Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 36 de 44

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Magníficos Estranhos

Trinta e cinco CHARLIE CALLOWAY

Trinta e cinco

 

CHARLIE CALLOWAY

 

2017

 

Voltar a dar-me com Dalton foi mais fácil do que pensara que seria. No

mínimo, era bom sentir que tinha alguém que estava ali por mim, sobretudo

depois de tantas pessoas me terem virado as costas. O meu relacionamento

com Stevie e Yael andava tenso, Drew fora-se embora e Greyson e eu não

nos falávamos. Assim, voltei a dar-me com Dalton e Leo e os seus amigos.

Sentava-me à mesa deles ao almoço e ao jantar. Saíamos juntos ao fim de

semana e Dalton e eu passávamos a maior parte das tardes juntos a estudar,

na biblioteca ou num dos nossos quartos, até serem horas do recolher

obrigatório.

– Sabes, não consigo engolir a ideia de que não te vou ver durante uma

semana inteira – queixou-se Dalton certa noite, a caminho da minha

residência. Tinha o braço à volta do meu tronco e puxou-me contra ele. Era

novembro e já havia neve a salpicar o relvado. – Podias ir passar o feriado

de Ação de Graças a minha casa – sugeriu ele. – Ficavas a conhecer todo o

clã Dalton. E a minha mãe está sempre a perguntar por ti. Tenho a certeza

de que adoraria passar mais tempo contigo.

– A tua mãe? – perguntei.

– Sim – confirmou Dalton, e deu-me um beijo no cabelo. – Parece ser

uma grande fã tua. Não posso censurá-la, como imaginarás.

– Não creio que o meu pai fosse ficar muito satisfeito com isso –

respondi.

– Porque não?

– Porque sentiria a minha falta – menti. – Não nos vemos desde aquele

jantar na cidade.

Nunca contara a Dalton o telefonema que recebera do meu pai, no qual

essencialmente ordenara que me mantivesse longe de Margot e do filho

dela. O meu pai soara tão zangado, tão autoritário. Porquê? Margot estivera

noiva do meu pai em determinada altura e era óbvio que alguma coisa tinha

acontecido e desencadeado o final do relacionamento. Mas iria um

rompimento litigioso ocorrido há mais de duas décadas fazer com que o

meu pai agisse daquela maneira tão extremada? As exigências do meu pai

tinham de estar relacionadas com outra coisa. Talvez Margot tivesse

conhecimento de algo que o meu pai não quisesse que eu soubesse. Margot

fora colega de liceu do meu pai e de Jake. Pertencera ao clube A. De

alguma maneira, travara conhecimento com a minha mãe. Ocorreu-me de

repente que se alguém conhecia todas as peças do quebra-cabeças, essa

pessoa era Margot. E talvez, quem sabe, estivesse disposta a contar-me

tudo.

– Okay – disse.

– Okay?

– Okay a ir passar as miniférias de Ação de Graças contigo – elucidei.

– A sério? – perguntou ele.

– A sério – respondi.

Não perguntou o que me tinha feito mudar de ideias e eu também não lhe

disse. Em vez disso, inclinou-se para mim e beijou-me, e eu beijei-o de

volta.

*

 

Os Daltons tinham uma mansão em Southampton virada para o oceano e

rodeada por um hectare de terreno. A reunião familiar foi pequena, porque

Dalton era filho único e metade da família era britânica e não celebrava a

festividade. Portanto, iria ser apenas Dalton, os pais dele, a irmã de Margot,

Regina, o marido dela e os três filhos do casal, sendo que o mais velho tinha

dez anos. O pai de Dalton só regressaria da cidade na quinta-feira, para o

jantar de Ação de Graças.

Eu tinha dito ao meu pai que ia passar o feriado com Drew e a família

dela e, fiel ao seu desinteresse pela minha vida, nem sequer me fez

perguntas ou exigiu qualquer tipo de prova.

Os primos de Dalton adoravam-no e perseguiam-no o tempo todo,

suplicando que brincasse com eles, por isso, passámos grande parte do dia a entretê-los, ao mesmo tempo que eu procurava uma oportunidade de falar

com Margot a sós.

