Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 12 de 44

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Magníficos Estranhos

Onze CHARLIE CALLOWAY

Onze

 

CHARLIE CALLOWAY

 

2017

 

Na aula de Trigonometria, manuseava o caranguejo de plástico que pendia

do fio que pusera ao pescoço e contemplava as árvores, que começavam a

adquirir os tons vermelhos do outono, do outro lado da janela.

Trigonometria era uma disciplina do último ano, mas eu sempre tivera jeito

para os números, para equações complicadas, para cálculos elaborados.

Isto não passa disso mesmo, disse a mim mesma. De uma equação

complicada. O desaparecimento da minha mãe. A suposição (por parte de

alguns) de que o meu pai a matara. Parecia intimidante quando a

observávamos pela primeira vez: todas aquelas variáveis complexas.

Contudo, se a decompuséssemos minuciosamente, no final, fazia sempre

sentido: a equação conduzia sempre a uma resposta lógica.

– Quem é que sabe a resposta?

Dei um pulo e girei a cabeça na direção do quadro branco. Estava a

arriscar muito ao sonhar acordada na aula da Trigonometria. O velho

professor Franklin, ou «sir», como ele queria que o tratássemos, era um ex-

militar. Estivera na guerra do Vietname. Acreditava na hierarquia, na

reverência pela autoridade e em torturar e humilhar qualquer pobre alma

que não fosse capaz de fazer cálculos mentais rápido o suficiente para

chegar à resposta quando ele a exigia.

Trigonometria era a única aula em Knollwood Prep, ao contrário de

Introdução à Fotografia, do professor Andrews, que não seguia o método

Harkness. Era fácil perceber porquê: toda a gente sentada em círculo,

professores e alunos em pé de igualdade, sendo os alunos encorajados a

partilhar a sua opinião sempre que quisessem? Tal desafiava e ia contra tudo aquilo em o que o professor Franklin acreditava. Assim sendo, as nossas

mesas estavam dispostas em filas ordenadas, de frente para o quadro branco

a partir de onde ele nos dava a aula, gritando problemas e exigindo

respostas certas quando ainda mal tínhamos tido tempo de pousar a caneta.

Ali não havia como escapar com respostas criativas, porque só havia uma

resposta e uma resposta apenas. Consequentemente, pus o braço no ar, se

bem que nem tivesse ouvido que equação devíamos resolver, porque a

maneira mais certa de não sermos chamados a responder era darmos a

entender que sabíamos a resposta. O professor Franklin escolhia sempre

como seu alvo o aluno que estivesse ainda febrilmente a tentar resolver a

equação no seu caderno, ou o desgraçado que tivesse desviado o olhar de

propósito, rezando aos deuses para que a sua hora não tivesse chegado

ainda.

– Senhor Kensington – disse o professor Franklin. – O senhor parece ter a

resposta certa.

A expressão de Al Kensington não era, nem de longe, a de quem tinha a

resposta certa. Dir-se-ia, isso sim, que o professor Franklin acabara de lhe

pontapear o cão.

– Ora, x é igual a trinta graus? – disse Al.

O professor Franklin fulminou-o com o olhar.

– Sir! – exclamou Al, corando até ao colarinho da camisa. – Desculpe, x é

igual a trinta graus, sir?

O professor Franklin destapou o seu marcador.

– Venha até aqui e mostre-nos como é que chegou a essa conclusão.

Isso, é claro, queria dizer que Al não acertara na resposta. O professor

Franklin acreditava piamente que se aprendia muito com os erros alheios,

portanto, assegurava-se de que os tornava no mais públicos possível e de

que os realçava, ponto por ponto.

Al pegou no seu caderno e levantou-se, cambaleando em direção ao

quadro, morto de medo. Ao passar junto à mesa de Auden Stein, o único

aluno do terceiro ano além de mim, este levou o punho fechado à boca e

tossicou discretamente para ele.

– Quarenta e cinco – tossiu.

Al retesou-se, parou por um segundo e prosseguiu o seu caminho.

– Que foi isso, senhor Stein? – perguntou o professor Franklin.

– Que foi o quê, sir? – perguntou Auden de volta, inocentemente.

– Fiquei com a ideia de que estava a tentar passar um número ao senhor

Kensington quando ele passou pela sua mesa – explicou o professor

Franklin.

Atrás dele, no quadro, Al afadigava-se a rabiscar, tentando perceber onde

errara e chegar ao valor de quarenta e cinco antes que o professor se virasse

para ele. Se o professor Franklin tivesse estado a prestar atenção a Al, teria

visto que este resolvia a equação do fim para o princípio, começando pela

resposta e recuando sucessivamente.

– Não, sir – afirmou Auden.

– Eu levo a batota muito a sério – referiu o professor Franklin. – Tenho a

certeza de que conhece a política de tolerância zero da escola, senhor Stein.

– Conheço, sim, sir – respondeu Auden.

– Então, que foi aquilo?

– Que foi o quê, sir?

Por esta altura, a veia que pulsava na testa do professor Franklin parecia

prestes a rebentar.

– Que disse ao senhor Kensington quando ele passou ao seu lado?

– Não disse nada, sir – teimou Auden. – Tossi. A minha mãe sempre me

disse que tenho uma maneira de tossir muito curiosa, que parece mesmo que

estou a dizer…

– Quarenta e cinco! – gritou Al, pulando e erguendo os braços no ar em

sinal de triunfo. – Quarenta e cinco. A resposta é quarenta e cinco. –

Apontou para o seu esforço, no quadro.

