Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 32 de 44

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Magníficos Estranhos

Trinta e um CHARLIE CALLOWAY

Trinta e um

 

CHARLIE CALLOWAY

 

2017

 

Tinham-se passado três dias desde que Drew fora expulsa. Já não aguentava

estar no quarto a olhar para o seu colchão despido, para o roupeiro vazio e

para o cabide desocupado onde ela costumava pendurar a toalha de banho.

Também evitava o refeitório, onde teria de enfrentar Stevie e o seu olhar

crítico, ou Dalton e Crosby com um ar quase tão macambúzio quanto eu me

sentia. Assim, ia às aulas e depois enfiava-me na biblioteca até serem horas

de fecho e comia cereais e o que quer que houvesse no minibar do quarto e

evitava tudo o resto.

Tinha acabado de regressar da biblioteca nesse final de dia e de destrancar

a porta do quarto. Quando acendi a luz, dei um pulo.

É que o colchão de Drew já não estava vazio. Havia alguém estendido

nele.

– Mas que raio!? – exclamei, e levei a mão ao peito. Tinha o coração a

mil à hora.

Greyson pôs a mão em forma de pala à frente dos olhos, para se proteger

da luz, e pestanejou.

– Olá para ti também – disse ele.

Entrei e fechei imediatamente a porta.

– Bolas, pregaste-me cá um susto! – reclamei, lançando a mochila para

cima da cama. – Que estás aqui a fazer?

– Vim ver de ti – respondeu Greyson. Sentou-se na cama. – Fiquei

preocupado depois daquela mensagem que me enviaste e também não tens

atendido ou devolvido as minhas chamadas.

– Não, o que eu queria dizer era: que estás a fazer aqui, no meu quarto? –

perguntei. – Tipo, como é que entraste?

– Andava pelo pátio a perguntar por ti e cruzei-me com uma rapariga…

Hayley? Harmony?

– Harper? – perguntei.

– Sim, isso mesmo. Disse-lhe que era teu amigo e que queria fazer-te uma

surpresa, por isso, ela trouxe-me às escondidas até aqui e disse-me qual era

o teu quarto.

Hum. Estranhei semelhante simpatia por parte de Harper. Não pude

deixar de pensar que ela teria um plano malévolo qualquer, embora não me

ocorresse qual podia ser. Talvez estivesse apenas a ser paranoica.

– Depois, bastou-me arrombar a fechadura – revelou Greyson, e ao ver a

minha cara de espanto acrescentou: – Até parece que é difícil, não?

– Okay, MacGyver – respondi.

– Se achares melhor que me vá embora, eu vou – ofereceu-se Greyson.

– Eu não disse isso – repliquei. Porque era agradável tê-lo ali e, na

verdade, não queria que ele se fosse embora. – Desculpa não ter devolvido

os teus telefonemas. Tenho andando… Um bocado melancólica. Não me

tem apetecido falar com ninguém.

– Eu compreendo – disse Greyson.

– Tens fome? – indaguei.

– Sou um rapaz – fez notar Greyson. – Temos sempre fome.

Dirigi-me ao minibar e tirei bagels, um frasco de molho para piza e uma

embalagem de mozarela.

– Esta noite, banqueteamo-nos – disse.

*

 

Greyson e eu estávamos sentados no chão do quarto, rodeados pelos

despojos do nosso jantar improvisado: pratos sujos de molho de piza, um

saco de pretzels meio vazio, quatro latas de refrigerante e uma embalagem

vazia de gelado de chocolate.

– Como é que estão a Claire e os rapazes? – perguntei. Encostei-me à

cama. Estava tão cheia que só me apetecia desapertar o botão das calças.

– Estão… Bem – respondeu Greyson.

– Porque hesitaste? – quis saber.

– Eu não hesitei – afirmou ele.

– Claro que hesitaste, Greyson. Vá lá, podes abrir-te comigo. Acabei de te

obrigar a ouvir tudo o que vai mal na minha vida. O mínimo que podes

fazer é retribuir o favor.

Greyson suspirou.

– É que… pronto, está bem. Nunca falei disto com mais ninguém –

contou ele. – A minha mãe tem estado doente.

– Mas quê, com gripe? – inquiri.

– Não. Doente a sério. Cancro. Foi diagnosticado aqui há uns anos. E já

está em remissão, mas tem sido muito duro para ela e para os meus irmãos.

– Foi por isso que voltaste para casa? – indaguei. – Para ajudar?

– Sim – admitiu ele.

– Agora fiquei a sentir-me uma besta – confessei. Arrependi-me de

imediato dos comentários que fizera acerca de Greyson ser um menino da

mamã e de viver às custas de Claire.

Greyson riu-se.

– Deixa-te disso.

Fez então sentido o estranho comentário que Claire fizera quando

estávamos na cozinha dela, de que fazia bem a Greyson sair de casa e

divertir-se.

Ouviram-se três pancadas na minha porta.

– Merda! – exclamei. – Deve ser a Sra. Stanfeld. Está quase na hora do

recolher obrigatório. – Levantei-me, peguei no saco desportivo de Greyson

e entreguei-lho.

