Magníficos Estranhos
Trinta e três CHARLIE CALLOWAY
Trinta e três
CHARLIE CALLOWAY
2017
Durante toda a aula, senti o olhar fixo de Dalton em mim, mas ignorei-o
com determinação, olhando para todo o lado, menos na direção dele.
Não falava com Dalton desde o incidente à porta do refeitório, há três
dias, mas ele tentara, mais do que uma vez, chegar à fala comigo: bilhetes
na minha caixa de correio (Charlie, lamento muito, podemos falar?), um
ramo de rosas deixado à porta do meu quarto. O seu truque preferido era
tentar encurralar-me no corredor, depois das aulas, por isso, eu
desenvolvera o hábito de pedir licença para sair uns minutos antes de a
campainha tocar e assim escapava-me a Dalton.
Greyson continuava por perto. Reservara um quarto de hotel em Falls
Church e passava pelo campus ao final do dia para me visitar. Eu tinha-lhe
contado tudo: desde as minhas mais recentes descobertas acerca do
envolvimento do meu pai na morte de Jake até ao que acontecera com
Dalton, e Greyson havia insistido em ficar, para se assegurar de que eu
estava bem e para me ajudar com o caso do desaparecimento da minha mãe.
Greyson passava a maior parte do dia na biblioteca pública de Falls
Church, a fazer pesquisa, por isso, fiquei surpreendida quando, ao regressar
ao quarto depois do almoço, o encontrei ali, esparramado na cama de Drew
e rodeado de papelada.
– Hoje descobri isto – anunciou Greyson. Levantou-se da cama e
entregou-me uma pequena pilha de papéis agrafados. – É uma cópia do
relatório da autópsia de Jake.
– Como é que arranjaste isto? – perguntei, aceitando o relatório depois de
ter largado a mochila em cima da secretária.
Greyson encolheu os ombros.
– Está no arquivo público.
Passei os olhos pelas folhas. A descrição do patologista acerca do corpo
de Jake revelou-se difícil de ler. «Empalidecimento e intumescimento da
epiderme… Água encontrada no estômago… Aspiração de fluidos nas vias
aéreas… Espuma rosada na boca». Pelas estimativas do patologista, a morte
ocorrera entre as vinte e as vinte e quatro horas do dia 21 de dezembro de
1990. Como causa da morte, o patologista apontara «edema pulmonar».
– Edema pulmonar? – perguntei, e olhei para Greyson.
– Quer dizer acumulação de fluidos nos pulmões – explicou Greyson. –
Afogamento.
– Então, a mãe do Dalton disse a verdade – comentei.
– É o que parece – concordou Greyson, e apontou para o meio da página
seguinte. – E aqui é afirmado que não foram encontradas escoriações ou
hematomas consistentes com uma luta, ou seja, nada que sugerisse que ele
tivesse sido manietado ou obrigado a lançar-se para a ravina.
– Então, a conclusão foi suicídio – referi.
– Sim. E se a isso juntarmos o bilhete que, segundo a minha mãe, foi
encontrado no quarto do Jake, a morte dele parece não levantar quaisquer
suspeitas.
Observei melhor o relatório, em busca de alguma coisa, o que quer que
fosse, que pudesse apontar noutra direção.
– Então e isto? Os resultados das análises toxicológicas. Foram
encontrados álcool, acetaminofeno e oxicodona – alertei.
Greyson fez que sim com a cabeça.
– Níveis relativamente baixos, de acordo com a minha pesquisa, mas não
deixa de ser um cocktail ilegal. Contudo, segundo o relatório, a causa oficial
da morte foi afogamento.
– Então, o Jake bebeu na noite em que morreu? – perguntei.
– Parece que sim – respondeu Greyson.
– E tomou drogas – acrescentei.
Suspirei e pus-me a pensar. Oxicodona e acetaminofeno. Não eram as
substâncias contidas num analgésico chamado Percocet? Os alunos
passavam Percs no campus como se fossem rebuçados. Eu nunca tivera
nenhuma receita, mas chegara a tomar alguns comprimidos numa festa.
Sheila Andrews levara os que lhe haviam sobrado de uma extração de um siso. A maioria dos miúdos considerava o Percocet uma pedra segura ou,
pelo menos, muito menos perigosa do que a heroína ou outros
estupefacientes ilegais.
– Talvez haja aqui mais alguma coisa – aventei. – Alguma coisa que
tenha sido ignorada.
