Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 8 de 44

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Magníficos Estranhos

Sete CHARLIE CALLOWAY

Sete

 

CHARLIE CALLOWAY

 

2017

 

A viagem entre Knollwood, no New Hampshire, e a casa dos Fairchilds, em

Hillsborough, no Connecticut, demorava quatro horas e meia, mas eu

completei-a em menos uma, acelerando pelas autoestradas de New England

no meu Mercedes. A festa começava às sete da tarde, mas eu planeara fazer

duas paragens antes: uma na estação de comboios, para ir buscar a minha

irmã, Seraphina, que vinha do seu colégio interno, na Pensilvânia, e a outra

no supermercado, para não aparecer na festa de mãos a abanar.

Hillsborough era uma cidade pequena e operária do condado de Fairfield,

no Connecticut. A sua principal indústria era uma antiga serração na qual o

meu avô tinha trabalhado até à reforma. O meu pai construíra aí a casa, na

margem do lago, dois anos depois de casar com a minha mãe. As casas em

Hillsborough eram, na esmagadora maioria, caixas cinzentas, revestidas de

vinil, com entradas de garagem, ou meros alpendres para estacionar o carro,

em gravilha, mas a casa que o meu pai construiu não se assemelhava em

nada àquilo. Ficava na orla da cidade, junto à margem do lago, e o caminho

até à garagem era pavimentado e serpenteava desde a estrada, contornando

os enormes ulmeiros, ora mergulhando ora emergindo da sua sombra. Perto

da casa, havia um muro de pedra, ladeado por sebes com mais do que um

metro e meio de altura. Apesar disso, era possível avistar-se a casa, à

distância, erguendo-se contra o céu, três pisos com janelas enormes,

abobadadas.

Quando era criança, passava os verões naquela casa. A minha mãe,

Seraphina e eu deambulávamos descalças, de vestidos de algodão leve e

chapéus de palha com abas largas. Dormíamos até tarde e fazíamos piqueniques no relvado. À tarde, nadávamos até à jangada e aí nos

secávamos ao Sol, esparramadas. À noite, acampávamos numa tenda,

contávamos histórias de fantasmas ou observávamos o céu, coberto de

estrelas. Ao fim de semana, o meu pai juntava-se a nós, vindo da cidade.

Corríamos para a porta ao ouvir o carro dele subir o caminho e ele pegava-

nos ao colo e fazia-nos rodopiar e rir, estonteadas. Grelhava peixe para nós

no alpendre das traseiras e lia poesia à minha mãe. Era ainda capaz de vê-la,

na minha cabeça, com os pés apoiados numa cadeira, os olhos fechados e a

cabeça inclinada na direção da voz do meu pai; e eu e Seraphina a correr

pelo relvado, fugindo dos respingos dos aspersores, aos guinchos.

Na estação de comboios, enquanto esperava pelo comboio das seis e

meia, procedente de Reading, o meu telefone tocou. Era a minha irmã.

– Não te zangues comigo – começou ela, em jeito de cumprimento.

– Perdeste o comboio? – perguntei.

– Não é bem isso – respondeu ela.

– Onde é que estás?

– Em Reading – confessou ela.

– Ainda nem sequer saíste daí? – escandalizei-me.

– Foi por isso que te pedi que não te zangasses comigo. Não vou.

– Como assim, Seraphina, não vens?

– É que … Mudei de ideias, okay?

– Receias que o pai se passe, caso venha a descobrir? – inquiri.

– A questão não é essa.

– Então, qual é?

– Tens de abrir mão dela, de esquecê-la – disse Seraphina. – Eles

precisam de seguir em frente. O que vocês estão a fazer não é saudável para

ninguém.

A culpa não era dela, disse para mim mesma. Seraphina tinha apenas

cinco anos quando a nossa mãe desaparecera; era nova demais para se

lembrar das partes boas. Recordava unicamente o que toda a gente lhe

dissera para recordar, ou melhor, esquecera o que lhe fora pedido que

esquecesse.