O professor Franklin suspirou lenta e exasperadamente.

– Mais um momento de aprendizagem desperdiçado. Pode voltar ao seu

lugar, senhor Kensington.

– Mas eu posso explicar – começou Al. – Já entendi. Temos de…

– Senhor Kensington, volte para o seu lugar! – ordenou o professor

Franklin, perdendo a paciência, e Al deu um pulo atrás como se tivesse sido

esbofeteado.

Se Auden fosse outro aluno qualquer, o professor Franklin tê-lo-ia

chamado ao quadro e dado uma equação impossível para ele resolver à

nossa frente. Mas Auden era demasiado inteligente, uma espécie de

prodígio da matemática, e o professor Franklin não queria proporcionar-lhe

um palco no qual ele apenas iria brilhar mais.

– Acha que isto tem piada, senhor Stein?

Olhei para a parte da frente da sala, para o professor Franklin, que

contemplava a fotografia que desde sempre estivera na extremidade da sua

secretária como se nunca na vida a tivesse visto. Demorei um momento a

perceber que se tratava daquela fotografia, a que um dos candidatos ao A

tivera de roubar para entrar no clube. A última vez que vira a fotografia fora

no Rebordo, há uma semana. Que estava então a fazer ali? Teria sido

devolvida pelo A? Mas, se assim era, de que servira roubá-la?

– Eu perguntei se acha que isto tem graça, senhor Stein? – repetiu o

professor Franklin, num tom de fúria mal contida.

Toda a gente se virou para olhar para Auden.

– Se acho graça ao quê, sir? – perguntou Auden.

– À destruição ou mutilação da minha propriedade individual – disse o

professor Franklin. – É a este tipo de coisa que acha graça?

Auden franziu as sobrancelhas.

– Lamento, sir, mas não sei do que está a falar.

O professor Franklin virou a fotografia de modo que ele pudesse vê-la. De

início, não reparei em nada de diferente em relação à imagem; lá estava o

professor Franklin de farda, no Oval Office, e lá estava o presidente Nixon,

a apertar-lhe a mão. Inclinei-me para a frente para conseguir ver melhor e

caiu-me o queixo.

Alguém, recorrendo a um programa de manipulação de imagem, colara o

rosto sorridente de Auden ao corpo do professor Franklin. A justaposição

das duas coisas – o rosto sorridente e apatetado de Auden encimando o

corpo rígido e fardado do professor Franklin – era tão ridícula que tive de

me morder para não rir. Na cadeira ao meu lado, Sheila Andrews começava

a perder essa batalha e esforçava-se por dominar as risadinhas com um

ataque de tosse.

– Sir, eu não… – disse Auden.

– Para o gabinete do diretor, imediatamente, senhor Stein – ordenou o

professor Franklin, de maxilar cerrado, quase sem mexer os lábios.

– Sir, não fui eu – afirmou Auden. – Quero dizer, sou eu… na fotografia.

Mas não fui eu que fiz isso.

– Senhor Stein! – berrou o professor Franklin, e toda a gente ficou em

silêncio.

Durante um longo momento, Auden manteve-se sentado, de olhos fixos

na nuca de Dalton, como que o desafiando a virar-se e a olhá-lo nos olhos. Dalton estava sentado na primeira fila, e olhava em frente como se nada de

interessante estivesse a acontecer. Por fim, Auden juntou as suas coisas e

saiu da sala, fechando a porta com tanta força que a parede estremeceu.

O professor Franklin seguiu-o sem mais uma palavra. Assim que saíram,

Sheila desmoronou em cima da mesa, rindo a bandeiras despregadas.

– Foi… espe… tacular – disse-me ela.

Quase não consegui ouvi-la por cima do barulho que se instalara: cadeiras

que eram arrastadas ou rodadas, gente a falar, uma excitação totalmente

alheia à aula de Trigonometria do professor Franklin.

– Há quanto tempo é que tu achas que o Auden andava a planear aquela?

– perguntou Sheila. – Caramba, foi de génio. Quem me dera ter a coragem

dele.

Queria dizer a Sheila que ela nem sabia da missa a metade, que apenas

apanhara uma parte da piada e que apenas catorze alunos em toda a escola

compreenderiam a piada completa: Auden tinha sido tramado.

Olhei de relance para Dalton, que conversava com Crosby. Este tinha um

sorriso escarninho nos lábios. Tentei perceber o que diziam, mas estavam

ambos longe de mais.

O A fizera a sua primeira manobra do ano, uma partida que

simultaneamente humilhara o professor menos apreciado da escola e

repreendera o único iniciado que não cumprira a primeira tarefa, uma

partida que toda a gente no campus, desde os alunos ao corpo docente, iria

comentar durante semanas, e eu não fizera parte dela, nem tão-pouco

soubera que ia acontecer. Porquê? Porque havia sido deixada de fora? Teria

algum dos iniciados estado envolvido? Afinal de contas, tínhamos sido nós

– ou um de nós, pelo menos– quem fizera o trabalhinho sujo. Não

deveríamos, no mínimo, ter sido informados do objetivo de cada objeto

roubado?

Arranquei uma folha de papel do caderno, amachuquei-a até formar uma

bola e lancei-a à nuca de Dalton. Passou-lhe a um quilómetro de distância.

