Magníficos Estranhos
Dezoito ALISTAIR CALLOWAY
Dezoito
ALISTAIR CALLOWAY
PRIMAVERA DE 1997
Na sala de conferências, o meu pai e o principal arquiteto da empresa
tinham as plantas do nosso mais recente projeto de desenvolvimento, em
Murray Hill, abertas em cima da mesa. Estavam a rever os planos de
ordenamento da zona. Eu tinha acabado de regressar com o meu consultor
de design da visita a um edifício esventrado. Era o primeiro projeto oficial
que liderava para o Calloway Group. Encontrara o edifício e ajudara na
mediação do negócio. Iria, entretanto, supervisionar as extensas obras de
renovação que transformariam aquela decrepitude em apartamentos de luxo
que jovens profissionais de sucesso arrendariam por uma fortuna.
– Onde está o Teddy? – perguntou o meu pai ao ver-me entrar.
– Não está aqui? – indaguei também, e consultei o relógio de pulso. Eram
quase duas e meia da tarde. Teddy estava meia hora atrasado. Encontrava-se
na cidade a desfrutar das férias de final do semestre e o meu pai ordenara-
lhe que passasse pelo escritório.
De uma forma geral, eu ficaria satisfeito com a falta de comparência de
Teddy, mas isso fora antes de o meu pai o ter tornado no meu braço direito
no projeto de Murray Hill. Estava combinado que em maio, quando Teddy
terminasse a faculdade, me acompanharia na execução do projeto. O meu
pai até já tinha desimpedido um gabinete só para ele. Aparentemente, Teddy
ia conseguir um lugar à mesa, quer desse as caras, quer não desse.
– Eu ligo-lhe – afirmei. – Já volto.
A caminho do meu escritório, pedi a Rosie, a minha secretária, que
ligasse para Teddy.
Não me surpreendia que Teddy estivesse atrasado. Ele e Grace estavam
hospedados no meu apartamento no Upper East Side e passavam os dias a
deambular pela cidade e a apreciar as vistas. Evitara-os o mais possível,
saindo para o escritório antes de eles se levantarem. Tinha até ficado duas
noites em casa de Margot, mas o apartamento dela, num terceiro andar sem
elevador, em Brooklyn, era pequeno e desconfortável; além disso, ela
partilhava-o com outras duas estudantes de Medicina. Por isso, na noite
anterior, dormira em minha casa. Ouvi-os chegar, já tarde. A risada de
Grace ecoou no vestíbulo e depois ouvi a porta do quarto deles ranger ao
mesmo tempo que era fechada. Tapei a cabeça com a almofada e esforcei-
me por não os imaginar juntos.
– Tenho o Teddy na linha um – disse-me Rosie, da soleira da porta.
Levantei o auscultador.
– Onde raio é que tu estás? – exigi saber. – Estava combinado vires aqui
hoje rever os planos para o novo projeto de arrendamento. Estás meia hora
atrasado.
– Só um segundo – pediu-me Teddy. A sua voz distanciou-se. – Sim,
malpassado, se faz favor. E um copo de Chardonnay, quando puder. – Ouvi
estática e depois a voz do meu irmão novamente. – Desculpa. Que se passa?
– Diz-me que não estás a almoçar fora neste preciso momento! –
reclamei.
– Bem, a primeira sessão de cinema estava esgotada, por isso, tivemos de
ir à seguinte e isso atrasou o almoço, depois ainda tivemos de esperar para
arranjar mesa, portanto, só agora é que estamos a pedir – explicou Teddy.
– Mete-te na merda de um táxi e vem para aqui – comandei. – Agora.
– Tu, na verdade, não precisas de mim aí – argumentou o meu irmão. –
Não podes pôr-me mais tarde ao corrente do que eu perdi? Vá lá, estou de
férias, afinal de contas.
– Teddy – ripostei –, toda a tua vida tem sido umas longas férias. A
diversão acabou.
– Está bem, pai – respondeu Teddy.
– Estou a falar a sério, Teddy – declarei. – Já chega de brincadeira. Se o
pai e a Eugenia querem dar-te prémios de consolação a vida toda só por
existires, isso é problema deles. Mas este projeto é meu e macacos me
mordam se vou permitir que mo estragues.
– A tua voz está-me a chegar um pouco estridente – realçou Teddy. – Talvez seja apenas da ligação. Seja como for, as entradas já chegaram.
