Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 24 de 44

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Magníficos Estranhos

Terceira Parte

 

Vinte e três

 

CHARLIE CALLOWAY

 

2017

 

Já não era apenas um homem anónimo numa fotografia. Sabia o seu nome,

a sua ocupação, o seu paradeiro. Peter Hindsberg. Era um detetive privado,

uma metade da Hindsberg & Thornton Investigations, que geria com o

sócio, Ron Thornton. O website da agência indicava que o escritório ficava

perto do centro comercial, do outro lado da cidade. Nas curtas biografias

incluídas no website, li que Peter Hindsberg havia sido investigador de

fraudes da Hartco Insurance durante vários anos, antes de ter fundado a sua

própria firma de investigações com o seu amigo de longa data Ron

Thornton, ex-agente da polícia de Stamford. Uma rápida pesquisa no

Google não revelou muito mais informação, além de um anúncio de

noivado no Hillsborough Chronicle, datado de 2004, entre Peter e uma tal

de Lucy Hale, uma morena bem-parecida que era educadora de infância

numa creche local.

– Achas que a tua mãe desconfiava que o teu pai andava a enganá-la ou

coisa assim? – indagou Greyson, inclinando-se sobre o meu ombro para ver

melhor o monitor do meu portátil.

– Porque dizes isso? – perguntei.

Greyson apontou para o ecrã.

– Por causa desta lista de serviços.

Examinei-a. Sob os cabeçalhos vigilância, verificação de antecedentes,

pessoas desaparecidas, investigações criminais e civis, apoio pré-

contencioso, pareceres jurídicos e intimações, havia ainda: cônjuges infiéis,

pensão de alimentos e custódia de menores.

– Ou será possível que a tua mãe estivesse a pensar em divorciar-se? –

aventou Greyson. – Talvez quisesse preparar-se bem antes de avançar com

um pedido?

Mordi o lábio. Não pude deixar de me recordar do que Eugenia dissera

acerca de a minha mãe não ser uma mulher feliz. E Claire afirmara: Alistair

Calloway não é o tipo de homem ao qual se vire simplesmente as costas. A

última vez que tinha visto os meus pais juntos fora no seguimento de uma

briga. A minha mãe gritara para o meu pai que a largasse. E se a minha mãe

tivesse anunciado ao meu pai que queria o divórcio ou o meu pai tivesse, de

alguma maneira, descoberto que ela planeava deixá-lo? E se fosse esse o

motivo da briga?

Levantei o auscultador do telefone fixo que Greyson tinha na secretária e

comecei a marcar um número.

– Que estás a fazer? – perguntou Greyson.

Levantei uma das mãos para o silenciar. O telefone tocava do outro lado

da linha.

– Hindsberg e Thornton Investigations – disse uma voz de mulher. – Em

que posso ajudar?

Abri a boca para falar, mas desisti. Desliguei o telefone.

– Então? – indagou Greyson.

– Acho que preciso de ir falar com ele – disse.

– Com Peter Hindsberg? – inquiriu Greyson. – E pretendes dizer-lhe o

quê?

– Não sei – respondi. – Mas tenho de descobrir porque é que a minha mãe

se encontrou com ele ou o contratou.

– Está bem – concordou Greyson. – Eu levo-te lá.

*

 

A Hindsberg & Thornton Investigations ficava num desleixado complexo

de escritórios em frente a uma farmácia. No interior, a zona da receção

estava vazia. Com Greyson no meu encalço, dirigi-me à mulher de meia-

idade sentada atrás do balcão da entrada.

– Posso ajudá-la? – perguntou a mulher. Pela voz, percebi que era a

mesma mulher que me atendera o telefone há pouco tempo.

– Vinha falar com Peter Hindsberg – disse.

– Ele não está.

– Então, quando é que regressa? – indaguei.

– De segunda-feira a uma semana – informou a mulher. Olhou para o

monitor do computador. Pelo reflexo nas lentes dos seus óculos, fiquei a

saber que estava a jogar Solitaire. – Foi de férias para a Jamaica com a

família.