Chamei-o, mas a barulheira era tanta que ele não me ouviu. Cruzei os

braços, deixei-me deslizar na cadeira e pus-me a olhar fixamente na direção

de Dalton e Crosby, desejando que se virassem para mim e me dessem

alguma pista acerca do que se estava a passar, mas não tive sorte.

Só abandonámos a sala quando a campainha tocou. Ninguém se atreveu a

sair, não fosse dar-se o caso de o professor Franklin voltar e encontrar a sala meio vazia ou totalmente vazia ainda em período de aula. Não regressou,

porém. Eu devia ter percebido então que a minha irritação para com Dalton

e Crosby e os restantes membros seniores do A era a mais pequena das

minhas ralações, que uma tempestade de maiores dimensões estava para

rebentar. Mas não entendi. Passei o resto da aula a olhar para a secretária do

professor Franklin, para o lugar onde a fotografia estivera. Não pude deixar

de me interrogar há quanto tempo a fotografia ali estava à espera que o

professor reparasse nela. Estaria ali desde a manhã a seguir à reunião do A,

como uma bomba à espera de explodir?

*

 

– Truz, truz.

Abri os olhos e rodei a cabeça na direção da porta aberta do meu quarto.

Vi Leo na soleira, encostado à moldura da porta. Tinha o equipamento de

futebol vestido, o saco do ginásio ao ombro, o cabelo louro transpirado e as

faces vermelhas e afogueadas.

Acordei meio grogue. Estava a estudar e adormecera. Tinha o portátil em

cima da barriga, o monitor a tremeluzir e o cursor no meio de uma frase do

ensaio no qual era suposto desconstruirmos o poema «Daddy» de Sylvia

Plath. Tinha a drive USB que Dalton me dera com o conjunto de ensaios

literários da aula da professora Morrison. Havia vários acerca da coletânea

Ariel, e lê-los inspirara-me e estava a tornar a redação do meu próprio

ensaio em muito mais simples.

– Que horas são? – perguntei, numa voz enrouquecida. Lá fora, o céu

ganhara um tom rosado.

– Quase cinco e meia – disse Leo, ao mesmo tempo que pousava o saco

aos pés da minha cama e se sentava.

Cutuquei-o com um dos pés descalços.

– Não te sentes aí – pedi. – Estás todo transpirado.

A sua reação a isto foi trepar pela cama acima e estender-se ao meu lado.

– Este cheiro que sinto é a alfazema? – indagou ele, tendo cheirado a

minha almofada. – Lençóis lavados?

– Já não estão, graças a ti – comentei, e tentei empurrá-lo para fora da

cama.

– Estou tão casado – queixou-se Leo. Bocejou e deitou novamente a

cabeça na minha almofada. – O treinador pôs-nos a correr uns contra os outros, percursos curtos, para um lado e para o outro. Era capaz de dormir

vários dias seguidos.

Virei a cabeça e olhei para ele, a açambarcar a outra ponta da minha

almofada. Tinha os olhos fechados e eu conseguia ver-lhe as pestanas

compridas e femininas, batendo contra as maçãs do rosto ao mesmo tempo

que ele respirava.

– Ei, não te ponhas demasiado à vontade – reclamei, e dei-lhe um

pequeno encontrão.

Pestanejou e abriu os olhos, cor de turquesa. Sorriu, sentou-se e passou a

mão pelo cabelo louro, um traço característico dos Calloways.

– Soubeste o que aconteceu ao Auden? – perguntou Leo.

– Estava lá quando aconteceu – realcei. – Temos Trigonometria juntos.

– Não… Eu sei disso – assentiu Leo. – Em relação ao que encontraram no

quarto dele?

– Não. Que foi?

– O que restava da fotografia original do professor Franklin – disse Leo. –

Também lhe revistaram o cacifo, no ginásio. Encontraram um conjunto de

chaves pertencentes ao porteiro, as que desapareceram na semana passada.

As chaves do porteiro era outro dos objetos que faziam parte do ritual de

iniciação. Uma estranha sensação de mau presságio tomou conta de mim.

– A escola vai acusá-lo de roubo, invasão de propriedade, destruição de

objetos pessoais e assédio a um professor – revelou Leo. – Diz-se que vai

ser suspenso. Terá de enfrentar o Conselho de Ética no final da semana.

Sentei-me.

– Tu sabias disto? – inquiri. As chaves do porteiro eram, afinal de contas,

o item que Leo tivera de roubar. – Sabias que o A estava a planear isto?

– Não. Não me disseram nada –respondeu Leo.

– Então, estão… Quê… A castigar o Auden por não ter aparecido? Por

não ter querido jogar o Jogo? – indaguei.

Leo encolheu os ombros.

– É o que parece.

– Não sabia que isso era possível, que fazia parte das regras – admiti.

Sabia as consequências por delatar o A, por revelar os seus segredos, mas

nunca suspeitara de que seríamos castigados por não conseguirmos cumprir

uma tarefa ou por desistirmos do Jogo. Não sabia sequer se Auden tinha de facto desistido de jogar ou se não conseguira obter a tempo o objeto que lhe

fora destinado. Talvez para o A uma coisa e outra fossem a mesma.

De início, a fotografia na sala do professor Franklin parecera-me uma

partida inofensiva. Auden receberia, quando muito, uns quantos castigos.

Mas as chaves do porteiro colocadas no cacifo dele? Uma suspensão? O A

estava a brincar com o futuro de Auden, com o seu percurso académico. E

com que objetivo? Era muito estranho, até porque ainda na semana passada,

Auden tinha jogado póquer com Dalton e Crosby e Leo e eu. Era um de nós.

