Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 14 de 44

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Magníficos Estranhos

Treze CHARLIE CALLOWAY

Treze

 

CHARLIE CALLOWAY

 

2017

 

O Homecoming na Knollwood Augustus Prep foi praticamente uma reunião

da família Calloway. O avô e Eugenia compareceram, bem como o meu tio

Teddy, que frequentara Knollwood por uns meses quando tinha a minha

idade, a tia Grier e as suas filhas Piper e Clementine. O meu pai também

teria ido, já que Knollwood era a sua alma mater, porém, no último

momento, decidiu visitar Seraphina, pois a escola dela escolhera igualmente

aquele fim de semana para comemorar o Homecoming e ele não queria que

ela se sentisse excluída, ou isso, pelo menos, foi o que me disse ao telefone.

Foi uma desilusão, é claro, mas uma parte de mim ficou aliviada.

Depois de tudo o que Claire me tinha dito naquele fim de semana, não

tinha a certeza de estar preparada para encarar o meu pai. Sabia que iria

medir cada olhar, cada gesto seu, receando encontrar qualquer coisa

escondida nas sombras das suas feições, alguma coisa em que nunca

reparara, algo em que não quisera reparar.

Era isso que me perturbava, era esse o pensamento sombrio que não

parava de andar às voltas na minha cabeça, à noite, deitada na cama à espera

do sono que tardava em chegar. O meu pai seria mesmo incapaz de fazer as

coisas que Claire lhe imputara ou era eu que não queria que ele fosse capaz

de fazê-las?

– Por mais que me esforce, não consigo entender por que razão a Sera

escolheu Reynolds em vez de Knollwood – disse Piper, inclinando o

pescoço para ver por cima da cabeça do homem que estava sentado à sua

frente nas bancadas. – Knollwood é superior em todos os aspetos mais

importantes: currículo, atividades extracurriculares, rapazes giros.

Era sexta-feira à tarde (de um fim de semana inteiro dedicado ao

Homecoming) e a escola em peso comparecera para ver os Knollwood

Lions derrotar os nossos rivais, os Xavier Panthers. Piper ficara sentada ao

meu lado. Do meu outro lado, estava Eugenia, que trouxera a sua própria

manta e assento almofadado, bem como uma cesta de queijos e vinhos. A

cada quinze minutos, gritava para o final da fila, na direção dos meus tios

Teddy e Grier, sentados ao lado de Piper com a minha prima Clementine ao

colo, e perguntava se queriam uma fatia de Brie sobre uma bolacha de trigo.

Ao intervalo, tirou uma garrafa de vinho da cesta, um copo de pé alto e

serviu-se. Quando lhe segredei: «Eugenia, não pode beber no campus», ela

limitou-se a sorrir e disse: «Não, querida, tu é que não podes beber dentro

dos muros da escola.»

O avô não fez nada para detê-la, mas, verdade fosse dita, o avô, na

verdade, nunca fora capaz de impedir Eugenia de fazer o que quer que ela

quisesse, portanto, raramente tentava fazê-lo. Além do mais, estava de bom

humor, porque Leo era quarterback e o jogo estava a correr-lhe bem.

Faltavam dois minutos para o final da partida e estávamos à frente por sete

pontos.

– Bem, Reynolds tem estábulos no campus onde a Seraphina pode ter o

Peppermint – expliquei a Piper. – E, para a Seraphina, isso superava

qualquer outra coisa.

Piper empurrou o cabelo louro para trás do ombro. Era uma Calloway,

sem tirar nem pôr, desde os olhos azuis à testa alta.

– A mamã fez-me visitar Reynolds, Andover e a Putney School, mas eu

disse-lhe que não se animasse demasiado. – Piper tinha doze anos e no

próximo ano letivo iria começar a frequentar um colégio interno. Era por

isso que Piper e os pais se encontravam ali naquele dia: Knollwood era uma

das escolas que tinham em mente.

– Ah, o meu peixinho – gracejei, inclinando-me para ela.

– Peixe? – indagou Piper, torcendo o nariz como se tivesse cheirado

alguma coisa estragada.

– Sim, peixe. Prima de peixe, sabe nadar. Nunca ouviste dizer?

– Jamais serei um peixe – afirmou Piper. – Sou uma Calloway.

Os Knollwood Lions marcaram novamente, tendo sido Leo quem

transportou triunfantemente a bola até à linha, e a bancada em peso

levantou-se, aplaudindo e dando vivas.

No final do jogo, Eugenia sugeriu que ela e eu esperássemos que Leo

tomasse duche e trocasse de roupa e o resto da família rumasse a Falls

Church para arranjar mesa no Fiona’s. O Fiona’s era o único restaurante de

jeito da cidade e, por causa disso, havia sempre corrida às mesas nos fins de

semana em que as famílias se abatiam sobre a cidade, como no

Homecoming ou na entrega dos diplomas. Já de saída, o tio Teddy

acotovelou-me na brincadeira e disse entre dentes:

– Não deixes a velha conduzir.

Quando toda a gente partiu e fiquei sozinha com Eugenia, afundei as

mãos nos bolsos do casaco e preparei-me para o inevitável. Eugenia era

sempre muito direta e não se encolhia de meter o bedelho nas nossas vidas.

