Magníficos Estranhos
Cinco CHARLIE CALLOWAY
Cinco
CHARLIE CALLOWAY
2017
Estavam de novo aos gritos, a discutir. Conseguia ouvi-los através da
parede. Assim, liguei a televisão para a Seraphina ver os desenhos animados
e aumentei o volume.
– Não saias daqui – instruí, e saí do quarto, avançando em bicos dos pés
pelo corredor.
Espreitei pela porta entreaberta do quarto dos meus pais.
A mala do meu pai estava em cima da cama. A minha mãe, junto a uma
gaveta aberta da cómoda, tirava camisas e lançava-as na direção da mala.
– Vai de uma vez, e pronto – dizia ela.
– Caramba, Grace – respondeu o meu pai. Tinha acabado de sair do
duche. O espelho da casa de banho estava embaciado e ele tinha as faces
vermelhas nos sítios em que tivera de insistir com a máquina de barbear.
Exibia apenas uma toalha, atada em redor da cintura.
Agarrou-a pelo pulso e puxou-a para ele, abraçando-a.
– Olha para mim.
– Tiras as mãos de cima de mim – ordenou a minha mãe.
– Mamã? – chamei.
Viraram-se os dois e viram-me na soleira da porta. O meu pai soltou a
minha mãe, que tratou de esconder o rosto. Tinha os olhos vermelhos, o
sobrolho carregado.
– Porque está a mamã a chorar? – indaguei.
O meu pai aproximou-se de mim e pegou-me ao colo, muito embora eu já
estivesse a ficar demasiado crescida para aquilo.
– O que dizes de irmos comer um gelado? – sugeriu ele.
– Okay – respondi.
Levou-me até à cozinha, no piso de baixo, e tirou dois gelados do
congelador. Sentámo-nos a comê-los nos degraus do quintal das traseiras,
com vista para o lago.
– A mamã não vai zangar-se por estarmos a comer isto? – perguntei.
Lambi um pedaço de chocolate da cobertura do gelado que me tinha caído
para o dedo. A minha mãe nunca nos deixava comer gelados àquela hora da
tarde. Alegava sempre que ficaríamos sem apetite para o jantar.
– Charlotte, preciso que sejas uma menina crescida e tomes conta da mãe
durante a minha ausência – pediu o meu pai. – Achas que serás capaz de
fazê-lo?
– Já te vais embora? – indaguei.
– Tenho uma reunião amanhã de manhã – explicou ele.
– Não vás – pedi. – Prometeste que amanhã me levarias no barco outra
vez.
– No próximo fim de semana, está bem?
– Levas-me contigo? – perguntei.
Ele ficou calado por um momento.
– Preciso que fiques aqui e olhes pela tua mãe – argumentou ele. – Podes
fazer isso por mim?
Não respondi. Não queria que ele me deixasse ali com ela, mas sabia que
não havia nada que pudesse fazer para o impedir.
Ele levantou-se e entrou para terminar de fazer a mala e eu fiquei no
alpendre das traseiras. Não queria vê-lo partir. Quando ouvi a porta da
frente a abrir e a fechar e o som do carro dele em movimento, fui sentar-me
no baloiço de pneu que ele nos fizera dois verões atrás.
Fiquei ali um longo momento, até o Sol ter começado a desvanecer-se, à
espera que alguém viesse à minha procura, mas ninguém o fez.
Ouvi um ruído nos arbustos. Virei-me e vi-o ali – um homem. Vestia
umas calças de ganga e um casaco escuro e segurava uma máquina
fotográfica contra o olho; a máquina ocultava-lhe o rosto.
Parei de baloiçar.
Ele aproximou-se.
Era alto. Olhei para ele e semicerrei os olhos. Pareceu-me ao mesmo
tempo conhecido e desconhecido.
Abri a boca para lhe perguntar quem era, o que desejava, mas não saiu som nenhum.
Ele avançou mais e ficou tão perto de mim que, se quisesse, podia esticar
o braço e tocar-lhe. Olhei para a lente da máquina.
Clique.
Tirou uma fotografia.
Quem és tu quem és tu quem és tu?
As palavras reverberavam na minha cabeça.
De súbito, o homem parou, como se me tivesse ouvido, como se pudesse
ler-me os pensamentos nitidamente. Aos poucos, afastou a máquina e vi-lhe
a cara.
Ou melhor, vi o lugar onde o rosto dele deveria ter estado, já que, na
verdade, não havia rosto nenhum.
No lugar da pele, havia carne viva, encarnada, como se a cara tivesse sido
fervida e esfolada. Dois buracos escuros faziam as vezes de olhos e os
lábios haviam sido cosidos. Ele tentou mexê-los, forçando a sutura como se
quisesse desesperadamente dizer-me qualquer coisa, mas a única coisa que
saiu foi um gemido terrível e doloroso.
Horrorizada, deixei escapar uma exclamação.
Ele estendeu o braço, com o objetivo de me agarrar, e eu gritei. Fechei os
olhos com força e debati-me contra a mão que me apertava o ombro, cada
vez com mais força, e me abanava.
– Charlie – chamou uma voz. – Está tudo bem, Charlie. Sou eu.
Acordei sobressaltada. Vi aquela mão no meu ombro. Olhei em frente e
deparei com Leo, quase em cima de mim, abanando-me. Tornei a gritar.
– Calma, prima – disse Leo. – Sou eu, nada mais.
– Eu diria que é uma reação perfeitamente normal vinda de uma rapariga
quando a tua cara é a primeira coisa que vê ao acordar – fez notar Drew. –
Não finjas que é a primeira vez que isto te acontece, Leo.
– Drew, é sempre um prazer – replicou Leo, virando-se para ela. –
Sobretudo, assim cedinho pela manhã.
