Magníficos Estranhos
Doze GRACE FAIRCHILD
Doze
GRACE FAIRCHILD
OUTONO DE 1996
Quando terminei o liceu, consegui uma pequena bolsa de estudos para
frequentar o Trenton State College, em New Jersey. Ninguém na minha
família alguma vez andara na universidade, portanto, foi um grande feito
para mim carregar o Oldsmobile que havia sido da minha mãe e conduzir
quatrocentos quilómetros em direção a sul e ao meu quarto, no Travers Hall.
O que se passava era que nunca ninguém saía de Hillsborough. As
pessoas nasciam ali, cresciam ali e depois casavam com o namorado do
liceu, compravam uma casa ao fundo da rua dos pais e repetiam o ciclo. Só
que eu não queria isso. Sempre ansiara por uma outra vida, por algo mais.
Era quase uma espécie de força física que me movia, que me empurrava
para longe da órbita de Hillsborough.
Jake era como eu, e por isso, entre muitas outras coisas, nos dávamos tão
bem. Jake era diferente da maioria das pessoas que eu conhecia. Sonhava
em grande e era muito inteligente e determinado. No liceu, conseguiu uma
bolsa para um colégio interno finório em New Hampshire. Entre nós, havia
um acordo tácito: ele iria e, mesmo não estando a viver na mesma rua que
eu, a distância não mudaria nada entre nós; e não mudou.
Jake e eu éramos como duas peças de um puzzle que encaixam uma na
outra: parecidos em alguns aspetos, diferentes noutros, mas as nossas
diferenças complementavam-se sempre. Jake crescera com duas irmãs mais
novas, por isso, era mais sensível do que a maioria dos rapazes. Eu tinha
crescido com três irmãos mais velhos e, em resultado disso, desenvolvera
uma resistência e uma força que surpreendia muita gente. Jake era
estudioso, amante de livros; eu era dada às artes, andava sempre com nódoas de tinta na roupa e nas Doc Martens, com os dedos sujos de argila.
E ao passo que eu era calada e reservada, Jake era o tipo de rapaz que nos
punha imediatamente à vontade. Jake era o meu melhor amigo e eu amava-
o, mais do que alguma vez amara alguém, mas depois ele morreu.
Só que, não morreu apenas, suicidou-se. Essa foi talvez a parte mais
difícil: a morte de Jack não resultou de um qualquer acidente trágico, mas
de uma escolha sua.
A outra parte difícil foi o facto de não me ter apercebido de nada.
Aconteceu perto do final do semestre de outono, andava eu no segundo ano
do liceu e ele no terceiro, mesmo antes de Jake vir a casa passar as férias de
Natal. Tínhamos falado pela última vez duas noites antes e ele soara-me
normal, feliz. Não sabia que seria a última conversa que teríamos, caso
contrário ter-lhe-ia prestado mais atenção. Tinha acabado de sair do banho
quando ele ligou e estava aborrecida por causa de uma discussão que tivera
com a minha amiga Claire; falei com ele menos tempo do que era costume
porque queria terminar um trabalho que tinha de entregar na manhã
seguinte.
Mais tarde, quando soube que Jake tinha morrido, repeti aquela conversa
na minha cabeça uma e outra vez, tentando perceber o que me escapara. Ele
parecera-me tão entusiasmado por regressar a casa; já tínhamos planeado as
férias: descer Martha’s Hill de trenó, patinar no lago Langely, beber batidos
e chocolate quente no velho A&W. Onde é que, no meio de tudo isso,
estava um pedido de ajuda? Onde é que, no meio de tudo isso, estava a
despedida de Jake?
De início, pus tudo em dúvida. Quis ver o bilhete que fora encontrado na
máquina de escrever no quarto de Jake. Examinei-o minuciosamente,
tentando desacreditá-lo. Na noite a seguir ao funeral, telefonei à mãe de
Jake e perguntei-lhe o que queria ele dizer quando, no bilhete, admitia ter
roubado aquele exame. Jake tinha sido sempre aluno de vintes, porque
precisaria de roubar um exame? Não fazia qualquer sentido.
Na manhã seguinte, a minha mãe veio falar comigo.
– Sei que estás a sofrer – disse ela –, mas tens de ter alguma compaixão
pela pobre senhora Griffin. Ela perdeu o filho. Estás a escarafunchar uma
ferida que quer sarar.
