Magníficos Estranhos
Trinta e oito CHARLIE CALLOWAY
Trinta e oito
CHARLIE CALLOWAY
2017
O terceiro e último cartão do A, com a derradeira tarefa que teria de
cumprir, esperava-me na caixa do correio quando regressei à escola. Dessa
feita, o cartão vinha dentro de um pequeno envelope branco. Abri-o na
entrada de Rosewood Hall.
Item #3: Publica estas fotografias na próxima edição do Knollwood
Chronicle
Virei o envelope de cabeça para baixo e fiz deslizar as fotografias para a
palma da mão, mas, antes mesmo de as ver, já sabia do que se tratava. Eram
as fotografias que Leo tirara de mim e do professor Andrews. Eu não
aparecia propriamente na fotografia, pois tinha a cabeça virada, mas pelo
uniforme via-se que a rapariga era aluna da Knollwood Prep. O professor
Andrews via-se perfeitamente, assim como o nosso beijo impróprio.
Que teria feito o professor Andrews para incorrer na ira do A? Sabia que
era inútil fazer tal pergunta. O A estava determinado a derrubá-lo e ia usar-
me para o conseguir.
Voltei a guardar as fotografias no envelope e escondi-o no manual de
Trigonometria. O desafio de conseguir as fotografias parecera-me na altura
uma mera provocação. Uma coisa para testar até que ponto eu estava
disposta a ir para provar ao A que pertencia ao clube, que merecia ser um
deles. Aquilo, contudo, parecia-me cruel. Destruir a reputação de um
homem. Se o que as fotografias revelassem fosse verdadeiro, então talvez o
professor Andrews merecesse ser exposto. O que as fotografias não mostravam, porém, era que havia sido eu quem o beijara e que ele me
rejeitara. As fotografias eram um embuste.
Apertei o livro contra o peito e atravessei o relvado para chegar à sala de
aulas. Não o via, mas sentia-o ali, o envelope metido entre as páginas, com
o terceiro desafio, o último teste antes de me tornar num membro do A.
*
Leo inclinou-se por cima do meu ombro e arrancou-me Ariel, de Sylvia
Plath, das mãos. Tentei arrebatar o livro de volta, mas ele manteve-o longe
do meu alcance e recostou-se de novo nas almofadas empilhadas na minha
cama. Leu em voz alta e num tom dramático o último verso do poema e deu
uma gargalhada.
– Credo, odeio este poema – declarou Leo. – Eu sei que é suposto isto ser
muito profundo e assim, mas quanto mais leio isto mais me convenço de
que a Plath andava a dormir com o pai.
Lançou Ariel para junto de mim e pegou no comando da sua Xbox.
Segurei o livro fechado nas mãos e fiz deslizar os dedos pela lombada.
Desde a conversa que tivera com o meu pai durante as miniférias de Ação
de Graças, não parara de pensar no que ele e o A tinham feito a Jake Griffin.
Sim, achavam que ele estava morto quando o lançaram para a ravina. A
intenção não fora matá-lo, mas, por outro lado, os membros do A também
não estavam completamente livres de culpa. Tinham-se preocupado mais
com eles mesmos, com os seus futuros, as suas carreiras, as suas reputações,
do que com o bem-estar de um amigo. Porque, se tivessem pensado
primeiro em Jake naquela noite, teriam feito tudo ao alcance deles para o
ajudar. E, no mínimo, podiam ter sido sinceros em relação ao que
acontecera e não ter permitido que a família e amigos de Jake passassem
pelo tormento de pensar que ele se suicidara. Talvez os membros do A não
fossem uns assassinos, mas, sem dúvida, que eram egoístas, egocêntricos e
cruéis.
Em abono da verdade, da dolorosa verdade, se tivesse estado no lugar do
meu pai, no Rebordo, com Jake, ter-me-ia comportado de forma diferente?
É que já tinha estado no lugar dele, mais ou menos, e agira de modo que os
meus interesses ficassem protegidos. Quando Auden fora tramado por causa
de uma partida que não tinha pregado, deixara-o ser acusado e expulso. Desmascarar o A nem sequer me passara pela cabeça. Mas podia ter feito
isso e talvez as coisas tivessem sido diferentes.
Se calhar, não agira somente para proteger os meus interesses. Tinha sido
leal ao clube. De certo modo, o meu pai e os seus amigos tinham feito uma
coisa semelhante. Haviam sacrificado Jake para se salvarem uns aos outros.
Não fora uma decisão fácil e também não tinha sido totalmente egoísta.