*

 

Os Fairchilds vivam na ponta oposta da cidade, perto do hospital, numa

daquelas casas cinzentas, revestidas de vinil, numa rua estreita. Estacionei junto ao passeio, porque o caminho de gravilha estava apinhado. Vi a velha

carrinha do avô Fairchild sob o alpendre, a mesma com que o tio Hank

ensinara a minha mãe a conduzir quando ela tinha doze anos. Havia um

monovolume estacionado atrás dela e, na extremidade do caminho, com a

traseira a ocupar o passeio, a carrinha enferrujada do tio Hank.

Todas as luzes da casa estavam acesas e ouvi o ruído de um jogo de

futebol e os impropérios do meu avô, vindos da sala de estar, mal subi os

degraus do alpendre. Ainda me doía o tornozelo, em resultado da dentada de

Nancy, e coxeei até chegar à porta. A caminho dali, parara no supermercado

para comprar uma embalagem de biscoitos. Segurava-a à minha frente,

como um escudo, quando toquei à campainha.

Demoraram a atender, mas depois a porta abriu-se e ele encostou-se à

moldura, com uma cerveja na mão: Greyson Rhodes. Vestia uma sweatshirt

da Universidade do Connecticut e um par de calças de ganga gastas, usava o

cabelo louro e ondulado, mais comprido do que se usava, e uma barba de

uma semana a cobrir-lhe o queixo anguloso. E aqueles olhos cinzentos. Não

via Greyson desde que éramos miúdos. Tivera uma paixoneta assolapada

por ele quando era criança, porque ele era alto e entroncado e jogava

futebol. A mãe dele, Claire, era a melhor amiga da minha mãe, e Greyson

costumava tomar conta de mim, de Seraphina e do seu irmão mais novo,

Ryder, quando elas saíam juntas.

Semicerrou os olhos e depois reconheceu-me.

– Tocaste à campainha… A sério? – perguntou ele, como se a minha

presença ali não fosse sequer estranha e se tivesse passado uma curta

semana desde a última vez que nos víramos, e não anos.

– E tu és o quê, o comité de boas-vindas? – perguntei, levantando um

pouco a voz para que ele me conseguisse ouvir por cima do barulho do

jogo, das conversas e risadas vindas do interior da casa.

– O oposto, na realidade – respondeu Greyson, e deu um gole na cerveja.

– Achámos que eras um vendedor ou assim. Pior do que isso, os mórmones.

Fui escolhido para te mandar embora diplomaticamente.

– Não estamos interessados! – gritou alguém, dentro de casa.

– Trouxe biscoitos – anunciei, e exibi a embalagem.

– Oh, tão Martha Stewart da tua parte – gracejou ele.

– Greyson, quem é? – perguntou uma voz, que reconheci. Pertencia à

minha avó.

– É a Charlotte – respondeu ele, por cima do ombro.

Seguiu-se uma pausa e, no final, a minha avó apareceu atrás dele, a olhar

para mim, boquiaberta, como se eu fosse um ser extraterrestre acabado de

aterrar ali.

– Charlotte – disse ela, depois de se recompor. – Charlotte, não precisas

de tocar à campainha como se fosses uma estranha. Entra, entra, não te

acanhes.

Colocou o braço à volta dos meus ombros e fez-me entrar. Não parava de

dar-me palmadinhas carinhosas no braço como se receasse que eu fosse um

produto da sua imaginação e precisasse de se certificar de que estava

mesmo ali.

– Que surpresa que nos fizeste – comentou ela. – Uma surpresa muito

agradável. É tão bom ver-te. Olhem todos, a Charlotte está aqui.

Havia pessoas na sala que não reconheci e, por um momento, interroguei-

me se deveria reconhecê-las ou se eram apenas vizinhos ou amigos dos

meus avós. Reconheci a minha tia Caroline, mulher do tio Lonnie, sentada

num cadeirão com um bebé nos joelhos. Seria um primo que ainda não

conhecia. A tia Caroline parou de falar assim que cruzou o olhar com o meu

e, sobressaltada, deu um pequeno soluço. Acenei sem grande empenho para

os presentes.

