Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 34 de 44

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Magníficos Estranhos

Trinta e três CHARLIE CALLOWAY

Trinta e três

 

CHARLIE CALLOWAY

 

2017

 

Durante toda a aula, senti o olhar fixo de Dalton em mim, mas ignorei-o

com determinação, olhando para todo o lado, menos na direção dele.

Não falava com Dalton desde o incidente à porta do refeitório, há três

dias, mas ele tentara, mais do que uma vez, chegar à fala comigo: bilhetes

na minha caixa de correio (Charlie, lamento muito, podemos falar?), um

ramo de rosas deixado à porta do meu quarto. O seu truque preferido era

tentar encurralar-me no corredor, depois das aulas, por isso, eu

desenvolvera o hábito de pedir licença para sair uns minutos antes de a

campainha tocar e assim escapava-me a Dalton.

Greyson continuava por perto. Reservara um quarto de hotel em Falls

Church e passava pelo campus ao final do dia para me visitar. Eu tinha-lhe

contado tudo: desde as minhas mais recentes descobertas acerca do

envolvimento do meu pai na morte de Jake até ao que acontecera com

Dalton, e Greyson havia insistido em ficar, para se assegurar de que eu

estava bem e para me ajudar com o caso do desaparecimento da minha mãe.

Greyson passava a maior parte do dia na biblioteca pública de Falls

Church, a fazer pesquisa, por isso, fiquei surpreendida quando, ao regressar

ao quarto depois do almoço, o encontrei ali, esparramado na cama de Drew

e rodeado de papelada.

– Hoje descobri isto – anunciou Greyson. Levantou-se da cama e

entregou-me uma pequena pilha de papéis agrafados. – É uma cópia do

relatório da autópsia de Jake.

– Como é que arranjaste isto? – perguntei, aceitando o relatório depois de

ter largado a mochila em cima da secretária.

Greyson encolheu os ombros.

– Está no arquivo público.

Passei os olhos pelas folhas. A descrição do patologista acerca do corpo

de Jake revelou-se difícil de ler. «Empalidecimento e intumescimento da

epiderme… Água encontrada no estômago… Aspiração de fluidos nas vias

aéreas… Espuma rosada na boca». Pelas estimativas do patologista, a morte

ocorrera entre as vinte e as vinte e quatro horas do dia 21 de dezembro de

1990. Como causa da morte, o patologista apontara «edema pulmonar».

– Edema pulmonar? – perguntei, e olhei para Greyson.

– Quer dizer acumulação de fluidos nos pulmões – explicou Greyson. –

Afogamento.

– Então, a mãe do Dalton disse a verdade – comentei.

– É o que parece – concordou Greyson, e apontou para o meio da página

seguinte. – E aqui é afirmado que não foram encontradas escoriações ou

hematomas consistentes com uma luta, ou seja, nada que sugerisse que ele

tivesse sido manietado ou obrigado a lançar-se para a ravina.

– Então, a conclusão foi suicídio – referi.

– Sim. E se a isso juntarmos o bilhete que, segundo a minha mãe, foi

encontrado no quarto do Jake, a morte dele parece não levantar quaisquer

suspeitas.

Observei melhor o relatório, em busca de alguma coisa, o que quer que

fosse, que pudesse apontar noutra direção.

– Então e isto? Os resultados das análises toxicológicas. Foram

encontrados álcool, acetaminofeno e oxicodona – alertei.

Greyson fez que sim com a cabeça.

– Níveis relativamente baixos, de acordo com a minha pesquisa, mas não

deixa de ser um cocktail ilegal. Contudo, segundo o relatório, a causa oficial

da morte foi afogamento.

– Então, o Jake bebeu na noite em que morreu? – perguntei.

– Parece que sim – respondeu Greyson.

– E tomou drogas – acrescentei.

Suspirei e pus-me a pensar. Oxicodona e acetaminofeno. Não eram as

substâncias contidas num analgésico chamado Percocet? Os alunos

passavam Percs no campus como se fossem rebuçados. Eu nunca tivera

nenhuma receita, mas chegara a tomar alguns comprimidos numa festa.

Sheila Andrews levara os que lhe haviam sobrado de uma extração de um siso. A maioria dos miúdos considerava o Percocet uma pedra segura ou,

pelo menos, muito menos perigosa do que a heroína ou outros

estupefacientes ilegais.