– Como por exemplo?
– Não sei, Greyson.
Talvez estivesse maluca. Talvez estivesse a tentar agarrar-me a qualquer
coisa que não existia, a tentar encontrar conexões que não faziam sentido,
mas havia qualquer coisa que ligava o desaparecimento da minha mãe a
Jake e ao meu pai, e o meu instinto dizia-me que o ponto de união era a
morte de Jake.
– Há mais… Hum… mais uma coisa interessante que descobri hoje –
mencionou Greyson. Coçou a nuca, como se estivesse relutante em dizer-
me.
– O quê? – perguntei.
Ele dirigiu-se à cama e trouxe outra folha de papel. Era uma fotocópia de
um antigo recorte de jornal. Um anúncio de noivado. O anúncio de noivado
do meu pai. Só que, não era com a minha mãe. Ao lado da fotografia do
meu pai estava uma outra de uma cara que reconheci.
– O meu pai esteve noivo da Margot? – indaguei, perplexa.
– Aparentemente, sim – disse Greyson, e encolheu os ombros. – Pela tua
reação, suponho que ele nunca mencionou esse facto.
– Pois não – confirmei, mas, pensando bem, o meu pai e a minha família
tinham-me ocultado tanta coisa que nem devia estar surpreendida.
De repente, alguém bateu à porta do meu quarto.
– Eu sei, eu sei – disse Greyson, erguendo as mãos no ar. – Lá vou eu
para o armário.
Sorri para ele.
– Obrigada.
Com Greyson bem escondido no roupeiro de Drew, abri a porta.
Era Leo. Segurava uma caixa pequena e uma espécie de tabuleiro de jogo
debaixo do braço.
Quase lhe fechei a porta na cara, mas ele esticou o braço e manteve-a
aberta antes que eu pudesse impedi-lo.
– Que queres? – perguntei.
Não falara com o meu primo desde o incidente à porta do refeitório e
também não tinha a mínima vontade de tornar a dirigir-lhe a palavra. A
traição dele magoara-me mais do que a de Dalton.
– Pedir esculpa – respondeu Leo. – Comecemos por aí.
Nunca tinha ouvido Leo pedir desculpa pelo que quer que fosse, por isso,
a atitude dele apanhou-me desprevenida.
– Só te incluí no jogo porque sabia que eras boa demais para qualquer um
dos rapazes daqui e jamais te deixarias ir na cantiga deles – confessou Leo.
– Quando começaste a interessar-te pelo Dalton, tentei alertar-te acerca
dele. Não imaginava que as coisas chegassem onde chegaram. Caso
contrário, nunca teria feito o que fiz.
– Pensei que olhavas por mim – aleguei.
– Escuta, Charlie, jamais permitiria que alguém te magoasse – declarou
Leo. – O único motivo por que não intervim foi porque o Dalton me
convenceu de que gostava mesmo de ti e que estar contigo não tinha nada
que ver com o jogo. Os sentimentos dele por ti não mudaram. O Dalton
apenas mencionou o jogo no outro dia porque estava despeitado.
– Isso é tudo muito bonito, mas eu já não acredito em nada do que tu ou
ele dizem, okay? – ripostei.
– Ouve o que ele tem para te dizer – pediu Leo. – Escuta-o, e depois
decides se queres acreditar nele ou não. Fiquei de te entregar isto primeiro.
Estendeu-me o tal tabuleiro de jogo.
Peguei nele e abri-o. Tinha uma série de quadrados vazios.
– É um quebra-cabeças –explicou o meu primo. – Tens de juntar as letras
todas e descobrir o que diz.
– Que letras? – perguntei.
– Toma. – Leo estendeu-me então a caixa. Abri-a e vi que continha um
queque da pastelaria gourmet de Falls Church. No cimo do queque estava
um quadrado de pasta de açúcar com uma letra: «A».
– Só uma letra? – estranhei.
– Não, hão de aparecer mais – disse ele.
– Já estou farta dos vossos joguinhos – reclamei.
– Confia em mim – disse Leo. – Deste jogo, vais gostar. Olha, tenho de ir
ao treino, mas falamos mais tarde, okay?
– Talvez – respondi.
Quando ele se foi embora, pousei o tabuleiro e o queque em cima da secretária.
– Não vais mesmo fazer isso, pois não? – perguntou Greyson. Tinha saído
do roupeiro e estava de braços cruzados em frente ao peito e com um ar
desapontado.
