Magníficos Estranhos
Dezassete CHARLIE CALLOWAY
Dezassete
CHARLIE CALLOWAY
2017
No meu regresso de Camp Wallaby, tinha uma caixa de grandes dimensões
à minha espera à porta do quarto. No seu interior, encontrei uma carta do tio
Teddy.
«Tal como prometi, miúda, aqui está tudo o que o investigador privado, o
Sr. Lynch, reuniu.»
Havia pilhas de envelopes castanhos com etiquetas que diziam «Registos
Telefónicos» e «Faturas de Cartões de Crédito». Encontrei uma drive
rotulada de «Entrevistas» e liguei-a ao meu portátil. Continha vários
ficheiros com nomes e datas. Quase toda a gente de ambos os lados da
minha família imediata tinha sido interrogada, assim como amigos chegados
da família e empregados. A família do meu pai encontrava-se no topo da
lista, porque esta fora ordenada alfabeticamente. Pus-me a pensar em qual
interrogatório devia escutar primeiro. Já tinha ouvido a opinião de Eugenia:
que a minha mãe sofria de uma perturbação mental e que isso talvez tivesse
alguma coisa que ver com o seu desaparecimento. Cliquei no ficheiro que
tinha o nome da tia Grier. Era minha tia por afinidade e psicóloga.
Frequentara Harvard e fizera o doutoramento na Universidade de Nova
Iorque. Se alguém tivesse uma opinião válida acerca do estado mental da
minha mãe e de que modo isso poderia estar relacionado com o seu
desaparecimento, essa pessoa seria a minha tia Grier.
Abri o ficheiro de áudio e este começou a tocar. Pus os auriculares, para o
caso de Drew entrar no quarto.
– Diga o seu nome, a data e o seu parentesco com Grace Calloway –
pediu uma voz masculina, grave e enrouquecida, que supus ser a do Sr. Lynch.
– Grier Calloway. Vinte e dois de outubro de dois mil e sete. Grace
Calloway é minha cunhada.
Vinte e dois de outubro de 2007: era mais de dois meses após o
desaparecimento da minha mãe e algumas semanas depois da descoberta
das imagens de vigilância do banco.
– Senhora Calloway, diria que a senhora e a sua cunhada são chegadas?
– Nem por isso – respondeu a minha tia. – Tendo em conta o passado dela
com o meu marido, penso que é natural que assim seja.
Que significava aquilo? O tio e a minha mãe não gostavam um do outro
por algum motivo?
– Mas éramos cordiais o suficiente e víamo-nos com frequência em
reuniões familiares e durante as férias – continuou a minha tia.
– E que opinião tem acerca da personalidade dela, do seu carácter?
– É uma pergunta complicada – disse Grier –, porque a impressão que
tenho dela foi influenciada por acontecimentos que vieram ao de cima antes
de a ter conhecido. No entanto, tendo em conta o passado dela, diria que a
Grace é uma criatura de hábitos. Exibe padrões semelhantes de
comportamento, nomeadamente de abandono, e parece impelida por um
desejo único.
– E que desejo é esse?
– Bem, no fundo, dinheiro. Mas, é claro, este desejo tem sempre uma
causa subjacente. Talvez para a Grace o dinheiro represente uma sensação
de liberdade ou de segurança que a família, de classe baixa, nunca lhe pôde
proporcionar. Quiçá o dinheiro lhe concedesse uma sensação de poder. Não
lhe sei dizer; não a conheço bem o suficiente.
– Diz que a Grace é uma criatura de hábitos. Pode dar-me um exemplo do
que quer dizer com isso? – pediu o Sr. Lynch.
– Bom, pensemos no que ela fez ao Teddy – disse a minha tia. – Não foi
por coincidência que a Grace se instalou perto de Princeton e conheceu o
Teddy. Era óbvio que andava atrás de um namorado rico. O Teddy era um
bom partido; vinha de uma família rica e bem-estabelecida, por isso, a
Grace investiu o seu tempo nele e no relacionamento que desenvolveram. E
depois, quando conheceu o Alistair, o herdeiro preferido, uma pessoa que já
estava posicionada para liderar o Calloway Group, tornou-o no seu alvo. Ao ver uma oportunidade de o arrebatar, não a desperdiçou. Para ela, isso
constituiu um progresso.
Conseguia ouvir os batimentos do meu coração. Estava atordoada. A
minha mãe namorara o tio Teddy? Trocara-o pelo meu pai? Seria verdade?
– E encara ambos os relacionamentos como motivados sobretudo pelo
dinheiro? – inquiriu o investigador privado.
– Sim – afirmou a tia Grier. – Toda a gente está a reagir como se o facto
de a Grace ter pegado no dinheiro e fugido fosse uma coisa surpreendente.
Mas, se olharmos para o passado dela, trata-se de um comportamento que
ela tem exibido repetidamente. A Grace é, à semelhança da maioria das
pessoas, uma criatura de hábitos. Neste caso, teve a oportunidade de ficar
com o dinheiro do Alistair sem quaisquer obrigações nem prisões, sem
marido, sem filhos, sem nada que a prendesse. Mais uma vez, a Grace
vislumbrou uma hipótese de subir na vida e aproveitou-a.
