Magníficos Estranhos
Trinta e dois ALISTAIR CALLOWAY
Trinta e dois
ALISTAIR CALLOWAY
JULHO DE 2007
Observei o perfil da minha mulher na fotografia. Era ela. Grace. Sentada a
uma mesa de um diner de beira de estrada, entre Hillsborough e Hartford.
Hal’s Diner. Nunca tinha ouvido falar dele nem nunca lá estivera. Não era o
tipo de lugar onde alguma vez me ocorresse levar Grace e as miúdas.
Parecia ser o tipo de restaurante untuoso frequentado por camionistas em
busca de uma refeição quente às duas da manhã ou por bêbados que
necessitavam de curar as bebedeiras depois de os bares terem fechado. E,
pelo visto, era o tipo de lugar onde esposas adúlteras iam ter encontros
secretos com os seus amantes.
– Como é que ele se chama? – perguntei.
O homem sentado em frente a Grace não era particularmente bem-
parecido. A fotografia havia sido tirada desde a extremidade do parque de
estacionamento, com uma teleobjetiva, por isso, pude ver com grande
pormenor o homem com quem a minha mulher andava a dormir. Tinha
trinta e poucos anos e vestia um fato barato de pronto a vestir cujas mangas
eram demasiado compridas. O cabelo começava a rarear-lhe nas têmporas.
Se me tivesse cruzado com ele na rua, não teria olhado duas vezes para a
sua cara. Era exatamente o tipo de homem com o qual não hesitaria em
deixar a minha mulher sozinha. Mas ali estava ele, sentado a uma mesa de
um restaurante manhoso, de mãos dadas com a minha mulher.
– Peter Hindsberg – respondeu o Sr. Lynch.
– Peter Hindsberg – repeti, dando voltas e voltas à cabeça para ver se
aquele nome despertava alguma recordação. Nada. Jamais ouvira falar dele.
Há já várias semanas que Grace se mostrava fria comigo. Fria. Calada.
Indiferente. Uma noite, depois do jantar, enquanto ela lavava umas peças de
louça no lava-louça, aproximei-me por trás, rodeei-lhe o tronco com os
braços e beijei-a no pescoço. Ela retraiu-se, encolheu-se. Afastou o pescoço,
deu um passo ao lado, como se o meu toque a tivesse ofendido.
– Agora não, Alistair. Não estou com vontade – alegou ela.
Já nunca tinha vontade, não se mostrava minimamente carinhosa. Há
várias semanas que não fazíamos amor. E passava o tempo todo na casa do
lago, com as miúdas, não as trazia à cidade.
Examinei as restantes fotografias que estavam em cima da minha
secretária: Grace na casa do lago com Charlotte e Seraphina, Grace com as
miúdas em Hillsborough, Grace com as miúdas em casa dos pais dela. E,
por fim, Grace, num restaurante sórdido com aquele homem.
– Tem algumas fotografias da… – hesitei, sem saber como perguntar por
fotografias da minha mulher na cama com outro homem. – Onde está o
resto das fotografias? – perguntei, então.
– Só os apanhei juntos uma vez – disse o Sr. Lynch. – Estiveram nesse
diner durante uma hora. Saíram separadamente e a sua esposa regressou a
casa sozinha. Ele nunca apareceu na casa do lago, pelo menos durante o
tempo em que eu a vigiei.
Ao menos, Grace tinha a decência de manter as suas transgressões longe
da nossa casa e longe das nossas filhas. Ou assim parecia.
O Sr. Lynch colocou uma folha A4 à minha frente.
– Consultei os registos das chamadas feitas pela sua esposa. Tem aí uma
relação dos telefonemas que ela lhe fez.