– Fazer o quê?
– Essa coisa que as raparigas têm por costume fazer: o rapaz porta-se
como uma besta e depois faz um gesto romântico e bonito e a rapariga
esquece-se do quanto ele foi uma besta, mesmo a tempo de ele tornar a
portar-se como uma cavalgadura.
– Não – respondi. – Não vou fazer isso.
– É que não foi apenas um arrufo, Charlie – fez notar Greyson. – Este
tipo… Ele usou-te, mas completamente. E o teu primo é um idiota por ter
permitido que ele te usasse daquela maneira.
– Eu sei – concordei, cortando-lhe a palavra. – Eu sei, okay? Eu estava lá.
Não é um queque ridículo que me vai provocar amnésia.
– Ainda bem – disse Greyson.
Ouviu-se nova pancada na porta.
– Bolas! – reclamou Greyson.
– Importas-te de voltar para o roupeiro? – pedi.
Greyson suspirou e arqueou as sobrancelhas, mas aquiesceu. Do outro
lado da porta, deparei com Crosby e outro queque e outra letra. Ao longo da
meia hora que se seguiu, metade da equipa de futebol bateu-me à porta,
cada um dos jogadores entregando-me um queque com uma letra. O quebra-
cabeças dizia: «Sou um idiota. Desculpa.»
– Uau! – exclamou Greyson ironicamente, depois de contemplar o
quebra-cabeças resolvido em cima da minha secretária. – O betinho não se
poupou a esforços.
Bateram de novo à porta e, com relutância, fui abrir. Era Dalton. Ter-lhe-
ia fechado a porta na cara, mas ele tinha um ar tão arrependido e humildado,
tão pouco característico da sua pessoa.
– Olá, Charlie – disse ele. – Posso entrar?
– Tenho companhia – respondi. Abri a porta o suficiente para ele ver que
Greyson estava comigo.
– Olá. – Dalton estendeu o braço para cumprimentar Greyson. – Acho que
da última vez não fomos apresentados como devia ser. Sou o Dalton. É um
prazer conhecer-te.
Greyson manteve-se onde estava, de braços cruzados.
– Pois, eu não posso afirmar o mesmo – respondeu ele. – A Charlie
contou-me o que fizeste e digamos que não fiquei propriamente
impressionado, se é que me entendes.
Dalton deixou cair o braço. Era óbvio que fora apanhado desprevenido
pelo comentário sincero de Greyson.
– Tens três segundos para te pores a milhas daqui antes que te reconfigure
a cara com o punho – ameaçou Greyson. – E podes levar os teus pedidos de
desculpa untuosos e pouco convincentes contigo.
– Não vim aqui para causar chatices – disse Dalton, erguendo as mãos
como se estivesse a render-se. – Quer acredites quer não, o meu pedido de
desculpa é sincero. Além do mais, não depende de ti. Isto é entre mim e a
Charlie.
Greyson avançou e colocou-se entre mim e a porta.
– Greyson, está tudo bem – disse eu.
Puxei-lhe pela fralda da camisa, mas ele não desarmou.
– Greyson – insisti. – Eu falo com ele. Não te preocupes.
– Não tens de o fazer – alegou Greyson. – Não lhe deves nada.
– Eu sei, Greyson.
– Okay – cedeu ele, por fim. – Mas eu fico aqui fora. Literalmente aqui
fora, no corredor. E esta porta fica aberta.
Dalton deu um passo ao lado para que Greyson trocasse de lugar com ele.
Fiz sinal a Dalton que entrasse e fechei a porta quase toda, deixando apenas
uma frincha de cinco centímetros entre a moldura e a porta.
– Charlie, lamento muito o que disse – começou Dalton, afastando-se da
porta e baixando o tom de voz para que Greyson não nos ouvisse. – Estar
contigo nunca teve que ver com aquele jogo ridículo, nem por um momento.
Já gostava de ti antes de o Leo ter incluído o teu nome naquele tabuleiro.
Demorei bastante a reunir coragem para fazer alguma coisa em relação ao
que sentia por ti, porque, bem… Porque tu também não facilitas
propriamente as coisas.
Ele sorriu e eu mordi o lábio.
– Peço desculpa pela maneira como te tratei no outro dia – continuou ele.
– Não foi minha intenção magoar-te, dizer-te aquelas coisas. Aquilo não era
eu.