– E se jogássemos às escondidas? – propôs Dalton numa noite, depois do

jantar. Os seus primos gritaram de satisfação e começaram de imediato a

discutir quem seria o primeiro a esconder-se.

– A primeira sou eu – voluntariei-me, e pus-me de pé. Sentia uma leve

dor de cabeça e já não suportava mais aquela ruidosa altercação entre as três

crianças. Além do mais, uns minutos de paz e sossego pareciam-me

demasiado tentadores. Se conseguisse encontrar um esconderijo mesmo

bom, enroscar-me e adormecer durante uma meia hora, seria divinal. – Mas

fechem os olhos, meninos – disse aos primos. – Fechem os olhos e contem

até cem.

Taparam os olhos com as mãos e começaram a contar em voz alta.

– Um, dois, três, quatro, cinco…

Apontei para Dalton.

– Tu também, meu menino. Fecha os olhos.

Ele sorriu e, com grande espalhafato, tapou igualmente os olhos com as

mãos, e eu dei meia volta e precipitei-me para longe da sala de estar.

A casa era enorme, com oito quartos e quatro casas de banho completas e

uma social. Havia um milhão de sítios diferentes onde podia esconder-me.

Atravessei a cozinha, onde se encontravam os adultos, à volta da ilha de

mármore com os seus copos de vinho tinto.

– Estamos a jogar às escondidas – sussurrei, e levei o dedo indicador aos

lábios. – Não me viram.

Margot riu-se e imitou o meu gesto.

– Ver quem? – segredou ela.

Entrei no escritório e abri uma porta, achando que era um armário, mas

descobri um lanço de escadas descendente. Perfeito. A cave. Acendi a

lanterna que tinha no telemóvel e desci as escadas, tendo fechado a porta

sem fazer barulho.

A cave era escura como breu e estava apinhada de mobília velha, tapada

com lençóis, e de caixas e mais caixas empilhadas. Cheirava um pouco a

mofo. Avançava pelo meio daquele labirinto quando bati com a canela

numa coisa dura.

– Ai – resmunguei.

Apontei o feixe da lanterna à borda angulosa em que batera. A luz revelou um par de malas velhas e empoeiradas.

Nesse momento, a luz de teto da cave acendeu-se e ouvi Dalton no cimo

das escadas. Devia ter desligado a lanterna do telemóvel e procurado um

esconderijo algures, mas estava colada ao chão. As malas tinham prendido a

minha atenção por causa de um pormenor: o padrão, composto por

cornucópias acastanhadas e desvanecidas. A minha mãe tivera um conjunto

de malas igual àquele.

– Estás aqui em baixo, Charlie? – chamou Dalton.

Ouvi os passos dele em cada degrau, mas não conseguia vê-lo. Uma pilha

de caixas da altura de um frigorífico bloqueava-me a vista. Estiquei o braço

e passei o indicador ao longo da etiqueta, cheia de pó, onde estaria gravada

a marca das malas: Burberry.

Deixei cair o telefone e dei um passo atrás. Sim, aquelas malas eram

igualzinhas às que a minha mãe tivera e que levara com ela quando

desaparecera.

Foi como se estivesse a cair e a cair e a cair desamparada. O coração

martelava-me no peito, sentia dificuldade em respirar e dava voltas e mais

voltas à cabeça para entender aquilo.

É apenas uma coincidência, pensei com os meus botões. Centenas de

pessoas teriam adquirido as mesmas malas que a minha mãe. Era apenas um

acaso que Margot tivesse o mesmo conjunto na cave da sua casa. Aquelas

não eram as tais malas. Não pertenciam à minha mãe.

Mas… E se fossem? Recordava-me de que uma das malas da minha mãe

tinha um rasgão no forro interior. Se abrisse a mala e encontrasse o mesmo

rasgão…

Estiquei de novo os braços na direção das malas, mas houve qualquer

coisa que mos prendeu contra o tronco. Era Dalton. Descobrira o meu

esconderijo e agarrava-me com força, imobilizando-me por completo.

– Apanhei-te – afirmou ele.