Talvez houvesse algum tipo de nobreza naquele género de lealdade.
– Imaginemos que eu tinha feito uma coisa má – sugeri. – Tipo, mesmo,
mesmo má.
– Que tipo de coisa? – perguntou Leo, sem tirar os olhos do televisor e de
lábios franzidos, como era seu costume quando estava muito concentrado. –
Tipo mentir ao teu pai em relação a teres passado as miniférias com o teu
namorado?
– Muito engraçadinho – ripostei.
Leo continuava a meter-se comigo por causa disso. Ficara um pouco
ofendido por lhe ter mentido relativamente ao meu destino de férias, se bem
que, no capítulo da honestidade entre nós os dois, ele não fosse
propriamente um santinho.
– Digamos que matei uma pessoa – aventei. – Sem querer.
– De que modo? – indagou Leo.
– Sei lá eu… Os pormenores não são importantes – aleguei.
– Os pormenores são importantes – realçou Leo. – Tipo, atropelaste
alguém sem querer com o teu carro? Ou estamos a falar de um crime
passional? Discutiste com o Dalton e apunhalaste-o até à morte com o salto
da tua sandália Louis Vuitton?
Suspirei.
– Escolhe tu.
– Escolho morte por Louis Vuitton – disse Leo. – E o teu segredo está em
segurança comigo.
– Mas a sério, Leo – pedi. – Estamos a falar hipoteticamente, é claro, mas
se não estivéssemos, se soubesses que eu tinha matado uma pessoa, não ias
denunciar-me à polícia?
– Se tivesses matado uma pessoa acidentalmente? – perguntou Leo. –
Não sei… Não, suponho que não iria.
– Porque não? Não achas que devia ser responsabilizada pelo meu ato,
responder pelo que fiz?
– Família é família – argumentou Leo, encolhendo os ombros.
– Então, o facto de nos correr o mesmo sangue nas veias concede-me um
cartão tipo o do Monopólio: «Você está livre da prisão»? Não te sentirias
moralmente comprometido?
– A lealdade com aqueles que amamos, com a família, é um código
moral. Se não tivermos lealdade, resta-nos o quê?
– Lealdade familiar – repeti. – Tem graça… Vindo de ti.
Ainda não tinha esquecido o que Leo me fizera e gostava de o massacrar
com isso.
– Perdoaste o Dalton, mas não me perdoas a mim – queixou-se Leo. –
Não é justo.
– Pronto, está bem –repliquei.
Continuava sem saber o que pensar em relação à questão da suposta
lealdade.
– Por causa disto não vais voltar atrás e recusar-te a ajudar-me amanhã
com as doações para a Gala de Beneficência, pois não? – indagou Leo.
– Como assim? – inquiri. – Não me lembro de me ter voluntariado sequer,
para começo.
– Estou a obrigar toda a gente a ajudar-me, e tu não és exceção – disse
Leo. Era delegado da turma de pré-finalistas e, uma vez que a Associação
de Estudantes estava encarregada de organizar o evento, ele tinha de ajudar.
– Além disso, ultimamente tenho andado tão ocupado que nem tive tempo
para fazer nada, e a gala é já no sábado.
Olhei expressivamente para ele e depois para o televisor, onde a sua
atenção continuava fixada.
– Pois, claro, tens muita razão – disse, num tom irónico.
– Que te saiu como último desafio? – perguntou Leo, tendo feito tábua
rasa do meu comentário.
– Tenho de publicar no Chronicle as fotografias que tiraste do professor
Andrews a beijar-me – respondi.
– Não é muito mau – comentou Leo.
Presumi que se referia à dificuldade de execução da tarefa.
– Pois – respondi. – Fazes ideia do que o professor Andrews fez para
irritar o A?
– É mais o que ele não fez – disse Leo. – E com quem não o fez.
– De que estás a falar?
– Parece que a Ren tinha uma paixoneta por ele, não correspondida. Deve
ter-se sentido insultada, imagino.
– Então, vamos tramar o professor Andrews por se ter metido com uma
aluna porque precisamente não se meteu com uma aluna?
– É mais ou menos isso – confirmou Leo.
Não pude deixar de pensar no episódio do ano anterior com o presidente
do Departamento de Artes. O clube tinha conseguido expulsá-lo da escola
ao expor uma troca de e-mails muito explícita com uma aluna menor de
idade. Teria sido também uma trapaça? Na altura, encarara os membros do
A como uma espécie de vigilantes que operavam nas sombras, mas
entretanto…
– Isso não te parece um bocado tortuoso, velhaco inclusivamente? –
perguntei.