– É como se estivessem a enviar uma mensagem – opinou Leo. – Não

apenas ao Auden, mas a nós todos.

– Sim – concordei. No que dizia respeito ao Jogo, não só não podíamos

ser apanhados como não podíamos parar de jogar.

– Tendo em conta isto, estive a pensar que podíamos fazer uma aliança –

propôs Leo. – Quando recebermos o próximo bilhete, eu ajudo-te com o teu

e tu ajudas-me com o meu. Assim, duplicamos as nossas hipóteses. A

primeira tarefa já foi bastante complicada e tenho a sensação de que não se

vão tornar mais fáceis.

– Claro. Uma aliança parece-me bem.

Na verdade, até era um alívio não estar naquilo sozinha, sobretudo

quando tinha o outro assunto que envolvia a minha mãe, e nesse estava

sozinha. Não tinha grande escolha nessa frente. Não podia abrir-me com

Leo, sabendo o que ele pensava da minha mãe. O meu primo não era

propriamente um ouvido imparcial.

Encostei-me à cabeceira da cama e olhei para Leo, deitado na minha

almofada com os olhos fechados. Devia ter adormecido.

Quando éramos miúdos, costumávamos dormir daquela maneira, lado a

lado, todas as noites. Foi depois da zanga com o meu tio Hank, quando

Seraphina e eu fomos viver com o tio Teddy e com a tia Grier durante uma

temporada. Eu tinha o meu próprio quarto no segundo piso e era um quarto

lindo. Os meus tios deixaram-me escolher a cor das paredes e encheram a

estante com os meus livros preferidos. À noite, porém, ali deitada sozinha,

às escuras, o quarto parecia-me infinito e eu sentia-me infinitamente

sozinha. A casa fazia barulhos que eu nunca antes ouvira: na cave, a

caldeira gemia e rugia; a água gorgolejava aterradoramente nos canos

quando o autoclismo de uma das casas de banho era puxado. A escuridão

assumia formas e eu ficava com a certeza de que havia qualquer coisa a mover-se por trás do espelho da minha cómoda, e não conseguia dormir. Na

maioria das noites, corria para o quarto de Leo, metia-me debaixo da sua

colcha azul e aninhava-me contra as suas costas, encostando os dedos frios

e descalços dos pés à pele quente das suas canelas, enterrando o nariz na

nuca dele, longe da escuridão, longe dos barulhos que não reconhecia, longe

das assustadoras fantasias da minha cabeça. E ele nunca me dizia que não,

nunca me expulsava da sua cama. Era a única maneira de eu adormecer.

– Charlie? – chamou Leo, em voz baixa, e eu dei um pulo. Ele continuava

com os olhos fechados. – Posso perguntar-te uma coisa?

– O que quiseres – respondi.

– Que achas do Royce Dalton?

Pareceu-me um pouco estranha a maneira como ele disse o nome de

Dalton; talvez tenha sido por usar o seu nome completo, em vez de apenas o

apelido.

– Porquê? – quis saber, desconfiada. Teria ouvido algum rumor? Teria

Dalton questionado Leo acerca de mim ou dito ao meu primo que estava

interessado em mim?

– Tem cuidado – alertou-me Leo. – Ele não é muito gentil no que diz

respeito a raparigas. Quero dizer, é muito amável e simpático no início…

Mas não no final. E há sempre um final.

– Pensei que vocês os dois eram amigos – referi.

– E somos – disse Leo. – Mas isso é só porque nunca namorámos.

– Ah – anuí.

– Mas olha que estou a falar a sério, Charlie – insistiu Leo, e abriu os

olhos para olhar para mim. Estava a ser incrivelmente zeloso e sincero, e

Leo raras vezes era assim zeloso. – Promete-me que não o namorarás.

– Não o namorarei – respondi. Era uma promessa fácil de fazer, porque 1)

em dezassete anos nunca tivera um namorado, e era uma tradição que não

tencionava quebrar tão cedo, e 2) só se fosse idiota é que namoraria um tipo

mulherengo como Royce Dalton.

– Ótimo – concluiu Leo, e fechou novamente os olhos.

Ficámos assim durante bastante tempo, lado a lado na minha cama, até

muito depois de me ter dado conta de que a respiração de Leo se

aprofundara e que ele adormecera. Não tardei a seguir-lhe o exemplo.

*

Na aula de Literatura Americana da professora Morrison, na tarde do dia

seguinte, estava a copiar do quadro as definições de «assonância» e

«dissonância» quando Ren entrou na sala com um papel amarelo (uma

autorização para sair da sala em período de aula) e o entregou à professora

Morrison. Esta olhou para o papel e depois para mim.

– Charlie, é para ires ao gabinete do diretor Collins – informou ela.

Engoli em seco. Pensei de imediato na coleira de diamantes de Nancy.

Ouvira dizer que o diretor Collins tivera um ataque ao descobrir que a sua

querida cadela tinha sido assaltada. O jardineiro virara o quintal de pantanas

para encontrar a coleira, crente de que esta se soltara e caíra algures. Teria o

diretor descoberto, de algum modo, que a ladra fora eu? Teria eu

inadvertidamente deixado para trás alguma pista incriminadora? Ou estaria

Auden por trás disto? Teria decidido delatar todos os membros do A para se

livrar de problemas?