– Morde aqui a ver se eu deixo – redarguiu Drew.
– Era bem capaz de gostar – afirmou Leo.
– Vai ver se chove, Leo.
Sentei-me na cama e esfreguei os olhos. Consultei o relógio da mesa de
cabeceira. Seis e meia da manhã.
Drew estava na soleira da porta, de roupão e com uma toalha à volta do cabelo molhado. Segurava a bolsa com os seus produtos de higiene numa
das mãos.
– Como é que entraste aqui? – perguntou Drew.
– Deixaste a porta aberta quando foste tomar banho – respondeu Leo,
encolhendo ao mesmo tempo os ombros.
– Bem, será a última vez que isso acontece – disse Drew. Pousou a bolsa
em cima da cómoda.
– Que foi, Leo? – indaguei. Tinha a cabeça baralhada e tentava ainda
agarrar-me aos vestígios do meu sonho, que rapidamente se desvanecia.
Sonhara com a casa do lago Langely, com a discussão entre os meus pais no
dia em que a minha mãe desaparecera, com um homem sem rosto e munido
de uma máquina fotográfica que tentava dizer-me qualquer coisa.
Leo sentou-se ao meu lado na cama.
– A minha primeira aula foi cancelada – disse ele. Alcançou o controlo
remoto que estava na mesa de cabeceira e ligou a minha televisão. Em
abono da verdade, o televisor era de Leo. A tia Grier recusara-se a deixá-lo
ter um televisor no quarto, para que isso não interferisse com os estudos,
por isso ele transferira-o para o meu quarto, em conjunto com a Xbox. –
Vim jogar Call of Duty.
– Rua – ordenou Drew. – Tenho de me vestir.
– Ora essa, não te incomodes por mim – respondeu Leo. – Não é nada que
não tenha já visto.
Drew lançou-lhe a escova do cabelo. Leo esquivou-se a ela e a escova
bateu contra a cabeceira da minha cama e caiu ao chão.
Levantei os braços.
– Ei, cuidado – pedi. – Não quero ser atingida por fogo amigo.
– Desculpa – disse Drew.
– Não podes fazer isto mais tarde? – perguntei a Leo.
– É o dever, Charlie – alegou Leo, apontando o comando para o televisor
e encolhendo os ombros como se a situação o deixasse impotente. – Chama.
– Era o que nos faltava – suspirou Drew ao abrir a gaveta de cima da sua
cómoda para tirar um sutiã e um par de cuecas. – Visto-me na casa banho.
– Olha, escolhe o de renda preta – sugeriu Leo. – Sempre gostei de te ver
com esse.
Saltei da cama mesmo antes de Drew, já à porta, ter lançado uma lata de
laca à cabeça do meu primo.
– Tens mesmo de fazer isso? – perguntei-lhe, e pus-me a vasculhar o
roupeiro em busca de roupa limpa para vestir.
– Se fosse trinta por cento menos divertido, tentaria abster-me – afirmou
Leo, de olhos colados no ecrã e os dedos operando o controlo remoto.
Nenhuma das minhas amigas era fã de Leo. Drew por motivos óbvios, e
Yael e Stevie por pura solidariedade. Sabia que o achavam pretensioso e
cruel, e não podia deixar de admitir que Leo tinha, de facto, algumas falhas;
no entanto, era meu primo e, em determinada altura, revelara-se o meu
único aliado.
Aos dez anos, quando fora viver com o tio Teddy e com a tia Grier, em
Scarsdale, Leo tomara-me sob a sua proteção. No meu primeiro dia na
Brentley Academy, o meu primo convidou-me a sentar à mesa onde ele
almoçava com os amigos: um feito considerável para uma miúda que era
nova na escola e começava a frequentá-la a meio do ano letivo. Sentei-me
entre Leo e o seu amigo Richie Masterson, um rapazinho de sardas e cabelo
escuro que achei muito giro, até ele ter pousado a sanduíche, se ter virado
para mim e perguntado:
– Ajudaste o teu pai a esconder o corpo?
Oh, não, pensei. Também aqui? Outra vez, não.
Tentei respirar, mas não fui capaz. O ar parecia não me encher os
pulmões.
– A mãe da Charlotte era uma prostituta.
De olhos arregalados, virei-me para o meu primo, incrédula perante
semelhante traição. O silêncio instalou-se. O sorriso trocista de Richie
começou a vacilar, e depois esmoreceu por completo.
– Uma mulher que dorme com um tipo por dinheiro, entendem? –
explicou Leo, como se fôssemos um bando de idiotas e não soubéssemos o
significado da palavra, provavelmente porque olhávamos para ele
boquiabertos como se, de facto, a desconhecêssemos. Leo deu uma dentada
na sua sanduíche e disse, descontraidamente, com a boca cheia: – Tu
entendes, Richie, a tua mãe também é uma prostituta.
– Ei! – reclamou Richie, corado até às raízes dos cabelos. – A minha mãe
não é uma…
– Não deixou o teu pai e lhe levou o dinheiro todo? – indagou Leo, mas
não era uma pergunta, porque o pai de Richie era um dos doentes que a tia
Grier atendia, e o passatempo preferido de Leo era sentar-se onde ninguém o via, mas onde conseguia escutar tudo o que se passava no gabinete da mãe
quando ela estava com um doente, e colecionar segredos. – Vês? Era uma
prostituta. Só que já ninguém fala disso, porque vocês não são importantes o
suficiente. Não passas de um zé-ninguém com uma mãe prostituta. A mãe
da Charlotte era uma prostituta, mas, ao menos, as pessoas importam-se o
bastante com ela para falar do assunto, porque ela é uma Calloway. A
Charlotte é importante.
