Magníficos Estranhos
Epílogo CHARLIE CALLOWAY
Epílogo
CHARLIE CALLOWAY
SETEMBRO DE 2020
– Há ali um lugar – digo, e aponto para um espaço vazio junto ao lancil, três
casas mais abaixo. A entrada para a garagem da casa dos meus avós já está
apinhada. Vejo a minivan dos meus tios Lonnie e Caroline e a camioneta
enferrujado do tio Hank. Somos os últimos a chegar, porque, à vinda,
passámos pela estação de comboios para ir buscar Seraphina. Está no último
ano, na Reynolds.
– Okay – responde Greyson. Estaciona e desliga o motor.
Descarregamos as nossas provisões. Comprei uma embalagem de
biscoitos na loja do costume, Greyson fez o seu famoso porco desfiado e
Seraphina trouxe com ela, de Reading, uma caixa enorme de queques.
Não batemos à porta; entrámos simplesmente. Como sempre, a casa dos
meus avós está cheia de pessoas e de barulho. Gritámos um olá coletivo
para toda a gente. Avisto a minha avó e dou-lhe um abraço.
– Trouxe os biscoitos preferidos do avô – anuncio, e entrego a embalagem
à minha avó.
– Estraga-lo com mimos – diz a avó, pegando na embalagem e rumando à
cozinha.
– Ah, bem me pareceu que eram vocês – diz Claire. Entra na sala de estar
de cerveja na mão.
Greyson inclina-se para a beijar na face.
– Olá, mãe – cumprimenta ele.
– E que tal vai a vida na Universidade de Nova Iorque? – pergunta-me
Claire.
– Vai muito bem – respondo.
– Há muitos rapazes giros por lá? – quer saber Claire, metendo-se
comigo.
Greyson põe o braço à volta do meu tronco e puxa-me para ele. Eu rio-
me.
– Então, que conversa é essa? – replica ele. Dá-me um beijo na cabeça.
Depois do artigo que escrevi acerca do A no jornal de Knollwood, passei
o resto do terceiro ano na Reynolds, com a minha irmã. No ano seguinte,
terminado o liceu, decidi tirar um ano sabático. Enquanto as minhas amigas
davam os primeiros passos na universidade (Drew em Wellesley, Stevie em
Berkeley e Yael em Columbia), eu andava de mochila às costas e a passear
de caiaque pelas regiões dos grandes lagos na fronteira entre o Minnesota e
o Canadá. Não era uma coisa que alguma vez me imaginara a fazer, mas
ensinou-me a dominar e a aproveitar uma força que apenas suspeitava ter.
No regresso, em vez da Universidade da Pensilvânia, matriculei-me na de
Nova Iorque, no curso de Cinema Documental. Mais uma vez, não era um
caminho que tivesse imaginado para mim há um ano, mas era o caminho
certo. Com tudo o que acontecera à minha mãe, dei-me conta de como são
importantes as histórias que contamos acerca de nós mesmos e dos outros.
As histórias que contamos podem mudar a maneira como vemos o mundo.
Queria contar essas histórias; precisava de contá-las.
As aulas começaram há umas semanas. Eu e Greyson arrendámos um
apartamento em Greenwich Village.
Depois do depoimento do meu pai, relativo à morte de Jake, ele e os
outros membros do A que estiveram no Rebordo naquela noite foram
acusados de homicídio por negligência numa ação movida pelo Ministério
Público. Em seguida, a família de Jake moveu uma ação cível contra eles.
As partes chegaram a acordo fora do tribunal, por uma quantia não revelada.
O meu pai cumpriu um ano de pena na penitenciária estadual e está
atualmente em liberdade condicional. Foi obrigado a demitir-se do cargo de
presidente do Calloway Group, mas sei que está em negociações com o tio
Teddy e o meu avô no sentido de voltar à empresa, talvez como consultor,
se bem que duvido que o deixem ocupar um lugar no Conselho de
Administração. Seraphina e eu fomos algumas vezes à prisão visitar o meu
pai. Falamos ocasionalmente, mas construir uma relação nova com ele,
tendo em conta tudo o que aconteceu nos últimos dois anos, vai ser um
processo longo e lento. Não sei ainda que relação será essa, no final.
O caso de Margot, envolvendo o homicídio da minha mãe, atraiu muita
atenção por parte da comunicação social. Seraphina e eu tivemos de
aguentar os repórteres e os tabloides até à leitura do acórdão. No final,
Margot foi acusada de homicídio qualificado e condenada a uma pena
perpétua sem direito a liberdade condicional.
Agarro num prato de comida e vou para a sala assistir ao jogo. Vejo o tio
Hank no sofá, sentado ao lado do meu primo Patrick, e aceno-lhes. O tio
Hank responde-me com um aceno de cabeça.
Ao final da tarde, a minha avó vai buscar o bolo para cantarmos os
parabéns. Ela faria quarenta e seis anos se fosse viva. Reunimo-nos à volta
da mesa e cantámos. No final, inclino-me para a frente e sopro as velas.
Mais tarde, ao regressarmos à cidade, depois de termos deixado a minha
irmã na estação do comboio, Greyson e eu tomamos a estrada que passa
junto ao lago Langely. Contemplo a casa que, tantos anos atrás, o meu pai
construiu para a minha mãe. Está vazia, trancada, tem as janelas entaipadas
e fita cega e, desoladamente, a água. O meu pai colocou-a à venda há mais
de um ano, mas, até agora, não apareceu nenhum comprador. O caseiro foi
despedido e já ninguém cuida da propriedade. As ervas daninhas tomaram
conta do jardim e do quintal. A pedra com que a casa foi construída
começou a envelhecer e a escurecer, e sou capaz de imaginá-la, um dia,
daqui a muitos anos, engolida por trepadeiras e daninhas, reclamada pela
floresta.
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Elizabeth Klehfoth
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