– Talvez haja aqui mais alguma coisa – aventei. – Alguma coisa que

tenha sido ignorada.

– Como por exemplo?

– Não sei, Greyson.

Talvez estivesse maluca. Talvez estivesse a tentar agarrar-me a qualquer

coisa que não existia, a tentar encontrar conexões que não faziam sentido,

mas havia qualquer coisa que ligava o desaparecimento da minha mãe a

Jake e ao meu pai, e o meu instinto dizia-me que o ponto de união era a

morte de Jake.

– Há mais… Hum… mais uma coisa interessante que descobri hoje –

mencionou Greyson. Coçou a nuca, como se estivesse relutante em dizer-

me.

– O quê? – perguntei.

Ele dirigiu-se à cama e trouxe outra folha de papel. Era uma fotocópia de

um antigo recorte de jornal. Um anúncio de noivado. O anúncio de noivado

do meu pai. Só que, não era com a minha mãe. Ao lado da fotografia do

meu pai estava uma outra de uma cara que reconheci.

– O meu pai esteve noivo da Margot? – indaguei, perplexa.

– Aparentemente, sim – disse Greyson, e encolheu os ombros. – Pela tua

reação, suponho que ele nunca mencionou esse facto.

– Pois não – confirmei, mas, pensando bem, o meu pai e a minha família

tinham-me ocultado tanta coisa que nem devia estar surpreendida.

De repente, alguém bateu à porta do meu quarto.

– Eu sei, eu sei – disse Greyson, erguendo as mãos no ar. – Lá vou eu

para o armário.

Sorri para ele.

– Obrigada.

Com Greyson bem escondido no roupeiro de Drew, abri a porta.

Era Leo. Segurava uma caixa pequena e uma espécie de tabuleiro de jogo

debaixo do braço.

Quase lhe fechei a porta na cara, mas ele esticou o braço e manteve-a

aberta antes que eu pudesse impedi-lo.

– Que queres? – perguntei.

Não falara com o meu primo desde o incidente à porta do refeitório e

também não tinha a mínima vontade de tornar a dirigir-lhe a palavra. A

traição dele magoara-me mais do que a de Dalton.

– Pedir esculpa – respondeu Leo. – Comecemos por aí.

Nunca tinha ouvido Leo pedir desculpa pelo que quer que fosse, por isso,

a atitude dele apanhou-me desprevenida.

– Só te incluí no jogo porque sabia que eras boa demais para qualquer um

dos rapazes daqui e jamais te deixarias ir na cantiga deles – confessou Leo.

– Quando começaste a interessar-te pelo Dalton, tentei alertar-te acerca

dele. Não imaginava que as coisas chegassem onde chegaram. Caso

contrário, nunca teria feito o que fiz.

– Pensei que olhavas por mim – aleguei.

– Escuta, Charlie, jamais permitiria que alguém te magoasse – declarou

Leo. – O único motivo por que não intervim foi porque o Dalton me

convenceu de que gostava mesmo de ti e que estar contigo não tinha nada

que ver com o jogo. Os sentimentos dele por ti não mudaram. O Dalton

apenas mencionou o jogo no outro dia porque estava despeitado.

– Isso é tudo muito bonito, mas eu já não acredito em nada do que tu ou

ele dizem, okay? – ripostei.

– Ouve o que ele tem para te dizer – pediu Leo. – Escuta-o, e depois

decides se queres acreditar nele ou não. Fiquei de te entregar isto primeiro.

Estendeu-me o tal tabuleiro de jogo.

Peguei nele e abri-o. Tinha uma série de quadrados vazios.

– É um quebra-cabeças –explicou o meu primo. – Tens de juntar as letras

todas e descobrir o que diz.

– Que letras? – perguntei.

– Toma. – Leo estendeu-me então a caixa. Abri-a e vi que continha um

queque da pastelaria gourmet de Falls Church. No cimo do queque estava

um quadrado de pasta de açúcar com uma letra: «A».

– Só uma letra? – estranhei.

– Não, hão de aparecer mais – disse ele.

– Já estou farta dos vossos joguinhos – reclamei.

– Confia em mim – disse Leo. – Deste jogo, vais gostar. Olha, tenho de ir

ao treino, mas falamos mais tarde, okay?

– Talvez – respondi.

Quando ele se foi embora, pousei o tabuleiro e o queque em cima da secretária.