– O diretor Collins mencionou qual é o assunto? – perguntei.

A professora Morrison observou o papel, mas a linha onde o motivo seria

explicitado devia estar em branco, pois ela olhou expectantemente para Ren.

Esta limitou-se a encolher os ombros.

– Eu apenas entrego as autorizações. O diretor Collins não me diz nada;

protege a privacidade dos alunos como um cão protege o seu dono. –

Lançou-me um olhar admoestador ao dizer isso, mas a professora Morrison

nem reparou, porque já tinha devolvido a sua atenção ao quadro branco.

Merda.

Reuni as minhas coisas, coloquei a mochila ao ombro e segui Ren até ao

corredor. Tentava mentalmente elaborar uma qualquer explicação plausível

para o facto de ter surripiado a coleira de Nancy (de preferência uma

explicação que não resultasse na minha expulsão), quando avistei Darcy

encostada a uma série de cacifos a poucos metros de nós e a sorrir para

mim.

– Estava só a meter-me contigo, Calloway – confessou Ren, e deu-me um

encontrão, na brincadeira. – O diretor Collins foi a uma consulta no

dentista.

– Viemos libertar-te – explicou Darcy. – Achámos que estava na hora de

um pouco de D&D, descanso e descontração.

Darcy colocou o braço em redor dos meus ombros e, ao sairmos do

edifício de Artes e Humanidades, conduziu-me para a esquerda, em direção a Rosewood Hall.

Alguns alunos dos dois últimos anos de liceu tinham períodos de aulas

livres. Por vezes, estavam obrigados a passá-los a estudar, e assentavam

arraiais na biblioteca; outras vezes, durante um semestre, trabalhavam como

assistentes de um professor. A terceira opção era ser mensageiro do

gabinete do diretor da escola, o que implicava fazer recados para o próprio

diretor, ou ficar sentado no sofá à porta do gabinete dele a estudar, caso

fosse um dia de pouco movimento. Ser mensageiro era um cargo muito

cobiçado em Knollwood, porque era como ter um lugar dentro da

administração, literalmente. Ficava-se a saber coisas que mais ninguém

sabia. Distribuíam-se os papéis amarelos aos alunos sujeitos a ações

disciplinares, ouviam-se fragmentos de conversas com conselheiros

motivacionais que iam ao gabinete do diretor expor as suas preocupações e

telefonemas entre o diretor e pais descontentes. Por vezes, era pedido ao

mensageiro que fosse buscar o ficheiro pessoal de um aluno e o entregasse

ao diretor, e é claro que não o devia espreitar, mas os olhos do mensageiro

acabavam inevitavelmente por deparar com pormenores privados acerca da

vida de um colega. Como o facto de Andrea Forrester ter sido hospitalizada

por causa de um distúrbio alimentar, ou de Frankie Lewandowski ter tido

uma condenação por conduzir sob o efeito de álcool. Informações que

podiam ser úteis ou interessantes. Excelentes temas de mexeriquice no

refeitório. Ser mensageiro era como estar no interior do coração pulsante da

escola.

Naquele semestre, o mensageiro era Ren. Recordei-me então do maço de

passes amarelos que vira na última reunião do A, todos com a assinatura do

diretor Collins. Tinham sido desviados por um dos iniciados do clube.

Concluí que estava finalmente a recolher alguma da diversão.

O dormitório estava vazio, uma vez que o dia ia a meio; os corredores

pareciam abandonados. Segui Ren e Darcy até ao fundo do corredor do

primeiro piso, onde ficavam os quartos dos finalistas. Ren fez deslizar o

cartão no leitor e abriu a porta.

Deparei com uma enorme desarrumação. Por ser finalista, Ren não tinha

de partilhar o quarto com ninguém. Havia uma cama de solteiro encostada à

janela, com o edredão preto e os lençóis todos enrolados, e uma cadeira e

uma secretária junto à porta. A secretária parecia servir apenas para

acumular tralha: um secador de cabelo com o fio elétrico a soltar-se, uma mala prateada Miu Miu, um manual de Estatística e Probabilidade, uma

garrafa quase vazia de Diet Pepsi. E havia roupa por todo o lado: pendurada

na cadeira e espalhada pelo chão, de modo que era impossível caminhar

sem pisar qualquer coisa.

– Meu Deus, que desleixada – comentou Darcy, como se fosse uma

qualidade cativante.

– Eu sei onde está tudo – alegou Ren. Inclinou-se e retirou uma espécie de

caixa de cosmética de debaixo de uma pilha de t-shirts. Sentou-se na cama e

abriu-a; no interior estava um moedor, três gramas de canábis num saquinho

e um cigarro eletrónico.

– Põe-te à vontade – disse-me Darcy. Fechou a porta do quarto e sentou-

se na extremidade oposta da cama de Ren.

Encontrei um pufe soterrado sob uns quantos pares de calças, afastei-os e

sentei-me. Darcy lançou-me o mais recente exemplar da Cosmopolitan, de

uma pilha de revistas que estava em cima da mesa de cabeceira de Ren, e eu

folheei-a distraidamente, passando os olhos pelas imagens brilhantes e pelos

títulos: «Escolher o Lip Gloss Perfeito para o Seu Tom de Pele», «5

Truques para Experimentar na Cama que o Deixarão Boquiaberto», «As

Tendências Essenciais Deste Outono».