Richie mordeu o lábio; vi um tendão do seu pescoço retesar-se e apercebi-
me da guerra que travava consigo mesmo (a mesma que eu travara comigo
mesma um cento de vezes, e perdera), a guerra para impedir as lágrimas de
vir ao de cima, para não mostrar aos outros que estava prestes a perder a
compostura. Quase que senti pena dele. Quase.
E essa foi a última vez que alguém em Brentley se atreveu a mencionar a
minha mãe. Esse foi o dia em que Leo me salvou não apenas dos outros
miúdos, mas de mim mesma. Porque me ensinou a odiá-la. E essa raiva
constituiu um maravilhoso presente. Antes, sentira muitas cisas. A Dra.
Malby ajudara-me a identificá-las: Dor. Perda. Culpa. Vergonha. Mas nunca
raiva.
Pela primeira vez, detinha o controlo. E jurei nunca mais abrir mão dele.
Só que presentemente havia aquela questão do tio Hank e das fotografias.
E uma em especial, que eu não me recordava de ter sido tirada, a que dizia
«PARA COM ISSO» no verso. Parar o quê?
– Anda comer waffles comigo – desafiei Leo, e peguei no casaco do
uniforme. – Tenho fome.
– Okay – respondeu Leo, pousando o controlo do jogo. – Por ti, prima,
faço qualquer coisa.
*
Naquela manhã, encontrei outro bilhete na minha caixa do correio. Era o
primeiro que recebia do clube A e estava impresso em cartolina branca.
Item #1: a coleira de Nancy Reagan
Para ser entregue aos seus novos donos na sexta-feira à meia-noite.
Ainda que o diretor Collins tivesse três filhos, a sua pit bull, Nancy
Reagan, era a menina dos seus olhos. A primeira vez que soube da existência de Nancy foi no gabinete dele, e o diretor tinha apontado para
uma fotografia da família ao mesmo tempo que falava.
– Diz-se que, com aquela idade, não é suposto estarem totalmente
desenvolvidos em termos cognitivos, mas eu sei muito bem ver que a minha
Nancy é esperta como um alho. Não sabe falar, é claro, mas, quando a
olhamos nos olhos, percebe-se perfeitamente que ela entende tudo.
Pensei que ele se referia à filha bebé.
– Tenho uma prima dessa idade, a Clementine – disse eu. Juro que disse
«prima», mas o diretor Collins não me deve ter ouvido.
– E qual lhe parece ser a melhor dieta para ela? – indagou ele.
Era uma pergunta estranha, e devia ter acionado alarmes, mas eu tinha
acabado de conhecer o homem e, na minha ingenuidade, achei apenas que
ele era um pouco excêntrico.
– A minha tia Grier é uma verdadeira fanática da saúde – respondi. – O
veganismo, a alimentação sem glúten e essas coisas. Agora tornou-se numa
adepta de uma tendência que é tipo da horta para a mesa. Cultiva os
próprios legumes e tritura-os e assim. Portanto, imagino que a Clementine
viva à base de uma dieta de cenouras orgânicas, cultivadas em casa e
trituradas.
– Da horta para a mesa… – repetiu o diretor Collins, cofiando o queixo. –
Sim, sim. Hei de experimentar. Aposto que fará maravilhas por ela. Deve
ter um pelo muito sedoso.
Foi mais ou menos por essa altura que me dei conta do meu erro, mas
continuei a fazer de conta que a Clementine era um cão. Ele continuou a
perguntar-me por ela, mesmo dois anos volvidos, e eu continuei a mentir.
Havia fotografias emolduradas de Nancy no gabinete do diretor; dizia-se
que havia até um retrato a óleo de Nancy, em tamanho natural, numa
moldura dourada, por cima da lareira de sua casa. Marcus Lansbury jurara
tê-lo visto aquando de um chá para o qual fora convidado com o seu tio, em
casa do diretor, no outono anterior.
É claro que toda a gente sabia a história da coleira de Nancy. Incrustada a
diamantes, tinha sido oferecida a Nancy naquele Natal. A Sra. Collins
armara uma zaragata dos diabos ao abrir o seu maior presente: um aspirador
topo de gama.
*
Ao final do dia, fui com Stevie para a biblioteca. Estávamos na mesma
turma de Literatura Americana e tínhamos de estudar a coletânea Ariel, de
Sylvia Plath. Li as duas primeiras estrofes do poema «Daddy» em voz alta e
pousei o livro.
– Não faço ideia do que isto significa, mas, pelo menos, rima, mais ou
menos – comentei.
– Ela fala do quanto se sente reprimida – explicou Stevie. – Como se
vivesse numa caixa pequenina na qual mal consegue respirar.
– Então, porque não diz isso, e pronto? – perguntei.
– Porque, às vezes, as palavras que temos não chegam – disse Stevie. –
Precisas de coisas como metáforas e som e rima para conseguires abarcar
tudo.
– Pois, talvez – resmunguei, virando a página.
– Vou tentar encontrar os diários completos de Plath – afirmou Stevie, e
levantou-se da cadeira. – Talvez nos deem um bom contexto histórico que
possamos usar para analisar os poemas.
– Boa ideia – concordei.
Continuei a ler. De repente, fiquei com a nítida sensação de que alguém
me observava e, ao levantar a cabeça, vi Dalton, de pé, do outro lado da
mesa.
– Vieste prestar homenagem ao meu diabólico talento para o póquer? –
indaguei, com uma sobrancelha arqueada, para maior efeito.
– Mais ou menos – respondeu Dalton. Tirou um envelope do bolso do
blazer e fê-lo deslizar por cima da mesa até mim. Em seguida, para minha
surpresa, sentou-se.