Leo encolheu os ombros.
– Não é muito diferente do que fizemos até agora, pois não?
– É, sim – afirmei.
– De que maneira? – indagou Leo. Pousou o comando da Xbox. –
Lembras-te da ocasião em que o A tramou o Auden por ter feito aquilo à
fotografia do professor Franklin? De início, ficaste muito ofendida porque o
clube te deixou de fora da manobra. Basicamente, o que fizemos foi com
que ele fosse expulso.
– Sim, tens razão – concordei.
– Mentimos, trapaceámos, roubámos, vandalizámos, et cetera – fez notar
Leo. – Onde é que isto é diferente?
– Não sei – admiti. – Parece-me diferente…
Talvez Leo tivesse razão e aquilo não fosse diferente do que já tínhamos
feito. Talvez, de certo modo, a diferença ali estivesse em mim.
– Alguma vez pensaste em não fazer o que eles querem? – perguntei. –
Tipo, abandonar o jogo, virar-lhes as costas? Não ser um A?
– Não, nem por isso – respondeu Leo. – Sobretudo agora. Já aguentámos
muita merda e já chegámos quase ao fim. Em breve será a nossa vez.
A nossa vez. A nossa vez de fazer a um grupo novo de iniciados o que nos
tinha sido feito a nós. A nossa vez de engendrar planos de vingança e fazer
guerra contra o diretor Collins e os restantes membros do corpo docente.
– Além do mais – prosseguiu Leo –, tentar abandonar o clube não deu
bom resultado para quem já o tentou, caso não estejas recordada. Lembras-te do Auden?
– Mas e se não houvesse consequências? – pus à consideração de Leo.
– Haverá inevitavelmente consequências – afirmou ele. – Sabes o que eles
têm contra nós. Queres mesmo que toda a gente veja aquelas fotografias? Já
nem falo do que as pessoas aqui na escola vão pensar. Mas, e se as
fotografias forem parar às mãos dos nossos pais?
Fiquei em silêncio. Não era apenas o meu destino que estava a decidir, era
também o de Leo.
– Diz-me que não estás a planear fazer uma estupidez qualquer – pediu
Leo. Limitei-me a olhar para ele. – Charlie?
Era Leo, o meu primo, quem magoaria se fizesse alguma coisa. Era certo
que Leo ultimamente não se tinha mostrado a pessoa mais leal comigo, mas
em que me distinguiria eu se lhe pagasse na mesma moeda? A lealdade com
aqueles que amamos, com a família, é um código moral. Se não tivermos
lealdade, resta-nos o quê?
– Claro que não – respondi, por fim. – Não sejas tão dramático. Estava
apenas a falar hipoteticamente.
– Okay, ótimo – disse Leo. Pegou de novo no comando e regressou ao seu
jogo.
Ocorreu-me que, de facto, o que Ren dissera naquela primeira noite no
Rebordo era verdade: os segredos vinculam-nos mutuamente, no sentido em
que nos restringem. Não apenas eu e Leo e os membros atuais do A, mas
todos os membros do clube. Estávamos todos inextricavelmente ligados. Ou
nos escaparíamos impunes juntos a tudo e mais alguma coisa, ou teríamos
de desabar juntos, uma implosão coletiva, porque, de uma maneira ou de
outra, éramos todos culpados de alguma coisa.
Mas, pensando bem, quem não era?
*
Não obstante vários esforços, dei por mim no refeitório, na quarta-feira à
tarde, sentada a uma mesa com Dalton, Crosby e Leo a catalogar donativos
para o leilão silencioso da Gala de Beneficência dos Administradores.
– Aqui está mais uma casa de férias – anunciou Crosby. Entregou-me
uma página impressa com as fotografias e a descrição de uma cabana de
esqui em Jackson Hole.
Aparentemente, a doação mais comum e preferida para o leilão silencioso era uma escapadela de uma semana numa casa de férias (ou apartamento de
luxo em Lake Tahoe, ou chateau no Sul de França, ou villa na Toscana, ou
adega em Napa). Exigia um esforço mínimo e, ao mesmo tempo, permitia
às famílias ostentar a sua riqueza, e tudo isso em nome da caridade. Era a
derradeira #fanfarronicehumilde.
– «Cabana rústica que lhe permite comungar com a natureza» – li, antes
de catalogar a doação. – Que terá gritado «rústico» a este tipo? – perguntei.
– Terá sido o jacuzzi em mármore para catorze pessoas ou o cinema privado
na cave?
Mostrei o papel a Crosby para que pudesse ver as fotografias.