Fazer amigas nunca tinha sido uma coisa fácil para mim. Não apreciava

as coisas de que a maioria das raparigas gostava, não me interessava por

maquilhagem nem tinha grande apreço por roupa ou por ir às compras;

nunca tinha tido um namorado. Mais do que isso, manter amigas dava muito

trabalho. Quando estava com rapazes como Leo, tudo era agradavelmente

simples e transparente. Jogávamos às cartas ou jogos de vídeo, ou outra

coisa qualquer, e, claro, os rapazes conseguiam ser um bocado superficiais e

grosseiros, mas, pelo menos, quem lidava com eles sabia sempre em que pé

estava. Com as raparigas, havia tanta coisa que se passava abaixo da

superfície, tanto significado oculto que era preciso interpretar e analisar,

tanto contexto a ter em conta, tantas regras tácitas a que era preciso prestar

atenção. E havia sentimentos a tomar em conta. Drew e eu dávamo-nos bem

porque dispensávamos todas essas tretas. Yael e Stevie faziam parte do

pacote, mas mesmo com elas dava por mim muitas vezes a dizer ou a fazer

o que não devia.

– Então, descobriste alguma coisa interessante? – perguntou Darcy a Ren.

– Se eu fosse a ti, não me preocupava – respondeu Ren, concentrando-se em colocar a canábis triturada no cigarro eletrónico. – Ela teve um dezasseis

no teste de Física, na semana passada, o que lhe fez descer a média naquela

disciplina. E parece que ainda não fez Estatística e tu sabes que o professor

Wong só dá dois vintes por semestre. Tu já o conseguiste, portanto tens uma

vantagem enorme para o próximo semestre.

Não perguntei acerca de quem falavam, mas sabia o bastante para

adivinhar. Era do conhecimento de todos que Darcy Flemming e Stella Ng

estavam lado a lado na corrida para melhor aluno e orador de fim de curso

daquele ano. Estaria Ren a usar os seus privilégios como mensageira para

manter o desempenho académico de Stella Ng debaixo de olho e dar a

Darcy informações confidenciais acerca da sua concorrente? Não deixou de

me surpreender que falassem disso à minha frente. Quereria isso dizer que

me consideravam parte do grupo, que me confiavam os seus segredos?

Ren deu uma passa no seu cigarro eletrónico.

– Espero que sim – disse Darcy. – Este ano queria competir na final do

troféu Maclay, mas com as coisas tão renhidas, a minha mãe está irredutível

e mandou-me concentrar nos estudos e fazer uma pausa na equitação.

– Os cavalos são uma seca – declarou Ren, expirando.

– Montas? – perguntou-me Darcy.

– Eu não, mas a minha irmã monta – respondi. – Na verdade, foi por isso

que decidiu ir para a Reynolds. Têm estábulos e uma equipa de competição.

– A tua família tem uma casa em Martha’s Vineyard, certo? – perguntou-

me Ren.

– Sim. Em Edgartown – confirmei.

– Bem me parecia – disse Ren. – Fiquei com a ideia de neste verão te ter

visto no L’Étoile.

– Sim, vamos lá muitas vezes.

– O meu pai tem uma casa em Chilmark, mesmo junto à água – disse Ren.

– Todos os anos, no Quatro de Julho, damos lá uma festa. Aparece por lá,

um dia.

A festa anual dos Montgomerys, para comemorar o Quatro de Julho, era

lendária. Em tendas brancas com muitos metros de comprimento montadas

na propriedade, os convidados jantavam ostras e lavagantes. No ano

anterior, a família Montgomery oferecera um espetáculo de fogo de artifício

na praia que, segundo os rumores que corriam, teria custado mais de cem mil dólares. Cedric Roth, o rapaz por quem na altura eu tinha uma

paixoneta, estivera presente e contou-me tudo.

– Combinado – afirmei.

– Toma – disse Ren, passando-me o cigarro eletrónico.

A primeira vez que fumara tinha sido no verão daquele ano, com Cedric

Roth, no quarto por cima da casa dos barcos, onde ele escondia o cachimbo

dos olhares curiosos dos pais.

– Inspira – instruiu-me ele, e eu inclinei-me para a frente e colei os lábios

ao tubo de vidro.

Ele ensinou-me a inalar e a segurar o fumo nos pulmões. Senti um ardor

na garganta, como se estivesse em chamas e, instintivamente, tossi, mas

depois já não consegui parar de tossir. Não esquecera a maneira como o

meu corpo relaxara e a minha mente se desenredara, e tudo à minha volta

me pareceu diferente. Consegui sentir o ar na língua pela primeira vez na

vida.

No quarto de Ren, quando dei uma passa no cigarro, o fumo fez-me

comichão na garganta, mas consegui conter a tosse. Os meus olhos

encheram-se de lágrimas.

Não podíamos ter velas nos quartos, mas Ren tinha um aquecedor elétrico

de cera depilatória ligado em cima da secretária. Tirou um quadrado de cera

da respetiva embalagem e pô-lo no aquecedor.

– Maçã e canela – disse ela.

Contemplei as paredes do quarto, brancas e despidas. A maior parte das

raparigas pendurava pósteres das suas bandas preferidas ou quadros de

cortiça que depois cobria de fitas e de fotografias ou luzinhas decorativas;

Ren, contudo, não se dera a esse trabalho.

Talvez, pensei, as coisas pudessem ser tão simples com Ren e Darcy e os

outros membros do A como sempre tinham sido com Drew.