– Olá – cumprimentei.

Talvez devesse ter telefonado primeiro, a avisá-los de que planeava ir à

festa.

– Trouxeste biscoitos! Que amável da tua parte, Charlotte – agradeceu a

minha avó calorosamente.

Tirou-me o pacote da mão e conduziu-me à cozinha. Dispôs os biscoitos

num prato e colocou-o na bancada, apinhada de todo o tipo de comida

caseira e deliciosa: um assado enorme, espigas de milho amanteigadas,

salada de batata e pãezinhos de massa lêveda.

Duas das minhas primas mais novas atravessaram a sala a correr e a

minha tia-avó Jane, irmã da minha avó, que segurava uma travessa de

batatas fritas e molhos, admoestou-as a que não corressem dentro de casa.

Na salinha, alguém gritou a pedir mais uma cerveja.

A casa dos meus avós fora sempre assim, desde que me lembrava:

apinhada, um movimento constante, toda a gente a falar ao mesmo tempo.

– São os preferidos do teu avô – revelou a minha avó, e pôs uns quantos num prato pequeno. Sorriu para mim como se eu soubesse desse facto e

tivesse comprado aqueles biscoitos a pensar nele, embora a verdade fosse

que os escolhera por serem os que estavam ao nível dos meus olhos no

supermercado.

Alguém colocou o braço à volta dos meus ombros e me deu um pequeno

apertão.

Quando virei a cara e vi quem era, retesei-me.

– Como é que vai a vida, boneca? – perguntou Claire Rhodes.

Tinham-se passado anos desde a última vez que vira Claire. Em criança,

ela era um dos adultos meus preferidos, porque falava comigo como se eu

fosse um dos adultos ou «uma das raparigas». Passava a vida em nossa casa,

no lago Langely, durante o verão, e ela e a minha mãe eram unha com

carne. Claire continuava a enviar-nos postais no aniversário, a mim e a

Seraphina, mas, não obstante todo o seu charme e boas intenções, sentia que

não podia confiar nela. Claire sabia mais acerca da minha mãe do que dava

a entender. Se havia alguém que soubesse ou desconfiasse que a minha mãe

planeava ir-se embora, ou que estivesse em contacto com ela presentemente,

essa pessoa seria Claire.

Abeirou-se da bancada e serviu-se de uma colherada de salada de batata.

– Vai bem – respondi. Como haveria uma pessoa de resumir os últimos

dez anos de vida de modo cordial e em poucas frases? – Frequento um

colégio interno em New Hampshire. Comecei agora o penúltimo ano de

liceu.

– E como é que estamos em relação a rapazes? – indagou Claire, levando

uma garfada de batata à boca. – E as festas? Conta-me tudo!

– Claire – admoestou a minha avó. – Tenho a certeza de que a Charlotte

leva os estudos muito a sério.

– Sim, mas há também que viver um pouco – alegou Claire. – A vida

passa-nos ao lado se estivermos o tempo todo com o nariz enfiado nos

livros. Ainda me lembro de como a Grace e eu éramos quando tínhamos a

tua idade, Charlotte. As coisas que fazíamos!

– A Grace teve os seus momentos de rebelião, como é normal com

qualquer adolescente – disse a minha avó. – Mas não devemos dar à

Charlotte uma ideia errada. A Grace era uma boa aluna.

– Não estou a dizer que a Grace não era inteligente – defendeu-se Claire.

– A Grace era esperta como um alho, mas estar encafuada numa sala de aulas ou estar sentada, quieta, não lhe enchia as medidas. Charlotte, a tua

mãe queria ser livre, viver a vida. As aventuras que nós tivemos. Uma vez,

já no liceu, roubámos uma autorização para sair da escola e fomos para o

passeio marítimo de Seaside Heights. Passámos o dia todo na praia, com os

pés na areia, a beber cerveja morna que um tipo nos dera no parque de

estacionamento.