– As pessoas acham que só porque estão no meio do sítio onde Judas
perdeu as botas, isso significa que estão a acampar ou coisa assim –
comentou Crosby.
– Uma vez, perdemos um voo e tivemos de pernoitar em Atlanta, numa
escala para não sei onde, e ficámos no Hilton, junto ao aeroporto – contou
Dalton. – A minha mãe chegou mesmo a usar a expressão «temos de
aguentar».
Dalton riu-se e esticou o braço por cima das costas da minha cadeira.
Senti as pontas dos seus dedos nos ombros e tive de me conter para não me
desencostar do espaldar. A verdade era que me sentia estranha na
companhia de Dalton desde que encontrara aquelas malas na cave da sua
casa. E o mais complicado era não poder sequer partilhar com ele as minhas
preocupações, porque ou estava completamente doida e as malas eram
iguais às da minha mãe por coincidência, ou então as malas eram mesmo
dela e Margot estava ligada ao seu desaparecimento. Sabia que tinha de
regressar àquela cave e abri-las, mas não fazia a mais pálida ideia de como
consegui-lo.
Uma parte de mim fazia um esforço hercúleo para não pensar naquelas
malas, porque se pertencessem de facto à minha mãe, que significava isso?
Nunca me permitira acreditar que a minha mãe não nos tinha deixado de
livre e espontânea vontade. A alternativa era demasiado horrível para
contemplar sequer: que o meu pai pudesse ter desempenhado algum papel
no seu desaparecimento, que a pudesse ter magoado de alguma maneira.
Porém, se a minha mãe não nos tinha deixado, então, isso queria dizer que
eu estivera errada em relação a muitas coisas. Os muros que eu erguia ao
meu redor, a frieza e o distanciamento que cultivava à laia de escudo, eram infundados e mal dirigidos, logo, desnecessários. É que, sendo assim, não
tinha sido traída e abandonada; fora querida e amada.
Semelhante pensamento desarmou-me.
– Como é que determinamos o lanço mínimo inicial para cada uma das
doações? – perguntou Crosby.
– Primeiro tenho de ver quanto é que foi a receita da bilheteira – disse
Leo. – Assim, saberemos quanto é que podemos extorquir às pessoas para
atingirmos o nosso objetivo. Charlie, importavas-te de ir perguntar à Stevie
se já fez as contas da bilheteira?
– Ultimamente, andas muito mandão – referi. – Parece que todo este
poder te subiu à cabeça.
– És um verdadeiro tirano, Leo – troçou Dalton. – Ao menos pede por
favor.
– Alguma vez um delegado de turma foi alvo de uma impugnação? –
inquiri.
– Não existem precedentes para uma manobra assim, infelizmente – disse
Dalton.
– Podíamos organizar um Golpe de Estado – propus. – Tenho um período
livre amanhã, depois de Trigonometria.
Leo suspirou.
– Por favor, Charlie, se não for uma grande maçada e agradecendo-te de
antemão, importavas-te de ir perguntar à Stevie quanto fizemos com a
venda de bilhetes e, já agora, trazes a caixa do dinheiro?
– Bom, viste que pediste com tão bons modos… – respondi, pondo-me de
pé.
Ziguezagueei por entre as mesas até chegar àquela que Stevie e Yael
tinham ocupado. Não falava com Yael desde a expulsão de Drew, e com
Stevie desde que ela me fizera aquela oferta de paz à porta do refeitório, há
umas semanas. Sentia-me mal por tê-la ignorado, mas não havia sido minha
intenção fazê-lo. Fora mais um caso de mau timing do que outra coisa
qualquer.
Sabia que não me portara muito bem e que Drew era o fator comum que
nos ligava, a cola que mantinha a nossa amizade, mas, ainda assim, Stevie e
Yael eram minhas amigas (não eram?), e sentia a falta delas.
– Olá, meninas – cumprimentei, demasiado bem-disposta. Sabia que o
meu cumprimento soava falso, mas não conseguira evitá-lo. Não tinha muita prática a armar-me em boazinha e a tentar insinuar-me junto de
alguém. Nunca me dera a esse trabalho.
Yael calou-se a meio de uma frase. O seu sorriso desvaneceu-se assim
que me viu. Stevie olhou para mim por um instante e devolveu a sua
atenção à máquina de calcular. Havia pilhas de cheques em cima da mesa.
– O Leo precisa da caixa do dinheiro e do resultado final da bilheteira –
disse.
– É só um minuto – respondeu Stevie, sem olhar para mim.