Isto. Não. Estava. A. Acontecer.

– Precisava mesmo de falar com ele – insisti. – É urgente.

A mulher olhou novamente para mim.

– É nossa cliente?

– Sim – menti. – Preciso com urgência de falar com ele do meu caso.

– Diz-me o seu nome? – pediu a mulher, com os dedos a postos em cima

do teclado. Dei-me então conta de que ela ia procurar-me na lista de clientes

e que rapidamente perceberia que eu não fazia parte dela.

– O que eu queria dizer é que sou uma cliente nova – emendei. – Preciso

de encontrar uma pessoa e, quando falei com o senhor Hindsberg ao

telefone, na semana passada, ele disse que podia ajudar-me. Talvez pudesse

dar-me o número de telemóvel dele?

– É o senhor Thornton quem está a tratar dos casos do senhor Hindsberg

durante as férias deste – disse a mulher. – Se é assim tão urgente, posso

perguntar-lhe se tem alguns minutos livres para a atender.

– Boa ideia – respondi, olhando de relance para a sala de espera vazia. –

Isso seria ótimo. Agradeço.

– Um momento – pediu a mulher. Empurrou a cadeira para trás, levantou-

se e desapareceu no pequeno corredor atrás dela.

– Que estás a fazer? – murmurou Greyson.

– Preciso que a distraias – sussurrei de volta.

– Que a distraia?

– Que a entretenhas com conversa – expliquei. – Que a mantenhas

ocupada.

– Charlie, que se passa? – perguntou ele.

À distância, ouvi uma pancada numa porta e vozes abafadas.

– Tenho um plano. Confia em mim – afirmei.

Não tive tempo para explicar mais nada, pois a rececionista regressou à

sua secretária.

– O senhor Thornton vai recebê-la agora – anunciou a mulher. Sentou-se

e apontou com a cabeça para o corredor. – Segunda porta à direita.

– Obrigada – disse.

Pisquei o olho discretamente a Greyson antes de deixá-lo junto ao balcão

da rececionista e de avançar para o corredor. Deparei com três portas: uma à

esquerda e duas à direita. A rececionista tinha deixado a segunda à direita

ligeiramente entreaberta. As outras estavam fechadas.

– Então, é fã dos Huskies? – ouvi Greyson perguntar à rececionista. –

Gosta de basquetebol?

Assim, de chofre. Onde é que eu tinha cabeça ao confiar nas habilidades

sociais de Greyson para montar uma manobra de distração credível?

– Não – respondeu a mulher.

– De futebol?

– Não.

Olhei por cima do ombro para me certificar de que a rececionista não

estava a olhar na minha direção. Com a dúvida desfeita, agarrei na maçaneta

da primeira porta à direita, rezando para que não estivesse trancada. Rodou.

Estava com sorte. Abri a porta o mais silenciosamente que pude e espreitei

para o interior da divisão. Estava às escuras, mas avistei o meu reflexo no

espelho por cima de uma bancada. Era a casa de banho, não o que

procurava. Fechei a porta e avancei pelo pequeno corredor.

Parei em frente à porta da esquerda. Com um derradeiro olhar de relance

para garantir que ninguém me via, abri a porta sem fazer barulho. A divisão

encontrava-se às escuras porque os estores estavam corridos, mas vi uma

secretária, um sofá e um par de armários arquivadores. Era o gabinete de

Peter. Esgueirei-me lá para dentro e fechei a porta.

Tirei o telemóvel do bolso das calças e liguei a lanterna. Examinei os

armários arquivadores, alinhados ao longo da parede à minha direita, atrás

da secretária. Ao ler as etiquetas do primeiro armário – «Contabilidade»,

«Extratos Bancários», «Contratos», «Licenças e Autorizações» –, avancei

para o segundo. Aquele continha os ficheiros dos clientes, ordenados

alfabeticamente. A primeira gaveta dizia: «Clientes: A–C.» Bingo. Agarrei

o puxador para abri-la, mas estava trancada. Bolas.