– Sabes – continuou ele –, se certa pessoa, e não estou aqui a nomear
ninguém em particular, mas se, na noite passada, certa pessoa tivesse
jogado de acordo com as regras, o resultado podia ter sido bem diferente.
– Bem, certa pessoa não está arrependida de nada – realcei, e abri o
envelope para contar o dinheiro.
Dalton riu-se.
– Vais mesmo contá-lo à minha frente? Não confias em mim, Calloway?
– Digamos que confio, desconfiando – respondi. Guardei o envelope no
manual de Literatura Americana.
– E essa desconfiança é-me dirigida a mim em especial ou a todos os
rapazes em geral?
– Não, é em relação a todos – elucidei. – Não te lisonjeies.
Dalton tornou a rir.
– Como é que angariámos uma reputação tão má?
– Conheces o meu primo Leo?
– Espero sinceramente que a tua perceção da classe masculina não se
baseie apenas no Leo – disse Dalton.
Ri-me.
– Infelizmente para vocês, possuo um conhecimento em primeira mão do
funcionamento da mente masculina adolescente, e não augura nada de bom
para qualquer um de vós. São todos uns ordinários.
Dalton inclinou-se para a frente e apontou para o meu manual.
– Uma leitura leve antes do jantar? – perguntou ele.
Levantei o livro para que ele o pudesse ver.
– Literatura Americana – anunciei. – Estamos a desconstruir poemas da
coletânea Ariel, de Sylvia Plath. Não percebo patavina disto, mas temos de
escrever um ensaio.
– Quem é o teu professor?
– A professora Morrison – respondi.
Dalton fez que sim com a cabeça.
– Eu podia dar-te uma ajuda.
– A sério, Dalton? És perito em Sylvia Plath?
Foi a vez dele de se rir.
– Dificilmente – confessou. – A literatura é provavelmente a matéria em
que me saio pior.
– Bem, tendo em conta essa recomendação tão sonante, talvez seja melhor
desenrascar-me sozinha – disse.
Dalton olhou sub-repticiamente para ambos os lados, como se quisesse
certificar-se de que ninguém nos escutaria. Inclinou-se novamente para a
frente e disse, em voz baixa:
– Referia-me ao acervo do A – elucidou ele.
– O acervo do A? – repeti, num sussurro.
– Sim, temos uma espécie de… repositório de ensaios, exames, et cetera,
por cada professor, cada turma, um aquivo com décadas. Todos os membros
do clube contribuem para ele e todos são livres de o usar à sua vontade. Foi
o que me safou na aula de Literatura Americana, com a professora
Morrison, no ano passado. Passei com dezasseis valores. Os meus pais ficaram tão orgulhosos que me ofereceram umas jantes novas para o
Porsche.
– Mas não receias ser apanhado? – indaguei.
A política de tolerância zero no que dizia respeito a fazer batota ou copiar
implicava uma expulsão automática para quem fosse apanhado. Além do
mais, a professora Morrison, e muitos outros professores, tinha começado a
usar um serviço online que analisava cada trabalho entregue e procurava
excertos plagiados, comparando-o com diversos materiais na internet e
outros trabalhos existentes na base de dados do serviço.
– Estamos a trabalhar numa maneira de contornar isso – realçou Dalton. –
É apenas software, e é possível dar-lhe a volta se soubermos o que estamos
a fazer.
Lembrei-me imediatamente de Jude Bane, o fanático dos computadores
que estava entre os iniciados do clube A. Teria sido por isso que o clube o
recrutara? Quereriam que ele pirateasse o sistema?
– No entretanto, desde que uses trabalhos com alguns anos, não deverás
ter problemas. São demasiado antigos para estarem na base de dados e
dificilmente a professora Morrison se vai recordar de todos os ensaios que
leu sobre Plath.
– Tens razão – concordei.
Dalton recostou-se na cadeira.
– Já tens planos para o Homecoming2?
– A minha família toda virá para o jogo contra os Xavier – respondi. – O
meu pai é ex-aluno. O meu tio Teddy também… Bem, mais ou menos.
Penso que, tecnicamente, o meu tio foi expulso antes de receber o diploma,
mas a minha avó Eugenia não gosta de que se fale disso. Seja como for, a
minha prima Piper quer vir conhecer Knollwood, porque está a pensar vir
para cá para o ano, por isso, a família dela também virá. E tu?
Avistei Stevie pelo canto do olho, dobrando a esquina da estante mais
próxima. Estacou ao ver Dalton na nossa mesa e pôs-se aos pulinhos, toda
contente, como se fosse uma coisa excelente. Discretamente, abanei a
cabeça, num gesto reprovador, e ela afadigou-se a fingir que procurava um
livro enquanto ouvia a nossa conversa às escondidas.
– A minha mãe também é ex-aluna – disse Dalton. – Mas, se calhar, não
vai conseguir vir. O trabalho mantém-na bastante ocupada.
– Ah, que pena – opinei.
Dalton encolheu os ombros.
– Na verdade, quando te perguntei pelos teus planos para o Homecoming,
referia-me ao baile, não ao jogo.
Ouvi Stevie dar uns guinchinhos e tentei abafar o som, tossicando.
Ignorei-a.
– Ah – disse.
– Vais com alguém?
– Costumo ir sempre sem par, só com as raparigas – respondi. Virei
ligeiramente a cabeça, de forma propositada, para não ver os gestos
frenéticos que Stevie fazia na minha direção, como se estivesse a tentar
aterrar um avião.
– As raparigas? – indagou Dalton.
– Sim, a Drew, a Stevie e a Yael. É mais ou menos uma tradição –
expliquei.
Há dois anos que íamos ao baile de Homecoming juntas. Aperaltávamo-
nos juntas, dançávamos juntas e, terminada a festa, Stevie e Yael arrastavam
os colchões até ao quarto que Drew e eu partilhávamos e dormiam no chão.