– Escuta-me bem, meu inútil – refilei –, nem penses em…
Mas antes que conseguisse terminar, Teddy desligou.
*
O meu telefone tocou. Procurei o interruptor do candeeiro da mesa de
cabeceira.
– Credo! – murmurou Margot, ao meu lado. Com a mão, protegeu os
olhos da luz.
– Desculpa. Volta a dormir – disse, pestanejando para ver as horas.
Duas e dezoito da madrugada. Quem é que me estaria a ligar àquela hora?
Alcancei o telefone. O número no ecrã era o de Teddy. Que se lixasse.
Apaguei a luz e virei-me. Abracei o corpo quente de Margot com o braço
e puxei-a para mim. Ela acariciou-me o braço com as pontas dos dedos e
aconchegou-se a mim.
Uns segundos depois, o meu telefone tocou novamente.
Margot gemeu e tapou a cabeça com a almofada para abafar o som.
Agarrei de novo o telefone e atendi.
– É bom que estejas a morrer numa valeta, algures – disse.
Só que, do outro lado, não foi a voz de Teddy que me respondeu, mas a
de Grace.
– Alistair? – perguntou ela.
Sentei-me na cama.
– Alistair, desculpa estar a ligar a esta hora – disse ela. Soava um pouco
ofegante. – Eu sei que é tarde, mas não sabia a quem mais ligar.
– Que se passa? – perguntei.
– É o Teddy – respondeu ela. – Está tudo bem, mas… É que ele bebeu
muito e depois vomitou no táxi e o condutor encostou e obrigou-nos a sair.
E agora mais nenhum taxista nos quer levar, tendo em conta o estado dele.
Está uma lástima e acho que não consigo fazê-lo descer as escadas do metro
sozinha. Ele é demasiado pesado e está sempre a cair.
– Onde é que vocês estão? – inquiri, esfregando os olhos para despertar.
– Em West Village – disse ela. – Entre a Seventh e Greenwich.
– Fiquem aí – pedi eu. – Eu vou buscar-vos.
*
Meia hora mais tarde, cheguei a Lower Manhattan. Avistei-os quase de
imediato: Teddy caído de montão no passeio e Grace com o seu casaco
curto de inverno, a respirar nuvens de vapor quente para o ar frio de março;
tinha um ar perdido e preocupado. Encostei o carro junto ao lancil do
passeio.
Grace chamou-me assim que me viu.
– Nunca o vi desta maneira – explicou ela. – Tentei convencê-lo a irmos
para casa há várias horas, mas ele recusou-se a sair do bar.
Tremia e tinha os lábios roxos. Tive vontade de esmurrar o meu irmão por
obrigá-la a estar ali ao frio, a meio da noite.
– Eu ajudo-te a metê-lo no carro – foi tudo o que disse.
Senti o cheiro do meu irmão antes de chegar perto dele. Tinha uma das
lapelas do casaco vomitadas e cheirava a vinho e a comida chinesa acre.
Grace segurou Teddy gentilmente por um dos braços e eu pelo outro, talvez
com alguma brutidão, e conduzimo-lo ao carro.
– Eu sei que estás de férias – disse a Teddy. – Mas isto não é Cancun.
Teddy entrou e esparramou-se no banco traseiro. Grace entrou a seguir a
ele e eu contornei o carro para me sentar ao volante. Antes de acelerar, olhei
para o meu irmão pelo espelho retrovisor.
– A que se deveu a comemoração? – perguntei num tom seco e irónico.
Abraçado a si mesmo, Teddy mantinha os olhos fechados e gemia.
– Foi o teu pai – contou Grace. – Telefonou ao Teddy por causa de ele
não ter aparecido para a reunião e, não sei, não correu bem.
– É um filho da mãe – grunhiu Teddy, e encostou a cabeça ao vidro. –
Não me sinto bem.
– Então, mete a cabeça de fora – recomendei. – Não vou pagar para
mandar limpar o carro só porque tu não sabes beber.
Grace inclinou-se e fez descer o vidro do lado de Teddy. O ar gelado
encheu o carro.
– Está demasiado frio – lamuriou-se Teddy, com a voz entaramelada.
