Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 44 de 44

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Magníficos Estranhos

Epílogo CHARLIE CALLOWAY

Epílogo

 

CHARLIE CALLOWAY

 

SETEMBRO DE 2020

 

– Há ali um lugar – digo, e aponto para um espaço vazio junto ao lancil, três

casas mais abaixo. A entrada para a garagem da casa dos meus avós já está

apinhada. Vejo a minivan dos meus tios Lonnie e Caroline e a camioneta

enferrujado do tio Hank. Somos os últimos a chegar, porque, à vinda,

passámos pela estação de comboios para ir buscar Seraphina. Está no último

ano, na Reynolds.

– Okay – responde Greyson. Estaciona e desliga o motor.

Descarregamos as nossas provisões. Comprei uma embalagem de

biscoitos na loja do costume, Greyson fez o seu famoso porco desfiado e

Seraphina trouxe com ela, de Reading, uma caixa enorme de queques.

Não batemos à porta; entrámos simplesmente. Como sempre, a casa dos

meus avós está cheia de pessoas e de barulho. Gritámos um olá coletivo

para toda a gente. Avisto a minha avó e dou-lhe um abraço.

– Trouxe os biscoitos preferidos do avô – anuncio, e entrego a embalagem

à minha avó.

– Estraga-lo com mimos – diz a avó, pegando na embalagem e rumando à

cozinha.

– Ah, bem me pareceu que eram vocês – diz Claire. Entra na sala de estar

de cerveja na mão.

Greyson inclina-se para a beijar na face.

– Olá, mãe – cumprimenta ele.

– E que tal vai a vida na Universidade de Nova Iorque? – pergunta-me

Claire.

– Vai muito bem – respondo.

– Há muitos rapazes giros por lá? – quer saber Claire, metendo-se

comigo.

Greyson põe o braço à volta do meu tronco e puxa-me para ele. Eu rio-

me.

– Então, que conversa é essa? – replica ele. Dá-me um beijo na cabeça.

Depois do artigo que escrevi acerca do A no jornal de Knollwood, passei

o resto do terceiro ano na Reynolds, com a minha irmã. No ano seguinte,

terminado o liceu, decidi tirar um ano sabático. Enquanto as minhas amigas

davam os primeiros passos na universidade (Drew em Wellesley, Stevie em

Berkeley e Yael em Columbia), eu andava de mochila às costas e a passear

de caiaque pelas regiões dos grandes lagos na fronteira entre o Minnesota e

o Canadá. Não era uma coisa que alguma vez me imaginara a fazer, mas

ensinou-me a dominar e a aproveitar uma força que apenas suspeitava ter.

No regresso, em vez da Universidade da Pensilvânia, matriculei-me na de

Nova Iorque, no curso de Cinema Documental. Mais uma vez, não era um

caminho que tivesse imaginado para mim há um ano, mas era o caminho

certo. Com tudo o que acontecera à minha mãe, dei-me conta de como são

importantes as histórias que contamos acerca de nós mesmos e dos outros.

As histórias que contamos podem mudar a maneira como vemos o mundo.

Queria contar essas histórias; precisava de contá-las.

As aulas começaram há umas semanas. Eu e Greyson arrendámos um

apartamento em Greenwich Village.

Depois do depoimento do meu pai, relativo à morte de Jake, ele e os

outros membros do A que estiveram no Rebordo naquela noite foram

acusados de homicídio por negligência numa ação movida pelo Ministério

Público. Em seguida, a família de Jake moveu uma ação cível contra eles.

As partes chegaram a acordo fora do tribunal, por uma quantia não revelada.

O meu pai cumpriu um ano de pena na penitenciária estadual e está

atualmente em liberdade condicional. Foi obrigado a demitir-se do cargo de

presidente do Calloway Group, mas sei que está em negociações com o tio

Teddy e o meu avô no sentido de voltar à empresa, talvez como consultor,

se bem que duvido que o deixem ocupar um lugar no Conselho de

Administração. Seraphina e eu fomos algumas vezes à prisão visitar o meu

pai. Falamos ocasionalmente, mas construir uma relação nova com ele,

tendo em conta tudo o que aconteceu nos últimos dois anos, vai ser um

processo longo e lento. Não sei ainda que relação será essa, no final.

O caso de Margot, envolvendo o homicídio da minha mãe, atraiu muita

atenção por parte da comunicação social. Seraphina e eu tivemos de

aguentar os repórteres e os tabloides até à leitura do acórdão. No final,

Margot foi acusada de homicídio qualificado e condenada a uma pena

perpétua sem direito a liberdade condicional.

Agarro num prato de comida e vou para a sala assistir ao jogo. Vejo o tio

Hank no sofá, sentado ao lado do meu primo Patrick, e aceno-lhes. O tio

Hank responde-me com um aceno de cabeça.

Ao final da tarde, a minha avó vai buscar o bolo para cantarmos os

parabéns. Ela faria quarenta e seis anos se fosse viva. Reunimo-nos à volta

da mesa e cantámos. No final, inclino-me para a frente e sopro as velas.

Mais tarde, ao regressarmos à cidade, depois de termos deixado a minha

irmã na estação do comboio, Greyson e eu tomamos a estrada que passa

junto ao lago Langely. Contemplo a casa que, tantos anos atrás, o meu pai

construiu para a minha mãe. Está vazia, trancada, tem as janelas entaipadas

e fita cega e, desoladamente, a água. O meu pai colocou-a à venda há mais

de um ano, mas, até agora, não apareceu nenhum comprador. O caseiro foi

despedido e já ninguém cuida da propriedade. As ervas daninhas tomaram

conta do jardim e do quintal. A pedra com que a casa foi construída

começou a envelhecer e a escurecer, e sou capaz de imaginá-la, um dia,

daqui a muitos anos, engolida por trepadeiras e daninhas, reclamada pela

floresta.

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