Nos últimos anos, desenvolvera um interesse pelos namoricos de Leo. No

primeiro ano, eu cometera o erro de arreliar Leo acerca de Drew em frente

da Eugenia, e esta tratara de investigar toda a história familiar de Drew.

Tendo descoberto que a tia de Drew jogava ténis no mesmo clube que ela,

convidara-a, e ao marido, para jogarem uma partida a pares. Algumas

semanas depois, num jantar de família, Leo viu-se forçado a admitir que o

relacionamento com Drew fora de curta duração e Eugenia dissera a Leo,

em frente a toda a família, que os Calloways não se envolviam em

namoricos e que não ficava bem a um homem ter a fama de dissoluto.

Quase me engasguei com o bisque e Leo corou até à raiz dos cabelos e não

conseguiu enfrentar mais ninguém durante o resto do jantar. A partir desse

dia, jurámos manter a boca calada no que dizia respeito a quem

namorávamos (ou melhor, eu prometi não deixar escapar com quem Leo se

envolvia, uma vez que eu não namorava).

Assim sendo, foi uma surpresa quando, em vez de me interrogar acerca

das minhas conquistas românticas, Eugenia guardou a caixa das bolachas na

cesta e disse:

– O teu pai disse-me que estiveste na casa do lago no fim de semana

passado.

– Como é que ele…?

– O caseiro telefonou-lhe – informou-me ela. – Já há muito tempo que

ninguém lá ia. Tu e o teu amigo pregaram um enorme susto ao pobre

caseiro.

– Lamento – respondi.

Não me perguntou o que fora fazer à casa do lago nem tão-pouco a Hillsborough, se bem que só existisse uma razão que lá me levaria: a minha

mãe.

– A família da tua mãe… Sempre quiseram controlar a narrativa – disse

Eugenia. – Não querem acreditar que a Grace seja o tipo de pessoa que se

veio a revelar. É uma grande tragédia perder um filho, e uma tragédia ainda

maior perder a boa opinião que temos desse filho, por isso, os Fairchilds

inventaram uma história com a qual pudessem conviver. Não os censuro por

isso. Mas censuro-os por tentarem convencer-te a ti e a toda a gente de que

aquela narrativa delirante é a verdade. – Eugenia suspirou. – Charlotte, há

uma coisa que tens de entender. Durante toda a tua vida, as pessoas irão

tentar dizer-te quem és e no que deves acreditar acerca de ti mesma. Não

permitas que o façam.

Contemplei o campo de futebol, então vazio. O céu estava raiado de rosa

e laranja. Era o tipo de céu que se costumava ver no final do verão; o tipo de

céu que marcava o final dos dias em que havia mais horas de luz do que de

escuridão; que anunciava o frescor outonal.

– A verdade é que a tua mãe era infeliz – revelou Eugenia. – Sempre foi

uma rapariga calada, reservada, volúvel. Propensa a mudanças de humor e a

acessos. Uma vez bateu no teu tio Teddy, sabias? Quase lhe partiu o nariz –

acrescentou, e abanou a cabeça.

– Bateu no tio Teddy? – perguntei. Nunca tinha ouvido aquela história.

Não me recordava de alguma vez a minha mãe e o tio Teddy terem uma

atitude hostil um com o outro. Na verdade, tanto quanto me lembrava, mal

interagiam sequer. – Porquê?

– Dificilmente uma provocação pode justificar agredir alguém em público

– disse Eugenia, descartando a minha pergunta. – Por vezes, interrogo-me

se a tua mãe sofria de algum desequilíbrio químico que a fizesse agir como

agia.

Aquela informação nova caiu como um seixo no lago que era a minha

mente, agitando as recordações que tinha da minha mãe. Seria verdade o

que Eugenia contara? Por um momento, pareceu obscurecer tudo o que

achava saber acerca da minha mãe ou lançar uma luz diferente sobre cada

imagem.

Lembrei-me de uma manhã, na casa do lago, me ter dirigido ao quarto dos

meus pais e descoberto que a porta estava trancada. Era um dia de semana e

o meu pai estava na cidade. Fiquei ali especada uma eternidade, a rodar a maçaneta e a chamar pela minha mãe, mas ela não abriu a porta. Ao fim de

um tempo, Claire apareceu. Recordo-me de ela me ter explicado que a

minha mãe não estava a sentir-se bem e que ela estava ali para me levar a

mim e a Seraphina a tomar o pequeno-almoço fora.

Teriam acontecido outras coisas que, na altura, eu não compreendera?

– Durante anos, a tua mãe manteve-se afastada da família – continuou

Eugenia. – E poucos meses antes de partir, até se distanciou do teu pai. O

que ela fez quase que o matou.

Nesse instante, Leo emergiu dos balneários com um dos colegas de

equipa. Acenou ao ver-nos. Eugenia levantou-se e compôs a alça da cesta,

que pusera ao ombro.

– Durante anos, mantive a boca calada em relação à tua mãe, por respeito

ao teu pai. Mas achei que merecias saber a verdade – afirmou Eugenia,

antes de me virar as costas.