– Okay – disse, e sentei-me na cadeira ao lado de Stevie enquanto ela
pressionava as teclas da calculadora e o número no ecrã crescia. – Precisas
de ajuda?
– Não foi um convite – resmungou Yael. Fulminava-me com o olhar.
Não esperara propriamente uma receção calorosa, mas também não
contava com semelhante frieza. Ao menos estava a esforçar-me.
– Afinal, qual é o teu problema? – perguntei.
Yael suspirou.
– Podes acabar com esse joguinho, Charlie, sabemos que foste tu – disse
ela.
– Que fui eu o quê?
– A sério? É mesmo assim que queres fazer isto?
– Yael, não estou a fazer joguinho nenhum. Não faço mesmo ideia do que
estás a falar.
– A porcaria do peixe que encontrámos no nosso quarto – elucidou Yael,
levantando o tom de voz.
Stevie inclinou-se para a frente e levou o indicador aos lábios, pedindo
silêncio. Yael recorreu então a um sussurro fervoroso.
– Estou a falar da merda do peixe.
– O peixe? – estranhei.
Todo aquele tempo, achara que elas estavam zangadas comigo por
acreditarem que tinha sido eu que pedira a Drew para roubar o exame.
Também me passara pela cabeça que estivessem chateadas comigo por
passar tanto tempo com Dalton e os rapazes, como se as tivesse descartado
ou assim. Mas, afinal de contas, o motivo das trombas era um peixe?
– Pavoneias-te por aí toda ufana com os teus amiguinhos secretos no
vosso grupinho secreto com os vossos segredinhos – desdenhou Yael – e
deves achar que ninguém sabe.
– Yael… – começou Stevie, mas Yael cortou-lhe a palavra.
– Não, eu não tenho medo dela e dos seus amigos queridos – afirmou
Yael. Virou-se para mim, com um fogo no olhar. – Aqui há tempos, na casa
de banho, ouvi a Darcy e a Ren comentarem que, por causa delas, tu e o Leo
tinham levado a expressão «quanto mais prima mais se lhe arrima» a um
outro nível. Que amigas tão estranhas as que te obrigam a enfiar a língua
pela garganta do teu primo abaixo antes de se dignarem a dar-se contigo.
Elas pareciam ter achado muita graça ao sucedido.
Corei até à raiz dos cabelos.
– Não sei de que estão a falar – menti.
– Para que saibas: se nos tornarem num alvo, nós vamos ripostar na
mesma moeda. Nós também sabemos alguns segredos.
– Yael, já chega! – exclamou Stevie.
Yael olhou para Stevie e respirou fundo. Em seguida, voltou a fulminar-
me com o olhar.
– Sabes que mais? – disse ela. – Não vou descer ao teu nível. Fica lá com
os teus joguinhos interesseiros e as tuas manobras de poder e as tuas
manipulações e deixa-nos em paz. Mantém-te longe de mim.
Olhei para Stevie, para ver se ela concordava com tudo aquilo. Ela
respirava com esforço e olhava para o fundo do refeitório, recusando-se a
cruzar o olhar com o meu. Ao fim de um momento, suspirou, reuniu as
pilhas de cheques e guardou-as na caixa do dinheiro.
– Toma – disse Stevie. Rabiscou um número num post-it, lançou a
calculadora para dentro da caixa e fechou-a. Colou o post-it na tampa. –
Aqui está o resultado da venda dos bilhetes. – Empurrou a caixa do dinheiro
na minha direção.
– Stevie? – chamei.
Ela olhou então para mim, e quase desejei que não o tivesse feito, porque
vi no seu olhar o quanto a desiludira.
– Vamos embora – disse Stevie a Yael, e empurrou a cadeira para trás.
Yael inclinou-se para a frente na mesa, para mim, e disse muito baixinho,
de maneira que só eu e Stevie a conseguíssemos ouvir:
– Serás um membro perfeito do A, Charlie. Só queres saber de ti mesma.
Depois de elas terem saído, marchei furiosamente até à mesa dos rapazes.
Bati com a caixa na mesa e Dalton parou a meio do que estava a dizer e
olhou para mim.
– Temos de falar – disse eu.
– Que é, querida? – perguntou Dalton.
– Que história é aquela do peixe? – indaguei, em voz baixa. À mesa
estava apenas Dalton e Crosby. Leo encontrava-se do outro lado do
refeitório, a falar com o Sr. Davis, o orientador da turma pré-finalista. Ainda
assim, não me queria arriscar a que alguém me ouvisse.
– Qual peixe? – inquiriu Dalton.
