Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 21 de 44

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Magníficos Estranhos

Vinte GRACE FAIRCHILD

Vinte

 

GRACE FAIRCHILD

 

PRIMAVERA DE 1997

 

Assisti à cerimónia com a família de Teddy e Margot. Quando Teddy subiu

ao palco, envergando o seu traje académico, mantivemo-nos educadamente

sentados, ao contrário da maior parte das restantes famílias, que se

levantavam para tirar fotografias. Eugenia tinha contratado um fotógrafo

para se manter perto do palco e documentar tudo. Também nos obrigara a

chegar duas horas antes da cerimónia de entrega de diplomas para que o

dito fotógrafo pudesse tirar fotografias da família com Teddy nos locais

mais pitorescos do campus universitário. Desse modo, não teríamos de

competir pelos melhores locais com os restantes estudantes e respetivas

famílias. Na minha opinião, Eugenia queria era tirar as fotografias quando o

seu cabelo e maquilhagem estivessem ainda em perfeito estado, em vez de

no final de uma hora de discursos sob o Sol escaldante.

Eu tinha comprado um conjunto novo para a ocasião: um vestido rosa-

pálido em saldos, de uma designer que ouvira Olivia mencionar certa vez. O

vestido era justo, mas tinha um decote recatado, e a saia ficava mesmo por

cima dos meus joelhos. Sentia-me bem com ele, mas, ao posar para as

fotografias, ocorreu-me um pensamento perturbador: e se o vestido fosse

demasiado transparente? Não me parecera que fosse quando o vestira em

frente ao espelho, sob as luzes fluorescentes do provador, porém, com

aquela claridade, comecei a ficar com dúvidas e amaldiçoei-me por não ter

tido a previsão de vestir um saiote, só por via das dúvidas.

A banda tocava então e os finalistas avançavam orgulhosamente com os

seus diplomas na mão pelo corredor central formado pelas cadeiras. O pai

de Teddy inclinou-se para mim.

– Vamos perder a nossa reserva – disse ele, de olhos fixos no relógio e

sobrolho franzido. A cerimónia começara depois da hora e ameaçava

arruinar os planos meticulosamente traçados por Eugenia.

– Alistair, ficas para trás à espera do teu irmão – comandou Eugenia. –

Nós vamos andando para o restaurante para não perdermos a mesa.

Margot pousou a mão no antebraço de Alistair e, com a outra, abanou-se

furiosamente usando o programa da cerimónia.

– Eu vou com os teus pais – disse ela. – Se ficar debaixo deste Sol mais

um minuto, apanho uma insolação.

– Eu espero contigo – ofereci-me.

Alistair acenou que sim com a cabeça.

– Reúne as tropas, se faz favor – pediu-me ele, ao mesmo tempo que se

punha de pé, de mãos enfiadas nos bolsos das calças. – Vou só ver se

encontro uma casa de banho.

Demorei alguns minutos a encontrar Teddy no meio da alameda com as

outras famílias e licenciados. Por fim, localizei-o junto a uns amigos, num

semicírculo, de costas para mim. Reconheci dois deles: Graham Park e Nick

Cheng. Teddy e eu já tínhamos ido ao cinema e saído com eles para jantar

algumas vezes. Eram rapazes simpáticos, sempre muito educados. O

terceiro rapaz era alto, desengonçado e sardento. Estava meio de esguelha

para mim, por isso, conseguia vê-lo apenas de perfil. Dei voltas à cabeça a

tentar lembrar-me dele, mas não me recordava de Teddy mo ter alguma vez

apresentado.

– Eu continuo a afirmar que aqui o Teddy é o verdadeiro campeão – dizia

Nick, e deu uma palmada nas costas de Teddy.

– O Nick chamou-me a atenção para ela há pouco, junto à fonte –

respondeu o mais alto. – Vi o vestido curto cor-de-rosa que ela tem vestido.

É impossível que não se tenha enrolado contigo.

Estaquei. A tomada de consciência de que estavam a falar de mim foi

como um murro no estômago. De repente, senti-me como se estivesse sem

roupa. Era como um daqueles sonhos horríveis em que nos damos conta de

que andamos nus e de que está toda a gente a olhar para nós.

– Como vos disse, abdico desta ronda – disse Teddy.

– Tretas – replicou Graham. – Não quero ganhar por desistência. Vamos

rever as jogadas. Nick?

– Ora, o Teddy foi à primeira com a miúda da Associação de Estudantes Zeta Sigma, completou a segunda com aquela aluna francesa de intercâmbio

e a terceira com a assistente do Departamento de Economia – enumerou

Nick, contando pelos dedos cada uma das conquistas de Teddy.

Interroguei-me quando é que aqueles relacionamentos tinham ocorrido:

enquanto estávamos juntos? Antes?

– E conseguiste um home run com a rapariguinha local – realçou o alto e

desengonçado.