Claro que nenhuma de nós dormia grande coisa. A noite era, em grande
medida, passada na conversa e na risota, ao mesmo tempo que bebíamos o
xerez que a Drew surripiava da cozinha da residência.
– E tu? – perguntei. – Quem é que vais levar?
Dalton encolheu de novo os ombros.
– Ainda não convidei ninguém. Talvez experimente essa ideia de ir sem
par.
– Ora! – comentei, franzindo as sobrancelhas. Royce Dalton sem par?
Nem sequer conseguia imaginar tal coisa.
– Que foi? – perguntou Dalton, e os cantos dos seus lábios curvaram-se
timidamente. Esforcei-me por não pensar no quanto ele ficava giro quando
sorria, no modo como isso me fazia suster a respiração, como se estivesse à
beira de um precipício e olhasse para baixo. – Achas que não sou capaz de
aguentar uma noite sozinho?
– Acho que há pelo menos uma centena de raparigas em Knollwood que
matavam para ir ao baile contigo, e não convidar nenhuma delas parece-me
uma grosseria, uma crueldade.
– Ah, então, tenho de convidar alguém, em prol de um bem maior, é isso?
– Oh, por favor, até parece que não te divertirias! Há de haver pelo menos uma rapariga em Knollwood com a qual gostasses de ir ao baile.
– Bem, planeava convidar-te a ti, mas tu já tens três pares, portanto,
parece que cheguei tarde demais – disse Dalton.
Revirei os olhos. Dalton era um namoriscador incorrigível. Pobre da
rapariga que o levasse demasiado a sério.
– Sim, é uma pena – concordei. – Mas a tradição é a tradição.
Depois de Dalton se ter ido embora e ter serpenteado pela biblioteca para
se juntar a Ren e Darcy, Stevie regressou à nossa mesa com o livro que fora
buscar.
– Ele estava tão a convidar-te para o baile! – exclamou Stevie,
exasperada. – E tu deste-lhe uma tampa.
Suspirei.
– Não estava e eu não lhe dei tampa nenhuma – asseverei. – Parece-me
incrível que uma pessoa que é tão boa a desconstruir a poesia esotérica de
Sylvia Plath possa interpretar tão mal uma conversa normal que decorre à
sua frente e em inglês simples.
– Okay, Cleópatra – disse Stevie.
– Cleópatra?
– Rainha da Negação – explicou Stevie.
Lancei-lhe o meu lápis.
Tentei não permitir que o meu olhar se desviasse na direção de Dalton de
cada vez que levantava os olhos do que estava a ler, mas não consegui
conter-me. Dava por mim a observá-lo enquanto ele lia, interrogando-me
sobre o que estaria a dizer sempre que se inclinava para falar com Ren ou
Darcy. Mais tarde, quando olhei de soslaio e constatei que a mesa deles
estava vazia, que Dalton se fora embora, senti um enorme desapontamento.
*
– Este parece-vos bem?
Yael virou-se de lado e olhou-se ao espelho, admirando o modo como o
vestido lhe caía.
Ir às compras com Yael era um inferno, porque tudo lhe ficava bem, visto
ser alta e magra. Experimentara um vestido curto, sem mangas, de decote
subido, num tom de azul escuro. Centenas de contas e cristais embelezavam
o tecido. O corte do tecido acentuava a cintura de abelha de Yael, assim como as pernas, que pareciam nunca mais acabar. A cor parecia também
sobressair contra a sua pele cor de porcelana.
– Odeio-te – declarei, e não estava totalmente a brincar.
Era sexta-feira à tarde e Yael, Drew, Stevie e eu estávamos na Delphine’s,
a única boutique de Falls Church, a comprar vestidos para a festa de
Homecoming. Eu fora arrastada até ali contra a minha vontade e apesar dos
meus protestos. Encontrei um vestido para mim em dois minutos. Na
verdade, foi o primeiro e único que experimentei: curto, de seda, cor de
vinho, com um decote traseiro pronunciado. Simples, mas elegante. Era o
único vestido que não gritava «ó-que-linda-princesa». As outras raparigas
experimentaram vestidos de chiffon, de renda, com saias compridas de tule
em tons pastel: rosa, menta, lilás. Ao longo da última hora, segurara
cabides, vasculhara os expositores em busca de outros tamanhos e oferecera
a minha opinião, mas a minha paciência estava a esgotar-se. Um vestido era
simplesmente isso, um vestido, e começavam a parecer-me todos iguais.
Estava naquele momento estendida num cadeirão, em frente ao provador
onde Yael se despia, e ia brincando com o telemóvel.
Não podia deixar de pensar naquela noite: o primeiro objeto pedido pelo
A tinha de ser entregue à meia-noite. O primeiro desafio, e tinham-nos
concedido apenas dois dias para levá-lo a cabo.
Tinha feito muito bem a minha pesquisa: conhecia os horários de Nancy,
onde estaria, a que horas e com quem. Na tarde anterior, pusera-me de
atalaia numa zona do campus com vista desimpedida para a casa do diretor.
Escolhera uma encosta para conseguir ver por cima da sebe até ao quintal
das traseiras. Fiz os trabalhos de casa de Trigonometria enquanto seguia o
rasto de Nancy. Senti-me extremamente ridícula por estar a seguir um cão.
– Gostas deste? – perguntou Drew, abrindo a porta do provador de Yael
sem sequer bater. Exibia um vestido cor de champanhe, mais curto à frente
do que atrás, com um decote em coração.
Yael inclinou-se um pouco para trás e prestou atenção ao vestido. Estava
apenas de cuecas e sutiã, mas isso não a preocupava minimamente.
