

faltava entender como é que elas se encaixavam.

Preparava-me para abrir a boca e falar de Jake, para dizer à minha avó

que tinha ouvido a conversa que ela tivera com o investigador privado e que

precisava de saber tudo o que havia para saber, quando o meu tio Hank

entrou na cozinha.

Estacou mal me viu. Ainda levantei a mão para lhe acenar, mas desisti

assim que vi a sua expressão de ódio e desprezo.

– Que raio está ela a fazer aqui? – perguntou ele.

O quê?

A minha avó parou de fazer panquecas e virou-se para ele.

– Esta casa é minha, Hank, e sou eu quem decide quem é bem-vindo, e a

Charlotte é sempre bem-vinda.

– Depois da merda que ela armou? – vociferou o tio Hank, apontando-me

um dedo; fulminava-me com o olhar. – Ela não é a Grace, mãe. Pode

parecer-se com ela, mas não é. É um deles e será sempre um deles.

– Que se passa? – perguntei.

– Sabes muito bem o que fizeste – afirmou o meu tio. Espumava de raiva.

– Achava que eras aquela menina de quem eu me recordava. Mas não és.

Tornaste-te em tão traiçoeira e manipuladora como todos eles. Confiei em

ti, mas não devia tê-lo feito. Foi um erro que não voltarei a cometer.

As lágrimas ardiam-me nos olhos. Que podia eu ter feito desde a última

vez que ali estivera para ele me odiar tanto? Tinha a certeza de que só podia

ser um grande mal-entendido.

– Tio Hank… – comecei, mas ele ergueu umas das mãos para me calar.

– Nem te atrevas – rosnou ele. – Não te ponhas a chorar como se te

tivéssemos magoado quando na verdade te estás pouco marimbando para

nós. Mentiste-me descaradamente.

– Eu não…

Olhei para a minha avó em busca de ajuda. De braços cruzados à frente

do peito, parecia abraçar-se a si mesma. As lágrimas corriam-lhe pelas

faces.

– Foste falar com ele depois de eu te ter pedido que não o fizesses – disse

o meu tio.

– Com quem? – indaguei.

– Com o teu pai – revelou o tio Hank.

– Não fui!

– Então, porque veio o teu tio falar comigo? Como é que ele sabia das

fotografias?

– O tio Teddy contactou-o? – inquiri.

– Exigiu que lhe desse as fotografias que encontrei – contou o tio Hank. –

Ameaçou acusar-me de invasão de propriedade privada se não o fizesse.

– Eu não sabia – expliquei. – Não imaginava que ele fosse fazer isso.

– Fora daqui – ordenou o meu tio. – Seja lá o que for que vieste aqui

fazer, não estamos interessados. Não vieste aqui por nós. Estás aqui porque

queres alguma coisa, só que vieste bater à porta errada.

Olhei de novo para a minha avó, à espera que ela dissesse qualquer coisa

em minha defesa, mas ela não o fez. Limitou-se a olhar para mim como se

lhe tivesse partido o coração.

– Lamento… – disse, e, levantando-me, saí pela porta antes que as minhas

pernas deixassem de suportar o meu peso.

*

 

No carro, ordenei a mim mesma que não chorasse. Dirigi-me ao último

lugar em Hillsborough onde talvez ainda fosse bem recebida: a casa dos

Rhodes.

Eram cerca de sete e meia da manhã. Sabia que era um pouco cedo para

visitas não anunciadas, mas, ainda assim, toquei à campainha.

Greyson veio abrir.

– Por aqui, Martha Stewart? – gracejou ele.

Fazia um esforço hercúleo para manter a compostura. Tinha um caroço

enorme na garganta e sentia-me vergar sob um peso insuportável. Agora

odeiam-te, dizia a mim mesma. Odeiam-te.

