Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 41 de 44

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Magníficos Estranhos

Quarenta GRACE CALLOWAY

Quarenta

 

GRACE CALLOWAY

 

4 DE AGOSTO DE 2007

21h25

 

Terminei o meu sprint de um lado ao outro do lago. O coração parecia

prestes a explodir-me no peito, respirava com dificuldade. Virei-me de

costas e respirei fundo pelo nariz, expirando lentamente e inflando as

bochechas para acalmar a respiração. Aquela prazerosa sensação de

exaustão tomou conta de mim. Sentia-me esgotada, sem força, de tal

maneira que mal conseguia manter-me à tona. Deixei que a água me

ajudasse a flutuar e mergulhei as orelhas para ouvir os sussurros do lago.

A minha mente vagueou, tão lânguida como os músculos que eu

exercitara para lá do ponto de rutura. Pensei nas fotografias de mim e de

Peter, e das minhas filhas, que escondera sob as tábuas do soalho do quarto

e nos quinhentos mil dólares em dinheiro que guardara na mala, em

conjunto com os passaportes falsos que Peter arranjara para mim e para as

miúdas.

Naquela noite, planeava meter Charlotte e Seraphina no carro e rumar a

Teterboro, onde fretara um jato privado que nos levaria à Cidade do

México. Tinha usado a minha nova identidade para tratar disso e pagara um

montante extra para garantir o silêncio do piloto. A partir daí, voaríamos

para Léon de Los Aldama, no centro do país, onde apanharíamos um

autocarro para o nosso destino final, San Miguel de Allende, a uma hora e

meia de Léon, uma pequena cidade colonial nas faldas das montanhas

Bajío, o último lugar onde alguém se lembraria de nos procurar. Ficaríamos

num hotel até conseguir encontrar uma pequena casa para arrendar nos

arrabaldes da cidade.

Não tinha contado a ninguém para onde íamos, nem o que descobrira

acerca da morte de Jake: nem a Hank nem à minha mãe nem a Claire. Não

queria colocá-las em perigo. Assim que chegássemos a San Miguel,

encontraria uma maneira de lhes mandar notícia de que estávamos em

segurança.

Já tinha feito e posto as malas no meu carro. Dali a meia hora, acordaria

as miúdas e faria as malas delas. Chegaríamos ao México antes de Alistair

ter acordado sequer, antes de qualquer pessoa ter reparado que havíamos

desaparecido ou pensar em nos procurar.

Ainda não decidira qual seria a melhor forma de lidar com Charlotte.

Seraphina obedeceria sem dificuldade; iria estar demasiado ensonada para

fazer perguntas. Acabaria por adormecer na sua cadeirinha durante a

viagem e depois levá-la-ia ao colo para o jato. Charlotte, contudo, iria

despertar e começar a fazer perguntas assim que a acordasse; além do mais,

não iria a lado nenhum sem Alistair. O seu amor pelo pai era obstinado,

cego e resoluto.

Todas as sextas-feiras à noite, insistia em ficar acordada até que Alistair

voltasse da cidade. Sentávamo-nos no sofá da sala de estar a ver televisão.

Sera e Charlie iam bocejando e ficando cada vez mais sonolentas, mas

assim que os faróis do carro de Alistair se refletiam na parede da sala,

Charlotte acordava, abanava a irmã e corriam para a porta, de pijama e

descalças, ansiosas por cumprimentá-lo.

Na noite anterior, para desapontamento de ambas, mandara-as para a

cama à hora do costume. Seraphina fez beicinho, mas Charlotte não se quis

dar por vencida.

– Não podes ordenar a uma pessoa que durma – alegou Charlotte. – É

como dizer a alguém em que altura deve respirar. Não podes obrigar-me a

dormir.

Era um argumento muito eloquente para uma criança de sete anos. Como

é que o estabelecimento de uma hora para dormir se tornara numa discussão

acerca da autonomia de Charlotte em relação ao seu próprio corpo? Não

havia dúvidas de que era filha de Alistair.

– Xixi, cama – ordenei, demasiado cansada para discutir com ela. –

Agora.

– Vou para o meu quarto, mas recuso-me a dormir – afirmou Charlotte,

contrariada, ao mesmo tempo que subia as escadas.

– Escova os dentes primeiro – gritei ainda.

Estava decidida a manter-se acordada até que Alistair chegasse. Uma hora

depois, quando fui ver dela, encontrei-a, teimosa como era, a dormir sentada

na cama, encostada às almofadas.

