Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 38 de 44

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Magníficos Estranhos

Quarta Parte

Trinta e sete

 

CHARLIE CALLOWAY

 

2017

 

Não conseguia dormir. Às escuras, fitava o teto do quarto e escutava os

estranhos ruídos noturnos da casa de Dalton. No piso abaixo do meu, ouvi

um autoclismo descarregar, o som da água a correr pelos canos nas paredes.

Escutei passos, o soalho a ranger e uma porta que se fechava. Aguardei.

Esperava pelo silêncio, pela quietude que me diria que toda a gente dormia

profundamente e que podia, por fim, pôr o meu plano em ação.

Durante o jantar, não conseguira olhar sequer para Margot. Tínhamos

ficado sentadas lado a lado e, em determinada altura, quando me pediu para

passar a travessa do feijão verde, a minha mão roçou nos dedos dela e quase

deixei cair a travessa. Senti os cabelos da nuca eriçarem-se. Pedi licença

para ir à casa de banho e, encostada ao tampo de mármore do lavatório,

enviei uma mensagem de texto a Greyson.

Não falava com ele desde a nossa discussão, no meu quarto, há umas

semanas, e a verdade era que também não me apetecia muito falar com ele

naquele momento, mas não tinha escolha. Greyson era a única pessoa que

sabia o que se estava a passar e que não precisava de muitos pormenores

para ficar ao corrente dos novos desenvolvimentos. Além disso, precisava

de falar com alguém. Precisava de saber que não estava louca.

Acho que encontrei as malas da minha mãe , escrevi. As que levou

com ela quando desapareceu.

Sabia que não estava a imaginar coisas ou a recordá-las erradamente.

Lembrava-me na perfeição daquelas malas: um par de malas Burberry, de

tecido, com um padrão de cornucópias, as que a minha mãe costumava levar

quando íamos passar os fins de semana à cidade, as mesmas que tinham desaparecido com ela. Eram inclusivamente referidas nos relatórios do

investigador privado.

Se não fossem as malas da minha mãe, contudo, também não seria a

primeira vez que acreditava vê-las e me enganava. Certa vez, quando tinha

nove anos, vira aquele conjunto de malas no aeroporto JFK, em Nova

Iorque, e desatara a correr atrás da mulher que as levava, certa de que era a

minha mãe, até que a mulher se tinha virado e revelado ser uma senhora

polaca de meia-idade (olhara-me fixamente com os seus olhos cavados,

perguntando: «Que foi, menina, que foi?», enquanto eu pestanejava

apatetadamente). Talvez tudo não passasse de novo de uma infeliz

coincidência.

Costumava imaginar a minha mãe com aquelas malas, percorrendo

aeroportos estrangeiros a caminho de um destino quente e exótico. Mas e se,

durante todo este tempo, elas tivessem estado escondidas numa cave escura

em Southampton? A cave de Margot. Mas como é que teriam ido ali parar?

E se as malas estavam na cave de Margot, onde estava a minha mãe?

O meu telefone vibrou e vi o nome de Greyson no ecrã. Estava a ligar-me.

Pus a mão em forma de concha a tapar a boca e atendi.

– Estou? – sussurrei.

– Charlie, que se passa? – perguntou Greyson. – Onde é que estás? –

Soava um pouco ofegante.

– Não te zangues – respondi, em murmúrios –, estou em casa da família

do Dalton, em Southampton.

Do outro lado, ouvi Greyson murmurar um palavrão.

– Qual é o endereço?

– Nem penses que vens até aqui – disse, mais alto do que tencionava. A

minha voz ecoou na casa de banho de mármore. Merda. Baixei de novo a

voz. Os Daltons estavam mesmo ao fundo do corredor. Não podia arriscar a

que me ouvissem. – Estou bem – asseverei. – E podem até nem ser as malas

dela. Há de haver mais gente que tenha comprado um conjunto igual. Mas o

padrão é o mesmo e a marca também, e foi o suficiente para me assustar.

– Onde é que as encontraste? – perguntou Greyson.

– Na cave, ao lado de umas pilhas de caixas e móveis tapados com lençóis

– expliquei. – Como te disse, pode não ser nada.

– Sai daí a sete pés – sugeriu Greyson. – Charlie, vem-te embora. Agora

mesmo. Agarra nas tuas coisas e sai daí. Eu vou buscar-te.