Foi difícil não me aperceber da enorme disparidade entre o afeto e amor

que sentira da última vez que estivera em casa dos meus avós e a frieza

absoluta com que fora corrida desta feita. E a minha avó limitara-se a

assistir a tudo aquilo. Permitira que o meu tio dissesse aquelas coisas

horríveis e olhara para mim como…. Como se concordasse com ele.

Jamais tornaria a ser bem recebida ali. Não voltaria a sentar-me na sala de

estar, na companhia de toda a gente, enquanto assistíamos a um jogo de

futebol. Nunca mais iria dormir na cama da minha mãe. Já não pertencia ali.

– Charlie, estás bem? – perguntou Greyson. O sorriso e a comicidade

tinham-se dissipado, sendo substituídos por uma expressão de ansiedade.

– A tua mãe está? – inquiri. – Preciso mesmo de falar com ela.

– Foi levar os miúdos à escola – informou-me ele. – E depois ia começar

o turno dela no hospital.

Olhei para Greyson com olhos de ver e reparei que estava de fato e

gravata. Era dia de semana, portanto, ele preparava-se para sair para o

trabalho. Como é que não reparara nisso antes? Estava desnorteada por ter

dormido pouco.

– Não devia ter vindo – disse. – Peço desculpa.

E dei meia volta para me dirigir ao carro.

Não chores até chegares ao carro, disse a mim mesma.

– Charlie, espera… – chamou Greyson, e avançou atrás de mim pelo

passeio. Desatei a correr para o carro, mas ele chegou primeiro do que eu e colocou-se à frente da porta do condutor, bloqueando a minha fuga. –

Charlie, que se passa? – insistiu Greyson.

E fez então o impensável. Abraçou-me e foi a minha ruína. Desatei a

chorar. Baba e ranho. Como uma Madalena.

Greyson acariciou-me as costas e abraçou-me com mais força.

– Está tudo bem – garantiu Greyson. – Vai ficar tudo bem.

E as palavras dele reconfortaram-me, embora soubesse que não

correspondiam à verdade.

*

 

Quando acordei, não sabia onde estava. Olhei à minha volta. Vi as cortinas

da janela fechadas e estava deitada numa cama, mas não era a minha, e

aquele não era o meu quarto.

Era uma cama de casal com lençóis escuros. Havia um televisor e uma

Xbox em cima de uma cómoda preta e uma secretária com um portátil

encostada à outra parede. E vi troféus de futebol numa estante e fotografias

de um rapaz de cabelo louro. Era Greyson. Estava no quarto de Greyson.

Sentei-me. Lembrei-me então da crise de choro no passeio, do abraço de

Greyson, que durara até eu já não ter mais lágrimas para chorar. Depois,

levara-me para o seu quarto e deitara-me como se eu fosse uma criança.

Fechou as cortinas e disse-me que dormisse descansada. Adormeci mal

fechei os olhos.

Desci. Greyson estava na cozinha, ao fogão, a cozinhar qualquer coisa. O

cheiro era delicioso, e o meu estômago roncou, apesar de tudo.

– Que estás a fazer? – perguntei.

– Burritos – revelou ele. – São o melhor para a ressaca pós-crise.

– Cheira divinamente – elogiei.

– Estás com ar de quem já se sente melhor – comentou ele.

– Sinto, sim.

Sentei-me no banco alto em frente à ilha e ele preparou-me um burrito e

fez o prato deslizar até mim. Comi como se estivesse esganada e, no final,

lambi os dedos. Depois, arrotei acidentalmente. Tapei a boca com a mão e

corei. Bolas.

– Na China é sinal de que apreciámos a refeição – tratei de alegar.

– Diz que é o melhor elogio que se pode fazer ao cozinheiro – concordou

Greyson, e eu desatei às gargalhadas. Greyson também se riu.

Quando nos recompusemos, Greyson perguntou:

– Então, depreendo que o teu tio te arranjou os ficheiros do investigador

privado?