– Meu, tu lembras-te – respondeu Crosby. Deu uma risada e uma
cotovelada a Dalton. – O peixe no quarto da Menina Mesureira? Brutal.
Dalton desatou-se a rir.
– Ah, sim, já quase me tinha esquecido disso!
– Não estou a perceber – disse. – Porque haveriam de pôr um peixe no
quarto da Stevie e da Yael?
– Para nos vingarmos daquela cabra pelo que ela fez à Drew na audiência
disciplinar – elucidou Crosby. – Ninguém recomenda a expulsão de um
membro do A e escapa impune. Olhem para isto. – Crosby levou a mão ao
bolso e tirou o telemóvel. Abriu o álbum de fotografias, fez passar umas
quantas e segurou o ecrã para que eu visse. – Simplesmente hilariante.
Não era um peixe, era o peixe, o que Leo e eu havíamos roubado da Fonte
de Poseidon e escondido na sala dos adereços. Estava deitado na cama de
Stevie, meio tapado com um lençol. Em letras vermelho-sanguíneas, dizia:
«Peixe podre, sal não cura».
– Aquilo é sangue? – perguntei.
– Sim – confirmou Dalton. – Olha para a boca dele.
Observei a boca escancarada do peixe, que parecia ter sido recheada
com…
– Não me digam que aquilo são tampões usados? – perguntei, chocada.
– O pivete, nem imaginas – comentou Crosby, às risadas.
– Porque é que haviam de fazer uma coisa assim? – indaguei.
– Nunca viste O Padrinho? – perguntou Crosby, com um ar incrédulo. –
É um clássico.
– Tem calma – pediu Dalton. Esticou o braço e deu-me a mão, porque
percebeu que eu estava chateada. – Foi só uma partida. Tens de admitir, a
Stevie é um bocado reprimida. Estávamos apenas a divertir-nos.
– A Stevie consegue ser… neurótica, por vezes – afirmei. – Mas é minha
amiga. E não merecia aquilo.
– Tua amiga? – estranhou Dalton. – Quando é que foi a última vez que
vocês estiveram juntas?
A pergunta de Dalton foi como uma bofetada na cara. Não tinha uma
resposta, porque ele estava certo. Não passava tempo com Stevie desde que
Drew tinha sido expulsa e, mesmo antes disso, raramente estivéramos juntas
desde que Dalton e eu tínhamos começado a andar e eu me envolvera com o
A.
– Por vezes, desinteressamo-nos das pessoas com quem nos damos – fez
notar Dalton. – E há quase sempre uma razão por trás disso.
– Qeu quer isso dizer? – perguntei, ofendida.
– Ora, Charlie. Stevie Sorantos? – disse Dalton. – Tenho mesmo de o
dizer com as letras todas?
Cruzei os braços à frente do peito.
– Sim, creio que terás mesmo de fazê-lo.
Dalton suspirou, virou-se para Crosby e fez uma careta.
– Não sejas tão dramática, Charlie – resmungou Dalton. – Tudo não
passou de uma brincadeira.
– Pois eu não me estou a rir – ripostei. Agarrei na mochila, virei as costas
e fui-me embora.
– Onde é que ela vai? – ouvi Leo perguntar, de regresso à mesa.
– À procura do seu sentido de humor – respondeu Crosby.
*
No final daquela tarde, sentada a uma das mesas de estudo da biblioteca na
companhia de Finn, rodeados por uma pilha de jornais velhos e de anuários,
dedicámo-nos à investigação para o nosso artigo acerca do fantasma de
Knollwood, que tínhamos de entregar na sexta-feira. Iria sair na última
edição do Chronicle daquele ano, mas estava com dificuldade em
concentrar-me. Não parava de pensar no meu arrufo com Dalton e na
altercação que tivera com Stevie e Yael, e a última coisa que queria fazer
era escrever um artigo acerca da morte de um rapaz que envolvia o meu pai.
De alguma maneira, além de tudo, tinha de manter a história que conhecia
de fora da história que estava a contar. Não podia ter um deslize e incluir
algum pormenor que não estivesse nos artigos de jornal ou no anuário.
Arriscava-me a criar um incidente de grandes proporções.
– Porque é que todas as histórias de fantasmas são moralidades? – indagou Finn. Folheava um antigo anuário.
– Como assim? – indaguei.