– O ar frio faz-te bem – afirmou Grace. Acariciava o joelho do meu
irmão. – Fiquei com a ideia de que o teu pai foi um bocado duro com ele –
disse ela, dirigindo-se a mim.
– Não te deixes enganar pela fita do Teddy – respondi. – Ele merecia bem
mais do que umas palavras duras.
Teddy pendeu para o lado de Grace, deitou a cabeça no seu colo e fechou os olhos. Grace começou a afagar-lhe o cabelo e a cantarolar uma cantiga.
Nunca invejara nada ao meu irmão, mas invejei-lhe aquilo.
Teddy murmurou qualquer coisa que não entendi.
– Que disse ele? – indaguei.
– Qualquer coisa acerca de uma roseira? – disse Grace.
– É tal como a roseira – repetiu Teddy.
Ao fim de uns minutos, aquietou-se e calou-se. Achei que tinha
adormecido.
– Que quer ele dizer com a roseira? – perguntou-me Grace, num sussurro.
Entreolhámo-nos no espelho retrovisor. Desviei o olhar.
– Quando éramos miúdos, o meu pai pediu-me que fosse cortar a roseira
premiada da Eugenia – contei. Era a preferida da minha mãe, a que vencera
o Hartford Flower and Garden Show durante três anos consecutivos. Estava
um dia escaldante e a transpiração corria-me para os olhos; os espinhos
picavam-me as palmas ao mesmo tempo que golpeava o tronco da roseira
com a tesoura de poda do jardineiro.
– Em determinada altura, levantei a cabeça e vi Teddy a correr para mim,
gritando que parasse com aquilo. Não parei, é claro, o meu pai dera-me uma
tarefa para cumprir e eu tencionava levá-la a cabo. Acabámos por nos
envolver numa luta.
Recordava-me bem daquela briga: nós os dois rebolando pelo chão,
trocando canelados e murros.
– Cortei a roseira e, naquela noite, ao jantar, o Teddy não pôde sentar-se à
mesa.
– Por causa da briga? – inquiriu Grace.
– Não. Porque o meu pai lhe dissera para salvar a roseira e ele fracassara
nessa missão.
– Não compreendo – referiu Grace. – Pensei que o teu pai te tinha dito
para a cortares.
– E disse – expliquei. – A mim disse-me para a cortar e ao Teddy pediu
que a salvasse.
– Mas porquê?
– Suponho que quisesse ver qual de nós seria bem-sucedido.
– Mas isso é cruel.
Encolhi os ombros. Sabia que Teddy via o episódio da mesma maneira,
mas eu não.
O meu bisavô, um alfaiate, chegara àquele país com uma mão à frente e
outra atrás. Esfalfou-se a trabalhar e, com o dinheiro que poupou, comprou
uma fábrica no Meatpacking District e juntou uma pequena fortuna. O meu
avô, o mais novo de seis irmãos, trapaceou os irmãos para lhes ficar com a
herança e, com ela, fundara o Calloway Group. O meu pai pegara nessa
empresa e desenvolvera-a, transformando-a numa das maiores empresas do
ramo imobiliário da cidade de Nova Iorque. Não queria que o Teddy e eu
tomássemos como garantido o que ele conseguira; queria que fizéssemos
mais com o que nos seria dado, tal como o pai dele e ele mesmo tinham
feito. O objetivo do meu pai era que construíssemos o nosso próprio legado.
– O meu pai é um darwinista – referi. – Acredita que só os mais fortes
sobrevivem e que os restantes serão extintos.
– E tu também acreditas nisso? – quis saber Grace.
Mais uma vez, o nosso olhar cruzou-se no retrovisor. Quando era miúdo,
admirava o meu pai, queria ser exatamente como ele. O meu pai ensinou-me
a ser egoísta, a lutar pelas coisas que eu queria com uma tenacidade
inflexível e obstinada. Era a única maneira de vencer, de prosperar, de
alcançar alguma coisa parecida com a que ele já tinha alcançado. Pensei em
todas as coisas que sacrificara ao altar daquela crença. Coisas que jamais
podia desfazer ou reparar. Quem era eu – o que era eu –, se deixasse de
acreditar naquilo?
– Ele não está errado – foi tudo o que disse.
O reflexo de Grace prendeu-me o olhar. Tinha um ar pensativo, quase
triste.
– Talvez – disse ela, ao fim de um momento. – Mas parece uma forma tão
solitária de viver.