Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 27 de 44

Páginas do PDF

Magníficos Estranhos

Vinte e seis GRACE CALLOWAY

Vinte e seis

 

 

GRACE CALLOWAY

 

OUTONO DE 1999

 

Encostei-me à parede do cubículo até este parar de girar. Pelo menos, não

vomitara. Isso teria sido o auge da minha humilhação: ajoelhar-me nos

ladrilhos de porcelana da casa de banho do Carlyle Hotel no meu vestido de

noite Oscar de la Renta ao mesmo tempo que as esposas viperinas do Upper

East Side me ouviam vomitar o almoço para a sanita. Quando regressasse

finalmente ao salão, metade dos convidados já teria ouvido dizer que eu

sofria de um distúrbio alimentar e a outra metade teria proclamado

veementemente que eu não passava de uma alcoólica.

A última coisa que queria naquela noite era sair de casa, mas era o baile

anual de beneficência dos Calloways e Alistair ia discursar. Ao início da

noite, enquanto se arranjava, Alistair tinha ensaiado o discurso uma última

vez, revendo as partes em que queria dar mais ênfase e aquelas em que

planeava fazer pausas para as já esperadas gargalhadas e aplausos. Pensara

dizer-lhe qualquer coisa nessa altura, que não me sentia bem e que talvez

fosse melhor ficar em casa, mas ultimamente as coisas entre nós andavam

muito tensas e não quisera provocar mais uma discussão.

Menos de cinco minutos depois de chegarmos, ele afastara-se para ir

conversar com colegas e socialites de vestidos decotados e eu ficara, uma

vez mais, sozinha. Sentira então o cheiro dos folhados de salmão que os

empregados serviam nas bandejas e o meu estômago revirara-se. Rumara de

imediato, e em passo apertado, à casa de banho.

Só que não podia ficar ali escondida para sempre. Por isso, respirei fundo

e abandonei o cubículo. Em frente a um dos lavatórios, coloquei as mãos

debaixo da água fria que jorrava da torneira. O meu reflexo pálido olhava-me de volta no espelho. Tinha um ar péssimo, a condizer com a maneira

como me sentia.

Chamam-lhes enjoos matinais, mas eu sentia-os o dia todo.

Tinha descoberto que estava grávida há dois dias, sentada no chão da casa

de banho, acompanhada de três garrafas de água e cinco testes com cinco

sinais positivos. Ainda não tinha dito a ninguém, nem sequer a Alistair.

Ouvi um autoclismo ser descarregado e a porta de um dos cubículos

abriu-se. Olhei para trás de mim através do espelho e empalideci ainda mais

quando vi o seu reflexo: Eugenia.

O choque do meu enlace com Alistair tinha sido mais duro para Eugenia

do que para Teddy. No primeiro Dia de Ação de Graças depois do nosso

casamento, ela desconvidara-nos para as festividades familiares e o postal

de Natal dos Calloways chegara com a cabeça de Alistair recortada da

fotografia. A raiva dela só começara a abrandar depois de Teddy ter casado

com uma rapariga bonita, chamada Grier Greymouth, há uns meses, em

Martha’s Vineyard. Os Greymouths eram uma família antiga e rica que

fizera fortuna no negócio da navegação. A mãe de Grier era amiga de

Eugenia, e fora ela a casamenteira. Grier estava a tirar um doutoramento em

Psicologia na Universidade de Nova Iorque, e essa era uma das muitas

façanhas da sua nora acerca da qual Eugenia gostava de perorar: essa e o

seu cabelo sedoso e as fitas azuis que conquistava nas competições de

dressage.

Quanto à restante família Calloway, o pai de Alistair prestava-me tanta ou

tão pouca atenção como anteriormente, Teddy deixara de falar comigo e

Olivia mudara-se para Paris depois de terminar os estudos na Faculdade de

Vassar. Trabalhava numa galeria de arte nas margens do Sena e vivia com

um expatriado de ar taciturno que era trinta anos mais velho do que ela.

Eugenia fez uma careta ao ver-me, o que não constituía uma reação

invulgar da parte dela.