Rapariguinha local. Nem sequer tinha nome.

– Vá lá, deixa-te de coisas e admite – prosseguiu ele. – Enrolaste-te com

ela.

Teddy encolheu os ombros. Ria-se. Percebi isso pela maneira como os

ombros dele abanavam, muito embora não lhe conseguisse ver a cara.

– Invoco a quinta emenda – disse Teddy.

Ver Teddy divulgar um dos pormenores mais íntimos da nossa relação

àquele rapaz sardento e desconjuntado e aos restantes amigos deu-me nojo.

Isso e o facto de o assunto ser tratado como uma piada, como se fosse uma

espécie de jogo.

Nick ergueu triunfantemente o braço de Teddy no ar.

– Declaro um vencedor.

– Não somos dignos, ó grande mestre – disse o rapaz alto e sardento e

saudou Teddy com uma pequena vénia zombeteira.

Continuava ali, desejando esfumar-me, mas incapaz de me mexer, quando

Teddy se virou e me viu.

A expressão no meu rosto deve ter-lhe dito tudo o que eu não conseguia

dizer, pois perdeu de imediato o sorriso que tinha nos lábios e ficou

exangue.

– Grace – disse.

Dei meia volta e afastei-me rapidamente dele, tropeçando um pouco de

cada vez que os saltos dos meus sapatos se afundavam na relva. Ele correu

atrás de mim e agarrou-me o braço para me forçar a parar.

Vi os amigos dele um pouco mais atrás, ainda no seu semicírculo e a

olhar para nós.

– Não me toques! – ordenei. Tentei libertar o braço, mas isso só serviu

para ele me segurar com mais força ainda. Tinha os dedos cravados no meu

antebraço. Encolhi-me.

– Grace, deixa-me explicar – pediu ele, como se tivesse palavras para consertar a situação, para nos voltar a unir. Era impossível. Essas palavras

não existiam.

– Eu disse para tirares as mãos de cima de mim! – repeti, em tom de

ameaça.

– Não sei o que ouviste – continuou Teddy, e olhou para trás, para os

amigos, antes de baixar o tom de voz. – Mas não ligues àqueles idiotas.

Estavam só a armar-se em parvos. Aquilo não significa nada.

– Não, eu é que não significo nada – aleguei. – Fui apenas… O quê? Uma

brincadeira para ti? Um jogo?

– Não – respondeu Teddy, com veemência. – Isso não é verdade. Não

foste uma brincadeira, claro que não. – Parou e respirou fundo. Olhou para

mim com uma sinceridade tal que até doeu. – Foi verdadeiro. Tu e eu. Juro-

te que os meus sentimentos por ti são verdadeiros. Grace, eu amo-te.

Fiz o que Hank me ensinara no quintal das traseiras, quando eu tinha dez

anos. O punho bem cerrado, o polegar por cima do indicador e do dedo do

meio, o peso no pé de trás, e depois empurrei o braço e o corpo para a

frente, em direção à cara dele. O impacto foi doloroso. Ouvi-o cuspir o ar;

libertou-me instantaneamente e dobrou-se para a frente.

– Merda! – exclamou Teddy, agarrado ao nariz. – Merda.

Não fiquei para ver se ele estava bem. Virei-me e fui-me embora dali.

Nem conseguia ver bem. Ao dobrar a esquina do edifício mais próximo,

esbarrei com força numa pessoa. Torci dolorosamente o tornozelo, junto à

fivela do sapato, e quase caí, mas a pessoa amparou-me.

– Cuidado! Magoou-se? – perguntou o homem.

Quando levantei a cabeça, vi que era Alistair. Reconhecemo-nos um ao

outro ao mesmo tempo. Reparei que o rosto dele se iluminou e até os olhos

cintilaram.

– Ia agora mesmo à tua procura – explicou ele.

Foi então que reparou na minha expressão de pesar e o seu rosto

ensombrou-se.

– Estás bem? – perguntou ele.

Nem sabia como responder àquela pergunta.

– Era tudo uma mentira – declarei. – Um jogo.

Sabia que estava a balbuciar, mas não conseguia evitá-lo.

Esfreguei o tornozelo dorido e apoiei o pé no chão, fazendo pressão sobre

ele. Não era grave, apenas o torcera, e conseguia caminhar.

Ouvi o meu nome, ao longe, e olhei para trás por cima do ombro. Era

Teddy, tentando perceber para que lado eu tinha ido. Tinha sangue na

camisa. Partira-lhe o nariz.

Olhei para Alistair. Ele fez que sim com a cabeça, como se

compreendesse.

– Vai – recomendou ele. – Eu asseguro-me de que ele não te segue. – O

tom dele era sério, raiava o furioso.

Era a segunda vez que Alistair me salvava e, pela segunda vez, estava

demasiado perturbada para lhe agradecer. Dobrei a esquina e corri para

longe, sem olhar mais para trás.