– Então, porque é que as disseste, se não tinhas intenção? – quis saber.
– Porque estava irritado – confessou Dalton. – É óbvio que gosto de ti.
Toda a gente sabe disso. Mas tu és tão… reservada comigo. De início,
pensei que era uma característica tua, que eras assim mesmo, que talvez
tivesses dificuldades em abrir-te ou assim. Mas depois, vi-te aqui no teu
quarto com outro tipo e senti-me… Bem, senti-me um idiota. Como se o
facto de seres distante não tivesse que ver com problemas em abrir-te, mas
porque não gostavas de mim tanto quanto eu gostava de ti.
– Eu gostava, de facto, de ti – declarei.
E mostrara-me distante, até mesmo fria, por vezes. Sabia disso.
Ele afundou as mãos nos bolsos.
– Não sei… Se calhar, foi uma estupidez. Mas foi isso que senti. Fiquei
magoado e depois fiquei zangado e transformei-me na pessoa que disse
aquelas coisas. Estou arrependido.
Uma parte de mim achava que devia pedir-lhe desculpa também, por tê-lo
tratado da forma que tratara. Mas uma parte maior, a parte mais obstinada
de mim mesma, era da opinião de que pedir desculpa significaria que estava
a pedir desculpa pelo que ele tinha feito; que a maneira como eu o tratara o
fizera tratar-me daquela forma, e isso não era verdade. Pois não?
– Não vim aqui à espera de nada – prosseguiu Dalton. – Queria apenas
que soubesses o quanto lamento o que sucedeu.
– Okay, agradeço, acho eu… – respondi.
Manteve-se à minha frente, de ombros tombados e olhar arrependido e
tristonho. Parecia genuinamente compungido. E, convenhamos, era de
Dalton que se tratava. O tipo que pusera o braço em redor do espaldar da
minha cadeira no refeitório. O tipo que me defendera perante os amigos. O
tipo que me segurara como se eu fosse frágil e me pudesse partir quando me
beijara. O tipo que olhava para mim como… Como nunca ninguém tinha
olhado para mim. Até àquela noite, à porta do refeitório, ele sempre me
havia tratado com todo o cuidado e respeito.
– Vou andando – decidiu Dalton. – Obrigado por me teres ouvido.
– De nada – disse.
Mal ele saiu, Greyson tornou a entrar e fechou a porta.
– Ainda bem que este assunto ficou encerrado – comentou ele.
– Pois.
– Está encerrado, não está? – indagou ele.
Não respondi.
– Charlie?
– E se ele estiver mesmo arrependido? – questionei. – Eu sei que isto
pode soar estúpido, mas e se ele ficou chateado no outro dia e apenas
cometeu um erro? E se a questão nunca tiver sido o jogo e ele tiver dito
aquilo só para me magoar naquele momento? Para te ser sincera, eu nem
sempre fui muito simpática com ele.
– Tens razão – disse Greyson. – Isso soa, de facto, muito estúpido da tua
parte.
Fulminei-o com o olhar. Que direito tinha ele de falar comigo daquela
maneira? E que sabia ele acerca de Dalton?
E se Dalton gostasse mesmo de mim e fôssemos a pessoa certa um para o
outro e eu estivesse a abrir mão disso? E se tivesse uma coisa boa à frente
do nariz e estivesse a deixá-la fugir por entre os dedos só porque o meu
orgulho estava magoado?
– Talvez isto tenha sido uma má ideia, teres vindo aqui – sugeri. – Talvez
estejas confuso em relação ao que estamos aqui a fazer.
– E em relação ao quê, ao certo, é que tu achas que eu estou confuso? –
indagou Greyson.
– Em relação a mim. A isto. A nós. Eu não… Eu não sinto nada por ti –
afirmei.
Greyson fez um ar como se o tivesse esbofeteado.
– Charlie… Eu não… – calou-se. – Vim aqui porque és minha amiga. E
porque parecia que precisavas mesmo de alguém. Mais nada. Mas tens
razão. Se calhar, não foi boa ideia.
Pegou no saco dele e começou a lançar a sua tralha lá para dentro.
– Vais-te embora? – inquiri.
Não respondeu. Correu o fecho do saco, juntou a papelada que tinha
trazido e pousou-a na minha secretária.
– Greyson?
– Espero que encontres o que procuras, Charlie – disse ele. – A sério que
sim.