Quando Alistair chegara, fora acordar as miúdas, apesar dos meus

protestos. Precipitaram-se os três para a rua com o objetivo de apanhar

pirilampos. Por cima do ombro, Alistair gritou-me que lhes levasse frascos

de vidro. Quando cheguei à porta, encontrei-os descalços, com os braços

esticados e as mãos abertas na direção do céu.

Como podia eu reconciliar aquele Alistair – o que andava descalço no

relvado com as filhas a apanhar pirilampos – com o homem que me tinha

feito aquelas coisas horríveis? Era ainda capaz de sentir as mãos dele a

empurrar-me contra a parede da cabina de duche, ao mesmo tempo que

impelia o corpo contra o meu sob a água do chuveiro que me enchia a boca

e me dificultava a respiração.

Engasguei-me e senti-me sufocar.

Demorei um momento a perceber o que se passava, que havia de facto

qualquer coisa ou alguém a agarrar-me os ombros, depois a agarrar-me o

pescoço, empurrando-me para debaixo de água. Tossi e tentei recuperar o

controlo sobre o meu corpo. Senti uma onda de adrenalina a correr-me nas

veias. Esgadanhei os dedos que me seguravam, numa tentativa de fazer com

que a pessoa me soltasse, mas isso só serviu para que aplicasse mais pressão

e me empurrasse mais para o fundo.

A água era rasa o suficiente para ter pé. Dei uma topada no fundo rochoso

do lago e levantei-me, emergindo da água. O cocuruto da minha cabeça

embateu na parte de baixo do queixo do meu agressor e ouvi dentes

chocarem uns contra os outros. Nesse instante, a pessoa perdeu a força e eu

aproveitei para a agredir às cegas. Inspirei ar e tentei tirar a água dos olhos,

pestanejando. Senti o meu punho entrar em contacto com pele; a pessoa

soltou-me, gemeu.

A minha visão clareou e, à luz do luar ténue, vi as curvas familiares do

seu rosto, o tom louro dos seus cabelos. Margot.

Lançou-se a mim, agarrando-me os ombros para me afundar de novo na

água, e eu segurei-me a ela. Cravei uma das mãos no seu ombro e com a

outra puxei-lhe o cabelo. Levantei a perna direita e dei-lhe uma joelhada na

barriga. Ouvi-a perder o fôlego. Largou-me. Dei meia volta e corri para a margem, na direção de casa, mas a água jogava contra mim, desacelerando

os meus passos, tornando-me em mais lenta.

Ofegante, as minhas pernas tremiam. O exercício consumira todas as

energias que me restavam e a onda inicial de adrenalina parecia estar a

desvanecer-se. Ouvia-a na água, atrás de mim, encurtando a distância que

nos separava. Eu não estava a ser rápida o suficiente. Ela impeliu-se para a

frente com um salto, contra as minhas costas, e eu gritei, um grito agudo, de

gelar o sangue, que se perdeu na noite.

Margot agarrou-me novamente, tapou-me a boca com uma das mãos.

Mordi-lhe os dedos até fazer sangue e ela largou-me. Girei sobre mim

mesma para ficar de frente para ela e engalfinhámo-nos, cada qual tentando

empurrar a outra para a água.

Ofegava e sentia as pernas pesadas. Margot grunhiu, deu-me um

empurrão com força e fez-me cair. Senti o peso do seu corpo tombar em

cima do meu e inspirei involuntariamente. A minha boca encheu-se de água

do lago. Ela apertou-me o pescoço, cada vez com mais força. Os seus

polegares comprimiam-me a traqueia. As minhas jugulares martelavam-lhe

nas palmas das mãos como tambores frenéticos. Empurrou-me a cabeça

para debaixo de água. Senti-a nos olhos e na boca. Debati-me com toda a

força que me restava. Sacudi os braços, esperneei, mas de nada me serviu.

Não conseguia vir ao de cima.

Pensei nas minhas filhas, sozinhas em casa, a dormir no piso de cima. O

que iria acontecer-lhes? Esforcei-me por encontrar uma maneira de as

proteger, tal como, toda a minha vida, tentara resguardá-las da tristeza e do

mal do mundo, de toda a injustiça e crueldade. Via então o quanto essa

tarefa se revelara infrutífera, fútil, insensata. Não as deveria ter mantido ao

largo da escuridão; devia, antes, tê-las ensinado a sobreviver a ela, a brilhar

no meio dela. Devia tê-las levado à rua numa noite sem luar e apontado para

as estrelas, esses pontos de luz no escuro, mostrando-lhes que se acendiam

apesar do negrume.

Inspirei novamente, sem querer, e senti a água descer pela minha garganta

e entrar-me nos pulmões. Ela manteve-me debaixo de água até o meu corpo

se aquietar, inanimado, e o bater do meu coração vacilar e parar.