Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 19 de 44

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Magníficos Estranhos

Dezoito ALISTAIR CALLOWAY

Dezoito

 

ALISTAIR CALLOWAY

 

PRIMAVERA DE 1997

 

Na sala de conferências, o meu pai e o principal arquiteto da empresa

tinham as plantas do nosso mais recente projeto de desenvolvimento, em

Murray Hill, abertas em cima da mesa. Estavam a rever os planos de

ordenamento da zona. Eu tinha acabado de regressar com o meu consultor

de design da visita a um edifício esventrado. Era o primeiro projeto oficial

que liderava para o Calloway Group. Encontrara o edifício e ajudara na

mediação do negócio. Iria, entretanto, supervisionar as extensas obras de

renovação que transformariam aquela decrepitude em apartamentos de luxo

que jovens profissionais de sucesso arrendariam por uma fortuna.

– Onde está o Teddy? – perguntou o meu pai ao ver-me entrar.

– Não está aqui? – indaguei também, e consultei o relógio de pulso. Eram

quase duas e meia da tarde. Teddy estava meia hora atrasado. Encontrava-se

na cidade a desfrutar das férias de final do semestre e o meu pai ordenara-

lhe que passasse pelo escritório.

De uma forma geral, eu ficaria satisfeito com a falta de comparência de

Teddy, mas isso fora antes de o meu pai o ter tornado no meu braço direito

no projeto de Murray Hill. Estava combinado que em maio, quando Teddy

terminasse a faculdade, me acompanharia na execução do projeto. O meu

pai até já tinha desimpedido um gabinete só para ele. Aparentemente, Teddy

ia conseguir um lugar à mesa, quer desse as caras, quer não desse.

– Eu ligo-lhe – afirmei. – Já volto.

A caminho do meu escritório, pedi a Rosie, a minha secretária, que

ligasse para Teddy.

Não me surpreendia que Teddy estivesse atrasado. Ele e Grace estavam

hospedados no meu apartamento no Upper East Side e passavam os dias a

deambular pela cidade e a apreciar as vistas. Evitara-os o mais possível,

saindo para o escritório antes de eles se levantarem. Tinha até ficado duas

noites em casa de Margot, mas o apartamento dela, num terceiro andar sem

elevador, em Brooklyn, era pequeno e desconfortável; além disso, ela

partilhava-o com outras duas estudantes de Medicina. Por isso, na noite

anterior, dormira em minha casa. Ouvi-os chegar, já tarde. A risada de

Grace ecoou no vestíbulo e depois ouvi a porta do quarto deles ranger ao

mesmo tempo que era fechada. Tapei a cabeça com a almofada e esforcei-

me por não os imaginar juntos.

– Tenho o Teddy na linha um – disse-me Rosie, da soleira da porta.

Levantei o auscultador.

– Onde raio é que tu estás? – exigi saber. – Estava combinado vires aqui

hoje rever os planos para o novo projeto de arrendamento. Estás meia hora

atrasado.

– Só um segundo – pediu-me Teddy. A sua voz distanciou-se. – Sim,

malpassado, se faz favor. E um copo de Chardonnay, quando puder. – Ouvi

estática e depois a voz do meu irmão novamente. – Desculpa. Que se passa?

– Diz-me que não estás a almoçar fora neste preciso momento! –

reclamei.

– Bem, a primeira sessão de cinema estava esgotada, por isso, tivemos de

ir à seguinte e isso atrasou o almoço, depois ainda tivemos de esperar para

arranjar mesa, portanto, só agora é que estamos a pedir – explicou Teddy.

– Mete-te na merda de um táxi e vem para aqui – comandei. – Agora.

– Tu, na verdade, não precisas de mim aí – argumentou o meu irmão. –

Não podes pôr-me mais tarde ao corrente do que eu perdi? Vá lá, estou de

férias, afinal de contas.

– Teddy – ripostei –, toda a tua vida tem sido umas longas férias. A

diversão acabou.

– Está bem, pai – respondeu Teddy.

– Estou a falar a sério, Teddy – declarei. – Já chega de brincadeira. Se o

pai e a Eugenia querem dar-te prémios de consolação a vida toda só por

existires, isso é problema deles. Mas este projeto é meu e macacos me

mordam se vou permitir que mo estragues.