*

 

Yael inclinou-se por cima do lavatório de porcelana ao meu lado e, quase

colada ao espelho, concentrou-se o mais que pôde em fazer um risco com

eyeliner preto sobre a pálpebra superior. Depois, inclinou-se para trás para

admirar o seu trabalho: uma linha negra e perfeita.

– Faz o meu risco a seguir – pediu Drew. – Tu consegues sempre um

esfumado perfeito. Não sei porquê, quando sou eu, fico a parecer um

zombie.

– Isso é porque pões demasiado – disse Yael. – Quanto menos melhor.

Observei inexpressivamente a minha tez pálida ao espelho e o cabelo

húmido e acabado de lavar. De uma forma geral, gostava de me arranjar

para o baile de Homecoming e de passar aquele momento com as minhas

amigas, contudo, estava a ser difícil sentir outra coisa que não o peso

sufocante que tinha no peito. Desde que Eugenia me contara aquelas coisas,

não conseguia pensar em mais nada. A minha mãe podia ter sofrido de um

distúrbio bipolar. A família da minha mãe estava a tecer aquela história

acerca do seu desaparecimento porque não conseguia aceitar a pessoa em

que ela se tornara. Sem dúvida, uma parte do que Eugenia dissera era

verdade, mas que parte?

– Terra chama Charlie – entoou Stevie.

– Hã? – perguntei.

– Estás a usar isso? – inquiriu ela, apontando para o batom vermelho

equilibrado na beira do lavatório, à minha frente.

– Ah, não, aqui tens – respondi, e passei-lho.

– Estás bem? – perguntou Stevie, ao mesmo tempo que esticava o braço

para o batom. – Passaste o dia todo meio sorumbática.

– Estou ótima – afirmei.

Yael abeirou-se de mim e pôs o braço por cima dos meus ombros.

– Não faz mal, Charlie – consolou-me ela, encostando a cabeça ao meu

ombro e olhando compassivamente para o meu reflexo no espelho. – Não

tens de esconder isso de nós. Eu sei o que se está a passar.

Sabia?

Nunca tinha falado com Yael ou Stevie acerca da minha mãe. Uma vez,

quase que falara com Drew acerca dela, numa das primeiras noites de

sábado que passámos em Knollwood, quando éramos ainda caloiras. O

assunto impusera-se, praticamente. Drew e eu tínhamos ido ao

supermercado em Falls Church com a nossa colega de quarto, River.

Estávamos a abastecer-nos de junk food para uma noite de cinema no

quarto, que seria supostamente uma boa experiência para criarmos laços,

mas que se estava a tornar num curso intensivo e penoso acerca de um tema

no qual Drew e eu nos tornaríamos peritas antes do final daquele semestre:

Coisas que a River Não Pode Comer. (Ao longo do semestre, Drew e eu

também nos tornámos em peritas relutantes noutros assuntos, como Coisas

que a River Acha Misóginas e Coisas que a River Deixa Espalhadas pelo

Quarto e que Parecem Lixo Mas não São Lixo Portanto Porque é Que

Deitaste Aquilo Fora?) Cometera o erro de tirar um saco de gomas da

prateleira assim que entrámos na loja e River enxotara-o como se metesse

nojo.

– Então? – perguntei.

– As gomas são feitas de gelatina – declarou River, com uma expressão

de repugnância.

– Sim, e depois?

Arqueou as sobrancelhas. Olhei para Drew, que parecia tão confusa como

eu me sentia.

– É tipo uma coisa que engorda bués ou assim? – indagou Drew.

River escarneceu.

– A gelatina é feita a partir de colagénio, que é retirado de animais que são triturados.

Drew e eu entreolhámo-nos.

– Okay, então, nada de gomas – concluí. Examinei os restantes doces na

prateleira e escolhi um pacote de M&M’s. – Gostas mais de chocolate? –

perguntei, esperançosa.

River revirou os olhos.

– As camadas duras que envolvem essas drageias vêm de uma resina

excretada por insetos – elucidou ela.

– Descritos dessa forma não soam tão apetitosos, de facto – disse Drew.

– Sim, tenho dificuldade em considerar apetitosa a tortura de animais

inocentes, de uma forma geral – replicou River.

Agarrei num saco de nozes-pecãs cobertas de açúcar e canela.

– Okay, e que tal uns frutos secos? – quis saber. River lançou-me um

olhar mortífero. – Que foi? Não és uma dessas pessoas que considera as

plantas seres sencientes, ou és?

– Estão cobertas de açúcar – realçou River. – Também conhecido como

carvão animal.

– Há alguma coisa nesta loja que possas comer? – resolvi perguntar.

– Vou ver na secção dos legumes – disse River. Arrancou-me o carrinho

das mãos e empurrou-o com determinação pelo corredor abaixo.

Mais tarde, enquanto esperávamos na fila para pagarmos um carrinho

cheio de couve orgânica e fruta, dei uma vista de olhos às revistas expostas

ao lado das embalagens de pastilha elástica e de chocolates York

Peppermint Pattie. Foi então que a vi, a minha mãe, na capa da Star

Enquirer. Tinha uns óculos de sol grandes, um chapéu na cabeça e estava

estendida numa cadeira de praia. Com as mãos levantadas, tentava tapar a

cara e impedir o paparazzo de a fotografar. GRACE CALLOWAY, MULHER DO

BILIONÁRIO, AVISTADA EM BUENOS AIRES COM AMANTE SECRETO, dizia o

tabloide.