– Não vais mesmo fazer isso, pois não? – perguntou Greyson. Tinha saído

do roupeiro e estava de braços cruzados em frente ao peito e com um ar

desapontado.

– Fazer o quê?

– Essa coisa que as raparigas têm por costume fazer: o rapaz porta-se

como uma besta e depois faz um gesto romântico e bonito e a rapariga

esquece-se do quanto ele foi uma besta, mesmo a tempo de ele tornar a

portar-se como uma cavalgadura.

– Não – respondi. – Não vou fazer isso.

– É que não foi apenas um arrufo, Charlie – fez notar Greyson. – Este

tipo… Ele usou-te, mas completamente. E o teu primo é um idiota por ter

permitido que ele te usasse daquela maneira.

– Eu sei – concordei, cortando-lhe a palavra. – Eu sei, okay? Eu estava lá.

Não é um queque ridículo que me vai provocar amnésia.

– Ainda bem – disse Greyson.

Ouviu-se nova pancada na porta.

– Bolas! – reclamou Greyson.

– Importas-te de voltar para o roupeiro? – pedi.

Greyson suspirou e arqueou as sobrancelhas, mas aquiesceu. Do outro

lado da porta, deparei com Crosby e outro queque e outra letra. Ao longo da

meia hora que se seguiu, metade da equipa de futebol bateu-me à porta,

cada um dos jogadores entregando-me um queque com uma letra. O quebra-

cabeças dizia: «Sou um idiota. Desculpa.»

– Uau! – exclamou Greyson ironicamente, depois de contemplar o

quebra-cabeças resolvido em cima da minha secretária. – O betinho não se

poupou a esforços.

Bateram de novo à porta e, com relutância, fui abrir. Era Dalton. Ter-lhe-

ia fechado a porta na cara, mas ele tinha um ar tão arrependido e humildado,

tão pouco característico da sua pessoa.

– Olá, Charlie – disse ele. – Posso entrar?

– Tenho companhia – respondi. Abri a porta o suficiente para ele ver que

Greyson estava comigo.

– Olá. – Dalton estendeu o braço para cumprimentar Greyson. – Acho que

da última vez não fomos apresentados como devia ser. Sou o Dalton. É um

prazer conhecer-te.

Greyson manteve-se onde estava, de braços cruzados.

– Pois, eu não posso afirmar o mesmo – respondeu ele. – A Charlie

contou-me o que fizeste e digamos que não fiquei propriamente

impressionado, se é que me entendes.

Dalton deixou cair o braço. Era óbvio que fora apanhado desprevenido

pelo comentário sincero de Greyson.

– Tens três segundos para te pores a milhas daqui antes que te reconfigure

a cara com o punho – ameaçou Greyson. – E podes levar os teus pedidos de

desculpa untuosos e pouco convincentes contigo.

– Não vim aqui para causar chatices – disse Dalton, erguendo as mãos

como se estivesse a render-se. – Quer acredites quer não, o meu pedido de

desculpa é sincero. Além do mais, não depende de ti. Isto é entre mim e a

Charlie.

Greyson avançou e colocou-se entre mim e a porta.

– Greyson, está tudo bem – disse eu.

Puxei-lhe pela fralda da camisa, mas ele não desarmou.

– Greyson – insisti. – Eu falo com ele. Não te preocupes.

– Não tens de o fazer – alegou Greyson. – Não lhe deves nada.

– Eu sei, Greyson.

– Okay – cedeu ele, por fim. – Mas eu fico aqui fora. Literalmente aqui

fora, no corredor. E esta porta fica aberta.

Dalton deu um passo ao lado para que Greyson trocasse de lugar com ele.

Fiz sinal a Dalton que entrasse e fechei a porta quase toda, deixando apenas

uma frincha de cinco centímetros entre a moldura e a porta.

– Charlie, lamento muito o que disse – começou Dalton, afastando-se da

porta e baixando o tom de voz para que Greyson não nos ouvisse. – Estar

contigo nunca teve que ver com aquele jogo ridículo, nem por um momento.

Já gostava de ti antes de o Leo ter incluído o teu nome naquele tabuleiro.

Demorei bastante a reunir coragem para fazer alguma coisa em relação ao

que sentia por ti, porque, bem… Porque tu também não facilitas

propriamente as coisas.

Ele sorriu e eu mordi o lábio.

– Peço desculpa pela maneira como te tratei no outro dia – continuou ele.

– Não foi minha intenção magoar-te, dizer-te aquelas coisas. Aquilo não era

eu.