– Dá uma voltinha – pediu Yael, e Drew descreveu um círculo lento à
nossa frente.
– Este estilo alto e baixo foi moda na época passada – referiu Yael.
Reparei em qualquer coisa vermelha na etiqueta do vestido e estiquei o
braço para ver.
– Não é de admirar – disse, observando melhor. – Este vestido é mesmo
da época passada. Baixaram-lhe o preço.
Drew arrancou-me a etiqueta da mão.
– Ups, alguém deve ter acidentalmente colocado isto no expositor dos
vestidos novos. Detesto quando os artigos em saldo se misturam com as
coisas recentes.
– Não há nada de errado num bom negócio – realçou Stevie, espreitando
por cima da divisória. Estava no provador ao lado de Yael, mas
empoleirara-se numa cadeira, por isso, só conseguia vê-la dos cotovelos
para cima.
– Até gosto dele – confessou Drew. – Sou rapariga para usar vintage, não
sou?
– Sentes-te bem? – indaguei, na brincadeira, encostando a mão à testa
dela para verificar a temperatura. A mãe de Drew era uma figura de
destaque num grande retalhista de roupa feminina e, como filho de peixe
sabe nadar, o sentido de gosto de Drew fazia-a gravitar para a roupa de
luxo. Quanto mais recente e mais caro, melhor. Não era pessoa de vasculhar
no expositor dos artigos com desconto.
Drew afastou-me a mão.
– Ignora-a. Estás uma brasa – disse Stevie.
– O suficiente para fazer o Crosby romper com a Ren? – perguntou Drew.
– Voltaram a juntar-se? – quis saber Yael.
– Não faço ideia – respondeu Drew. – Mas ainda não me convidou para o
baile, por isso, presumi que sim.
– Pensei que íamos juntas – observei, levantando os olhos do telefone, um
pouco irritada. – Ou somos apenas substitutas?
– Calma – pediu Drew, tranquilamente. – Vocês são sempre a minha
primeira escolha, meninas, mas hão de concordar que não me valorizam ou
apreciam de vestido do mesmo modo que os rapazes. Além disso, amo-vos
a todas, mas não me apetece curtir convosco.
– O Dalton convidou a Charlie para o baile – arrulhou Stevie.
– Quê? Quando? – perguntou Drew.
– Não me disseste nada! – reclamou Yael, e beliscou-me o antebraço.
– Au! – queixei-me, e esfreguei o braço.
– Foi na biblioteca, no outro dia, e ela deu-lhe uma tampa – relatou
Stevie.
– Deste uma tampa a Royce Dalton? – interrogou Yael, de olhos
esbugalhados.
Fulminei Stevie com o olhar.
– Pelo visto, há pessoas que não são capazes de detetar sarcasmo e humor
– referi. – Ele não falava a sério.
– Claro que falava! – asseverou Stevie. – Aposto que conseguias que ele
te convidasse outra vez, se o encorajasses um pouco. Pareceu-me tão
desconsolado quando o rejeitaste.
– Não sei – argumentou Drew, mordendo a pele do indicador ao mesmo
tempo que pensava. – Ouvi dizer que ele ia com a McKenna St. Clare. Esta
manhã, na aula de Francês, ela não parava de falar da flor para a lapela que
planeava comprar-lhe, a condizer com o seu vestido.
– Ah – disse Stevie, desapontada. Olhou-me com uma expressão
pesarosa, apiedando-se de mim; como se eu me ralasse que Dalton fosse ao
baile com McKenna St. Clare em vez de mim.
McKenna St. Clare era aluna do segundo ano, a rapariga mais bonita da
sua turma: alta e magra, com olhos verdes amendoados.
– Pois, sim – respondi, revirando os olhos com grande afã. – Vê-se que
ficou inconsolável depois da minha recusa. Aposto que esperou dois
minutos inteiros antes de ir convidar outra miúda.
Tentava soar indiferente em relação ao assunto, mas a minha atuação
falhou redondamente. Soava ressabiada, amarga, e isso não era justo,
porque eu não era amarga. A sério que não.
Yael mordeu o lábio.
– Seja como for, o Royce Dalton não seria o parceiro de dança ideal para
ti. É demasiado alto.
– Exato –secundou Yael. – É muito… – procurou um adjetivo
depreciativo para me fazer sentir melhor. Não conseguindo encontrá-lo,
mudou de assunto. – Ei, ajuda-me a despir o vestido, pode ser? – pediu-me,
e virou-me as costas.
Puxei pelo fecho de correr.
Não podia ficar ali a vê-las apiedarem-se de mim, a escutar as suas
tentativas esfarrapadas, mas bem-intencionadas, de me fazer sentir melhor
por não ir ao baile com Dalton. Sobretudo porque, de qualquer maneira, eu
não queria ir ao baile com ele. Não queria mesmo.
– Tenho uns recados para fazer na cidade – anunciei, ao mesmo tempo que lançava o telemóvel para dentro da mala. – Vemo-nos mais tarde, okay?
– Queres que vá contigo? – ofereceu-se Stevie, num tom delicodoce,
como se eu fosse uma criatura frágil prestes a estilhaçar-se.
– Não – respondi, com maus modos.
Ela deu um sacão, como se a tivesse esbofeteado.
– Quero dizer, não é preciso, obrigada – reformulei, e obriguei-me a
sorrir. – Vemo-nos mais tarde.
– Claro – respondeu ela.
Saí dali consciente de que começariam a falar de mim num tom
compadecido assim que me afastasse o suficiente, o que era muito irritante.