– A tua voz está-me a chegar um pouco estridente – realçou Teddy. – Talvez seja apenas da ligação. Seja como for, as entradas já chegaram.

– Escuta-me bem, meu inútil – refilei –, nem penses em…

Mas antes que conseguisse terminar, Teddy desligou.

*

 

O meu telefone tocou. Procurei o interruptor do candeeiro da mesa de

cabeceira.

– Credo! – murmurou Margot, ao meu lado. Com a mão, protegeu os

olhos da luz.

– Desculpa. Volta a dormir – disse, pestanejando para ver as horas.

Duas e dezoito da madrugada. Quem é que me estaria a ligar àquela hora?

Alcancei o telefone. O número no ecrã era o de Teddy. Que se lixasse.

Apaguei a luz e virei-me. Abracei o corpo quente de Margot com o braço

e puxei-a para mim. Ela acariciou-me o braço com as pontas dos dedos e

aconchegou-se a mim.

Uns segundos depois, o meu telefone tocou novamente.

Margot gemeu e tapou a cabeça com a almofada para abafar o som.

Agarrei de novo o telefone e atendi.

– É bom que estejas a morrer numa valeta, algures – disse.

Só que, do outro lado, não foi a voz de Teddy que me respondeu, mas a

de Grace.

– Alistair? – perguntou ela.

Sentei-me na cama.

– Alistair, desculpa estar a ligar a esta hora – disse ela. Soava um pouco

ofegante. – Eu sei que é tarde, mas não sabia a quem mais ligar.

– Que se passa? – perguntei.

– É o Teddy – respondeu ela. – Está tudo bem, mas… É que ele bebeu

muito e depois vomitou no táxi e o condutor encostou e obrigou-nos a sair.

E agora mais nenhum taxista nos quer levar, tendo em conta o estado dele.

Está uma lástima e acho que não consigo fazê-lo descer as escadas do metro

sozinha. Ele é demasiado pesado e está sempre a cair.

– Onde é que vocês estão? – inquiri, esfregando os olhos para despertar.

– Em West Village – disse ela. – Entre a Seventh e Greenwich.

– Fiquem aí – pedi eu. – Eu vou buscar-vos.

*

Meia hora mais tarde, cheguei a Lower Manhattan. Avistei-os quase de

imediato: Teddy caído de montão no passeio e Grace com o seu casaco

curto de inverno, a respirar nuvens de vapor quente para o ar frio de março;

tinha um ar perdido e preocupado. Encostei o carro junto ao lancil do

passeio.

Grace chamou-me assim que me viu.

– Nunca o vi desta maneira – explicou ela. – Tentei convencê-lo a irmos

para casa há várias horas, mas ele recusou-se a sair do bar.

Tremia e tinha os lábios roxos. Tive vontade de esmurrar o meu irmão por

obrigá-la a estar ali ao frio, a meio da noite.

– Eu ajudo-te a metê-lo no carro – foi tudo o que disse.

Senti o cheiro do meu irmão antes de chegar perto dele. Tinha uma das

lapelas do casaco vomitadas e cheirava a vinho e a comida chinesa acre.

Grace segurou Teddy gentilmente por um dos braços e eu pelo outro, talvez

com alguma brutidão, e conduzimo-lo ao carro.

– Eu sei que estás de férias – disse a Teddy. – Mas isto não é Cancun.

Teddy entrou e esparramou-se no banco traseiro. Grace entrou a seguir a

ele e eu contornei o carro para me sentar ao volante. Antes de acelerar, olhei

para o meu irmão pelo espelho retrovisor.

– A que se deveu a comemoração? – perguntei num tom seco e irónico.

Abraçado a si mesmo, Teddy mantinha os olhos fechados e gemia.

– Foi o teu pai – contou Grace. – Telefonou ao Teddy por causa de ele

não ter aparecido para a reunião e, não sei, não correu bem.

– É um filho da mãe – grunhiu Teddy, e encostou a cabeça ao vidro. –

Não me sinto bem.

– Então, mete a cabeça de fora – recomendei. – Não vou pagar para

mandar limpar o carro só porque tu não sabes beber.

Grace inclinou-se e fez descer o vidro do lado de Teddy. O ar gelado

encheu o carro.

– Está demasiado frio – lamuriou-se Teddy, com a voz entaramelada.