– Não vou nada embora! – exclamei. – Ainda não tive oportunidade de

ver o que contêm. As malas da minha mãe tinham um rasgão no forro.

Preciso de abrir estas e ver se…

– Charlie, mas tu estás doida? – Greyson soava zangado. – Se essas forem

as malas da tua mãe, então isso quer dizer…

Greyson calou-se e eu senti o peso das palavras que ele não disse. Que a

minha mãe não partira de moto próprio. Que não nos tinha abandonado.

Que estava morta, como toda a gente acreditava. Que não ia jamais voltar.

– Não sabemos o que isso significa – contrapus. – Pode querer dizer

muita coisa.

– Charlie, ouve-me bem – insistiu Greyson. – O teu pai e a Margot

estiveram noivos. Eram ambos membros do A; conhecem-se há muito

tempo. Se as malas da tua mãe estão na cave da Margot, não achas que é

possível que ela o tenha ajudado…

– O tenha ajudado a quê?

– A livrar-se dos vestígios?

– Talvez a Margot tenha ajudado a minha mãe a desaparecer – argumentei

estupidamente.

– Se o plano da tua mãe era ir para longe, porque iria deixar as malas na

cave da Margot?

– Mas eu ainda nem sequer sei se são as malas dela! – aleguei.

– Charlie, não…

Desliguei. Greyson ligou-me imediatamente de volta e continuou a fazê-

lo, por isso, pus o telefone no silêncio e regressei à sala de jantar.

Não havia outra hipótese. Tinha de voltar àquela cave sem que ninguém

me visse, de abrir as malas e descobrir se tinham o revelador rasgão no

forro. Tinha de saber se eram mesmo as malas da minha mãe.

Começara tudo isto sozinha e era sozinha que pretendia terminá-lo,

porque se alguma coisa aprendera nos últimos meses, fora que apenas podia

contar comigo mesma.

Afastei então as cobertas da cama e levantei-me. As pranchas do soalho

rangeram ligeiramente sob os meus pés. Porque é que Dalton tinha de viver

numa casa velha que chiava e gemia como um idoso a cada passo?

A noite era fria e o soalho parecia gelo sob os meus pés, por isso, dirigi-

me ao roupeiro e calcei umas meias e vesti uma sweatshirt com capuz por cima do pijama. Por fim, avancei em bicos dos pés para a porta e abri-a

devagarinho, sustendo a respiração quando as dobradiças protestaram.

Descer até à cave revelou-se um processo lento e árduo, pois tinha de

parar de cada vez que fazia barulho e ficar atenta a outros ruídos que

indicassem que alguém me ouvira e se levantara. A única vantagem em

relação ao facto de a casa ser barulhenta era poder também ouvir quem quer

que descesse a velha escadaria atrás de mim por me ter ouvido igualmente.

A casa estava às escuras e tive de avançar às cegas, confiando na minha

memória e apalpando o caminho. Ao chegar ao piso térreo, encostei uma

das mãos à parede, que usei como guia para chegar ao escritório, onde

ficava a porta para a cave. Preparava-me para rodar a maçaneta quando a

campainha da porta tocou.

Os Daltons tinham uma daquelas campainhas grandiosas e irritantes que

nunca mais paravam de tocar e que ecoavam pela casa toda. Estaquei onde

estava, protegida pela escuridão. Sabia que não podia arriscar-me a

regressar ao quarto, pois o mais certo era que me cruzasse com Margot, que

já viria a descer as escadas para abrir a porta. Pus-me de quatro e gatinhei

para trás de um sofá.

A campainha tocou de novo e ouviram-se também várias pancadas na

porta, como se alguém estivesse a esmurrá-la.

Quem é que poderia ser àquela hora e a fazer tamanha barulheira? Eram

quase duas da manhã.

Ouvi passos na escadaria e depois a luz do corredor acendeu-se. Margot

dobrou a esquina e atravessou o escritório, passando por mim, felizmente

sem me ver. Tinha o cabelo solto e um roupão de veludo frisado. Avançou

para a sala de estar e, quando virou para o vestíbulo, perdi-a de vista.

– Não sei que raio de brincadeira achas que estás a armar!