Fechei o portátil, com força. Não queria ouvir mais nada. Não podia. A
minha mãe tinha usado o tio Teddy e o meu pai para subir na vida e, assim
que a oportunidade surgira, fugira com o dinheiro? Todos aqueles anos,
limitara-se a manipular-nos? E isso fazia de mim o quê? Um subproduto da
sua ganância, um estorvo, uma «obrigação» ou uma «prisão» que constituía
um obstáculo para conseguir o que realmente queria?
E que outros segredos obscuros do passado me escondia a minha família?
Talvez escutar aqueles interrogatórios e remexer naqueles ficheiros não
fosse uma boa ideia. E se descobrisse coisas que não só arruinariam as boas
recordações que guardava da minha mãe como manchariam o
relacionamento com a família que me restava? Valia mesmo a pena?
*
– Estou furibunda – reclamou Drew, suspirando. Atravessávamos o pátio
rumo a Rosewood Hall. – Física Quântica? Trigonometria? Mas ela passa-
se? Quase adormeci a ler a descrição das disciplinas, como é que vou
sobreviver a um semestre inteiro de ciências?
Drew estava aborrecida porque Mariah lhe dissera que precisava de fazer
algumas disciplinas da área da matemática e das ciências no semestre
seguinte para contrabalançar as aulas de arte, de história e línguas que ela
parecia colecionar.
– Eu quero ir para a universidade estudar ciência política – realçou Drew. – Não ciências puras.
– Por falar do próximo semestre – interrompi-a, baixando o tom de voz. –
O Dalton disse-me que, enquanto membros do A, temos direito a matrículas
preferenciais para o semestre de primavera.
Por norma, apenas os finalistas tinham acesso a matrículas preferenciais,
o que significava que se podiam inscrever primeiro do que os restantes nas
disciplinas da sua preferência. Aparentemente, Jude Bane tinha conseguido
entrar no sistema e enganá-lo, levando-o a pensar que os pré-finalistas eram
finalistas e, deste modo, permitindo-nos saltar para o início da fila quando
as matrículas abrissem.
– Aleluia! – exclamou Drew. – Vou finalmente inscrever-me no
seminário de Ioga e Mindfulness da professora Horvath. Desde que vim
para Knollwood que o queria fazer, mas sempre que chegava a minha vez, a
turma já estava cheia.
– Temos de entregar a nossa lista de disciplinas ao Dalton até ao final da
semana para ele as introduzir no sistema – disse. – Talvez pudéssemos
coordenar a coisa de modo a termos um horário semelhante?
– Boa ideia – concordou Drew. – Ah, é verdade, nunca chegaste a contar-
me que coisas horríveis é que a Mariah te disse?
– Pelo visto, careço de empatia e sofro de um caso grave de narcisismo –
confessei.
– Pois, sim. Aponta-me um adolescente que não se enquadre nessa
descrição – comentou Drew, nem um pouco impressionada.
– Também te chamou narcisista a ti?
– Não, mas a Stevie contou-me que a Mariah lhe disse que o seu
perfecionismo raiava um transtorno obsessivo-compulsivo e recomendou-
lhe terapia.
– Au, essa foi dura.
– Podes crer.
– Como é que a Stevie reagiu?
– Está a criar uma folha de cálculo com o nome de psiquiatras num raio
de oitenta quilómetros que estejam abrangidos pelo seguro de saúde dos
pais dela, incluindo as faculdades em que andaram e respetivas
especializações, antes de tomar uma decisão definitiva.
– Se calhar, a Mariah não estava muito longe da verdade.
– Pois… – anuiu Drew.
– A mim, a Mariah disse que terei mais hipóteses de entrar na
Universidade da Pensilvânia se me inscrever em algumas atividades
extracurriculares – revelei.
– Desde o primeiro ano que te digo isso – referiu Drew. – Devias ir para a
esgrima. Juro que te ajudará a libertar toda a agressividade reprimida que
tens dentro de ti.
Pensei no jogo de voleibol em Camp Wallaby.
– Não primo pela coordenação motora – aleguei.
– Tens razão – concordou Drew. – E que tal o clube de debate? A luta
física pode não ser o teu forte, mas o pugilismo verbal é, sem dúvida, a tua
cara.
– Sim, mas o clube de debate? Prefiro não entrar na Universidade da
Pensilvânia do que ser uma feroz oradora.
– Pronto, está bem. – Drew parou de repente e esticou o braço para me
travar também, de tal maneira que me deu um murro no estômago.
– Au! – reclamei. – Ao menos, avisa!
– Tive uma ideia bestial – explicou Drew, e recomeçou a andar.
– Consegues ter ideias bestiais e caminhar ao mesmo tempo? – indaguei.
Esfreguei o estômago.
– Chiu – disse Drew. – Escuta. É de génio. Devias juntar-te ao Knollwood
Chronicle.
– O jornal da escola? – questionei, duvidosa.