E o que me irritava mais ainda era que achassem sinceramente que, para
começo, eu me interessaria por uma pessoa como o Dalton. Royce Dalton, o
maior Don Juan de Knollwood. Acreditariam mesmo que eu iria ao baile
com ele e embarcaria naquelas rotinas lamechas, típicas dos casais? Dalton
era um verdadeiro «artista», ao qual não faltavam manhas e ardis. Não tinha
dúvidas de que me compraria um ramalhete que combinaria na perfeição
com o meu vestido. Quando me acompanhasse à residência, repararia que
eu tinha frio e despiria o casaco para mo colocar aos ombros. E quando
chegássemos à porta, faria conversa fiada e, no final, beijar-me-ia. Seria
uma noite muito bem passada, já se estava a ver.
No entanto, ao contrário das minhas amigas, também já estava a ver o que
sucederia a seguir. Assim que baixasse a guarda, Dalton passaria à rapariga
seguinte e eu seria mais uma Harper Cartwright, lançando-lhe olhares
fulminantes nas reuniões do A. Não, obrigada. Por mim, McKenna St. Clare
podia ficar com ele à vontade.
*
Na mercearia local, a Mimi’s, coloquei meio quilograma de toucinho e uma
caixa de sacos de congelação no tapete da caixa e telefonei à minha irmã,
que estava em Reading.
– Está tudo bem? – indagou Seraphina, atendendo o meu telefonema num
tom meio apavorado.
Raramente falávamos pelo telefone, pois enviar mensagens de texto era
mais fácil.
– Que vais fazer amanhã? – perguntei.
– Amanhã é o quê, sábado? – perguntou ela, de volta. Conseguia imaginá-la estendida sobre a cama, no dormitório, a limar as unhas. – Espero praticar
os meus dois pecados mortais preferidos: a gula e a preguiça – respondeu
ela. – Porque perguntas?
– O tio Hank telefonou-me aqui há dias – disse.
Menti porque não queria alarmá-la ao confessar que ele viera falar
comigo em pessoa e me mostrara uma pilha de fotografias.
– Esse tresloucado? Que queria ele? – inquiriu Seraphina.
– Sabes aquela festa que a avó e o avô Fairchild costumam dar no
aniversário da mãe?
Seguiu-se uma pausa.
– Sei.
– Ele queria que eu fosse – desembuchei. – Na verdade, queria que
fôssemos as duas.
Seguiu-se mais um momento de silêncio, maior do que o anterior. A
senhora da caixa registou as minhas compras e colocou-as num saco de
papel.
– Seraphina, estás aí? – chamei, segurando o telefone entre o queixo e o
ombro para abrir o porta-moedas e pagar as compras.
– Acho que não entendo por que raio queres ir – disse Seraphina.
Mexendo apenas os lábios, agradeci à senhora da caixa e saí para o
passeio com o saco no braço.
Era uma pergunta justa e a verdade era que, se não fosse pelas fotografias,
não teria qualquer interesse em ir. Porém, vira as fotografias e estas tinham-
me perturbado. Não sabia ao certo o que queriam dizer, ao que se referiam,
mas a verdade era que levantavam perguntas. Perguntas que não podia
deixar sem resposta. Não sabia, contudo, como fazer Seraphina entender
isso sem lhe contar tudo, e não queria fazê-lo pelo telefone.
– Acho apenas que que está na altura de o fazermos – expliquei. – São
uma parte da nossa família, independentemente do que a nossa mãe fez.
A questão, no entanto, era que tinha de voltar a Hillsborough. Tinha de
regressar à casa no lago Langely. Tinha de falar com a amiga mais chegada
e antiga da minha mãe, Claire. E, talvez, se a minha irmã lá estivesse e eu
fosse capaz de lhe explicar tudo, pudéssemos fazer isso juntas.
– Não sei – disse Seraphina. – Por mim, basta-me vê-los no Natal e
assim… parece-me estranho ir fazer uma coisa totalmente relacionada com
ela. Além de que o pai ficaria furioso se soubesse.
– É só uma noite – insisti. – Se não nos agradar, vimo-nos embora,
prometo.
Seguiu-se um suspiro, longo, meio contrariado.
– Se eu arranjar o horário dos comboios, vens comigo? – perguntei. –
Posso ir buscar-te a Hillsborough.
– Suponho que poderei praticar os meus pecados mortais numa outra
altura – cedeu Seraphina.
– És a virtude personificada, minha boa irmã – respondi.
*
Drew ajoelhou-se em frente à gaveta da minha secretária e forçou a
fechadura com as extremidades de dois clips.
– Merda! – exclamou. – Partiu-se.
Lançou o clip partido para o chão e escolheu outro da caixa que tinha ao
seu lado.
– Não empurres com tanta força – instruí, sentada na cama a calçar um
par de botins pretos.
A tarefa que o A atribuíra a Drew era roubar o ficheiro selado de Ren que
estava no gabinete do conselheiro pedagógico, por isso ela estava a treinar
na fechadura da minha gaveta. Ouvira o suficiente dos vídeos a que ela
assistira no YouTube sobre arrombamento de fechaduras para ter uma ideia
acerca das manobras envolvidas.
– Sim, sim, okay – disse Drew, e inseriu dois clips novos na fechadura
para tentar novamente.
Consultei as horas no meu telefone. Eram quase onze. Ao espelho do
roupeiro, examinei o meu conjunto, preto da cabeça aos pés: calças de
ganga pretas, botins pretos, top preto, pulôver preto. Era tão conveniente
que o look preto integral fosse ao mesmo tempo prático para roubos
noturnos e sofisticadamente clássico.
Ouvi um clique e, ao rodar a cabeça, vi Drew abrir a gaveta da minha
secretária.
– Consegui! – congratulou-se ela.
– Eu bem te disse.
Tirei a embalagem de bacon que comprara do minibar que tínhamos no
quarto, separei umas quantas fatias e coloquei-as num saco de congelação,
que fechei, dobrei e guardei no bolso do meu pulôver.