Peguei na folha e observei as entradas. A primeira chamada era de Grace
para o telemóvel privado de Peter Hindsberg, e havia sido feita há cerca de
duas semanas. Depois disso, tinham trocado chamadas várias vezes por
semana. Alguns dos telefonemas tinham a duração de alguns minutos,
outros de uma hora. A maioria das chamadas era feita à noite. Imaginei
Grace sentada na nossa cama, à noite, com um copo de vinho na mesa de
cabeceira, ao seu lado, com o cabelo molhado do duche e as pernas macias e
acabadas de depilar cruzadas por cima dos lençóis. Sussurrava palavras
apaixonadas e lascivas ao telefone, tendo o cuidado de não acordar as
nossas filhas, a dormir no quarto ao fundo do corredor.
– Depois do encontro no diner, as chamadas telefónicas acabaram – informou o Sr. Lynch.
Peguei novamente nas fotografias e continuei a perscrutá-las. Na imagem
seguinte, Grace estava visivelmente perturbada. Chorava.
– Que sabemos acerca dele? – perguntei. – Deste tal Peter Hindsberg?
– É investigador de fraudes para a Hartco Insurance – disse o Sr. Lynch. –
Foi o mesmo que investigou o pedido de compensação de trabalhadores que
uma das empresas de jardinagem que trabalhou na casa do lago há uns
meses entregou à seguradora. Parece que ele foi lá a casa falar com a sua
esposa. Só que o relacionamento manteve-se depois de o assunto ter sido
resolvido. Investiguei um pouco mais e descobri que a sua mulher e Peter
Hindsberg andaram juntos no liceu. Ele era um par de anos mais novo do
que ela, mas conheciam-se.
– Nunca ouvi falar dele – realcei. – A Grace nunca o mencionou.
O Sr. Lynch encolheu os ombros.
– Cruzamo-nos com um velho conhecido dos tempos de juventude,
metemos conversa e acende-se uma chama. Uma coisa leva à outra. É mais
comum do que possa julgar. Mas a boa notícia é que, o que quer que tenha
havido entre eles, parece ter terminado. Desde o encontro naquele diner não
encontrei mais sinais de contacto entre Peter e a sua mulher. Afinal de
contas, Peter Hinsberg também é casado. A esposa dele acabou de dar à luz
o primeiro filho do casal. Imagino que a consciência tenha acabado por roer
o senhor Hindsberg.
– Tem a certeza de que acabou? – inquiri.
– É o que parece – respondeu o Sr. Lynch. – Mas posso manter o assunto
debaixo de olho, se quiser, senhor Calloway.
– Não é preciso – disse. – Eu agora trato do assunto. Obrigado, Sean.
Estiquei o braço para o intercomunicador e pressionei o botão para
chamar Rosie. Ela apareceu na soleira da porta poucos segundos depois.
– Chamou, senhor Calloway? – indagou ela.
– Acompanhe o Sean à porta, sim?
– Com certeza, senhor Calloway – disse Rosie.
Levantei-me para apertar a mão a Sean. Depois de o Sr. Lynch e Rosie
terem saído, voltei a sentar-me à secretária. Olhei para as fotografias e
esfreguei o queixo.
Grace. O que haveria de fazer em relação a Grace? Queria magoá-la da
mesma maneira que ela me magoara a mim. E queria que ela descobrisse que eu sabia do seu caso amoroso da mesma maneira que eu havia
descoberto. Seria uma declaração fria e impessoal.
Arranquei uma folha de papel pautado e amarelo de um bloco que tinha
na secretária. Em letras maiúsculas de imprensa escrevi: EU SEI. Dobrei a
folha e meti-a num envelope. Peguei então no molho de fotografias. Pensei
incluir apenas a do diner, a imagem de Grace e Peter Hindsberg de mãos
dadas. Reparei então noutra fotografia que tinha na secretária e que
retratava a minha filha mais velha, Charlotte, a brincar no quintal da casa
dos meus sogros. Não fora apenas a mim que Grace traíra. Tinha sido à
nossa família toda. Virei a fotografia de Charlotte e no verso escrevi: PARA
COM ISSO. Coloquei as fotos dentro do envelope e fechei-o. Imaginei-a a
receber o envelope, sem remetente, pelo correio, dali a uns dias. A abri-lo.
O que sentiria ao ver as fotografias e o bilhete, dando-se conta de que eu
sabia, de que eu sabia de tudo.