– Sim. Podias ser, sei lá… Colunista na secção de opinião. O jornal tem
muito mais influência do que o clube de debate. Não é bem o mesmo que
praticares um desporto, mas está lá quase.
– Hum, não sei – respondi.
– A Universidade da Pensilvânia há de adorar esse tipo de coisas –
aventou Drew. – E assim a Mariah deixava de te chatear.
– Talvez.
– Meninas – cumprimentou Leo, aproximando-se de mim e de Drew pelas
costas e colocando um braço em redor dos nossos ombros.
Drew enxotou-o.
– Que nojo! – reclamou ela. – Acabei de tomar um duche.
– Onde é que tens andado ultimamente? – perguntei a Leo. – A tua Xbox
sente-se um bocadinho posta de parte.
– Desculpa, as minhas atividades extracurriculares têm-me mantido ocupado – explicou Leo. – Por falar disso, que vos pareceu a segunda
ronda?
– Quando é que…
– Esta manhã – respondeu Leo. – Vão às vossas caixas de correio.
– Que te saiu? – quis saber.
Leo tirou o braço de cima dos meus ombros e levou a mão ao bolso do
casaco.
– Parece que tenho de ir à pesca – disse ele.
Drew e eu parámos para ler o cartão que ele me estendera.
Item #2: Um dos peixes da estátua da Fonte de Poseidon
Drew franziu os lábios como se fosse um peixe.
A Fonte de Poseidon ficava no relvado norte, em frente ao teatro. Era uma
fonte de grandes dimensões, em pedra, com a figura do deus do mar no
centro, montado numa onda espumosa e brandindo o seu tridente no ar.
Estava rodeado por cinco peixes que saltavam da água e a vertiam pelas
bocas abertas. Roubar um dos peixes seria uma tarefa complicada se Leo
não tivesse ninguém que o ajudasse, pois com certeza que as estátuas eram
pesadas demais para serem carregadas por uma só pessoa. Por sorte, Leo
tinha-me a mim.
– Podia ser pior – comentei, e devolvi-lhe o cartão.
Leo acompanhou-nos até à sala do correio de Rosewood Hall. Encostou-
se à parede ao lado da minha caixa.
– Vai uma aposta sobre o que vos irá sair? – desafiou Leo. – A receita
secreta dos biscoitos da senhora Wilson?
– Hum… Ou o pit bull do diretor Collins… O cão mesmo, desta vez –
aventei.
Tirei o cartão da minha caixa e li.
Item #2: Uma fotografia comprometedora de ti com o professor Andrews
Fiquei com um nó no estômago.
Drew inclinou-se para ler ao mesmo tempo que abria a sua caixa de
correio.
– Não é justo – resmungou ela. – Seduzir o senhor Andrews? Sorte a tua!
Eu fazia-o só por desporto.
– Que te saiu, Reisling? – inquiriu Leo.
Drew sacou do cartão.
– Merda! – exclamou, depois de o ler.
– É assim tão mau? – inquiri.
– Vê por ti mesma – disse Drew, e passou-me o cartão.
Peguei nele e li-o, em conjunto com Leo.
Item #2: Teste de Trigonometria do professor Franklin
Chocado, Leo assobiou.
– Caramba, Reisling – comentou ele. – Quem é que irritaste para te sair
uma coisa assim?
Drew e eu entreolhámo-nos. Ren. O namorico de Drew e Crosby não
passara despercebido. Ren estava a usar o Jogo para levar a cabo a sua
vingança.
Roubar um teste já seria mau o suficiente devido à política de tolerância
zero de Knollwood no que dizia respeito a batota, cópia e outros tipos de
desonestidade intelectual. Se Drew fosse apanhada a tentar roubar um
exame, seria expulsa, ponto final. Aquele exame em especial, contudo, seria
ainda mais difícil de subtrair, porque o professor Franklin o elaborava
sempre, de raiz, no dia anterior. Não havia nenhum atalho fácil, tal como
conseguir um exame antigo de um aluno mais velho ou aceder ao
computador do professor Franklin para conseguir uma cópia. Não, ia ser
uma verdadeira manobra digna de Missão: Impossível.
– Não sei bem – respondeu Drew a Leo. – Mas está visto que há alguém
que me odeia.
À porta do edifício que albergava o Knollwood Chronicle, imaginei todas as
coisas que preferiria estar a fazer naquele momento.
A comer um frasco de jalapeños crus até ficar com a garganta em sangue.
A ter outra conversa sincera com Mariah acerca do meu distúrbio de
personalidade.
A correr uma maratona num dia escaldante de agosto, com o alcatrão a
derreter.
Nenhuma dessas coisas parecia divertida, mas eram todas mais apelativas
do que o que me preparava para fazer. Ainda assim, disse a mim mesma
para agir como uma adulta, respirei fundo e empurrei a porta da sala de
redação.
A ideia que tinha do que devia ser a redação de um jornal de liceu estava,
em larga medida, deturpada por filmes antigos como O Grande Escândalo e
O Mundo a Seus Pés e Os Homens do Presidente. Imaginava uma sala onde
os editores – de óculos e pulôveres sem mangas, cada qual com um lápis
atrás da orelha – perseguiam os repórteres ao longo de filas apertadas de
secretárias, exigindo saber onde tinham conseguido os seus furos; os
repórteres, esses, juravam sempre a pés juntos jamais revelar as suas fontes.