– O Jake parecia ser o menino bonito de Knollwood – explicou Finn. –
Era a estrela da equipa de ténis, pertencia à Associação de Estudantes, era
popular, bem-parecido, bem-sucedido, et cetera. Dir-se-ia que era o maior,
e depois, um dia, faz batota e deixa de estar nas boas graças e, a partir de
então, torna-se num paradigma do fracasso que paira sobre o campus. É
como se fosse um espectro da perdição que nos alerta para o que acontecerá
se nos desviarmos do bom caminho. Daí a moralidade.
– Não tinha pensado no assunto dessa maneira – admiti. O meu telemóvel
vibrou e tirei-o da mala. Tinha duas chamadas perdidas de Dalton e uma
mensagem de texto («Onde estás?»), e uma sucessão de mensagens de
Greyson.
GREYSON: Lamento ter-te lixado. Só quero saber se estás bem. Por favor, responde.
Escrevi uma mensagem rápida. Continuava zangada com ele por causa do
incidente com o meu pai nas miniférias de Ação de Graças.
EU: Estou ótima. Por favor, deixa-me em paz.
Guardei o telefone na mala.
– Uau, hoje devo ter sido um lindo menino – comentou Finn.
– Porque dizes isso? – perguntei.
– Porque o epítome da beleza masculina acabou de dar um ar da sua graça
e, se não me engano, vem nesta direção.
Girei a cabeça e vi Dalton à entrada, junto ao balcão da biblioteca. Virei a
cabeça para a frente, peguei no livro que estava mais perto de mim, abri-o e
escondi-me atrás dele.
– Porque é que achas que ele vem para aqui? – inquiri.
Finn franziu a testa.
– Porque tu estás aqui e, caso ainda não tenhas reparado, o Dalton segue-
te para todo o lado.
– Será que ele me viu? – indaguei, e esforcei-me por me esconder melhor.
Finn rasgou um sorriso de orelha a orelha e com isso respondeu à minha
pergunta.
– Há qualquer coisa na maneira como ele anda que me tira do sério –
disse ele, apoiando o queixo na palma da mão e olhando fixa e
descaradamente para o que seria sem dúvida o meu namorado. – É como se
o mundo fosse a sua passarela. Achas que ele teve treino profissional?
– Estamos mais ou menos zangados – elucidei.
Finn suspirou.
– A melhor parte do meu dia é observá-lo na aula de Ética e Moralidade.
Ele faz o utilitarismo parecer sensual.
– Achas que tenho tempo suficiente para uma saída airosa? – perguntei.
Tinha já começado a reunir as minhas coisas.
– Não. E tu, achas que podias apresentar-mo? – indagou Finn.
– Finn… – comecei a dizer.
Finn silenciou-me e pôs-se a olhar para o monitor do portátil ao mesmo
tempo que ia corando cada vez mais.
– Sê simpática – repreendeu-me Finn, num sussurro. – Ele está atrás de ti.
Rodei a cabeça e lá estava Dalton. Pousou um copo descartável branco na
mesa, à minha frente, e lançou-me um sorriso esperançoso.
– Trouxe-te um café – disse ele. – Um cappuccino com leite magro. O teu
preferido.
– Um ramo de flores teria sido uma opção mais segura – realçou Finn. –
A cafeína só lhe vai dar mais energia para passar mais tempo lixada contigo.
Dalton deu uma risada.
– És capaz de ter razão. Não tinha pensado nisso. – Estendeu a mão a
Finn. – Acho que não nos conhecemos. Sou o Dalton.
Finn estendeu a sua mão de imediato.
– Finn – apresentou-se ele. – Na verdade, temos Ética e Moralidade
juntos.
– Essa disciplina é uma seca – referiu Dalton.
– Podes crer – concordou Finn. – É terrível.
Dardejei Finn com o olhar e mexi apenas os lábios para o apelidar de
traidor.
– Queria dar uma palavrinha à Charlie, se não te importasses – disse
Dalton.
– Na verdade, o Finn e eu estávamos mesmo agora a… – comecei a
argumentar.
– Despedir-nos – concluiu Finn, cortando-me a palavra. – Vou terminar o rascunho do nosso artigo. Foi um prazer ver… quero dizer, conhecer-te,
Dalton.
– Igualmente – respondeu Dalton.
Aproveitei o tempo que Finn demorou a juntar as suas coisas para
presenteá-lo com um olhar fulminante. Depois de ele se ter ido embora,
Dalton sentou-se na cadeira ao meu lado, virando-a de maneira a ficar de
frente para mim.
– Eu sei que o mais certo é que eu já devesse saber isto – alegou Dalton –,
mas, ainda assim, faz-me a vontade. Podes, por favor, explicar-me por que
razão estás tão chateada?