Era um homem, aos gritos. A sua voz grave e autoritária ecoava pelas

paredes.

Em seguida, ouviu-se a voz de Margot, mas abafada. Pus-me de pé e

esgueirei-me até à sala de estar com o objetivo de ouvir melhor o que era

dito.

– Que história é essa? Eu não fazia ideia de que ela não te tinha dito. Mas

o melhor é respirares fundo e acalmares-te – recomendou Margot.

Seria o pai de Dalton? Era suposto ele estar para chegar, mas àquela hora?

E porque estaria tão zangado?

– Onde raio é que ela está? Quero vê-la agora mesmo, Margot!

O meu coração parou. Não era o pai de Dalton, era o meu.

Ouvi-o deslocar-se pesadamente do vestíbulo para a escadaria e estaquei.

Que estava o meu pai a fazer ali? Como é que ele sabia onde eu estava?

– Charlotte? – gritou ele. – Charlotte!

Entrei no vestíbulo e preparava-me para chamar o meu pai, que já tinha

chegado ao patamar do primeiro piso, quando vi Dalton ali, de pijama, com

o cabelo todo desgrenhado.

– Que se passa? – perguntou ele, por entre dois bocejos.

– Tu! – exclamou o meu pai. Precipitou-se para Dalton de dedo em riste,

vermelho como um pimentão.

– Alistair! – gritou Margot, e subiu as escadas a correr.

– Já sei tudo acerca dos teus truques e manobras – continuou o meu pai,

que parou quase em cima de Dalton e não parava de lhe apontar o dedo. –

Vais ficar longe, bem longe, da minha filha. Estás proibido de a contactar

por mensagens escritas, por telefone ou de te aproximares dela. E se lhe

tocares num fio de cabelo que seja, arranco-te o braço!

– Pai – chamei. – Para com isso!

Ao ouvir a minha voz, ao fundo das escadas, o meu pai deteve-se, virou-

se e olhou para mim. Por um segundo, a sua raiva pareceu desvanecer-se e

fez um ar aliviado, mas depois, quase com a mesma rapidez, a raiva voltou,

talvez até amplificada.

– Charlotte, vai buscar as tuas coisas – ordenou ele. – Vamos embora.

– Não tem de ser assim, Alistair – alegou Margot.

– Fico no carro à tua espera – disse o meu pai, ignorando-a. – Tens cinco

minutos, Charlotte, e depois venho aqui buscar-te, e olha que não será

bonito.

– Certo – respondi.

O meu pai desceu as escadas e passou de rompante e de raspão por

Margot e depois por mim. Um segundo depois, a porta da frente fechou-se

com estrondo.

– Que acabou de acontecer? – perguntou Dalton.

– Talvez eu não tenha sido cem por cento sincera com o meu pai acerca

de onde ia passar as miniférias de Ação de Graças – expliquei.

– É melhor ires buscar as tuas coisas – instruiu Margot, num tom gélido. –

Não deixes o teu pai à espera. Royce, podemos falar por um momento?

– Eu não fiz nada – defendeu-se Dalton.

Mexendo apenas os lábios, pedi desculpa a Dalton nas costas de Margot e

dirigi-me ao quarto para fazer a mala e me vestir. Vesti as mesmas calças de

ganga e camisola de lã que usara no dia anterior, pois ainda estavam em

cima da cadeira onde as largara. Emalei o mais rápido que pude o resto das

minhas coisas.

Não me fui despedir de Dalton. Não o vi, nem a ele nem a Margot,

quando arrastei a mala até à entrada. Também não tinha tempo para ir à

procura deles, por isso, abri a porta e saí.

O meu pai tinha o carro parado e com o motor ligado. Saiu para me ajudar

a pôr a mala na bagageira, abriu-me a porta do passageiro e bateu com ela

depois de eu me sentar.

Os primeiros minutos de viagem foram pautados pelo silêncio. Peguei no

telefone e vi que tinha cinquenta chamadas perdidas de Greyson e dezenas

de mensagens de texto. Esquecera-me de tirar o telefone do silêncio. Abri a

caixa de mensagens. As primeiras revelavam que estava em pânico.

 

GREYSON: [20h05] Charlie, onde estás?

GREYSON: [20h12] Estás bem?