Imaginava jornalistas curvados sobre máquinas de escrever, pilhas
intermináveis de copos de esferovite com café rançoso e o som dos
telefones a tocar.
A redação do Knollwood Chronicle assemelhava-se às restantes salas da
escola: as mesmas paredes cinzento-acastanhadas, a mesma carpete cor de
rato, algumas secretárias com computadores e cadeiras. Numa das pontas, vi
um sofá velho e remendado e, na outra, um arquivador metálico. O silêncio
imperava. Vi apenas uma mão cheia de pessoas sentadas ao computador,
teclando, e um pequeno grupo junto ao sofá.
– Posso ajudar-te?
Virei-me e vi uma rapariga pálida e morena sentada atrás da secretária
que ficava mais perto da porta.
– Isto é o Chronicle? – perguntei.
– Em toda a sua glória – respondeu ela. Pôs-se de pé e inclinou-se por
cima do computador para me apertar a mão. – O meu nome é Penn Franklin,
sou a editora-chefe.
Penn era finalista. Nunca nos tínhamos conhecido oficialmente, mas eu
sabia quem ela era, conhecia-a de vista.
– Sou a Charlie – apresentei-me. – Queria experimentar o Chronicle
como atividade extracurricular, se ainda tiverem vagas.
Ela franziu a testa. Não só porque eu lhe aparecia ali na última semana de
inscrições para os vários clubes, mas também porque era uma pré-finalista
que nunca antes entrara no Chronicle. A maioria dos alunos que se
inscreviam nos clubes eram caloiros, ansiosos por encontrar o seu lugar na
escola. Os alunos do terceiro ano tinham já encontrado o seu nicho. Grande parte deles trepara até aos degraus mais altos do clube ou do desporto que
haviam escolhido enquanto caloiros. Drew era cocapitã da equipa de
voleibol. Stevie era presidente da Comissão Estudantil de Ética. Leo era
delegado de turma. Eu era desprovida de título.
– Em que departamento é que estavas interessada? – inquiriu Penn. –
Redação, fotografia, layout, marketing, vendas?
– Redação – afirmei. – Redação, sem dúvida.
– A maior parte das secções já foi distribuída – referiu Penn, e prendeu
uma madeixa de cabelo atrás da orelha. – Terei de ver se algum dos nossos
editores te pode aceitar.
– Eu posso ficar com ela.
Reconheci a voz antes mesmo de me virar e ver os seus caracóis louros e
sedosos penteados na perfeição. Harper Cartwright.
– Temos uma vaga nas rubricas – disse Harper, e sorriu para mim.
Cerrei instintivamente os maxilares.
– Perfeito – replicou Penn, não me dando tempo de bater em retirada com
uma desculpa esfarrapada qualquer. É que eu já sabia no que me estava a
meter. Sendo o membro mais recente da equipa, já esperava vir a ser
sobrecarregada de trabalho, ter de servir cafés e ficar com as histórias de
merda que mais ninguém queria. Aquilo, porém, seria totalmente diferente.
Seria colocar-me diretamente sob a bota de Harper Cartwright, coisa que
não me apetecia nada tendo em conta que ela era a mais recente ex-
namorada de Dalton e o mais certo fosse que suspeitasse que Dalton e eu
fôssemos mais do que bons amigos.
– Perfeito – repetiu Harper, e o brilho perverso no seu olhar foi bem
notório. – Estamos mesmo a acabar de alinhavar uma ideias, se te quiseres
juntar a nós.
– Excelente ideia – menti.
Segui-a até um canto da sala onde um pequeno grupo de alunos se reunira
em redor de uma velha mesa de café e tomei o único lugar vago no sofá
remendado. Harper acomodou-se num cadeirão, de frente para o sofá, de
bloco de notas na mão.
– Esta é a Charlie – apresentou-me Harper ao grupo.
Olhando à minha volta, dei-me conta de que não conhecia uma única
pessoa ali, o que talvez quisesse dizer que eram quase todos caloiros.
Pareciam tão jovens e inocentes.
– A Charlie é pré-finalista – continuou Harper. – É nova no jornal, por
isso vocês vão ter de lhe ensinar como é.
Quase revirei os olhos perante tamanha condescendência, mas lá consegui
fazer um sorriso e acenar ao grupo.
– Finn, é a tua vez – disse Harper, depois de dar uma vista de olhos ao seu
bloco de notas.
– Ora bem – começou Finn, sentado ao meu lado e chegando-se um
pouco à frente. – Imaginem isto. Título: «Uniformes Escolares». Subtítulo:
«O Grande Nivelador ou o Grande Divisor?» – Gesticulou com grande afã,
como se estivesse a escrever o título invisível no ar à sua frente com os
dedos atarracados e sapudos. – O título precisa de ser apelativo, claro, de
ficar no ouvido, mas o cerne do artigo seria um olhar ao mesmo tempo
político e estilístico, digamos assim, acerca destes uniformes hediondos que
somos obrigados a usar.