– Por causa do peixe – respondi.
– Sim, mas o quê, ao certo, no peixe, te aborreceu?
– Em primeiro lugar, foste nojento e cruel com a minha amiga –
enumerei, e levantei a mão antes que ele pudesse dizer o que quer que fosse.
– Sim, independentemente do que possas pensar, a Stevie é minha amiga…
Ou era minha amiga, antes desta vossa partida sem graça. E em segundo
lugar, usaste-me a mim e ao Leo para roubar aquele peixe. Nós fizemos
todo o trabalho sujo e nem nos passou pela cabeça que o nosso esforço
viesse a ser usado para hostilizar e assediar uma pessoa de quem eu gosto. E
isso começa a parecer-me um padrão: os iniciados correm todos os riscos e
fazem todo o trabalho de sapa e nem sequer lhes é dito para que serve o seu
esforço, embora depois, quando as coisas correm mal, sejam eles que
enfrentam as consequências.
Dalton acenou com a cabeça como se estivesse, de facto, a tomar em
consideração os meus argumentos, o que me desarmou um pouco, já que
estava preparada para lhe apertar o pescoço ou para uma discussão acesa.
– Olha – disse ele, ao cabo de um minuto. – Em relação ao peixe: se eu
tivesse sabido que não estavas chateada com a Stevie, não teria feito aquilo.
E, relativamente à segunda coisa: eu sei que é frustrante, porque parece que
estão a ser deixados de fora, a ser postos de parte. Eu senti a mesma coisa
quando estive no teu lugar, e talvez me tenha esquecido de como é estar do
outro lado das coisas. Mas, acredita em mim, assim que entrares, serás
membro de pleno direito. Esta é a parte mais difícil, mas está quase a
acabar, e assim que chegares ao fim sentirás que tudo isto valeu a pena.
– Ah sim? – questionei. – É que, neste momento, o que me parece é que
sou eu que faço todo o trabalho para as partidas elaboradas e as vinganças de outras pessoas, e isso realmente não me parece que valha mesma nada a
pena.
– Eu sei que parece que não fazemos grande coisa e que só pregamos
partidas e assim – anuiu Dalton. – E, sim, nós fazemos essas coisas, mas o
A não é isso.
– Não é?
– Não – asseverou Dalton. – O clube tem que ver com… pertencer a um
grupo de pessoas que nos conhece melhor do que ninguém, pessoas que
conhecem o nosso lado pior e que não nos abandonam. Sei que parece que o
Crosby e eu somos muito chegados, e somos, mas isso nunca teria
acontecido se não fosse pelo A e por todas as merdas por que passámos
durante a iniciação – fez notar Dalton. – Agora, vejo o Crosby como um
irmão. É um membro da minha família.
Pensei no meu pai e nos seus amigos, na maneira como ele se referira ao
tempo que passara em Knollwood como se fosse uma espécie de paraíso
mítico, e aos amigos que aí fizera e aos bons tempos e recordações que
partilhavam. E não deixava de ser verdade que muitas das pessoas dos
tempos de liceu que permaneciam na vida do meu pai eram provavelmente
membros do A.
Dalton esticou o braço, pegou-me na mão e deu-lhe um pequeno apertão.
– Charlie, o A não tem que ver com os dois anos que vamos passar juntos
em Knollwood. Quando nos juntamos ao A, é para o resto da vida. Espero,
ou melhor, quero muito, que faças parte disso comigo.
Mordi o lábio. Sabia que ele tinha razão. Fazer parte do A implicava uma
exclusividade vitalícia. Significava poder. Era um laço raro e especial.
Havia um motivo por trás do meu desejo ardente de fazer parte do clube.
Outra parte de mim, contudo, sabia que as coisas que Yael e Stevie
haviam dito acerca do A também eram verdade. O A era composto por um
grupo de miúdos ricos que se achavam com direito a tudo. Divertiam-se às
custas dos demais, com pouca compaixão, empatia ou vergonha. Na melhor
das hipóteses, os membros do A eram descarados e autoconfiantes e
fervorosos apoiantes do carpe diem; sabiam o que queriam e arrebatavam-
no sem pedir licença ou desculpa. Na pior das hipóteses, eram egoístas e
presumidos e cruéis.
Sabia que tinha de escolher: pertencer ou não pertencer. Não podia ter um
pé dentro e outro fora. Naquele momento, porém, sentia-me demasiado dividida para conseguir escolher.
Portanto, não disse nada. Apertei a mão de Dalton de volta e rezei para
que ele não se apercebesse da minha indecisão.