– O ar frio faz-te bem – afirmou Grace. Acariciava o joelho do meu

irmão. – Fiquei com a ideia de que o teu pai foi um bocado duro com ele –

disse ela, dirigindo-se a mim.

– Não te deixes enganar pela fita do Teddy – respondi. – Ele merecia bem

mais do que umas palavras duras.

Teddy pendeu para o lado de Grace, deitou a cabeça no seu colo e fechou os olhos. Grace começou a afagar-lhe o cabelo e a cantarolar uma cantiga.

Nunca invejara nada ao meu irmão, mas invejei-lhe aquilo.

Teddy murmurou qualquer coisa que não entendi.

– Que disse ele? – indaguei.

– Qualquer coisa acerca de uma roseira? – disse Grace.

– É tal como a roseira – repetiu Teddy.

Ao fim de uns minutos, aquietou-se e calou-se. Achei que tinha

adormecido.

– Que quer ele dizer com a roseira? – perguntou-me Grace, num sussurro.

Entreolhámo-nos no espelho retrovisor. Desviei o olhar.

– Quando éramos miúdos, o meu pai pediu-me que fosse cortar a roseira

premiada da Eugenia – contei. Era a preferida da minha mãe, a que vencera

o Hartford Flower and Garden Show durante três anos consecutivos. Estava

um dia escaldante e a transpiração corria-me para os olhos; os espinhos

picavam-me as palmas ao mesmo tempo que golpeava o tronco da roseira

com a tesoura de poda do jardineiro.

– Em determinada altura, levantei a cabeça e vi Teddy a correr para mim,

gritando que parasse com aquilo. Não parei, é claro, o meu pai dera-me uma

tarefa para cumprir e eu tencionava levá-la a cabo. Acabámos por nos

envolver numa luta.

Recordava-me bem daquela briga: nós os dois rebolando pelo chão,

trocando canelados e murros.

– Cortei a roseira e, naquela noite, ao jantar, o Teddy não pôde sentar-se à

mesa.

– Por causa da briga? – inquiriu Grace.

– Não. Porque o meu pai lhe dissera para salvar a roseira e ele fracassara

nessa missão.

– Não compreendo – referiu Grace. – Pensei que o teu pai te tinha dito

para a cortares.

– E disse – expliquei. – A mim disse-me para a cortar e ao Teddy pediu

que a salvasse.

– Mas porquê?

– Suponho que quisesse ver qual de nós seria bem-sucedido.

– Mas isso é cruel.

Encolhi os ombros. Sabia que Teddy via o episódio da mesma maneira,

mas eu não.

O meu bisavô, um alfaiate, chegara àquele país com uma mão à frente e

outra atrás. Esfalfou-se a trabalhar e, com o dinheiro que poupou, comprou

uma fábrica no Meatpacking District e juntou uma pequena fortuna. O meu

avô, o mais novo de seis irmãos, trapaceou os irmãos para lhes ficar com a

herança e, com ela, fundara o Calloway Group. O meu pai pegara nessa

empresa e desenvolvera-a, transformando-a numa das maiores empresas do

ramo imobiliário da cidade de Nova Iorque. Não queria que o Teddy e eu

tomássemos como garantido o que ele conseguira; queria que fizéssemos

mais com o que nos seria dado, tal como o pai dele e ele mesmo tinham

feito. O objetivo do meu pai era que construíssemos o nosso próprio legado.

– O meu pai é um darwinista – referi. – Acredita que só os mais fortes

sobrevivem e que os restantes serão extintos.

– E tu também acreditas nisso? – quis saber Grace.

Mais uma vez, o nosso olhar cruzou-se no retrovisor. Quando era miúdo,

admirava o meu pai, queria ser exatamente como ele. O meu pai ensinou-me

a ser egoísta, a lutar pelas coisas que eu queria com uma tenacidade

inflexível e obstinada. Era a única maneira de vencer, de prosperar, de

alcançar alguma coisa parecida com a que ele já tinha alcançado. Pensei em

todas as coisas que sacrificara ao altar daquela crença. Coisas que jamais

podia desfazer ou reparar. Quem era eu – o que era eu –, se deixasse de

acreditar naquilo?

– Ele não está errado – foi tudo o que disse.

O reflexo de Grace prendeu-me o olhar. Tinha um ar pensativo, quase

triste.

– Talvez – disse ela, ao fim de um momento. – Mas parece uma forma tão

solitária de viver.