Olhei em redor, em busca de qualquer coisa para arrombar a fechadura e

tentando recordar-me de tudo o que vira naqueles tutoriais a que Drew

assistira no YouTube para conseguir o primeiro objeto que o A lhe pedira.

Do que me lembrava, precisava de dois clips grandes, um para usar como

gazua e o outro para fazer tensão sobre a fechadura. Revistei a secretária de Peter Hindsberg e encontrei um par de clips junto ao suporte para as

canetas. Desmanchei os clips e moldei um gancho na extremidade de um

deles para usar como uma espécie de alavanca. Introduzi-a na parte de baixo

da fechadura e virei-a ligeiramente para a direita, aplicando pressão na

direção em que a fechadura rodava. Mantive-o assim e inseri a gazua na

parte de cima da fechadura, até conseguir alinhar os pinos. Senti então que a

fechadura cedera e pude rodá-la com o primeiro clip. Sucesso.

Abri a gaveta devagar e apontei a lanterna para o interior, sem perder

tempo a examinar os ficheiros. Havia, pelo menos, uma centena de pastas

comprimidas dentro da gaveta, algumas grossas e outras quase vazias.

Passei os olhos pelos ás e pelos bês em busca do início da letra cê. Então,

perto do fundo da gaveta, achei-a: «Calloway, Grace». A pasta era leve.

Continha umas quantas folhas de papel pautado, com notas rabiscadas e um

envelope mais pequeno. Abri-o e uma pilha de fotografias deslizou lá de

dentro e caiu ao chão. Peguei numa e apontei-lhe o feixe da lanterna.

Era o meu pai.

Na fotografia, era ainda um adolescente. Segurava uma cerveja numa das

mãos e tinha o outro braço esticado por cima dos ombros de um rapaz que

reconheci: Jake Griffin.

A fotografia era escura e havia sido tirada de noite. No canto inferior

direito, uma marca temporal a vermelho indicava: 21h32, 21 dezembro,

1990. Na imagem, Jake sorria para a câmara e brindava com a sua cerveja a

quem quer que estivesse a tirar a fotografia. Do outro lado de Jake, estava

uma rapariga, prestes a dar-lhe um beijo na cara. Reconheci Matthew York,

um dos amigos do meu pai, do lado direito deste.

Inclinei-me e apanhei outra fotografia do chão. Retratava uma rapariga

loura e magra que não reconheci. Estava nua e olhava fixamente quem

estava a fotografá-la com um ar desavergonhado e impassível. Várias partes

do seu corpo tinham riscos feitos com um marcador encarnado,

acompanhados de palavras depreciativas: o nariz, que alguém descrevera

como «penca», a barriga, descrita como «gorda». A marca temporal daquela

fotografia indicava que fora tirada três meses antes: 22 setembro, 1990.

Através da parede, ouvi o telefone tocar na receção e a mulher atender.

– Hindsberg e Thornton Investigations – disse ela. – Ah, olá, Peter. Como

é que foi o voo? Hum. Okay, deixe-me ver se encontro. Eu transfiro a

chamada. É só um momento.

Ao meu lado, o telefone que estava em cima da secretária de Peter

Hindsberg tocou e eu dei um pulo.

Ouvi a voz de Greyson do outro lado da parede. Soava meio em pânico,

como se tentasse alertar-me para o facto de estar prestes a ser descoberta.

– Olhe, já agora, podia dizer-me onde fica a casa de banho? – perguntou

Greyson, quase aos gritos. – Tenho mesmo de ir. Desculpe, mas É MESMO

URGENTE. Deve ser dos burritos que comi esta manhã. Não me caíram

nada bem.

Merda. Fechei a gaveta do arquivador, ajoelhei-me para reunir as fotos

que tinham caído e voltei a colocá-las na pasta.

– Ah, é aqui? – indagou Greyson. – Okay, obrigada. Hum, o rolo do papel

higiénico já não parece ter muito. Tem mais rolos? Desculpe lá, estou só a

tentar ser prevenido… é que eu sofro de uma doença e às vezes… Ah, estão

ali, debaixo do lavatório? Caramba, grande carregamento de papel

higiénico, hã? Imagino que comprem por atacado naquelas grandes

superfícies que vendem por atacado. Pois, sempre sai mais barato. Sabe se

só as empresas é que podem lá fazer compras?