– Charlotte – interrompeu-a a minha avó, e entregou-me o prato no qual

tinha posto alguns biscoitos –, levas isto ao teu avô? Está na salinha a ver o

jogo.

– Claro – respondi.

Atrás das costas da minha avó, Claire sorriu para mim e disse, movendo

apenas os lábios: «Já falamos».

A pequena sala estava quase às escuras. No seu cadeirão reclinável, o

meu avô segurava uma lata de cerveja numa das mãos e um pacote de

batatas fritas no colo. Endireitou-se de repente e apontou iradamente a

cerveja à televisão. Algumas das batatas fritas saltaram do pacote para as

calças dele.

– Chamas a isso uma falta? – gritou. – É melhor ires ao médico dos olhos!

O meu tio Lonnie, o mais novo dos meus tios, estava sentado no sofá, ao

lado de Greyson e do seu irmão mais novo, Ryder, que já era um

adolescente. Supus que teria mais ou menos a idade de Seraphina. O meu

primo Patrick, alguns anos mais novo do que eu, estava estendido no chão,

em frente ao televisor, e o tio Hank acomodara-se numa cadeira, junto à

mesa de jogo. Empalideceu ao ver-me ali e eu tratei de desviar o olhar.

Sabia que o mais certo era que ele não lhes tivesse falado da visita que me

fizera a Knollwood, nem das fotografias que encontrara em resultado da sua

entrada forçada na casa do lago. Provavelmente nunca esperara que eu

aceitasse o convite e aparecesse ali.

– Olá, avô – disse.

O avô descolou os olhos do televisor por um segundo e olhou para mim,

e, ligeiramente sobressaltado, desviou de imediato o olhar. Percebi do que

se tratava. Percebi que, por um instante, ele achara que eu era ela, a minha

mãe. Sempre fora muito parecida com ela, mas ultimamente essa

semelhança revelara-se inquietante.

– Charlotte – disse ele, ao fim de um momento. – Que fazes aqui?

Sorriu para mim, mas havia uma certa tristeza nesse sorriso, e recordei-me do motivo por que era tão duro voltar ali, estar perto deles. Levantou-se

do cadeirão e abraçou-me. Os Calloways não eram grandes fãs de exibições

físicas de afeto, mas não quis parecer mal-educada, por isso, esforcei-me

por abraçá-lo de volta, ao mesmo tempo que equilibrava o prato com os

biscoitos.

– Trouxe-lhe os seus biscoitos preferidos – anunciei, quando ele me

largou.

Mostrei o prato, em jeito de prova.

– Não digas à tua avó – pediu ele, aceitando o prato e piscando-me o olho.

– Ela acha que o açúcar me está a fazer engordar.

Deu uma palmadinha na barriga.

– Não é o açúcar que o está a engordar, é esse cadeirão onde passa o dia

todo sentado – gracejou o meu tio Lonnie. Levantou-se para me abraçar e eu

contornei a mesinha do café para que ele o fizesse. – É bom ver-te, miúda –

disse o tio Lonnie. – Hank, olha quem aqui está.

Desde a mesa de jogo, atrás do sofá, o tio Hank cumprimentou-me com

um aceno de cabeça.

– Olá, Charlotte.

– Olá, tio Hank – respondi.

– Tens aí um lugar ao lado do Ryder – apontou o tio Lonnie, acenando

com o queixo para a extremidade do sofá. – Senta-te e vê o jogo connosco.

Acomodei-me no sofá, perto da parede.

– Olá, Ryder – cumprimentei. – Há tanto tempo. Cresceste.