– Arranjou – respondi, e pu-lo a par de tudo, desde a teoria da minha tia

Grier, segundo a qual a minha mãe, uma exploradora, só quisera arranjar

um marido rico na família Calloway, à descoberta da misteriosa morte de

Jake no anuário do meu pai, passando pela entrevista da minha avó e pela

reação do meu tio Hank quando eu aparecera em casa dos meus avós

naquela manhã.

– Bolas! – exclamou Greyson. – Esquece lá os meus burritos para a

ressaca. Se tivesse sabido de tudo isso, teria feito a minha omelete para o

stress pós-traumático.

– Pois, estou um pouco transtornada, no mínimo – concordei.

– Que posso eu fazer para ajudar? – indagou Greyson. – Atribui-me uma

tarefa. Dá-me qualquer coisa para fazer

– Preciso de falar com a tua mãe – respondi. – Ela há de saber disto do

Jake. Como é que ele morreu e se isso poderá estar, de alguma maneira,

relacionado com o desaparecimento da minha mãe.

– Vou buscar as chaves do carro – disse Greyson.

*

 

Greyson estava sentado ao meu lado na sala de espera das Urgências.

Tínhamos contactado Claire há cerca de dez minutos, através do pager. De

repente, as portas automáticas do corredor abriram-se e Claire apareceu a

correr.

– Greyson, que se passa? O Ryder está bem? Foi o Nolan?

Greyson levantou-se.

– Não, está toda a gente bem, mãe. Mas há uma pessoa que precisava de

falar contigo.

Deu um passo ao lado, revelando a minha presença ali, e eu pus-me de pé

também.

Claire suspirou de alívio ao ver-me e depois virou-se para Greyson e

abanou a cabeça.

– Não se envia uma mensagem a uma pessoa nas urgências a dizer cento e

doze a menos que se esteja a sangrar da cabeça – refilou Claire.

– Acredita em mim, é isso, mais ou menos, que se passa – alegou ele. – Metaforicamente, pelo menos.

Claire olhou para mim.

– Que se passa, Charlotte? – inquiriu ela. – Está tudo bem?

– É por causa da minha mãe – revelei. – Preciso que me diga tudo o que

sabe acerca dela e de Jake Griffin.

Greyson, Claire e eu sentámo-nos num banco na rua, junto à entrada do

hospital.

– Jake Griffin… ora aí está um nome que não ouvia há muito tempo –

disse Claire. – Que te fez querer saber dele?

Contornei a verdade, uma coisa em que começava a tornar-me perita.

– O meu pai deu-me acesso às entrevistas que o investigador privado

levou a cabo e o nome do Jake veio à baila – expliquei. – Queria apenas

preencher algumas lacunas, pormenores que não entendo.

Claire fez que sim com a cabeça.

– Entendo, mas o Jake não tem nada que ver com o desaparecimento da

tua mãe. Isso foi há várias décadas.

– Eu sei. Queria apenas compreender melhor.

– Bom, não há muito para contar – disse Claire. – A tua mãe e o Jake

cresceram juntos. Os Griffins viviam na mesma rua que os teus avós,

naquela casa azul, na esquina da rua. O Jake e a tua mãe passavam a vida

juntos e quando andavam na escola preparatória começaram a namorar. Só

que o Jake era um sonhador. Queria mais do que aquilo que Hillsborough

tinha para oferecer e, quando começou a frequentar o liceu, transferiu-se

para um colégio interno fora do estado, a expensas de uma bolsa de estudos.

A partir daí, a tua mãe e ele mantiveram um namoro à distância, que, de um

modo geral, até resultou. Claro que também tinham os seus

desentendimentos, como toda a gente.

– Discutiam por causa de quê? – quis saber.

– Coisas normais – disse Claire. – Como o facto de passarem pouco

tempo juntos. Mas depois entendiam-se. Então, no décimo primeiro ano,

pouco antes das férias do Natal, se não me engano, o Jake suicidou-se.

– Porquê? – perguntei.