Fiquei sem pinga de sangue. Levantei a cabeça e cruzei o olhar com o de

Drew. Percebi pela sua expressão que vira o mesmo que eu. Abri a boca

para dizer qualquer coisa, para travar o assunto antes mesmo que fosse

abordado, para explicar que tudo não passava de uma mentira, quando Drew

se adiantou.

– Oh, meu Deus! – exclamou ela.

– Que foi? – perguntou River, ocupada a tirar um saco de laranjas do carrinho e a pô-lo no tapete rolante.

– Estes mirtilos não são orgânicos – lamentou-se Drew.

– O quê? – estranhou River, e esticou o braço para tirar a embalagem das

mãos de Drew.

– Eu não como OGM – declarou Drew. – Podias ir buscar-me os

orgânicos, se faz favor?

River suspirou.

– Está bem – respondeu. – Volto já.

Assim que ela se afastou, Drew pegou na revista People que estava ao

lado da Star Enquirer e folheou-a descontraidamente.

– Mais uma a quem se acabou o sonho – comentou Drew, referindo-se a

uma qualquer celebridade que se divorciara. Não vi de quem se tratava;

estava demasiado ocupada a tentar verbalizar a explicação mental, e

calmamente, para que ela não me achasse uma tresloucada.

Aquela fotografia – a da minha mãe na capa da revista – havia sido tirada

durante umas férias em família, em St. Thomas, quando eu tinha seis anos.

Sabia isso, porque fora eu quem a tirara. A minha mãe levantara os braços,

porque acabara de acordar de uma pequena sesta que fizera na

espreguiçadeira e eu sobressaltara-a. Não fazia ideia de como é que a Star

Enquirer conseguira a fotografia, que álbum de família haviam pilhado, que

membro da família a tinha vendido a quem pagara mais. Não era a primeira

vez que uma coisa assim acontecia e o mais provável era que não fosse a

última.

Não, o meu pai não afugentou a minha mãe nem a matou nem fez nada do

que os tabloides dizem. Não, não quero falar do assunto.

Drew, contudo, não fez perguntas. Não me lançou um olhar de piedade

nem fez um sorriso condescendente. Limitou-se a devolver a revista People

ao expositor, colocando-a por cima da Star Enquirer de maneira que a

imagem da minha mãe ficasse totalmente tapada, escondida, e pôs-se a

descarregar o carrinho. Foi aí que percebi que seríamos as melhores amigas.

Foi o mais perto que alguma vez cheguei de conversar com alguém da

escola acerca da minha mãe. Sempre me esforçara por manter essa parte da

minha vida no passado, por seguir em frente. Assim sendo, como é que Yael

sabia? Como é que eu deixara transparecer o que quer que fosse?

– É o Dalton, não é? – inquiriu Yael. – Não te apetecia nada vê-lo esta

noite.

Dalton. Na verdade, nos últimos dois dias nem me lembrara de que ele

existia.

Encarei o reflexo de Yael. Ela olhava-me com uma expressão tão sincera

e preocupada. Quiçá fosse bom abrir-me com alguém que não estivesse de

maneira nenhuma envolvida no meu drama familiar, alguém que pudesse

ouvir-me simplesmente e sugerir-me uma perspetiva diferente. Talvez fosse

bom não estar sozinha em tudo aquilo. Por um momento, considerei contar-

lhes tudo; mas depois dei-me conta de que teria de contar-lhes tudo. Teria

de recuar ao início, e isso parecia-me avassalador. E se… E se decidisse

confiar nelas e depois o tiro me saísse pela culatra, como já havia

acontecido no passado?

– Pois – confirmei, ao fim de um momento. – É o Dalton.

– Não deixes que ele te chateie – aconselhou Drew, dirigindo-se a mim. –

Deixa-me arranjar-te o cabelo. Tenho uma ideia para um penteado que te

vai ficar a matar. Quando o Dalton te vir, esquece logo aquela cabra da

McKenna.

– Okay – respondi, e esforcei-me por fazer um sorriso que parecesse

genuíno. – Obrigada.

*

 

O teto do ginásio parecia um céu estrelado e uma banda tocava no palco que

a Associação de Estudantes mandara erigir. Stevie, Yael e Drew estavam na

pista de dança, girando em torno delas mesmas, assim como a maioria dos

alunos que tinha ido ao baile. Com a desculpa de que precisava de qualquer

coisa para beber, abandonara a pista de dança há meia hora e sentara-me

sozinha a uma mesa. Tinha tentado ser sociável e normal a noite toda, mas

começava a atingir o meu limite. Depois de ter conversado durante todo o

jantar que a escola organizara no relvado, dançara e pulara com os braços

no ar uma hora inteirinha (o que não constitui uma façanha nada fácil em

cima de sapatos Manolo Blahnik com saltos de dez centímetros). Cogitava

então numa manobra para sair dali, embora fosse ainda bastante cedo.

O meu telefone vibrou e tirei-o da carteira. Para minha surpresa, vi o

nome de Greyson no ecrã e uma mensagem de texto.