Foi então que reparei nos vincos irrepreensíveis das suas calças, no
casaco perfeitamente engomado. No bolso do peito, colocara um lenço de
seda cor-de-rosa. Tive de me morder para não fazer uma careta desdenhosa.
Mais um caloiro obcecado por roupa e indignado por termos de usar casacos
de poliéster nas aulas. Oh, por favor, matem-me já, pensei. Eu bem sabia
que ir ali era um erro.
– Parece fascinante – comentou Harper, ao mesmo tempo que acenava
com a cabeça e rabiscava no bloco. – Parece ser um tema vasto, por isso,
vou juntar-te à Charlie.
– Charlie, eu? – indaguei, esperando e sabendo ao mesmo tempo que era
inútil desejar que houvesse outra Charlie no grupo.
– Sim, tu, Charlie – confirmou Harper. – Vocês os dois podem partilhar a
autoria do artigo.
Tinha de partilhar o meu primeiro artigo com um caloiro? Tinha de pôr o
meu nome num artigo ridículo acerca de riscas versus bolas que toda a
escola iria ver? E era suposto a Universidade da Pensilvânia ficar
impressionada com isso?
É que nem pensar.
– Na verdade, eu tenho uma ideia bestial para uma história – aleguei.
– Tenho a certeza de que sim – disse Harper – e nós vamos todos adorar
saber qual ela é… Mas fica para a próxima reunião. As nossas páginas já
estão cheias. – Harper fechou o bloco com estrondo e sorriu para o grupo. – Excelente trabalho esta semana, malta. Estou ansiosa por ler o vosso
trabalho. Não se esqueçam de me entregar os rascunhos até ao final de
sexta-feira.
Ao mesmo tempo que as restantes pessoas arrumavam os cadernos, os
estojos e os portáteis, Finn virou-se para mim.
– Queres ir tomar um café? – propôs ele. – Podíamos aproveitar para
delinear um plano geral para o artigo.
– Agora não vou poder – respondi. – Tenho de ir a um sítio.
Tipo um sítio qualquer menos este.
– Okay – disse ele. – Nesse caso, devíamos trocar números de telefone ou
endereços de e-mail, para combinarmos encontrar-nos mais tarde.
Harper encaminhava-se para a porta. Tinha de falar com ela antes que se
fosse embora, convencê-la a deixar-me escrever o meu próprio artigo.
– Claro – anuí. Rasguei o canto de uma folha de papel que encontrei na
mala, rabisquei o meu e-mail e entreguei-lhe o papel, pondo-me de pé ao
mesmo tempo. – Aqui tens. Depois, envias-me o teu.
Atravessei a redação a correr e saí pela porta antes que ele pudesse reagir
ou protestar.
– Harper! – chamei.
Harper parou a meio do corredor e virou-se.
– Ei, Charlie. Estou muito contente por teres decidido juntar-te ao
Chronicle. Não fazia ideia de que te interessavas por jornalismo.
«Não tenho o mínimo interesse», apeteceu-me responder. «Só quero uma
desculpa para passar mais tempo contigo. Talvez mais tarde possamos
pintar as unhas juntas e entrançar o cabelo uma à outra?» No entanto, mordi
a língua. Tinha de ser simpática.
– Sim – menti, uma vez mais. – Estava a pensar que talvez pudesse ficar
de fora desta vez e vir à reunião na próxima semana?
– Podes dizer-me quais são, ao certo, as tuas preocupações em relação a
fazeres esta história com o Finn? – pediu Harper, mudando a alça da mala
de um ombro para o outro. Franziu o sobrolho como se estivesse
verdadeiramente interessada na minha resposta.
– Ora, Harper – repliquei. – Uniformes escolares? É um artigo ridículo e
entediante. Acho que, mesmo que me esforçasse, não me ocorreria nada
menos interessante.
Harper clareou a garganta; olhou por cima do meu ombro esquerdo. Virei-me e vi Finn atrás de nós. Estava vermelho como um tomate.
– Com licença – disse ele.
Não disse nada; limitei-me a dar um passo ao lado para o deixar passar.
Harper e eu ficámos ali especadas, em silêncio, a ouvir os passos dele
desvanecerem-se e desaparecerem depois de ter dobrado a esquina. À
distância, uma porta abriu e fechou.
Harper sorriu.
– Como sabes, esta é a última semana de inscrição nas atividades
extracurriculares – fez ela notar. – Portanto, se queres um lugar no jornal,
terás de partilhar este artigo com o Finn.
Suspirei.
– Não podes mesmo dar-me mais nada?
– Preciso de mil palavras até sexta-feira – afirmou Harper.
Depois, deu meia volta e foi-se embora, e eu fiquei a ver a minhas
hipóteses de ser bem-sucedida naquela atividade extracurricular
desaparecerem com ela.
*
A primeira coisa que fizemos foi apagar as luzes da fonte. Estava uma noite
escura, de Lua nova, mas quando a Fonte de Poseidon se acendia sabíamos
que o Velho Riley, ou qualquer outra pessoa que deambulasse pelo campus
às duas da manhã, conseguiria ver-nos a várias centenas de metros de
distância.