– Então, porque é que as disseste, se não tinhas intenção? – quis saber.

– Porque estava irritado – confessou Dalton. – É óbvio que gosto de ti.

Toda a gente sabe disso. Mas tu és tão… reservada comigo. De início,

pensei que era uma característica tua, que eras assim mesmo, que talvez

tivesses dificuldades em abrir-te ou assim. Mas depois, vi-te aqui no teu

quarto com outro tipo e senti-me… Bem, senti-me um idiota. Como se o

facto de seres distante não tivesse que ver com problemas em abrir-te, mas

porque não gostavas de mim tanto quanto eu gostava de ti.

– Eu gostava, de facto, de ti – declarei.

E mostrara-me distante, até mesmo fria, por vezes. Sabia disso.

Ele afundou as mãos nos bolsos.

– Não sei… Se calhar, foi uma estupidez. Mas foi isso que senti. Fiquei

magoado e depois fiquei zangado e transformei-me na pessoa que disse

aquelas coisas. Estou arrependido.

Uma parte de mim achava que devia pedir-lhe desculpa também, por tê-lo

tratado da forma que tratara. Mas uma parte maior, a parte mais obstinada

de mim mesma, era da opinião de que pedir desculpa significaria que estava

a pedir desculpa pelo que ele tinha feito; que a maneira como eu o tratara o

fizera tratar-me daquela forma, e isso não era verdade. Pois não?

– Não vim aqui à espera de nada – prosseguiu Dalton. – Queria apenas

que soubesses o quanto lamento o que sucedeu.

– Okay, agradeço, acho eu… – respondi.

Manteve-se à minha frente, de ombros tombados e olhar arrependido e

tristonho. Parecia genuinamente compungido. E, convenhamos, era de

Dalton que se tratava. O tipo que pusera o braço em redor do espaldar da

minha cadeira no refeitório. O tipo que me defendera perante os amigos. O

tipo que me segurara como se eu fosse frágil e me pudesse partir quando me

beijara. O tipo que olhava para mim como… Como nunca ninguém tinha

olhado para mim. Até àquela noite, à porta do refeitório, ele sempre me

havia tratado com todo o cuidado e respeito.

– Vou andando – decidiu Dalton. – Obrigado por me teres ouvido.

– De nada – disse.

Mal ele saiu, Greyson tornou a entrar e fechou a porta.

– Ainda bem que este assunto ficou encerrado – comentou ele.

– Pois.

– Está encerrado, não está? – indagou ele.

Não respondi.

– Charlie?

– E se ele estiver mesmo arrependido? – questionei. – Eu sei que isto

pode soar estúpido, mas e se ele ficou chateado no outro dia e apenas

cometeu um erro? E se a questão nunca tiver sido o jogo e ele tiver dito

aquilo só para me magoar naquele momento? Para te ser sincera, eu nem

sempre fui muito simpática com ele.

– Tens razão – disse Greyson. – Isso soa, de facto, muito estúpido da tua

parte.

Fulminei-o com o olhar. Que direito tinha ele de falar comigo daquela

maneira? E que sabia ele acerca de Dalton?

E se Dalton gostasse mesmo de mim e fôssemos a pessoa certa um para o

outro e eu estivesse a abrir mão disso? E se tivesse uma coisa boa à frente

do nariz e estivesse a deixá-la fugir por entre os dedos só porque o meu

orgulho estava magoado?

– Talvez isto tenha sido uma má ideia, teres vindo aqui – sugeri. – Talvez

estejas confuso em relação ao que estamos aqui a fazer.

– E em relação ao quê, ao certo, é que tu achas que eu estou confuso? –

indagou Greyson.

– Em relação a mim. A isto. A nós. Eu não… Eu não sinto nada por ti –

afirmei.

Greyson fez um ar como se o tivesse esbofeteado.

– Charlie… Eu não… – calou-se. – Vim aqui porque és minha amiga. E

porque parecia que precisavas mesmo de alguém. Mais nada. Mas tens

razão. Se calhar, não foi boa ideia.

Pegou no saco dele e começou a lançar a sua tralha lá para dentro.

– Vais-te embora? – inquiri.

Não respondeu. Correu o fecho do saco, juntou a papelada que tinha

trazido e pousou-a na minha secretária.

– Greyson?

– Espero que encontres o que procuras, Charlie – disse ele. – A sério que

sim.