 

GREYSON: Boa despedida à francesa, no domingo.

A mensagem dele fez-me sorrir. Teclei uma resposta rápida.

 

EU: Desculpa não me ter despedido. :/

GREYSON: Sem problema. A minha mãe contou-me. Está preocupada contigo.

 

Mordi o lábio e pousei o telemóvel. Não queria falar de como me sentia

ou das ralações de Claire. Lembrei-me então do que Eugenia tinha dito: que

a minha mãe sofrera de depressão. Se tal fosse verdade, sem dúvida que

Claire saberia. Peguei no telefone e enviei uma mensagem a Greyson.

 

EU: Alguma vez a Claire mencionou que a minha mãe era depressiva ou tinha acessos

inusitados de fúria?

GREYSON: Não. Porquê? Que se passa?

EU: A minha avó disse-me que a minha mãe tinha mudanças bruscas de humor e pode ter

sofrido de algum desequilíbrio químico. Não sei. Achas que pode ser verdade?

GREYSON: Não sei.

 

– Quem é o Greyson?

Levantei a cabeça e vi Drew de pé ao meu lado, ligeiramente ofegante e

com a testa a brilhar de transpiração.

– Ninguém – respondi, e escondi o telefone debaixo da mesa para que ela

não conseguisse ver o ecrã. – Apenas um velho amigo.

– Um velho amigo giro? – quis saber Drew, e arqueou uma das

sobrancelhas.

– Não é nada disso – afirmei.

– Okay, menina dos segredos, não te faço mais perguntas – disse ela, e

sentou-se na cadeira ao lado da minha. – Já estás hidratada? Foste buscar

uma bebida, tipo, há uma eternidade.

– Desculpa, Drew.

Ela inclinou-se para a frente e começou a desatar as fivelas dos sapatos.

– Estes malvados estão a matar-me. Não sei por que raio achei que saltos

de oito centímetros eram uma boa ideia.

Senti o telefone vibrar, baixei o olhar e vi uma mensagem nova de

Greyson.

 

GREYSON: Sabes quem foi o investigador privado que tratou do caso da tua mãe? Alguma

vez viste a papelada ou o que quer que ele tinha acerca dela?

O investigador privado; há que tempos que não pensava nele. Vira-o uma

vez, quando tinha onze anos. Ele fizera-me uma série de perguntas. E

lembrava-me de o ter visto, de vez em quando, no ano seguinte. Ele ia lá a

casa falar com o meu pai, que se fechava com ele no seu escritório.

 

Eu: Hum. Não. Mas posso tratar disso.

GREYSON: Talvez consigas alguma coisa.

 

– Vem dançar connosco – desafiou Drew. Estava novamente de pé, mas

já descalça, e de mão estendida para mim.

Olhei de relance para a pista de dança e vi Yael e Stevie perto do palco.

Yael acenou-me; Stevie fez rodar no ar um laço invisível e lançou-o na

minha direção, tentando puxar-me para a pista de dança. Ri-me. A canção

que estava a tocar chegou ao fim e começou a ouvir-se uma música mais

lenta.

– Dás-me a honra desta dança? – convidou Drew.

– Com certeza – respondi.

Drew deu-me a mão e arrastou-me para o centro da pista de dança.

Pusemos as mãos nos ombros uma da outra e balançámos para um lado e

para o outro como se fôssemos um casal apaixonado e rindo como se

tivéssemos cinco anos.

À nossa volta, casais genuínos dançavam agarrados. Avistei Crosby com

o braço ao redor da cintura de Ren. Drew viu-os também. Fez uma careta e

um som como se estivesse a sufocar. Ri-me. E foi então que os vi: Dalton e

McKenna.

Sinceramente, não pensei que me fosse afetar tanto; afinal de contas, tinha

tantas coisas na minha cabeça. Mas afetou. Foi como se tivesse levado um

murro inesperado na barriga.

McKenna exibia um deslumbrante vestido encarnado, sem costas e até

aos pés. Dalton envolvera-a nos seus braços e, inclinando-se para ela,

sussurrou-lhe qualquer coisa ao ouvido. Ela inclinou a cabeça para trás e

riu-se. Desviei o olhar.

E se fosse eu? Era um pensamento disparatado, ridículo, mas não pude

deixar de me interrogar. E se tivesse aceitado o convite de Dalton? E se

fosse eu ali, com Dalton, em vez de McKenna; e se fosse eu quem Dalton estava a abraçar, se fosse à minha orelha que ele segredava? Senti um peso

no coração.

Quando o slow terminou, a banda tocou uma música animada. Inclinei-me

para a frente e gritei, para que Drew me ouvisse por cima da música:

– Vou à casa de banho.

– Queres que vá contigo?

– Não, não, deixa-te ficar – respondi. – Eu volto já.

– Okay, procura-nos – disse ela.

Parti em direção à casa de banho das senhoras que, por acaso, ficava a

caminho da saída, que era o meu verdadeiro destino. Não aguentava mais

estar ali. Depois, arranjaria uma desculpa qualquer para Drew; dir-lhe-ia

que a comida me caíra mal e que não quisera estragar a noite a ninguém, e

por isso me fora embora.