– Está a transpirar como um porco – comentou ela ao juntar-se a mim no

lavatório. Revistou a mala de mão e estendeu-me um toalhete matificante, o

gesto mais caridoso que alguma vez teve comigo.

– Obrigada – disse, e pressionei o toalhete contra a testa.

– A sério, querida, está com péssimo aspeto – continuou Eugenia. – Tem

a certeza de que está bem?

– Acho que apanhei uma virose qualquer – aventei. – Sinto-me um pouco nauseada.

Eugenia afastou-se de mim e foi lavar as mãos noutro lavatório.

– Ah, pois, nesse caso, talvez fosse melhor ir para casa e deitar-se –

recomendou ela, e, num gesto quase circense, esticou-se para alcançar a

toalha. – Não queremos que ponha toda a gente doente, caso isso seja

contagioso.

Já estaria, sem dúvida, a ver o filme todo: o seu evento a provocar um

surto de gripe em metade do Upper East Side, sendo eu a doente zero.

– Acho que é isso mesmo que farei – anuí. – Quando vir o Alistair, diga-

lhe que não me sentia bem e que fui para casa, sim?

– Com certeza, querida – disse Eugenia. – Vá para casa e descanse.

Atravessei o salão de baile em linha reta, rumo ao bengaleiro, junto ao

vestíbulo, mas não estava lá ninguém. A rapariga teria ido provavelmente

fumar. Já passava da hora a que as pessoas deviam chegar e era ainda

demasiado cedo para irem embora. Consultei o relógio, interrogando-me se

ela iria demorar muito.

– Já de partida?

Dei meia volta e deparei com Teddy no vestíbulo sombrio; tinha um copo

de uísque na mão.

– Não me sinto bem – respondi.

– O Alistair vai ficar dececionado – realçou Teddy. – Ainda não fez o seu

cativante e egocêntrico discurso. Ouvi dizer que se tornou tão bom a fazê-

los que já consegue não inchar de orgulho.

Teddy encostou-se à parede. Senti o cheiro a bebida no seu hálito.

– Tenho de voltar lá para dentro – declarei, e afastei-me do balcão do

bengaleiro.

Teddy imitou o meu movimento e, com isso, bloqueou-me

intencionalmente a passagem.

– Não tinhas dito que te ias embora? – referiu Teddy.

Estava demasiado perto de mim. Os cabelos da minha nuca eriçaram-se.

– Estás muito bonita – elogiou Teddy. Esticou o braço e fez deslizar um

dedo pelo meu antebraço. Fiquei com pele de galinha. – Repara como ainda

reages ao meu toque – segredou Teddy. Aproximou-se ainda mais e

sussurrou-me ao ouvido. – Ainda me lembro da maneira como acariciava o

teu corpo e te fazia gemer. Aposto que ele não te faz isso, pois não?

Mantive-me muito quieta. Olhei para o fundo do corredor escurecido e silencioso que dava acesso ao salão de baile, vi as luzes cintilantes do lustre

e ouvi o tilintar dos pratos e dos talheres.

– Devias voltar para junto da tua mulher, Teddy – aconselhei. – Ela

provavelmente anda à tua procura.

– A minha mulher – disse Teddy, com uma gargalhada, e deu um gole no

seu uísque. – A minha mulher. O teu marido. Já viste como parecemos tão

adultos com os nossos cônjuges?

– Estás bêbado – fiz notar.

– Sim – concordou Teddy. – Estou. Mas isso não torna o que eu disse em

menos verdadeiro. Só um nadita mais ridículo, talvez.

– Sim, é ridículo.

Teddy virou-se. Era Alistair. De mãos nos bolsos, no corredor às escuras,

observava-nos.

– Como já te disse tantas e tantas vezes, vai com calma – recomendou

Alistair, que, entretanto, avançara para o vestíbulo. Tirou descontraidamente

o copo de uísque da mão de Teddy. – Não vais querer fazer figura de urso.

– Sempre a desempenhar o papel de irmão mais velho – comentou Teddy,

com secura e ironia. – Devias tirar uma noite de folga. Tens um ar cansado.

– Vai ter com a tua mulher – ordenou-lhe Alistair, num tom gélido. – E

deixa a minha em paz.

