Magníficos Estranhos
Vinte quatro ALISTAIR CALLOWAY
Vinte quatro
ALISTAIR CALLOWAY
VERÃO DE 1997
Margot abriu a porta sem demora. Vestia umas calças de fato de treino e
tinha o cabelo apanhado num rabo de cavalo. Estava de óculos, por isso,
presumi que estivesse a estudar, porém, quando entrei no apartamento, vi a
planta do local onde decorreria a receção do casamento, com o desenho das
mesas, aberta em cima da mesa da cozinha, e não manuais de medicina.
– Acabei de fazer chá, és servido? – ofereceu Margot, e entrou na
cozinha.
Tinha as mãos metidas nos bolsos, mas isso era um sinal de fraqueza, de
nervos. Tirei-as e cruzei os braços à frente do peito. Também não me
pareceu um gesto natural. Merda, o que havia eu de fazer com as mãos?
– Alistair? – chamou-me Margot, desde a cozinha.
– Sim?
– Chá? – ofereceu ela, de novo.
– Não, obrigado – respondi.
Controla-te, ordenei a mim mesmo. Só tinha de dizê-lo, de uma forma
direta e simples, e acabar de uma vez com aquilo: Grace e eu éramos
marido e mulher.
Tínhamos casado na sexta-feira, num tribunal nos arredores de New
Haven. O juiz e a sua secretária haviam sido as únicas testemunhas dos
nossos votos. Grace vestira um vestido amarelo-pálido estampado, chinelos
de dedo e usara o cabelo solto.
Depois, já à noite, sentámo-nos na praia, iluminada pelo luar, e fomos
tomar banho ao mar, com a roupa vestida. De regresso ao hotel, pusemos a
roupa a secar no aquecedor e metemo-nos na cama, para aquecer. Com os lençóis, fiz uma tenda por cima de nós e beijei a minha esposa. Grace tinha
ainda o cabelo molhado e colado à testa e às têmporas, mas, ao olhar-me
fixamente por entre as pestanas, achei-a mais bela do que nunca. Sabia que
iria recordar aquele momento para o resto da vida.
– Ainda bem que vieste – disse Margot, emergindo da cozinha com uma
chávena de chá. Sentou-se à mesa. – A distribuição dos convidados pelas
mesas está a dar-me água pelas barbas!
Não podia protelar mais. Tinha de fazê-lo naquele momento.
Sentei-me ao lado dela.
– Margot, tenho uma coisa para te dizer – anunciei.
Ela soprou o chá e bebeu um pequeno gole, à experiência.
– Que se passa? – indagou ela.
– Nas últimas semanas, envolvi-me uma relação com outra pessoa –
desembuchei.
– Envolveste-te numa relação com outra pessoa? – repetiu Margot
lentamente, como se não tivesse a certeza de ter ouvido bem.
– Sim.
– Essa pessoa tem nome? – quis saber Margot.
Suspirei e não respondi.
– Eu conheço-a? – perguntou ela. – Não me digas que dormiste com a tua
secretária? Que lugar-comum!
– É Grace Fairchild – admiti, com relutância.
– Quem? – inquiriu Margot.
O cérebro de Margot funcionava de uma maneira muito característica:
recordava-se de datas e nomes sem dificuldade, se achasse que eram
importantes o suficiente para os fixar. Era óbvio que Grace não lhe causara
uma grande impressão.
– Estiveste com ela várias vezes. Ela costumava namorar o Teddy –
referi.
– Andas a dormir com a ex-namorada do teu irmão? – Margot riu-se. Não
respondi. – Essa Virgem Maria? – continuou ela. – Bem, suponho que era
mais Maria Madalena do que eu imaginava.
– Cruzei-me com a Grace numa galeria de arte que visitei há uns dois
meses – revelei. – Nenhum de nós planeava que isto acontecesse, mas
aconteceu.
Não mencionei que Grace estava grávida. Não sabia se isso não acabaria por enfurecer Margot ainda mais ou se a ajudaria a dar-se conta de que era
impossível ficarmos juntos.
– E sentes-te melhor agora? – perguntou Margot.
– Se me sinto melhor?
– Agora que aliviaste a tua consciência, contando-me a tua pequena
aventura? – explicou ela. – Podemos seguir em frente? – Deu um gole no
chá. – Não esperes que seja tão compreensiva em relação a futuras
infidelidades – alertou ela. – Mas eu entendo. Estás sob pressão por causa
do casamento e precisavas de libertar alguma dessa tensão. Okay, eu
compreendo. Mas que não se repita.
Devolveu a sua atenção à papelada que tinha em cima da mesa.
– Dava-me mesmo jeito a tua ajuda – disse ela. – É a tua tia Veronica que
está de relações cortadas com o teu primo em segundo grau, o Harold? A
tua mãe mencionou que havia uma desavença qualquer nesse lado da
família. Portanto, estava a pensar pôr o primo Harold na mesa oito, com a
tua família de Cambridge, e sentar a tia Veronica na mesa sete com os
primos de Bridgeport.
– Margot – interrompi-a, em voz baixa. Merda, aquilo estava a ser mais
difícil do que eu antecipara. – Não vai haver casamento – declarei.
Olhou então para mim.
– Como assim, não vai haver casamento? – perguntou ela.
– Não vim falar-te da minha relação com a Grace por ter terminado –
elucidei. – Vim falar-te disso, porque… Bem, porque já não vai haver
casamento.