– Esconde-te no roupeiro da Drew… Depressa – pedi.

Ele correu para lá e eu abri a porta.

Só que não era a Sra. Stanfeld. Era Dalton.

– Olá, Charlie – cumprimentou ele.

– Ah, olá – respondi. – Que fazes aqui?

– Vim só ver se estava tudo bem contigo – explicou Dalton, mas havia

qualquer coisa nele que me causou estranheza: a maneira como enterrou as

mãos nas algibeiras, como endireitou os ombros. Parecia tenso. – Não foste

jantar.

– Pois não – repliquei. – Não me tem apetecido estar rodeada de muita

gente.

Enquanto eu falava, Dalton desviou o olhar do meu rosto e observou os

pratos e a comida espalhada pelo chão. Percebi então que viu outra coisa. Rodei a cabeça e vi Greyson no meio do quarto.

– Então, sempre é verdade – concluiu Dalton. O seu tom era frio e duro, e

olhou Greyson de cima a baixo.

– O quê? – perguntei.

– A Harper mencionou que se cruzara com um tipo que andava à tua

procura e que queria saber onde era o teu quarto.

Ah, pois claro.

– Este é o meu amigo Greyson – afirmei, dando um passo atrás e abrindo

mais a porta. – De Hillsborough. É um velho amigo da família.

Sim, era muito boa ideia, dar-lhe uma mocada na cabeça com a palavra

«amigo».

Greyson cumprimentou Dalton com um aceno de cabeça, mas também ele

me pareceu diferente; mais alto, mais valentão.

– Olá – disse Greyson.

– Bom, nesse caso, não incomodo mais a vossa festa – disse Dalton. – Ou

seja lá o que for que estavam a fazer.

– Dalton – intervim, porque não queria que ele ficasse a pensar o que

estava obviamente a pensar. – Não é nada disso. Estávamos apenas…

– Sem problema – interrompeu-me Dalton. – Está tudo bem.

Deu meia volta e começou a descer o corredor, e eu estive prestes a segui-

lo para explicar a situação, mas vi a Sra. Stanfeld duas portas mais à frente,

a fazer as rondas, por isso, deixei-o seguir.

*

 

Na tarde seguinte, depois do almoço, fui esperar Dalton ao vestíbulo do

refeitório. Queria falar com ele de Greyson e do que se passara na noite

anterior. Percebera que ele tinha ficado com a ideia errada acerca da

presença dele. Era óbvio que havia achado que Greyson era mais do que um

amigo. Tinha de desfazer esse mal-entendido.

– Charlie.

Ouvi alguém a chamar-me e virei-me. Era Stevie, de mochila ao ombro e

um braçado de livros na mão.

– Não te tenho visto estes dias – fez ela notar, à cautela. O seu tom era

menos gélido do que da última vez que faláramos.

– Pois – respondi. – Tenho andado ocupada. – Ocupada a evitar toda a

gente.

Stevie encolheu os ombros.

– Ia agora comer qualquer coisa. A Yael já lá está dentro. Junta-te a nós.

Era uma oferenda de paz, que achei simpática. Drew havia sido o grude

que mantinha o nosso grupo unido, mas lá porque já não estava ali

connosco, não queria dizer que devia deixar morrer o meu relacionamento

com Stevie e Yael, pois não?

– Obrigada – respondi. – Já comi, mas fica para outra vez, pode ser?

– Com certeza – disse Stevie. – Ei, se não tiveres nada para fazer esta

noite, passa por aqui depois do jantar. A Associação de Estudantes está a

preparar a Gala de Beneficência dos Administradores e dava-nos jeito mais

um par de mãos.

– A Gala dos Administradores? – indaguei. – Mas isso não é só em

dezembro?

Todos os anos, no final do semestre de outono, Knollwood organizava a

Gala de Beneficência dos Administradores. Era um jantar de gala em que

cada lugar custava quinhentos dólares e que servia para reunir fundos para

as bolsas de estudo do ano seguinte. O meu pai comprava sempre bilhetes

para mim e para as minhas amigas e, no ano anterior, dera-nos um milhar de

dólares para licitarmos coisas no leilão silencioso. Drew e eu tínhamos

juntado os nossos fundos e comprado uma máquina de café expresso para o

nosso quarto. Stevie conseguira uma lição privada com o primeiro-violino

da Filarmónica de Nova Iorque; Yael ficara com um par de brincos Tiffany.

– É, mas há muita coisa para fazer até lá – explicou Stevie. – Dava-me

muito jeito a tua ajuda.

Nesse momento, a porta do refeitório abriu-se e vi Dalton sair com alguns

dos seus amigos.

– Okay, talvez – respondi rapidamente a Stevie, embora a organização de

eventos escolares não fosse mesmo nada a minha onda. – Tenho de ir

andando, mas depois falamos, pode ser?

Não esperei por uma resposta. Desatei a correr atrás de Dalton.