– Para te dizer a verdade, foi um choque para todos nós – respondeu

Claire. – O Jake era um rapaz bem-disposto, feliz. Suponho que isto só

mostra que, na verdade, nunca sabemos o que se passa na cabeça das

pessoas. Julgo que o Jake estava com dificuldades nos estudos. Foi encontrado um exame roubado no quarto dele. E também encontraram um

bilhete. Segundo o que Jake deixou escrito, alguém tinha descoberto que ele

roubara o exame e preparava-se para o denunciar. Seria expulso da escola,

provavelmente. Imagino que o Jake tenha achado que iria perder tudo aquilo

por que trabalhara tão arduamente. Quando somos muito jovens, uma coisa

dessas pode parecer-nos o fim do mundo. A tua mãe ficou devastada.

Jamais esperara uma coisa assim.

– Então e o meu pai? – indaguei.

Claire fez um ar baralhado.

– Que tem o teu pai?

– O colégio interno que Jake frequentou era o Knollwood Augustus Prep

– revelei. – Eles eram amigos.

– O Jake e o teu pai conheciam-se? – perguntou Claire.

– Sim – confirmei. – A minha mãe nunca mencionou isso?

– Não – disse Claire. – Nunca.

Seria possível que a minha mãe ignorasse esse facto? Seria uma mera e

estranha coincidência que se tivessem conhecido anos depois de Jake ter

falecido?

Havia, no entanto, alguma coisa que me dizia que não se tratava de uma

coincidência, que, ainda que não percebesse de que modo as coisas estavam

relacionadas, elas encaixavam umas nas outras. A relação entre os três era

importante. Só me restava descobrir porquê.

*

 

– Talvez seja tipo aquela teoria dos seis graus de separação – referiu

Greyson. Inclinou-se para a frente para aumentar o volume do rádio. Os Red

Hot Chili Peppers estavam a tocar. – Tipo eu conheço uma pessoa que

conhece uma pessoa, que conhece uma pessoa que conhece outra pessoa

que conhece o Tom Cruise – acrescentou Greyson. – O mundo é mais

pequeno do que imaginamos. Há dois anos, durante o verão, andava eu à

boleia pela Europa com um compincha quando, em frente ao Palácio de

Buckingham, enquanto assistíamos ao mudar da guarda, olho para a minha

direita e dou de caras com a senhora Chavez e o marido, que moram na casa

em frente à da minha mãe. Cada qual com a sua pochete e tudo. Quais são

as hipóteses de atravessares meio mundo e acabares no mesmo sítio, à

mesma hora, que os teus vizinhos?

– Realmente – concordei. – É, de facto, muito estranho.

Tirei os pés do painel de instrumentos quando Greyson ligou o motor do

carro. A tarde ia a meio e encaminhávamo-nos para casa de Claire. Parámos

num semáforo e olhei pela janela. Vi um sem-abrigo sentado num banco

junto à paragem do autocarro. «Desvende os Factos. Discreto e

Confidencial», dizia o anúncio nas costas do banco.

Quando a luz mudou para verde e Greyson acelerou, o sem-abrigo deitou-

se no banco e pude então ler o anúncio todo. Sob o título «Hindsberg &

Thornton Investigations», havia uma fotografia cortada pelos ombros de

dois homens de fato. Olhavam em frente com um sorriso confiante. Não

podia ser!

– Para! – gritei. – Para o carro.

Greyson travou o Corolla no meio do cruzamento. Fui empurrada para a

frente no assento e o condutor do carro atrás de nós buzinou, zangado.

– Que foi? – perguntou Greyson. – Charlie, que é?

Um dos homens daquela fotografia, o da direita, estava mais velho do que

da última vez que o vira. Tinha entradas pronunciadas no cabelo e o rosto

mais rechonchudo. Mas era ele. Tinha a certeza de que era ele.

– Olha – disse, e apontei para o banco. O olhar de Greyson seguiu a

direção que o meu dedo indicava. – É ele – prossegui. – O homem que

aparece nas fotografias do tio Hank. O tipo que está no restaurante com a

minha mãe. É ele.