Na rua, o ar era frio. Cruzei os braços em frente ao peito e esfreguei-os

para me impedir de tremer.

O vento trazia até mim vozes. Para os antigos alunos, a escola montara

uma tenda gigantesca no campo de futebol, e era aí que estavam a jantar e a

divertir-se. No auditório, tocava a orquestra municipal de Falls Church.

Seguindo pelo caminho que escolhera, acabaria por passar lá perto.

Interroguei-me sobre que horas seriam ao certo e se não me iria cruzar com

as pessoas que, caso o espetáculo já tivesse terminado, estivessem a sair do

auditório. Não queria arriscar-me a que o meu avô ou o meu tio Teddy me

vissem regressar ao quarto sozinha, vinda do baile. Levantaria demasiadas

perguntas às quais não me apetecia responder. O melhor seria arrepiar

caminho e contornar Acacia Hall, ou seja, ir pelo caminho mais longo. Dei

meia volta de repente e esbarrei numa pessoa.

– Desculpe… – disse, sobressaltada, e deparei com os olhos castanhos de

Dalton. Estava perto dele o suficiente para sentir o cheiro do seu perfume:

uma mistura de citrinos, especiarias e madeira.

Pôs as mãos nos meus braços para me equilibrar e, por uma qualquer

razão, sorria para mim.

– Olá, Calloway – disse ele.

– Olá – respondi, meio apatetada. Que raio estava Dalton a fazer ali?

– Vi-te sair do ginásio e queria certificar-me de que estavas bem –

explicou ele.

– Estou ótima – assegurei.

– Ah, okay, ótimo – disse ele.

Continuava com as mãos nos meus braços. Porque não me largava?

– Era só isso? – indaguei, e olhei expressivamente para uma das mãos

dele no meu braço.

– Vieste-te embora… só porque sim? – perguntou Dalton, largando-me

finalmente e metendo as mãos nos bolsos das calças.

– Sim, estou cansada – repliquei. – Para que é o interrogatório?

– Estás chateada? – inquiriu ele, perplexo.

Não sabia por que razão estava a falar naquele tom com Dalton quando,

nem há um minuto, estivera a fantasiar que, em vez de McKenna, era eu

quem estava nos braços dele. De repente, porém, sentira-me tão irritada que

não conseguira evitá-lo.

– Que queres, Dalton? – indaguei.

– Posso acompanhar-te até à tua residência? – perguntou ele.

– Queres acompanhar-me até à residência?

– Sim.

– Porquê?

– Porque não?

– Então e a McKenna? – inquiri.

– Que tem a McKenna? – perguntou Dalton.

– Vais continuar a responder às minhas perguntas com perguntas? –

refilei.

– Desculpa – disse Dalton, surpreendido. – Estás zangada comigo? – quis

saber, ao fim de um momento.

Revirei os olhos.

– Só não entendo o que estás a fazer. Vai desfrutar do baile com o teu par.

– Estás zangada por eu ter levado a McKenna ao baile? – perguntou ele.

– Não – respondi. – Estou-me pouco marimbando para quem convidas

para o baile.

– Okay – disse Dalton. – É que me lembro de te ter convidado a ti e de me

teres dito que convidasse outra pessoa, que foi o que fiz. Mas agora pareces

irritada com isso.

Sim, é precisamente isso, pensei.

– Não – foi o que respondi.

Por alguma razão, ele sorria. Por que raio é que estava a sorrir? Acharia

graça à situação?

– Para de sorrir antes que te bata – ordenei.

– Charlie – começou ele. – Vou dizer-te uma coisa, e quero que me

escutes, e depois, em troca, quero que me digas a verdade.

– Pronto, está bem – disse.

– Gosto de ti – declarou ele.

– Isso é óbvio – respondi.

Dalton riu-se.

– Estás a ver, é por isso mesmo que gosto de ti, Calloway. Não és como

as outras raparigas.

Ergui uma das mãos.

– Vou já travar-te antes que passes à expressão que é tipo o maior lugar-

comum deste século: «Nunca senti nada assim».

– Raios, tu não tornas isto em nada fácil, pois não? – reclamou Dalton,

esfregando a nuca. – Não era uma frase de engate… Não és como as outras

raparigas aqui da escola. Elas teriam encarado o que eu disse como um

elogio, mas eu digo que não és como as outras raparigas e tu basicamente

mandas-me à merda.

– Okay, peço desculpa – disse. – Que querias dizer, então, se não era um

cliché?

– Queria dizer que não és como as outras raparigas, porque elas andam

em matilha, como se tivessem medo de estar sozinhas – explicou Dalton. –

Mas tu estás muitas vezes sozinha. Não porque não tenhas amigos, mas

porque a tua própria companhia te agrada. Além disso, és tipo mestra a dar a

volta aos professores, e convidas-te para jogos de póquer de rapazes e

depois ainda os arrasas a todos. Se bem que a tua tática tenha sido um pouco

injusta. E ao passo que a maioria das raparigas, e dos rapazes, sejamos

honestos, ande obcecada com quem namora ou quer namorar, nunca te vi

com ninguém. És… Não sei… Diferente. E eu gosto disso. Gosto de ti. E

isso não é uma frase feita ou de engate, é apenas a verdade.