Por um momento, Teddy manteve-se onde estava, imóvel, olhando

fixamente Alistair com todo o rancor que acumulara com o passar dos anos.

Teddy era mais alto do que Alistair, quinze centímetros, pelo menos. Mas

Alistair era mais largo de ombros, tinha uma constituição mais robusta. A

tensão entre ambos era palpável e interroguei-me se aquela seria a gota de

água que faria transbordar o copo, e se Teddy daria finalmente rédea solta

ao ódio que nunca se esforçara muito por ocultar. Ao fim de mais uns

segundos, porém, Teddy pareceu reconsiderar e bateu em retirada na

direção do salão de baile. Ficámos a vê-lo afastar-se.

– Que se passou aqui? – perguntou-me Alistair, como se, de alguma

maneira, o sucedido fosse culpa minha.

– Como é que queres que eu saiba?

– Agora tenho de me preocupar com vocês os dois? – indagou ele. –

Esgueiram-se para cochichar um com o outro às escuras e sozinhos?

– Não fui eu que comecei – referi. – Só vim buscar o meu casaco.

Alistair ergueu as sobrancelhas e dei-me conta de que continuava sem o casaco.

– A rapariga do bengaleiro ausentou-se – expliquei. – Ia-me embora e o

Teddy encurralou-me.

Alistair fez um ar magoado.

– Ias-te embora? Não tencionavas ficar para ouvir o meu discurso? –

indagou ele.

– Não me sinto bem – admiti.

– Que conveniente – comentou Alistair.

– Não é conveniente, não! – ripostei, num tom mais alto do que

tencionava. A minha voz atravessou o pequeno corredor e as pessoas

sentadas nas primeiras mesas rodaram a cabeça. Continuei num sussurro

impetuoso. – Não é conveniente ser-se arrastado para um evento ao qual

não queremos ir quando nos sentimos nauseados, tontos e cansados. E não é

conveniente quando a pessoa com a qual viemos nos abandona no dito

evento e a única altura em que se digna a falar connosco é para nos acusar

de uma coisa que não fizemos. Nada disto é conveniente, Alistair.

Não podia regressar àquele salão e sentar-me no meio daquelas pessoas

fazendo de conta de que estava tudo bem. Dei meia volta e dirigi-me à

saída, mesmo sem casaco. O casaco que se lixasse.

Alistair foi atrás de mim até ao passeio.

– Desculpa – pediu Alistair. – Não era minha intenção ignorar-te.

– Pois, nunca é – ripostei.

Os serões no escritório, as videoconferências aos fins de semana, a sua

atenção sempre concentrada num qualquer projeto novo, nada disso era

feito de propósito para me magoar.

– Tu sabias que eu era assim quando me conheceste – argumentou

Alistair.

– Já não tem que ver apenas contigo – disse. – E também já não tem que

ver unicamente comigo.

Comecei a lacrimejar. Não era daquela maneira que queria dar-lhe a

novidade, num passeio de Nova Iorque, no meio da noite e do frio, e de uma

troca acesa de palavras.

– De que estás a falar? – perguntou Alistair.

– Estou… – A minha voz desvaneceu-se. Encostei a mão à barriga. –

Estou grávida.

Alistair ficou em silêncio. Dir-se-ia que perdera o fôlego.

– Tens a certeza? – perguntou ele.

– Sim, tenho – confirmei.

Não sabia como é que ele iria reagir. A nossa primeira gravidez resultara

num aborto espontâneo perto do final do primeiro trimestre. Eu ficara

devastada pela perda e suspeitava que Alistair sentira o mesmo que eu, mas

ele nunca fora pessoa de falar abertamente das suas emoções, nem mesmo

comigo.

Alistair avançou então para mim e envolveu-me nos seus braços. Não

soube o que fazer com aquela inesperada demonstração de afeto, por isso,

fiz deslizar os braços por dentro do casaco dele e contornei-lhe o tronco.

Abraçou-me com força, como já não fazia há muito tempo.

– Estás feliz? – perguntei.

– É claro que estou feliz – afirmou Alistair, e beijou-me o cabelo. – Tu

não estás?