Leo tinha um conjunto de chaves iguais às do porteiro, que abriam todas
as portas da escola. O A fizera uma cópia antes de ter tramado Auden,
colocando o conjunto original no seu cacifo. E foi desse modo que o meu
primo conseguiu aceder ao quadro elétrico que ficava no teatro e apagar as
luzes.
A coberto da escuridão, despi-me e, apenas de roupa interior, enfiei-me
na bacia da fonte. Estávamos em outubro e o ar era frio. Fiquei com pele de
galinha nos braços e nas pernas ao mesmo tempo que avançava para o meio
da fonte, onde ficava o sorvedouro. Com a fonte cheia, a água chegava-me à
cintura.
Nunca gostara muito de estar dentro de água. Aprendi a nadar tarde, para
desilusão da minha mãe, que sempre fora uma nadadora inata.
Aos quatro anos, os meus pais ensinaram-me a nadar na piscina interior da casa dos meus avós, em Greenwich. Recordo-me de a minha mãe me
segurar, de barriga para baixo, e me dizer que desse aos pés e às mãos.
Assim que me largava, porém, eu começava a afundar-me e agarrava-me a
ela, e ela trazia-me ao de cima, a chorar e a cuspir água.
– A mimá-la desse modo, jamais vai aprender – disse o meu pai, sentado
na beira da piscina com as pernas na água.
– Ela há de chegar lá quando for a altura certa para ela, quando se sentir
preparada – argumentou a minha mãe, e sentou-me ao lado do meu pai. Saiu
da piscina e secou-se com uma toalha. – Aprendi a nadar quando ainda
andava de fraldas. Está nos genes dela. É só dar-lhe tempo.
Esticou o braço e despenteou-me o cabelo.
– Tenho de telefonar ao Hank antes do jantar – afirmou ela, ao mesmo
tempo que inclinava a cabeça para um dos lados, para tirar a água dos
ouvidos.
– Nós aqui estaremos, não é? – disse o meu pai, falando comigo. – A
olhar para a bonita piscina e a pensar como seria bom nadar nela.
– Não a apresses, Alistair – pediu a minha mãe, e agachou-se para beijar o
meu pai na face. – Ela chega lá por si mesma.
Depois de a minha mãe se ter ido embora, o meu pai meteu-se na água.
Afastou-se da beira e virou-se, estendendo os braços na minha direção.
– Vá, Charlotte – incitou ele. – Nada até ao papá.
Olhei para ele, duvidosa.
– Salta – pediu o meu pai. – Salta que eu apanho-te.
Pus-me de pé na borda da piscina e olhei para os seus braços esticados.
Não pareciam muito longe. Sem dúvida que, com um salto, conseguiria
alcançá-lo. E decidi saltar.
Senti os pés entrarem na água e depois a cabeça a afundar-se e fiquei à
espera, à espera de ver os braços do meu pai imergirem para me agarrarem,
para me salvarem, mas isso não aconteceu.
A minha primeira reação foi gritar por socorro, e foi o que fiz. Abri a
boca para chamar o meu pai e a minha boca encheu-se de água.
A minha reação seguinte foi entrar em pânico; pontapeei e esbracejei
numa tentativa desesperada de nadar ao mesmo tempo que ia ao fundo. Abri
os olhos e senti o ardor provocado pelo cloro. Olhei para cima e vi a figura
desfocada do meu pai, pairando acima de mim, longe do meu alcance.
Estiquei o braço e ele deu um passo atrás. Ouvia a voz dele, abafada, e fiquei com a sensação de que chamava por mim, mas debaixo de água não
conseguia escutá-lo com nitidez.
O coração martelava-me no peito com força. Não conseguia respirar.
Ardiam-me os pulmões.
Então, houve qualquer coisa que me agarrou por trás e me puxou até à
tona da água.
Chorei, berrei; não conseguia ver e respirava sofregamente. Demorei um
momento a perceber que estava ao colo da minha mãe. Tirara-me da piscina
e envolvera-me na sua toalha molhada. Embalava-me para me acalmar.
– Caramba, Alistair – reclamou a minha mãe, por cima do meu ombro. –
Onde é que tinhas a cabeça?
– Ela teria nadado – alegou o meu pai. Não conseguia vê-lo, porque ele
estava atrás de mim, na piscina. – Teria percebido como se faz, se não
tivesses intervindo logo. Eu não deixaria que lhe acontecesse nada.
Na bacia da fonte, fui apalpando o chão com o pé até o encontrar: o
tampão. Respirei fundo, sentei-me no chão e puxei por ele.
– Está uma noite muito agradável para dar um mergulho – comentou Leo
quando eu regressei à superfície. Estava sentado ao meu lado, à espera que a
água escoasse à nossa volta.
Esvaziada a fonte, desmontámos um dos peixes do seu pedestal. Era tão
pesado que tivemos de carregá-lo os dois, devagarinho e bamboleando, até
ao teatro. Escondemo-lo na sala dos adereços, coberto com um lençol.