– Então, vemo-nos no Rebordo daqui a uma hora? – perguntei, e dirigi-
me à janela.
Drew franziu os lábios e fê-los estalar: um beijo de despedida.
Nancy estava onde eu contava que estivesse: no quintal traseiro da casa
do diretor, deitada à sombra de um ulmeiro. O incidente do Natal anterior,
em que a cadela pit bull recebera uma coleira de diamantes e a Sra. Collins
um aspirador, resultara em meu favor. A ira inquebrantável da Sra. Collins
fazia com que Nancy dormisse ao relento, no jardim, em vez de na sua
almofada de seda, aos pés da cama do casal Collins.
Trepar a vedação foi uma tarefa fácil. Nancy nem se mexeu de onde
estava. Limitou-se a levantar a cabeça e ficou a observar-me,
indolentemente. A luz do alpendre traseiro dos Collins acendeu-se,
desencadeada pelo meu movimento, e eu estaquei e agachei-me, para o caso
de algum dos Collins resolver espreitar para a rua. De gatas, avancei aos
poucos na direção da cadela.
Quando me aproximei, Nancy rosnou e pôs-se de pé, retesando os
músculos como se, a qualquer momento, se pudesse lançar a mim. Parei, a
muito pouca distância dela.
– Calma, está tudo bem, Nancy – tranquilizei-a.
Sem pressa, tirei o telemóvel do bolso e liguei a aplicação que
descarregara naquele dia e que simulava um apito para cães. Assim que
Nancy pulou para mim, carreguei no botão.
Como é claro, não ouvi nada, portanto, durante um assustador momento,
achei que não tinha resultado. Então, Nancy deteve-se subitamente. Sentou-
se e ganiu, inclinando a cabeça para um dos lados. Pressionei o botão de
novo para silenciar o apito.
– Podemos ambas conseguir o que queremos – disse à cadela.
Extraí o saco de congelação do bolso e abri-o. Nancy farejou o ar e pôs a
língua de fora. Tirei umas quantas fatias de bacon e depositei-as no chão,
aos meus pés. Nancy avançou e começou a devorar o bacon.
– Peço desculpa em relação à dieta de cenoura triturada a que foste sujeita
– referi. – A culpa é minha, lamento.
Inclinei-me cautelosamente. Conseguia ver o fecho da coleira de
diamantes de Nancy junto ao cachaço da cadela. Imaginei que o alcançava e
que ela rodava a cabeça e me segurava o antebraço com os dentes afiados.
Afastei semelhante pensamento. Nancy teria de morder-me alguns dedos antes que eu arriscasse não levar a cabo uma das tarefas do A e ser excluída
do clube.
Inclinei-me aos poucos para a frente até alcançar a parte de trás do
pescoço de Nancy. Não rosnou nem se afastou; estava tão concentrada em
devorar o bacon que nem parecia dar-se conta da minha presença. Abri o
fecho da coleira sem demora e guardei-a no bolso.
– Linda menina – elogiei.
Nancy levantou então a cabeça, e o seu olhar mudara. Dei-me conta de
que terminara de comer o bacon e abri o saco de congelação à pressa, em
busca das últimas fatias. Lancei-as aos seus pés, mas ela nem percebeu.
Começou a rosnar baixinho e ameaçadoramente. As pregas em redor dos
seus olhos aprofundaram-se, arreganhou os dentes e ladrou. Tentei alcançar
o telefone para acionar de novo a aplicação do apito, mas tinha os dedos
engordurados do bacon. Decidi dar meia volta e correr o mais depressa que
pudesse rumo à vedação.
Por mais perto que estivesse da vedação, sabia que não era rápida o
suficiente para lá chegar antes de Nancy, com as suas quatro patas. Senti os
dentes dela na carne do tornozelo. Tropecei e contive um impropério.
Estava junto à vedação. Apoiei o pé numa das barras, icei-me e saltei para
o outro lado antes que Nancy conseguisse morder-me de novo.
Ouvi-a do outro lado da vedação, andando de um lado para o outro, à
espera que eu regressasse.
Afastei-me alguns metros, coxeando, e levantei a perna das calças para
avaliar os danos. À ténue luz que se derramava do quintal da família
Collins, vi a pequena meia lua cor-de-rosa que o incisivo frontal direito de
Nancy deixara junto ao osso do meu tornozelo.
Quando me achei a uma distância segura, arrisquei olhar para o quintal.
Nancy tinha regressado ao seu lugar, sob o ulmeiro, onde se refestelava com
a única prova que deixara para trás da minha presença ali naquela noite: as
últimas tiras de bacon da mercearia Mimi’s.
*
Dos oito iniciados, sete encontravam-se no Rebordo à meia-noite, o final do
prazo. Colocámos o saque numa manta de piquenique estendida sobre o
capô do carro de Ren:
Uma coleira de diamante roubada à cadela pit bull do diretor da escola.
Um conjunto de chaves do porteiro.
Uma fotografia emoldurada do Sr. Franklin, o professor de Trigonometria, apertando o
bacalhau ao presidente Nixon depois de ter regressado de uma missão miliar no estrangeiro.
Um ficheiro, ainda selado, sobre Ren Montgomery, extraído do gabinete do conselheiro
pedagógico.
Uma palavra passe para aceder ao computador do deão académico.
Um conjunto de autorizações, assinadas pelo diretor, para os alunos saírem da sala durante as
horas de aulas.
Um lenço bege com uma mancha nítida de vinho tinto.
Nunca soube o que Auden devia ter levado. Ele não apareceu.
2 Tradição anual das escolas dos Estados Unidos mediante a qual se recebem os alunos e ex-alunos e se celebra a existência da instituição. (N. da T.)