GREYSON: [20h56] Por favor, atende o telefone

GREYSON: [21h30] Atende

GREYSON: [22h03] Estou muito preocupado

 

As seguintes eram vagamente ameaçadoras.

 

GREYSON: [22h03] Ligo ao teu pai se não atenderes, para ele me dar o endereço desse

imbecil

 

E as últimas eram pura e simplesmente ridículas.

 

GREYSON: [23h45] Não tinha o número do teu pai, por isso fui a casa dele GREYSON: [23h47] Ele está furioso. Vai aí buscar-te

GREYSON: [23h48] Contei-lhe do Dalton e do jogo das conquistas GREYSON: [23h48] Desculpa. Não me odeies

 

Hã? Greyson tinha ido a casa do meu pai? Falara-lhe do Dalton? Que

grande idiota.

– Nunca mais voltes a mentir-me, Charlotte – disse o meu pai, quebrando

por fim o silêncio. – Não me mintas.

– Tem graça – respondi. – Pensei que mentir era um traço familiar

Calloway.

– Que queres dizer com isso?

– Jake Griffin – declarei. – Disseste-me que mal o conhecias.

O meu pai desacelerou o carro, encostou à berma da estrada e desligou o

motor.

– Era por isso que não querias que me desse com a Margot? – indaguei. –

Porque eu andava a fazer perguntas acerca do Jake e tu temias que ela me

desse a resposta a essas perguntas? Não querias que eu soubesse a verdade?

– Que te disse a Margot, ao certo?

– Disse-me tudo – menti.

– Foi um acidente – disse o meu pai. – Achámos todos que ele estava

morto. Não respirava.

Virei a cabeça e contemplei a neve que salpicava a paisagem do outro

lado do vidro. Não podia arriscar-me a que o meu pai visse pela minha

expressão que a sua afirmação constituíra um choque. A que acidente se

referia ele?

– Toda a gente olhava para mim, à espera que eu decidisse o que

havíamos de fazer, que resolvesse a situação. Estávamos em pânico. Não

passávamos de um bando de miúdos – prosseguiu o meu pai. – E depois a

Margot… A Margot teve uma ideia… De fazermos com que parecesse que

o Jake… Se tinha suicidado. De lançarmos o corpo dele para a ravina e

fazermos de maneira a que parecesse um suicídio. De forjarmos um bilhete

acerca do exame que ele tinha roubado e deixá-lo no quarto dele, na

residência.

– E tu fizeste-o? – perguntei. – Lançaste-o à água?

– Foi isso que ela te disse? – inquiriu o meu pai. Olhou para mim e

desviou o olhar. Não respondi. – Ele era demasiado pesado para a Margot

lhe pegar sozinha – explicou o meu pai. – Precisava de alguém que a

ajudasse. Não parava de dizer que era a coisa mais acertada, que era a única

maneira de nos salvarmos, que ele, de qualquer maneira, já estava morto e

que não fazia sentido nós desperdiçarmos e estragarmos também o nosso

futuro.

«Ainda sugeri à Margot que levássemos o Jake ao hospital em Falls

Church, que eu mesmo o faria e o deixaria num sítio onde fosse encontrado

rapidamente, mas ela disse que era muito arriscado, que ia haver demasiadas perguntas, que o rasto podia acabar por levar a nós. Insistiu para

que armássemos a coisa de modo que ninguém viesse fazer-nos perguntas.

O Matthew… Matthew York, ajudou-a a lançar o corpo. Só mais tarde é

que ficámos a saber que ele não estava morto quando o deitámos à ravina.

Demorei um momento a perceber o que o meu pai estava a dizer. Ele e os

amigos tinham matado Jake Griffin.

– Fui fraco – admitiu o meu pai, olhando finalmente para mim, nos olhos.

– Da pior forma, da forma mais abjeta. Fui demasiado fraco para ajudar a

Margot a livrar-se do corpo, e fui demasiado fraco para a travar no seu

intento.

Não sei o que me levou a fazê-lo, mas estiquei o braço e cobri a mão do

meu pai com a minha.

– Lamento – disse.

– Nunca contei isto a ninguém – disse ele.

– Nem sequer à mãe? – perguntei.

O meu pai olhou para mim como se o tivesse esmurrado inesperadamente.