Fiquei calada. Sempre tivera jeito para as palavras. Dava respostas

rápidas e incisivas, frequentemente espirituosas. Era perita em dar a volta às

perguntas dos professores com observações tão verbosas que, no final, eles

já nem se lembravam de qual era a pergunta. Naquele momento, não me

ocorria uma única resposta.

– Diz qualquer coisa – pediu ele.

Expirei. Estava frio o suficiente para ver o meu hálito.

– Tu também és porreiro, suponho – repliquei um momento depois.

– Okay – disse Dalton, como se isso pusesse tudo em ordem. – Toma. –

Despiu o casaco e pôs-mo pelas costas. – Estás a tremer.

– Estou bem. – Mas não recusei o agasalho. Ainda conservava o calor

dele.

– Anda – desafiou Dalton, e deu-me a mão. – Quero que vejas uma coisa.

É imperdível.

Demos meia volta e seguimos pelo caminho que ia dar ao auditório. Ouvi

o sino do campanário da escola bater as horas. Eram dez. Quase estaquei;

quase voltei para trás. A orquestra já devia ter terminado de tocar. Bem-

dito, bem-feito. As portas do auditório abriram-se e as pessoas começaram a

sair. A minha vontade era virar-me e ir pelo outro caminho para evitar a

multidão de ex-alunos, e foi nesse momento que o vi.

Em frente ao auditório, havia uma fila de bustos em cima de pequenos

pilares. Retratavam cada um dos diretores que liderara Knollwood nos

últimos cem anos. Na extremidade da fila, como seria de esperar,

encontrava-se o busto do diretor Collins, erigido no ano anterior. Destacava-

se por ser ligeiramente mais branco do que os restantes bustos. Os

elementos ainda não o tinham desgastado a ponto de adquirir o mesmo tom

de sépia dos outros. Naquela noite, contudo, destacava-se por um motivo

totalmente diferente. Era visível mesmo à distância, à luz dos projetores do

auditório: a coleira de diamantes de Nancy à volta do pescoço do diretor

Collins. Os diamantes tremeluziam, mas não era apenas a coleira, ou a trela

a ela apensa, que chamava a atenção. Um balão de banda desenhada havia

sido colado aos lábios do busto. Nele lia-se. «Au-au! Au-au! Au-au!». E no

pilar, com tinta em spray, alguém escrevera: «Senta, Collins. Lindo

menino.»

«No passado, tiveram uma administração que ladrava muito, mas não

mordia; pois isso acabou», dissera o diretor Collins aquando da audiência

disciplinar de Auden. Ameaçara o clube A. E quando Dalton perguntara a

Ren o que achara da ameaça do diretor, esta ladrara. Na altura, achei a

reação dela estranha.

Alguém do grupo de ex-alunos reparou então no busto grafitado do

diretor Collins; as pessoas começaram a juntar-se ali em redor. O

burburinho era audível, entre o chocado e o divertido. Pouco depois,

dirigindo-se a passo apressado ao busto e abrindo caminho por entre a multidão como se esta fosse o mar Vermelho, eis que surgiu a vítima em

carne e osso, o diretor Collins.

*

 

– É humilhante, é o que é – reclamava o meu avô, ao mesmo tempo que

serrava a pilha de panquecas que tinha no prato. – Como é que um homem

adulto não consegue impor respeito a um bando de adolescentes, quando

essa é a sua função, é uma coisa que me escapa. Não se entende.

– Quem me dera ter visto o busto – disse Piper, pela centésima vez

naquela manhã, e suspirou para o seu copo de sumo de laranja. – Em vez de

estar no hotel a tomar conta da bebé.

– Não sou um bebé – ripostou Clementine, lançando o garfo para cima da

mesa.

– Que maneiras são essas?! – ralhou a minha tia Grier. Pegou no garfo e

devolveu-o a Clementine.

O Rosie’s Diner era sempre concorrido aos domingos de manhã, depois

da missa, mas naquele dia estava especialmente apinhado, pois a maioria

dos ex-alunos continuava na cidade, aproveitando o fim-de-semana do

Homecoming. Avistei pelo menos meia dúzia de colegas com as respetivas

famílias, todos com o mesmo objetivo de tomarem pelo menos uma refeição

em conjunto antes de se fazerem à estrada.

Sentada numa extremidade da mesa, não prestava grande atenção à

conversa. Não conseguia esquecer a troca de mensagens com Greyson na

noite anterior. Desde então, não parara de pensar na sugestão que ele fizera.

Parecia tão óbvia. Porque não me ocorrera antes? Era um excelente ponto

de partida. Algures, num armário escuro e poeirento, havia uma caixa cheia

de respostas às inúmeras perguntas que eu tinha.

– O homem devia ser despedido – continuou o meu avô. – Assim que

chegarmos a casa, vou ligar ao Fred Eakins, que está no Conselho de

Administração. De certeza que já saberá do sucedido.

– Calma, pai, ainda tem um piripaque – disso o tio Teddy. – Se pensarmos

bem, é apenas um rabisco com tinta em spray, um balão de cartolina e um

grupo de miúdos que pregou uma partida. No meu tempo, fazíamos coisas

piores.