Não respondi. Não conseguia destrinçar o que sentia em relação à

gravidez do que sentia relativamente a Alistair e a mim. A distância que nos

separava nunca havia sido tão grande como então.

– Não me sinto bem – disse, o que não respondia à pergunta, mas era

verdade.

Alistair despiu o casaco e colocou-o nos meus ombros.

– Então, é melhor ires para casa – disse ele, e avançou até ao lancil do

passeio para chamar um táxi.

Quando abriu a porta para que eu entrasse, tentei devolver-lhe o casaco.

– Fica com ele, está frio – fez notar Alistair.

– Mas o teu discurso… – realcei. Não podia discursar em mangas de

camisa. Eugenia teria um ataque.

– Não te preocupes – disse ele. Inclinou-se e beijou-me na testa. – Daqui

a pouco já estarei em casa.

Tomei um banho quente e sentei-me no sofá da sala de estar, de pijama a

comer bolachas de água e sal e a beber um ginger ale. Vi televisão e deixei-

me dormir. Acordei à meia-noite e a televisão passava televendas. Desliguei

a televisão e fui para a cama sozinha.

*

 

Na manhã seguinte, quando acordei, Alistair estava em casa. Entrou no

quarto de calças de ganga e camisola, e trazia uma tigela fumegante de papas de aveia. Pousou-a na mesa de cabeceira, ao meu lado.

– Bom dia, dorminhoca – disse ele. – Fiz-te papas de aveia com açúcar

mascavado. Achei que seria melhor para o teu estômago do que ovos. Tens

de te alimentar.

Pestanejei e esfreguei os olhos.

– A que horas é que chegaste, ontem à noite? – indaguei.

– Come depressa e veste-te – disse ele, com um sorriso nos lábios. –

Quero mostrar-te uma coisa.

Só consegui engolir meia dúzia de colheradas antes de começar a ficar

enjoada. Dirigi-me para a casa de banho.

Enquanto me vestia, Alistair ligou ao valet para que fosse buscar o carro.

Estava à nossa espera em frente à porta assim que descemos. Sentei-me no

lugar do passageiro e encostei a cabeça ao vidro frio da janela.

– Onde é que vamos? – perguntei a Alistair, quando ele arrancou.

– É uma surpresa – respondeu ele. Deu-me a mão e presenteou-me com

um sorriso tranquilizador. – Uma surpresa boa – acrescentou.

A viagem demorou mais do que uma hora. Os arranha-céus deram lugar

aos subúrbios e depois a campos abertos e planos. Fechei os olhos e

adormeci. Quando o carro parou, despertei. Olhei pela janela, mas só vi

árvores.

– Anda daí – desafiou Alistair, abrindo-me a porta. – Estamos quase lá.

Dei-lhe a mão e deixei que me guiasse. Tinha a estranha sensação de que

já ali estivera, mas, de início, não consegui perceber onde estava. Foi então

que vi o lago. O lago Langely.

Caminhámos durante vários minutos em silêncio até que chegámos à

árvore na qual Jake e eu tínhamos construído a espécie de casa quando

éramos miúdos. O lugar onde Alistair e eu havíamos feito amor pela

primeira vez.

Alistair parou e virou-se para mim.

– Sei que não tens andado infeliz – disse ele. – E há muita coisa que não

posso mudar na nossa vida. Mas talvez haja um meio termo. Foi aqui que

tudo começou – relembrou ele, e apontou com a cabeça para o lago. – E é

aqui que vamos começar de novo. Vou construir aqui uma casa para nós.

Não apenas uma casa, mas um lar. E vamos enchê-lo com os nossos filhos,

a nossa família. Este será o nosso refúgio, longe de tudo. Quando viermos

para aqui, será apenas nosso.

Alistair soava tão sincero. Era como se acreditasse que, por mera vontade

e determinação, conseguiria manter-nos juntos, preencher as fendas,

impedir o nosso casamento de se desmoronar. E eu queria acreditar nele.

Queria desesperadamente acreditar nas palavras dele, na sua intenção. Por

isso, não disse nada. Limitei-me a apertar-lhe a mão.