Dei outra passa no cigarro. Senti a canábis começar a fazer efeito ao

mesmo tempo que olhava fixamente para as paredes brancas. Estas

alongaram-se e ondularam perante os meus olhos, um mar de

possibilidades.

*

 

As audiências disciplinares levadas a cabo pela Comissão de Ética eram

sempre abertas ao público. Decorriam no Bleeker Hall, o maior dos anfiteatros que Knollwood Prep tinha e uma sala habitualmente reservada a

oradores importantes ou a grandes conferências, por ser a única sala, além

do auditório, que podia acomodar a escola em peso, se toda a gente

decidisse comparecer. De uma forma geral, as únicas pessoas que assistiam

às audiências eram os próprios alunos que formavam a Comissão de Ética, o

aluno que enfrentava o castigo e o diretor Collins. No entanto, em resultado

da notoriedade do delito cometido por Auden Stein, dezenas de alunos, e até

alguns professores, tinham marcado presença.

Crosby, Dalton e Ren estavam sentados atrás de Drew e de mim. Crosby

não parava de picar Drew na nuca com o bico do lápis e Drew não parava

de dar risadinhas, de fazer um ar aborrecido e de enxotá-lo. Eu tinha o pé

apoiado nas costas do assento à minha frente. Sentia comichão no tornozelo

e esforçava-me por não o coçar. Na noite anterior, pusera mais pomada

antibiótica sobre a marca da dentada de Nancy e um penso rápido novo.

Descolei a ponta do penso para espreitar a ferida. Tinha crosta, o que

indicava que iria ficar com uma cicatriz.

– Uns quantos locais vão fazer uma fogueira, amanhã – ouvi Ren dizer a

Dalton. Falava dos alunos do liceu público local, de Falls Church, que, por

vezes, organizavam festas na floresta que havia entre a cidade e a nossa

escola. Os alunos do terceiro e quarto anos de Knollwood tinham por hábito

ir, porque havia sempre muita cerveja e canábis. – Tu vais? – perguntou

Ren a Dalton.

Olhei por cima do ombro e vi que Ren mordia as peles dos dedos. Tinha

um ar entediado, como se alguém a tivesse arrastado até ali contra a sua

vontade.

– Talvez – respondeu Dalton. – É capaz de ser divertido.

– Duvido – afirmou Ren. – Que tenho de fazer para me divertir um pouco

por aqui, cortar os pulsos?

– Credo, Ren – comentou Dalton.

– Convenhamos… Tinham mesmo de construir esta escola no meio de

nenhures? Aqui nunca acontece nada de interessante.

Crosby inclinou-se para a frente para cutucar novamente a nuca de Drew

e Ren afastou-lhe a mão com uma palmada.

– Para com isso – ordenou ela. – Não temos cinco anos, nem somos

macacos.

No palco, Stevie, presidente do Conselho Estudantil de Ética há dois anos consecutivos, levantou-se para ler o veredito do Conselho relativo ao

castigo de Auden. As pernas da cadeira chiaram contra as pranchas de

madeira quando ela se pôs de pé. Começou por ler as acusações contra

Auden: roubo e destruição de propriedade privada. Assédio de um membro

do corpo docente. O suficiente para ser suspenso por duas semanas. Era,

pelo menos, o que o Manual de Conduta do Estudante da Knollwood

Augustus Prep exigia, mas o castigo oficial era sempre recomendado pelo

Conselho de Ética e depois sancionado e executado pelo diretor Collins. O

Conselho pedia sempre, sempre, a pena mais dura possível, porque queria

que o corpo docente o levasse a sério. Não queria parecer um grupo de

miúdos laxistas que dava tratamento preferencial aos seus pares. E também

porque só os maiores totós, sonsos e bonzinhos faziam parte do Conselho de

Ética.

– O Conselho recomenda que o senhor Stein seja suspenso por duas

semanas em resultado da sua conduta indecorosa e indigna de um aluno da

Knollwood Augustus Prep – leu Stevie. – Além disso, recomendamos que,

no final da suspensão, o senhor Stein se reúna com um orientador

vocacional que avaliará se o senhor Stein está preparado para ser

reintegrado nesta instituição.

Abanei discretamente a cabeça. O professor Franklin, sentado no palco,

em frente à mesa do Conselho, cruzou os braços e tossicou, achando

obviamente que o castigo era demasiado leve. Tenho a certeza de que

apenas se contentaria com a expulsão de Auden.

– Obrigado, menina Sorantos – disse o diretor Collins. Estava sentado a

uma mesa ampla de madeira que fora colocada no meio da sala, de frente

para a audiência presente no anfiteatro. Coçou o queixo, olhou para o

ficheiro que tinha aberto em cima da mesa e fez sinal a Auden para que se

levantasse.

Fez então uma pequena pausa e olhou para os alunos e professores

sentados à sua frente.

– Pela primeira vez durante o meu mandato como diretor desta magnífica

instituição, encontro-me em desacordo com a decisão do Conselho

Estudantil de Ética – declarou o diretor Collins.

Stevie soltou uma exclamação e deixou cair o lápis, que rebolou pela

mesa e caiu ruidosamente sobre o chão.

– Este assunto encerra uma questão muito mais séria e abrangente do que a forma dececionante como o senhor Stein achou por bem conduzir-se,

questão essa que o Conselho não abordou. Eu devo arcar aqui com uma

parte da culpa – prosseguiu o diretor. – Durante vários anos, permitimos que

uma erva daninha se desenvolvesse no meio de nós. Se não envidarmos

todos os esforços para erradicá-la agora, ela acabará por estragar todo o

jardim.