Só tive tempo de fechar a pasta e de me esconder debaixo da secretária de

Peter Hindsberg antes de a porta do gabinete se abrir. Desliguei a lanterna

do telemóvel e sustive a respiração.

– É só para empresas, julgo eu – respondeu a rececionista, ao mesmo

tempo que acendia a luz do teto.

– Pois, claro, faz sentido – disse Greyson.

Percebi pelo som da sua voz que se tinha aproximado do gabinete e estava

então na soleira da porta. Hesitou um momento, provavelmente enquanto

perscrutava a divisão, à minha procura.

Vi a rececionista da cintura para baixo quando contornou a secretária e

encolhi-me mais ainda, abraçando os joelhos contra o peito.

– Peço desculpa, mas estou ocupada – disse a mulher.

– Ah, claro, com certeza – replicou Greyson. – Vou então ali à «casinha».

Ouvi a porta da casa de banho fechar-se do outro lado do corredor e, no

seguimento, a rececionista inclinou-se por cima da secretária e atendeu o

telefone.

– Onde é que disse que tinha deixado o papel? – indagou ela.

Engoli em seco e tentei aquietar a respiração. Ouvia o meu coração bater

como um tambor, no meio do silêncio, bem como o ar entrar e sair pelo meu nariz. Seria a minha respiração sempre assim tão ruidosa?

Foi então que a vi: uma fotografia tresmalhada. Estava a cerca de dois

centímetros do bico do sapato direito da rececionista. Se ela olhasse para

baixo e a visse, estava tramada. Talvez conseguisse inclinar-me para a

frente, muito lentamente, esticar o braço e arrebatá-la antes que ela tivesse

tempo de a ver. Mas, e se com isso chamasse a atenção dela?

– Com certeza, eu envio isto ainda hoje – afirmava ela. – Boas férias. E

diga à Nancy para, desta vez, não poupar no protetor solar. Não queremos

uma repetição da viagem às Florida Keys.

A rececionista deu uma gargalhada, pousou o auscultador e eu mantive-

me muito quieta, de olhos cravados na fotografia. Mentalmente, ordenava-

lhe que não olhasse para o chão. Não a vejas, não a vejas, não a vejas.

Pareceu-me que ela ficou ali uma incompreensível eternidade e depois

afastou-se da secretária. A luz apagou-se e ouvi a porta fechar-se. Respirei

de alívio e agarrei na fotografia solitária.

Escondi a pasta dentro do casaco, contra o peito, e distribuí as fotografias

pelos bolsos. Saí do gabinete e fechei a porta sem fazer barulho. A porta da

casa de banho continuava fechada e, pela frincha debaixo da porta, vi que a

luz estava acesa.

Ao contornar o balcão da rececionista mantive as mãos nos bolsos do

casaco e rezei para que ela não reparasse nas protuberâncias.

– Já está, querida? – indagou ela, depois de desviar o olhar do monitor do

computador. – É preciso marcar alguma reunião com o senhor Hindsberg,

quando ele voltar?

– Não, obrigada – respondi. – Já tenho tudo o que preciso.

– Ainda bem – disse ela. – O seu amigo foi à casa de banho. – Inclinou-se

para a frente e baixou o tom de voz. – Tem a certeza de que está bem? –

inquiriu ela, num tom preocupado.

Antes que tivesse tempo de responder, ouvi o autoclismo e a porta da casa

de banho abrir-se. Greyson apareceu e fez um ar aliviado ao ver-me.

– É melhor irmos embora – pediu Greyson. – Não me estou a sentir bem.

Agarrou-me no braço e conduziu-me à porta.

– Se eu fosse a si, não entrava ali – recomendou Greyson à rececionista,

por cima do ombro. – Por precaução, espere, pelo menos, uma meia hora.

E rumámos ao carro dele, deixando a rececionista atarantada.