*
Era o final do dia de quinta-feira e, como seria de esperar, Finn não me
contactara a combinar um local de encontro para redigirmos o rascunho do
artigo. Não o podia censurar, obviamente, mas não ia permitir que
escrevesse uma história sozinho, que eu assinaria, ou, pior ainda, revelasse a
Harper que eu não o ajudara, dando-lhe assim uma desculpa para correr
comigo do jornal. Uma vez que Harper não me deixaria escrever um artigo
só meu, a minha única opção era convencer Finn a conduzir o artigo numa
direção diferente, menos choninhas. Assim, mal o avistei na outra ponta do
refeitório, peguei no meu tabuleiro de piza e refrigerante e dirigi-me à mesa
dele.
Drew olhou para mim quando passei, sem parar, junto à mesa onde
costumávamos ficar e onde ela estava sentada com Yael e Stevie e os rapazes – Leo, Dalton, a malta toda.
– Ei, onde é que vais? – chamou-me ela.
Vou suicidar-me socialmente, humilhar-me para o resto da vida,
provavelmente, tive vontade de dizer, mas limitei-me a encolher os ombros
e a fazer uma careta.
Avancei a passos largos para a mesa de Finn. Estava acompanhado de uns
caloiros borbulhentos e transpirados que conversavam animadamente, mas
que se remeteram ao silêncio assim que me viram.
– Olá, Finn – disse eu.
Finn levantou a cabeça e, ao ver que era eu, corou mais uma vez. Fixou o
olhar no prato, onde tinha o garfo espetado num novelo de linguine.
– Olá – respondeu ele.
– Há muito tempo que não nos víamos – continuei.
– Pois – replicou ele, sem olhar para mim, e eu quase que me senti mal
por isso. Em parte, por ele, pelo que me ouvira dizer no corredor, mas
também por mim mesma, por ter de aturar isto. É que, independentemente
de o ter magoado, o que eu dissera era verdade.
– Achas que podíamos encontrar-nos mais tarde? – inquiri. Nem sequer
disse para trabalharmos no artigo, porque achei que seria boa ideia fazer
um favor ao miúdo. Os amigos que pensassem que nos íamos encontrar por
outros motivos; que achassem que ele tinha um encontro com uma pré-
finalista.
Finn limitou-se a encolher os ombros, porém.
– Não sei. Mais logo vou estar ocupado.
Oh, merda.
Encolhi também os ombros.
– Não tem importância – respondi. – Pode ser agora.
Dei um passo à frente e pousei o tabuleiro na mesa. Os amigos de Finn
deslizaram no banco para me dar espaço.
– Olá, eu sou a Charlie – apresentei-me, e abri a lata do refrigerante.
– Sou o Declan – disse o miúdo sentado ao lado de Finn, sacudindo a
cabeça para desviar a franja dos olhos.
– Luke – apresentou-se o rapaz ao meu lado.
– O Finn e eu estamos a escrever um artigo para o Chronicle acerca de
uniformes escolares – informei.
Levei a ponta do indicador à boca para sugar o refrigerante que salpicara e saquei do portátil da mala que tinha ao ombro.
Decidi que talvez até jogasse em meu favor o facto de os amigos de Finn
estarem ali. Ao discutirmos o artigo à frente deles, porventura Finn se
apercebesse do quanto este era ridículo e compreendesse que precisávamos
de abordá-lo sob um ângulo diferente ou de arranjar um tópico mais
apelativo.
– Estive a pensar que podíamos usar algumas citações no artigo – sugeri.
– Que acham vocês do uniforme? – perguntei a Declan e a Luke. – São pró-
poliéster ou antipoliéster?
– Sinceramente – interrompeu-me Finn, arqueando as sobrancelhas –, isto
vai para lá da ridicularia que é forrar um blazer com poliéster. Queria seguir
por uma via mais política.
– E que há de político, ao certo, nos blazers? – perguntei.
– Pensa lá – pediu Finn. – Em Knollwood, o objetivo do uniforme é
eliminar as divisões socioeconómicas, mas esse é um contexto muito
restrito, centrado no microcosmo do nosso campus. Se pensarmos nas
comunidades mais abrangentes de que fazemos parte, Falls Church, por
exemplo, ou New Hampshire, ou mesmo nos Estados Unidos, então, o
uniforme de Knollwood torna-se não num elemento igualador, mas num
símbolo de status.
Hum. Não me passara pela cabeça que ele quisesse seguir naquela
direção. Em abono da verdade, nunca tinha passado muito tempo a pensar
no uniforme que usava, na maneira como as outras pessoas o encaravam e
no que ele significava. E de que modo esse significado podia mudar
dependendo de onde eu me encontrava e de com quem estava.
– Isso é profundo, meu – comentou Declan.
– Não é tão merdoso como eu achava que iria ser – admiti. – Na verdade,
não é mesmo nada merdoso.
– Eu sei – afirmou Finn. – Está longe de ser um artigo ridículo e
entediante.
Clareei a voz e abri um novo documento no processador de texto.