– Dalton, espera um pouco – chamei. Por um momento, fiquei com a

sensação de que ele não ia parar, mas depois estacou. Relutantemente,

virou-se e percebi pela sua atitude corporal que já estava impaciente e

chateado comigo.

– Sim? – indagou ele. O seu olhar era indiferente.

– Podemos falar? – perguntei. – Não te roubo muito tempo.

Reparei que os amigos dele me olhavam fixamente. Marcus Lansbury,

Zachery Fitzpatrick e Leo.

– Ui, problemas no paraíso – cantarolou Zachery.

– Vá lá, malta, vamos dar-lhes algum espaço – sugeriu Leo, que puxava

pelo braço de Zachery.

– Não é preciso. Tudo bem – disse Dalton. – Podem ficar.

Suspirei. Tínhamos mesmo de fazer aquilo em frente a uma assistência?

– Que se passa, Calloway? – indagou Dalton. A sua voz era fria e

impassível.

– Queria explicar… – comecei.

– Explicar o quê?

– O Greyson – disse. Olhei para Leo e para os seus amigos, ali especados,

e desviei o olhar. Faz de conta que não estão ali, ordenei a mim mesma.

– Quem? – inquiriu Dalton.

Fiz um esforço hercúleo para não arquear as sobrancelhas ou fazer uma

careta. Não acreditava que Dalton estivesse mesmo a ter aquela atitude. Ali

estava eu, a tentar resolver a situação. Porque estava ele a dificultar-me a

tarefa?

– Importas-te só de me ouvir, por favor? – recomecei. – Não era o que

parecia… Ontem à noite. O Greyson é meu amigo de infância…

Dalton enfiou as mãos nos bolsos e riu-se.

– Olha, Calloway – disse ele. – Estou-me pouco marimbando para o que

tu fazes com os teus amigos.

– Okay – respondi, surpreendida. – Ótimo.

Dalton encolheu os ombros.

– Estou farto deste jogo – admitiu ele –, é só isso.

– Como assim? Jogo? Que queres dizer com isso?

– Nada, okay? – replicou Dalton, de imediato, como se estivesse

arrependido do que dissera. – Não é nada.

Olhei para Leo. Vi o pânico no seu olhar ao mesmo tempo que percebia

que se fizera luz na minha cabeça. Dalton estivera a jogar. Todo aquele

tempo em que eu pensara que ele gostava de mim, ele estivera

simplesmente a jogar um jogo ridículo.

– Puseste-me na merda do teu jogo? – perguntei a Leo.

A mim. Leo incluíra-me a mim na porcaria do seu Jogo das Conquistas.

Incluíra-me sabendo que eu me tornaria no alvo das aldrabices de um dos seus amigos.

De súbito, recordei-me daquela noite no meu quarto, em que Leo me

pedira para que jamais me envolvesse com Dalton. Na altura, encarara isso

como uma preocupação genuína da parte dele para com o meu bem-estar.

Compreendi então o quanto estivera enganada. Leo não estava preocupado

comigo, mas, antes, com ele mesmo. Sabia que Dalton se estava a

aproximar de mim para avançar mais uma casa no tabuleiro do jogo, e Leo

não queria que ele saísse vencedor.

– Charlie… – disse Leo.

– Em que posição é que eu estava? – perguntei.

– Eu não…

– Em que posição é que eu estava? – gritei.

Havia pessoas a olhar para nós, mas isso não me ralava nem um pouco.

– Na quarta – revelou Zachery. Tinha um sorriso cruel no rosto, como se

estivesse a dizer o remate de uma piada porca. – Eras a quarta base.3

Olhei para Leo. A sua expressão indicava que dentro dele se travava uma

espécie de batalha e que ainda não decidira que lado devia ganhar.

Não disse nada. Abri as portas de vidro e fui-me embora dali.

*

 

Não regressei ao meu quarto. Meti-me no carro e dirigi-me ao Rebordo.

O dia chegava ao fim. Sentei-me na beira do precipício e olhei para as

águas escuras do rio, trinta metros mais abaixo. Peguei no telefone e liguei a

Drew, mas o telefone tocou e tocou e ela não atendeu. Sabia que os pais

provavelmente a tinham castigado e cortado muitos dos seus privilégios,

incluindo o telemóvel, mas estava desesperada. Precisava de falar com ela.

A chamada foi parar ao atendedor pela terceira vez consecutiva. Desliguei e

contemplei o fundo da ravina.

Não tinha sido minha intenção deixá-los aproximar-se, mas, de algum

modo, permitira que o fizessem. Dalton e Leo e Drew e Stevie e a avó

Fairchild e o tio Hank e a minha mãe, outra vez. Deixara-os aproximar-se

de mim. Cometera o erro de abrir o coração, de me preocupar, de confiar

neles, e agora, de uma maneira ou de outra, todos me tinham abandonado ou

enganado.

Por um momento, fechei os olhos e imaginei o fundo da ravina.

Interroguei-me como seria desprender-me de tudo, virar as costas a tudo e saltar.

 

3 Nas fases de um relacionamento, a quarta base é a última e corresponde à relação sexual. (N. da T.)