Dei-me conta de que, em certo sentido, a minha mãe tinha razão. As
minhas perguntas eram egoístas. Uma parte de mim estava zangada com Jake pelo que ele fizera, mas uma parte maior estava zangada comigo
mesma. Porque Jake me conhecia melhor do que ninguém: confiara-lhe os
meus triunfos mais insignificantes e as minhas maiores derrotas. Escutara-
me pacientemente e encorajara-me quando eu me sentira em baixo. Mas eu,
não sei como, não tinha feito o mesmo por ele. Jake precisara
desesperadamente de mim e eu não o escutara com atenção suficiente para
me aperceber disso. Fracassara, desamparara-o da maneira mais abjeta que
uma pessoa podia faltar a outra. E enquanto questionasse tudo, enquanto
Jake não se tivesse realmente suicidado, enquanto houvesse uma qualquer
outra explicação, não o teria dececionado tanto quanto acreditava que
dececionara.
Por outro lado, a minha mãe não tinha razão. Eu não estava a
escarafunchar uma ferida que tentava sarar, porque a dor que sentia jamais
passaria. Jake havia sido uma parte de mim e essa parte desaparecera, para
sempre; nunca mais voltaria a estar completa. Compreendia isso, mesmo
aos dezasseis anos. E tinha consciência disso aos dezanove anos, quando
desisti da universidade para me dedicar à arte. E sabia disso aos vinte e dois,
quando conheci o homem por quem me apaixonei em seguida, em Trenton,
onde vivia há três anos.
O nome dele era Teddy Calloway. Eu trabalhava em part-time na
biblioteca local (a arte não me pagava as contas) e estava a arrumar os livros
devolvidos nas respetivas prateleiras. Tinha os auscultadores nos ouvidos
para ir ouvindo música no meu Walkman. Ao empurrar o carrinho, senti-o
bater em qualquer coisa e ouvi um grito abafado. Vi um jovem a encolher-
se na outra extremidade do carrinho. Vários livros da pilha que transportava
tombaram ruidosamente sobre o chão.
– Merda! – exclamei.
Sobressaltado, o rapaz olhou para mim e deu uma risada; não percebi
onde estava a graça. Era um rapaz muito atraente, alto, pelo menos quarenta
e cinco centímetros mais alto do que eu e dono de uns olhos azuis e
penetrantes. Levou o indicador aos lábios, como se me quisesse silenciar, e
dei-me conta de que continuava com os auscultadores nos ouvidos e que
devia ter gritado «merda», ou, no mínimo, praguejado num volume pouco
apropriado para uma biblioteca, onde devia reinar o silêncio.
Como que seguindo uma deixa, uma idosa assomou-se ao corredor e
disse, escandalizada:
– Importava-se de não fazer barulho?
Assim que a mulher desapareceu, mordi-me para não desatar a rir. Olhei
para o sorridente rapaz do outro lado do carrinho, tirei os auscultadores e,
mexendo apenas os lábios, repeti: «Merda».
Ele riu-se.
Contornei o carro e ajoelhei-me para apanhar do chão os livros que
tinham tombado. O rapaz inclinou-se para me ajudar.
– És um bocado desastrada, não és? – segredou ele.
– E tu és um bocado desbocado, não és? – segredei de volta.
Ele sorriu.
– Peço desculpa por te ter magoado – disse. – Não estava a prestar
atenção.
– Não faz mal. De qualquer maneira, eu não estava a usar este pé –
replicou ele. – Que música é que gostas de ouvir?
– Um pouco de tudo – respondi, e empilhei os livros caídos nos braços. –
Nirvana, Pearl Jam, Smashing Pumpkins.
– Smashing Pumpkins – repetiu ele, acenando aprovadoramente. – Vi-os
no ano passado, ou assim, em Lollapalooza. O que estavas a ouvir é do
último álbum deles?
Fiz que sim com a cabeça.
– Como é que te chamas? – quis ele saber.
– Grace Fairchild. E tu?
– Teddy – disse ele. – Teddy Calloway.
E pensei imediatamente em Jake.
Reconheci o último nome de Teddy. No colégio interno, Jake tinha um
amigo chegado chamado Calloway. Falara-me dele várias vezes e mostrara-
me fotografias. Lembrava-me vagamente dessas fotografias: um rapaz alto,
louro, de olhos azuis e sorriso presunçoso. O rapaz que vira nas fotografias
assemelhava-se ao que estava agachado ao meu lado, entre duas estantes
poeirentas da biblioteca.
– Andaste na Knollwood Prep – aventei.
Teddy fez um ar surpreendido.
– Sim, na verdade, andei. Conhecemo-nos? Também lá andaste?
– Não, mas um amigo meu foi lá aluno. Jake Griffin. Conheceste-o?
– Não – respondeu Teddy. – Mas também só lá andei uns meses, no
primeiro ano. Passei a maior parte do tempo em Andover.
– Ah.
– Talvez estejas a pensar no meu irmão mais velho, o Alistair – sugeriu
Teddy. – Ele fez o liceu todo lá.