– Pois, não é nada entediante. Já fizeste algum esqueleto do artigo?
Finn deu um gole na sua água e secou delicadamente os cantos da boca
com o guardanapo.
– Já – respondeu depois. – Estava a pensar ir para a biblioteca terminar o
rascunho, antes que feche. Se quiseres vir…
Consultei o meu relógio de pulso. Passava pouco das sete da noite.
– Claro – afirmei. Fechei o portátil e embrulhei a fatia de piza num
guardanapo para a comer pelo caminho. – Vamos então. Foi um prazer
conhecer-vos, Declan e Luke.
– Igualmente – respondeu Declan.
Era capaz de jurar que, ao levantar-me para pegar no tabuleiro, vi Luke
piscar o olho a Finn.
Finn e eu levámos os tabuleiros até ao tapete rolante que ficava numa das
extremidades do refeitório, onde devíamos colocar a louça, e encaminhámo-
nos para as portas de vidro que davam para o pátio do refeitório e para o
caminho que contornava o edifício e conduzia à biblioteca.
– Devíamos fazer umas entrevistas com alunos aqui da escola – aventei. –
Podíamos fazer assim tipo um jogo de associação livre. Pedíamos às
pessoas que nos dissessem as primeiras três palavras que lhes viessem à
cabeça quando pensavam nos uniformes de Knollwood. Era giro vermos
que conotações vêm ao de cima, a perceção subconsciente que as pessoas
têm do uniforme.
Dei uma dentada na piza e quase esbarrei em Finn, que estacara e se
colocara à minha frente, virado para mim.
– Olha – começou ele. – Não quis dizer isto à frente dos meus amigos e
parecer uma cavalgadura, mas não vou partilhar este artigo contigo. Já o
escrevi e o teu nome não vai constar dele.
Quase que me engasguei com a piza. Engoli à pressa o pedaço que tinha
na boca. Estava mal mastigado e arranhou-me a garganta e o esófago ao
descer. Os meus olhos encheram-se de lágrimas.
– É por eu ter dito à Harper que achava o teu artigo ridículo? – perguntei.
– É que eu queria escrever o meu próprio artigo, foi só por isso. Não sou
muito boa nesta coisa de… colaborar, de trabalhar em equipa.
– Eu também não ansiava por partilhar o meu artigo com ninguém – disse
Finn. – Sobretudo com uma pessoa que chegou quase no final do período de
inscrições e escapou da Semana Infernal. Mas não agi como um idiota por
causa disso.
– Que é a Semana Infernal? – perguntei.
– Obrigaram todos os caloiros a usar chapéus de burro, e não apenas na
redação, mas em todo o lado. E tínhamos de correr à volta do edifício de cada vez que usávamos a voz passiva e lavar a roupa dos editores. Coisas
desse tipo.
– Argh – comentei.
– Pois – concordou Finn. – Portanto, teres chegado a meio da reunião, a
armar em grande, e exigires assinar o teu próprio artigo e depois chamares
ridícula e entediante à minha ideia quando eu tenho de aguentar contigo…
Digamos que é preciso ter lata, muita lata, se queres a minha opinião. Ainda
que eu seja um caloiro e tu sejas… tu.
– Eu sou… Eu? Que quer isso dizer?
– Ora, és a Charlie Calloway – respondeu Finn, e consegui ver o itálico
na forma como ele disse o meu nome, como se isso quisesse dizer alguma
coisa.
– Olha, deixa-me ajudar-te a escrever este artigo e, em troca, eu faço
qualquer coisa por ti – propus. – Há de haver alguma coisa que queiras.
Podes dizer aos teus amigos que curtiste comigo, se quiseres.
– Sou gay – declarou Finn.
– Ah. Achei que os teus amigos achavam que éramos… Não sei. Tenho
quase a certeza de que o teu amigo Luke te piscou o olho, há bocado.
– O Luke é um idiota – disse Finn.
– É que… Tipo… Eu preciso disto – admiti. – Se não partilhares este
artigo comigo, a Harper corre comigo do jornal. E eu preciso deste jornal
para entrar na Universidade da Pensilvânia.
– Lamento – respondeu Finn.
Por um segundo, achei que estava a pedir-me desculpa, que mudara de
ideias em relação ao artigo.
– Lamento – repetiu ele. – Uma singela palavra. Devias tentar usá-la de
vez em quando.
– Hã? – perguntei.
– Chama-se um pedido de desculpa. Contrição. Sentirmo-nos mal quando
praticamos uma má ação.
– Eu sei o que «contrição» quer dizer – afirmei.
– Ah sim? É que eu não ouvi nenhum pedido de desculpa, de espécie
nenhuma. A única coisa que ouvi foi tu a debitares aquilo de que precisas,
aquilo que queres e de que maneira podes manipular-me para o conseguir. E
estou certo de que isso até costuma resultar. Mas esta não é uma dessas
vezes – declarou Finn.
– Finn – supliquei. – Por favor.
Ele deu meia volta e começou a subir o caminho.
– Lamento – disse, por cima do ombro.
Mas não soava minimamente lamentoso.