– Não estou a entender – disse Margot.
– A Grace e eu… casámo-nos no fim de semana passado – confessei. –
Não passei o fim de semana a jogar golfe com o meu pai, como te disse.
Estive com a Grace.
Margot não disse nada. Fixou o olhar no chá
Eu mantive-me em silêncio por um momento. Não sabia o que dizer,
sentado ali com Margot, perante os preparativos das nossas iminentes
núpcias.
Margot mordeu o lábio inferior e, inconscientemente, fez rodar o anel de
noivado, como acontecia quando ficava absorta em pensamentos. O
diamante amarelo do anel da minha avó fez refletir a luz da cozinha. Aquela
era outra tarefa difícil que tinha pela frente. Sabia que o mais cavalheiresco naquelas situações em que o noivo cancela o casamente era permitir que a
noiva rejeitada ficasse com o anel. Só que aquele anel era uma herança de
família.
– Não tens de te preocupar com nada – afirmei, ao fim de uns minutos. –
Eu trato dos cancelamentos… Os locais da cerimónia, os convidados. Não
precisas de fazer nada.
– Isso é muito nobre da tua parte – replicou Margot, com frieza.
– Mas… – prossegui. Raios partam, isto é difícil. – Bem, há ainda uma
coisa…
– Que é? Que queres ainda de mim?
Expirei lentamente.
– Preciso que me devolvas o anel da minha avó – desabafei.
O que tornava tudo aquilo em cem vezes pior era o facto de o
cancelamento do casamento ir alterar de forma drástica as perspetivas
financeiras de Margot. Ter-me-ia ficado a sentir um pouco melhor se, no
mínimo, lhe pudesse deixar qualquer coisa que aliviasse esse fardo.
– Eu mando avaliá-lo e ressarço-te desse valor.
Margot escarneceu.
– Dispenso as tuas esmolas, Alistair – cuspiu ela, orgulhosa. Tirou o anel
do dedo e pousou-o em cima da mesa. – Tu e eu, nunca foi pelo dinheiro.
Deixei que, tanto o anel como aquela mentira, permanecessem ali entre
nós, e senti o peso de ambos. A relação entre Margot e eu nunca se resumira
a dinheiro, estritamente falando. Eu sabia disso. Tivera mais que ver, isso
sim, com a minha família, com o apelido Calloway, que eu exibia como se
fosse uma marca. Tivera que ver com as ambições que partilhávamos e com
o que juntos podíamos alcançar. O dinheiro, como é óbvio, era um
subproduto disso.
Margot sempre quisera ser cirurgiã, uma carreira dispendiosa e árdua,
mas não planeava ficar-se por aí. Sonhava em abrir um centro dedicado à
investigação e à descoberta na área da cirurgia, um lugar onde fossem
desenvolvidas e testadas novas técnicas e ferramentas cirúrgicas, um lugar
que juntasse cirurgiões, engenheiros e pioneiros. Só que, um centro de
investigação dessa magnitude só se tornaria em realidade com um grande
financiador ou vários, e um nome como o meu para os atrair.
Ficámos sentados em silêncio durante um tempo. Não houve lágrimas
nem birras, não houve objetos lançados ao chão nem ameaças vagas e irracionais. Mas Margot era assim mesmo: fria e analítica. É claro que a
minha declaração, que iria alterar profundamente a sua vida, seria encarada
com uma tranquilidade férrea.
– Porquê ela? – quis saber Margot. Tinha aquela expressão no rosto de
quem tentava resolver um algoritmo complicado. – Porquê ela e não eu?
– Margot…
– Queria apenas entender – explicou Margot. Fez deslizar a ponta do
indicador pela borda da chávena. – Ela é bonita, claro, mas casar com uma
pessoa pela sua aparência é um mau investimento. Portanto, tem de ser
outra coisa… Mas o quê, então?
Suspirei. Entrelacei as mãos em cima da mesa.
– As suas origens são humildes – continuou ela. – Tem poucos estudos,
não tem uma réstia de ambição nem de fibra. Seja por que perspetiva for
que se observe esse relacionamento, a conclusão é a mesma: ela não está à
tua altura, nem de longe.
Sabia que Margot estava enganada; Grace era muito mais do que aquilo.
Mas pôr-me ali a enaltecer as virtudes dela não me levaria a lado nenhum.
– Nem sempre é possível racionalizar estas coisas – argumentei. – O amor
não é racional.
Quando olhei para Margot ela exibia um ar de profundo desapontamento,
que não era a primeira vez que via. Era um misto de aversão,
descontentamento e pena, e não pude evitar desviar o olhar. Senti vergonha,
a verdade era essa.
– Amor – disse Margot. – Estás a deitar fora o que podíamos ter tido por
amor?
Não lhe respondi.
– És um palerma – criticou Margot. – O amor é apenas e unicamente o
primeiro ato. Não dura para sempre. E depois? Que se segue?
Peguei no anel e guardei-o no bolso.
– Desejo-te tudo de bom, Margot – disse. – A sério que sim.
Quando já estava à porta, ela chamou-me e eu olhei para trás, por cima do
ombro.
– Tu e eu… podíamos ter construído algo juntos – alvitrou ela. – Mas tu e
a Grace só se destruirão um ao outro. Vais ver. Quando for tarde demais
para fazer o que quer que seja, irás recordar este momento e perceberás que
eu tinha razão. Todas as grandes tragédias começaram com amor.