Alistair. Sim, claro. Era esse o nome dele.
– Ah, sim, és capaz de ter razão – anuí.
– Então, que liceu excessivamente caro é que frequentaste? – indagou ele.
– Eu? Nenhum. Andei numa escola pública.
– Sorte a tua – declarou ele.
Encolhi os ombros.
– Andas em Princeton? – inquiriu ele. Princeton ficava a cerca de vinte
quilómetros de Trenton.
– Não, sou apenas uma habitante local – expliquei.
Ele animou-se.
– A sério?
– E com que outros factos perfeitamente banais acerca da minha pessoa é
que te posso impressionar? – perguntei, sarcasticamente.
– É estimulante conhecer alguém que não seja da universidade, para
variar, é só isso – explicou ele. – Eu ajudo-te com os livros.
Passei-lhe os livros que segurava e, ao fazê-lo, a minha mão roçou contra
a pele do seu antebraço e senti uma pequena descarga elétrica.
– Que vais fazer esta noite, Grace? – perguntou ele, ao mesmo tempo que
pousava os livros no carrinho.
Levei a mão ao pendente suspenso no fio que tinha ao pescoço. Fora Jake
quem mo comprara em West Haven, no último verão que tínhamos estado
juntos. O pendente era o seu signo do Zodíaco e a pedra relativa ao mês do
seu nascimento: um caranguejo de rubi segurando dois diamantes nas
pinças.
Sacudi as mãos nas coxas das calças de ganga e olhei para Teddy,
mordendo o lábio.
– Não sei. Que vamos fazer esta noite? – respondi, descaradamente.
Teddy foi buscar-me a casa às oito horas e levou-me a um pequeno
restaurante na cidade. Fazia coisas à moda antiga, como segurar a porta para
eu entrar, puxar a cadeira onde eu me ia sentar à mesa e pôr o seu casaco à
volta dos meus ombros quando eu tinha frio.
Duas semanas depois do nosso primeiro encontro, levou-me ao baile de
beneficência da família dele, no Carlyle Hotel, em Nova Iorque.
Foi a minha primeira incursão no mundo de Teddy. Em Trenton,
costumávamos frequentar sobretudo o meu mundo: Teddy aparecia na
biblioteca e íamos para o meu apartamento ou então ao cinema. Nunca ia ter
com ele à universidade, nunca me levava ao clube onde tomava as refeições,
nem nunca conheci os seus amigos.
Sempre soube que Teddy e eu éramos diferentes, oriundos de mundos
diferentes. Contudo, nunca o sentira até àquela noite no Carlyle Hotel.
Quando entrei no salão de baile, fiquei deslumbrada; nunca tinha visto nada
assim. Os fatos à medida e os cintilantes vestidos de noite, os copos de
cristal e o jantar de sete pratos. E ali estava eu, no vestido simples que
encontrara numa loja de roupa em segunda mão, na esquina da rua onde
vivia. As pessoas cumprimentavam-se com um beijo na face, como os
parisienses que eu via nos filmes, e conversavam acerca de restaurantes e
chefes e designers de moda e hotéis e cidades onde eu nunca tinha estado,
como se falassem numa língua estrangeira. E eu ali, no meio de tudo aquilo,
esforçando-me por sorrir e interrogando-me sobre o que fazer com as mãos.
A única coisa agradável em relação àquela noite foi conhecer o irmão de
Teddy, Alistair. Vê-lo foi como encontrar um rosto conhecido no meio de
uma multidão de estranhos, o que não deixava de ser bizarro, tendo em
conta que nunca o conhecera em pessoa; apenas o vira em fotografias e
ouvira Jake falar dele. Porém, era como se fôssemos velhos amigos a
retomar uma amizade depois de muito tempo de separação. Não senti
qualquer constrangimento quando dançámos ou falei com ele de Jake.
Aguentei o resto da noite da mesma maneira que suportara os dois
últimos anos em Hillsborough após a morte de Jake: bebi mais do que devia
até me sentir mais corajosa, ri de coisas que não compreendia e sorri
quando, na realidade, queria chorar. Era quem, no meu entender, toda a
gente ao meu redor queria que eu fosse, e detestava isso.
No final do serão, um carro levou-nos de regresso a New Jersey e Teddy
deitou a cabeça no meu colo. Estava ligeiramente embriagado. Passei os
dedos pelo seu cabelo e tentei memorizar os traços do seu rosto, embora
estivesse demasiado escuro.
– Divertiste-te? – perguntou-me ele.
– Sim – menti.
– A minha mãe gostou muito de ti – disse ele.
– Percebe-se que te ama do fundo do coração – referi. E era verdade.