A última vez que vira Ryder ele era pequeno e magricelas, tinha cinco

anos e uma cabeleira de caracóis louros. Era uma criança cheia de energia,

sempre a dizer graçolas e a fazer asneiras. Agora era alto e esgalgado;

recostado no sofá, as suas pernas compridas desapareciam sob a mesinha do

café. Tinha um ar cansado.

– Iá – respondeu Ryder, sem tirar os olhos da televisão. – Foi um pico de

crescimento.

– Fixe – comentei. – Eu cá continuo à espera do meu.

Ryder limitou-se a fazer que sim com a cabeça.

– Os adolescentes pré-púberes são um público difícil – comentou

Greyson, inclinando-se um pouco para a frente e encolhendo os ombros.

– Não sou pré-púbere, ó estúpido! – reclamou Ryder.

– Olha a linguagem – ripostou Greyson.

Houve mais uma falta controversa na partida e toda a gente se exasperou

e reclamou, depois o tio Lonnie questionou Greyson acerca da equipa de

futebol da Universidade do Connecticut e eu fiquei sentada em silêncio,

esquecida. Sentia-me constrangida, uma estranha, o extraterrestre que

aterrara ali. Não sabia o que fazer com as mãos, por isso, enfiei-as nas

dobras dos braços. Pela centésima vez desde que chegara, arrependi-me de

ter ido.

Contemplei a parede forrada de madeira da pequena sala, as fotografias

emolduradas que o brilho da televisão iluminava esporadicamente. Eram na

sua maioria fotografias de Hank, de Will, de Lonnie e da minha mãe,

quando eram jovens. Hank na piscina municipal, onde foi nadador salvador;

Will com a sua farda dos Fuzileiros, em Parris Island; Lonnie no seu skate;

a minha mãe num pódio junto a uma piscina, com uma fita a dizer «Campeã

Estadual» a tiracolo, o cabelo molhado e a sorrir orgulhosamente para a

máquina fotográfica. Havia outras fotografias da minha mãe: numa delas,

tinha a cara toda suja de gelado e ria às gargalhadas, com a boca muito

aberta; numa outra, estava toda aperaltada, de vestido escarlate e cabelo

preso atrás, para um baile de liceu. Um rapaz moreno de fato e gravata tinha

o braço em redor da cintura dela e puxava-a para si.

A minha mãe era a única rapariga da família, tendo crescido no meio de

um bando de rapazes. Ocorreu-me que isto a tornara em mais dura. Ao olhar

para as fotografias, percebi que, antes da adolescência, fora uma espécie de

maria-rapaz, sempre a correr atrás dos irmãos, a tentar acompanhá-los,

esfolando os joelhos e as mãos. Depois, tornara-se em mais feminina e

apreciava maquilhagem e tops e um ou outro vestido, mas a verdade é que

nunca houvera nada de suave ou brando em relação à minha mãe. Naquele

último verão que passámos juntas, lembrava-me dela de queixo erguido e

ombros direitos, como se estivesse sempre à procura de uma briga.

Por volta das dez horas, reunimo-nos todos na cozinha, à volta da mesa.

Éramos demasiados para caber na pequena divisão e alguns tiveram de ficar

encostados à moldura da porta ou no corredor, em bicos dos pés. A minha

avó empurrou-me para junto da mesa e colocou o braço à volta dos meus

ombros, para me manter ali. Fizera um bolo de aniversário para a minha

mãe, e ela mesma o cobrira e decorara. «Feliz Aniversário, Grace», dizia em

glacé roxo por baixo de duas velas com um «4» e um «3». Toda a gente cantou desafinadamente os parabéns e, no final, olharam para mim. A

minha avó sussurrou-me ao ouvido, ainda com o braço à minha volta:

– Sopra as velas, Charlotte.

Sabia que, ao olharem para mim, não poderiam deixar de a ver a ela.

Inclinei-me para a frente, inspirei para apagar as velas e imaginei a minha

mãe numa praia de areia branca, algures muito longe dali, a fazer

exatamente a mesma coisa. Juntas, enchemos os pulmões, e juntas,

apagámos as velas.