Senti-o retesar-se e afastei a mão.

– A tua mãe? – perguntou ele, de volta.

Podia aproveitar o momento. Podia falar-lhe do ficheiro do detetive, das

fotografias, das malas. Podia pedir-lhe que me contasse a verdade.

– Ela sabia? – perguntei, em vez de aproveitar a oportunidade. – Ela sabia

o que realmente se tinha passado com o Jake?

Seguiu-se uma longa pausa.

– Sim – confessou o meu pai. – Mas não fui eu que lhe contei o sucedido.

Ela descobriu tudo no último verão que passou connosco. Encontrou umas

fotografias antigas quando pôs um rolo a revelar. Interrogou a Margot a

propósito do assunto e ela contou-lhe tudo.

Então, era por isso que o meu pai não me queria perto de Margot, porque

ela dissera a verdade acerca de Jake à minha mãe e ele não queria que ela

fizesse o mesmo comigo.

– A tua mãe contratou um detetive privado – revelou o meu pai. – Queria

reunir provas do que aconteceu, levá-las a tribunal. Só soube disso depois

dela ter desaparecido. Pensava… pensava que ela tinha um caso

extraconjugal. Quando ela desapareceu, fui a casa desse detetive confrontá-

lo. Achei que talvez tivessem fugido juntos. Foi então que ele me revelou a

verdadeira natureza do relacionamento entre ambos. Quando o investigador que eu contratei descobriu as gravações do banco, o dinheiro que

desaparecera dos cofres que tínhamos no banco, soube que ela fugira e

percebi porque o fizera. Tinha descoberto o que eu tinha feito, o que eu era.

Já não aguentava mais viver comigo. E queria magoar-me, de uma maneira

irrevogável.

Fiquei ali sentada, em silêncio, atordoada. Só que ela não o tinha deixado

apenas a ele. Deixara-me a mim também. E à Seraphina. E à Claire. E à avó

e ao avô Fairchild e ao tio Hank. Porque iria ela deixar-nos a todos, sem

uma única palavra, um pensamento, sem sequer olhar para trás?

– A Claire disse… – comecei. Respirei fundo. Não sabia muito bem como

dizer aquilo. – A Claire disse-me que tu e a mãe tiveram um

desentendimento sério na semana anterior ao desaparecimento dela. Que a

mãe se magoou.

Pelo canto do olho vi o meu pai cerrar os punhos.

– Estávamos a discutir e a tua mãe desequilibrou-se e caiu – disse o meu

pai. – Eu não lhe toquei. Eu nunca… Eu jamais a magoaria.

Será mesmo verdade? Não pude deixar de me perguntar. Seria possível

que a minha mãe receasse o meu pai a ponto de fugir dele? Poderia esse

medo tê-la mantido em silêncio e escondida todos estes anos? As últimas

palavras que a minha mãe dissera ao meu pai vieram-me à memória: Tira as

mãos de cima de mim.

Ficámos novamente em silêncio e depois o meu pai perguntou:

– Que te fez pensar na tua mãe?

Considerei contar-lhe tudo, falar-lhe das fotografias que o tio Hank tinha

encontrado sob as tábuas do soalho na casa do lago, do ficheiro que eu

roubara no gabinete de Peter Hindsberg. Talvez o que o meu pai dissera

fosse verdade. Sob muitos aspetos, fazia sentido e as peças encaixavam-se

umas nas outras na perfeição. Talvez a minha mãe nos tivesse realmente

deixado, tal como eu acreditava desde o início.

No entanto, não conseguia tirar da cabeça as malas que vira na cave de

Margot. O mais certo era que se tratasse de uma mera coincidência e que eu

estivesse apenas a ser paranoica.

– Nada em especial – respondi. – Apenas a época do ano, suponho. Penso

sempre mais nela nesta quadra. A Ação de Graças foi sempre a preferida

dela. – Fiz uma pausa. – Costumas… costumas lembrar-te dela, pensar nela? – quis saber. Era a primeira vez, desde miúda, que fazia aquela

pergunta ao meu pai.

De início, ele não respondeu. Ligou o motor e arrancou. Ao fim de um

tempo, acenou com a cabeça, quase impercetivelmente, e percebi que me

tinha ouvido.

– Nunca parei de pensar nela – disse o meu pai.