«Tradição. Que é a tradição? Temos muitas tradições nesta instituição.

Uma delas é diplomar algumas das melhores e mais brilhantes mentes deste

país, que depois ingressam nas universidades de topo da nossa nação. Outra

dessas tradições é encorajar a excelência, a integridade e a inovação. Ao

longo de muitos anos, porém, temos incentivado também a tradição de

obsequiar e nos acobardarmos perante uma mão-cheia de alunos que decidiu

vexar e assediar anonimamente alunos e professores, com o objetivo de

levar a sua avante ou meramente de se divertir. Estes autoproclamados

vigilantes desafiam os valores desta instituição, arvoram-se em defensores

de objetivos egoístas e grosseiros, como as aulas de enriquecimento cultural

ao sábado de manhã, muitas das vezes em detrimento de algo inestimável,

como a reputação de uma pessoa.

«Tradição. Tem sido uma palavra que muitos antigos alunos, e,

ocasionalmente, até membros do corpo docente e atuais alunos, têm usado

para proteger este grupo, e durante muito tempo… demasiado tempo, eu

diria, fiquei de braços cruzados. Contudo, quando esta tradição ameaça as

tradições que são essenciais para a nossa instituição, é impossível continuar

de braços cruzados. – O diretor Collins olhou então para Auden. – Senhor

Stein, conquanto esteja a arcar com a culpa pelos vergonhosos

acontecimentos que tiveram lugar na sala de aula do professor Franklin, não

acredito que tenha agido sozinho. Assim sendo, e muito embora considere

que as duas semanas de suspensão sejam o castigo adequado para as

infrações cometidas, julgo que a conta não foi bem-feita. É que, não

devemos aplicar duas semanas a uma pessoa só, mas duas semanas a cada

pessoa que participou nisto. E visto que a tradição sugere que há, pelo

menos, uma dúzia de pessoas neste grupo ilícito, então, o castigo adequado

deverá ser de duas semanas para cada um destes alunos, ou, caso o senhor

Auden opte por ser o bode expiatório do grupo, vinte e quatro semanas de

suspensão para ele.

Fiquei boquiaberta. Um burburinho tomou conta do anfiteatro.

– Ele disse vinte e quatro semanas? – perguntou-me Drew.

Não respondi. Olhava para Auden. De olhos arregalados, tentava digerir o

que o diretor Collins dissera. Duas semanas de suspensão já era mau o

suficiente: uma mácula que ficaria para sempre no seu currículo académico.

Nenhuma das universidades de topo o iria querer. Mas vinte e quatro

semanas de suspensão? Teria de repetir o ano.

– Portanto, pela última vez, senhor Stein – disse o diretor Collins –, peço-

lhe que me diga os nomes dos alunos que foram seus cúmplices, e o castigo

será dividido igualmente entre vós, ou então, arque sozinho com as

consequências. A escolha é sua, senhor Stein, mas terá de fazê-la agora.

Ao meu lado, Drew retesou-se e ficou imóvel. Sabia o que ela estava a

pensar: se o seu nome ficasse associado àquela infração, tal poderia custar-

lhe a admissão no Wellesley College. Pensava também nos pais, George e

Fern, com os quais travava uma eterna guerra emocional para chamar a sua

atenção; um incidente como este sem dúvida que captaria a atenção deles,

mas o tipo errado de atenção, o tipo de atenção que ela não desejava.

Eu não pensava na universidade ou na reação do meu pai. Ocorreu-me

que o futuro do clube A, uma tradição que existia há praticamente tanto

tempo como a escola, estava por um fio. Eu não tinha ainda tido a

oportunidade de fazer parte dela, de deixar a minha marca. Não podia ser já

o fim. Ainda nem sequer começara.

Auden abriu a boca e fechou-a de novo, como se fosse um peixe.

Veio-me à lembrança a primeira noite no Rebordo: Auden a caminhar

atrás de Ren, de mãos afundadas nos bolsos e cabeça pendida. O que teria o

A contra ele? E seria o suficiente?

– Eu… – começou Auden. Olhou para a assistência. Por um momento, os

seus olhos fixaram-se em mim. – Fui apenas eu – afirmou. – Agi sozinho.

Drew expirou audivelmente.

O diretor Collins suspirou. Tinha um ar desapontado.

– Muito bem – concluiu ele. – Senhor Stein, fica por este meio suspenso

da Knollwood Augustus Prep por um período de vinte e quatro semanas,

com efeito imediato. E vocês… – o diretor Collins apontou um dedo roliço

aos restantes alunos presentes no anfiteatro. Possuía um invulgar talento

para fazer qualquer pessoa sentir que estava a ser visada diretamente,

embora olhasse para toda a gente ao mesmo tempo. – Vocês sabem quem

são. Reflitam nisto: no passado, tiveram uma administração que ladrava muito, mas não mordia; pois isso acabou. Não haverá mais avisos, não

haverá mais tratamento preferencial para quem ameaçar as nobres tradições

desta instituição. Ponham um ponto final nas vossas conspirações e

atuações ilícitas, ou tomarei como missão pessoal pôr-vos eu mesmo um

ponto final.

– E isto, foi divertimento suficiente para ti, Ren? – ouvi Dalton segredar

nas minhas costas.

Não pude ter a certeza, mas pareceu-me ouvir Ren ladrar baixinho, em

resposta.