Se fosse apenas Teddy e eu o tempo todo, como até então, eu até seria
capaz de levar aquilo adiante, pensei. Não haveria uma réstia de dúvida na
minha cabeça em relação a nós. Mas não iria ser apenas Teddy e eu no
nosso pequeno mundo. Mais cedo ou mais tarde, iria haver o mundo dele
também, e isso eu não iria aguentar, sentir-me tão deslocada e tão
insignificante o tempo todo. Não podia regressar àquilo de que fugira: fingir
que era alguém que não era, fingir que sentia o que, no fundo, não sentia só
para fazer os outros felizes. Havia um fosso entre nós e eu não sabia se
seríamos capazes de o ultrapassar.
Quando chegámos ao meu apartamento, Teddy acompanhou-me à porta.
Encostou-se à moldura da porta enquanto eu procurava as chaves na
carteira.
– Posso dormir cá? – pediu ele. – Estou um pouco embriagado.
– Não acho que seja uma boa ideia – respondi, sem o olhar nos olhos.
– O melhor era eu não conduzir – alegou, com um sorriso pateta.
Descalçou-me a luva e beijou-me a pele nua do pulso.
– Tu não vais conduzir – realcei, e dei um puxão na mão. – Tens um
motorista.
– Que foi? – indagou ele, surpreendido que eu não estivesse a alinhar na
brincadeira, como era meu costume.
Mordi o lábio e forcei-me a olhá-lo nos olhos.
– Acho que não devíamos prolongar o inevitável, mais nada – declarei.
Arderam-me os olhos e odiei-me a mim mesma. Não queria chorar à
frente dele.
– Prolongar o inevitável? – repetiu ele. – De que raio estás a falar, Grace?
– Ora – respondi, e a minha voz tremeu, traindo-me. – Sei que também te
dás conta.
– Me dou conta de quê? – perguntou ele.
– De que somos… diferentes. Demasiado diferentes.
– Isto tem que ver com esta noite? – quis ele saber. – Pensei que te tinhas
divertido.
– Mas não diverti, okay? – disse. – É isto que queres ouvir? Não me
diverti. Senti-me como uma… como uma… Sei lá. E não gostei.
Teddy abriu os braços, envolveu-me neles e eu mantive-me hirta,
recusando-me a ceder ao seu toque ou a ser consolada.
– Grace – sussurrou ele para o meu cabelo –, peço desculpa.
– A culpa não é tua – disse. – Não peças desculpa, não fizeste nada de
mal.
Recuou, mantendo as mãos nos meus ombros, e tremia.
Achei que talvez estivesse aborrecido com o nosso rompimento; demorei
um momento a dar-me conta de que Teddy se estava a rir.
– O que carga de água é assim tão divertido? – inquiri, um pouco irritada.
– É que… – começou ele, e riu-se mais um pouco. – Só te levei para te
impressionar. Não estava à espera… Não estava à espera de que os
detestasses tanto quanto eu.
– Estás mesmo bêbado – observei.
– Não – contrapôs Teddy. – Quero dizer, sim, estou. Mas só porque é a
única maneira de aguentar uma noite com aquela gente.
Dei uma risada, mesmo sem querer.
– Sim – concordei. – Tens uma certa razão.
– São pavorosos – disse Teddy. – É tudo horrível… A comida, este fato, a
conversa vazia e presunçosa, e o tal de Francisco Trivoli, seja lá ele quem
for.
– Apenas o chefe e mecenas do Ivy – respondi, imitando o tom presumido
da mulher que em toda a noite não se calara com Francisco Trivoli. –
Aparentemente, tem três estrelas Michelin.
– Ele que vá à merda – ripostou Teddy.
Ri-me.
– Por favor, deixa-me entrar – pediu Teddy, enterrando as mãos nos
bolsos do casaco e balançando de um pé para o outro. – Os meus tomates
estão a engelhar, de tanto frio que está.
– Pronto, está bem – cedi. – Mas não te ponhas com ideias. Tu e os teus
tomates vão dormir no sofá.
– Palavra de escuteiro – respondeu Teddy, e fez o gesto correspondente. –
Juro por todos os chefes do mundo que não farei quaisquer avanços.
Dei uma risada.
– Parece-me que o juramento não é bem assim.
Deixei-o entrar. Esvaziámos uma garrafa de Pinot que tinha no armário e
Teddy, fiel à sua palavra, dormiu no sofá. Só que, eu dormi lá também,
aninhada nos seus braços, com o brilho do meu televisor velho iluminando
o teto e as paredes da sala. Ao mesmo tempo que adormecia, senti os
resquícios de uma coisa que não sentia há anos, desde que Jake morrera. Era a sensação de que talvez houvesse uma pessoa que me via por quem eu era,
que me entendia.