Piscou-me o olho desde o outro lado da mesa.

– Por amor de Deus, Teddy, os miúdos ainda vão pensar que fechamos os olhos a este tipo de comportamento – argumentou a tia Grier, e inclinou-se

para limpar os cantos da boca de Clementine com uma toalhita húmida.

– Armar alguns sarilhos faz bem à pele – afirmou o tio Teddy. – Leo,

Charlotte, quero que saibam que se não me telefonarem antes do final da

adolescência a pedir-me que vos vá pagar uma caução, ficarei um pouco

desiludido.

– Teddy! – reclamou a tia Grier.

– Expulsem tudo dos vossos sistemas antes que fique no vosso cadastro –

prosseguiu o tio Teddy.

– Nada de proselitismo à mesa do pequeno-almoço – ordenou Eugenia.

– Sim, mãe – respondeu Teddy, só para a irritar.

O tio Teddy pediu licença e dirigiu-se à casa de banho. Esperei um pouco

e depois levantei-me e segui-o. O Rosie’s Diner tinha apenas uma casa de

banho unissexo na parte de trás do restaurante. Aguardei, encostada à

parede. Ouvi o autoclismo e depois o som de uma torneira a correr.

Disse a mim mesma que não havia motivos para estar nervosa. Sob

muitos aspetos, o tio Teddy era como um segundo pai. Se havia alguém da

família em quem podia confiar, para além de Leo, era ele.

A porta da casa de banho abriu-se e o tio Teddy apagou a luz.

– Ah, desculpa, não te vi aí – disse ele. Deu um passo atrás, segurou a

porta da casa de banho para eu entrar e acendeu a luz. – Força.

Dei um passo em frente e prendi a porta com o pé.

– Na verdade, queria falar consigo acerca de uma coisa – confessei.

– Okay, de que se trata? – indagou o meu tio.

– É acerca da minha mãe – disse. Engoli o caroço que sentia na garganta.

– Sei que não é o seu tema preferido.

O sorriso do meu tio vacilou por um momento, mas, depois, disse:

– Que queres saber?

– Bem, em primeiro lugar, a Eugenia mencionou uma coisa estranha no

outro dia – comecei, e prendi uma madeixa de cabelo atrás da orelha. –

Disse que a minha mãe o agrediu, uma vez. Que quase lhe partiu o nariz.

O olhar do meu tio ausentou-se, como se estivesse noutro sítio ou a

recordar-se de qualquer coisa. Um momento depois, recompôs-se.

– A tua mãe tem um gancho de direita poderoso – admitiu ele, simulando

um sorriso.

– Então, é verdade?

– Olha, todas essas histórias do passado – respondeu o meu tio,

ligeiramente irritado. – Não faço ideia por que raio a minha mãe foi

desenterrar essas coisas.

– Descobriu que eu estive na casa do lago na semana passada – admiti.

O meu tio franziu a testa.

– Que foste lá fazer?

Hesitei.

– Se lhe contar uma coisa, promete que não vai fazer queixas ao meu pai?

– Charlotte…

– Não posso contar-lhe, se depois for dizer ao meu pai. Ele deixou bem

claro que não o queria envolvido no assunto.

– Ele quem?

Hesitei.

– Promete que o meu pai não vai ficar a saber disto?

O meu tio suspirou.

– Pronto, está bem. Dou-te a minha palavra.

– O meu tio Hank… Lembra-se dele? O irmão mais velho da minha mãe?

– Sei quem é.

– Aqui há uma semana ou assim, veio visitar-me – comecei. – Disse que

tinha de falar comigo da minha mãe… do que lhe tinha acontecido. E

mostrou-me umas fotografias que encontrou na casa do lago. Se tivesse

visto as fotografias, tio Teddy… Ele acha que estão relacionadas com o que

aconteceu à minha mãe. Não sei.

– Que mostram as fotografias? – quis saber o meu tio.

– Algumas mostram a minha mãe com um tipo desconhecido, numa

cafetaria – revelei. – E há algumas fotografias daquele verão, em que estou

eu, a Seraphina e a minha mãe. São fotografias que parecem ter sido tiradas

por alguém que nos perseguia por Hillsborough.

O tio Teddy franziu ainda mais as sobrancelhas.

– Tens essas fotografias contigo? Posso vê-las?

Abanei a cabeça.

– É o tio Hank quem as tem. Olhe, eu sei que a nossa família e a deles

nem sempre se deram muito bem, e não sei o que pensar das fotografias,

mas tenho de admitir que são estranhas – disse. – Sei que é um favor

enorme o que lhe vou pedir, mas acha que consegue fazer-me chegar a

informação acerca da minha mãe que o investigador privado que o meu pai contratou reuniu? Preciso de saber toda a história. Ou, pelo menos, o que se

sabe.

O tio Teddy ficou em silêncio por um momento.

– Eu consigo arranjar-te o ficheiro que o detetive privado compilou –

cedeu ele. – Fica a ser o nosso segredo.

– Obrigada, tio Teddy – agradeci, e suspirei de alívio.

– Ora essa – respondeu o meu tio, e, de regresso à mesa, colocou o braço

por cima dos meus ombros. – Que é um pequeno segredo entre parentes de

sangue?